Notas iniciais
Eu simplesmente comecei a escrever e isso aconteceu. Não há um começo, meio e fim; só um resultado de uma tarde entediada, sinto muito.

Nymphadora Tonks não estava em um de seus melhores dias. Tivera um dia terrível no trabalho, passara todo seu turno reescrevendo relatos antigos que foram destruídos pela recente infestação de traças carnívoras no arquivo de Scrimgeour e não pode sequer usar magia, uma vez que todos os documentos da Seção de Aurores são protegidos com feitiço anticópia. Quando achara que, finalmente, poderia ir para casa e dormir por um longo e necessário período de tempo, uma vez que não tinha nenhum compromisso com a Ordem naquela noite, recebeu um comunicado de Kingsley, que viera lacrado até sua mesa, disfarçado em uma edição do Semanário das Bruxas. Tonks respirara resignada, pegando o comunicado e colocando dentro de suas vestes enquanto caminhava para a saída do escritório. O dever a chamava para Largo Grimmauld, número 12, em uma reunião extraordinária marcada por Alastor Moody.

E, após uma caminhada rápida, uma aparatação, mais uma caminhada e uma leve queda próximo a perna de troll, lá estava ela, sentada na longa mesa da cozinha, rodeada pelos membros da sociedade secreta e ouvindo Moody discursando incansavelmente sobre vigilância constante e como ele se sentia responsável pelo bem-estar de seus colegas durante suas missões. Tonks suspeitava que tal discurso emotivo fora causado pelo acidente com Marlenne McKinnon que a deixara no Hospital St. Mungus para Doenças e Acidentes Mágicos por duas semanas devido a uma concussão grave causada por um feitiço de Dolohov, mas havia deixado de prestar a devida atenção a Moody depois de três palavras, perdendo a concentração exatamente no momento em que Remus Lupin entrava no cômodo, pedindo desculpas pelo ligeiro atraso.

O coração de Tonks afundou ao vê-lo, estivera esperançosa quando não o viu ao chegar, esperava que não o visse tão logo, ao menos isso a pouparia de sentir mais dor ao não conseguir alcançar seus olhos. As feridas emocionais que o término com o lobisomem lhe proporcionara ainda eram recentes demais. Quis gritar ao vê-lo sentar-se entre Sirius e ela, no único lugar vago que restava na mesa, mágoa carregava seu peito. Tonks observou-o de seu lugar, à centímetros dele, estavam tão perto, mas ainda tão distantes. Seus dedos formigavam com a vontade de tocar a pele do homem, seu cérebro não conseguia deixar de pensar nas possíveis novas cicatrizes que poderiam estar sob sua camisa, uma vez que a lua cheia acabara de passar, há dois dias.

A mulher suspirou, tentando voltar seu foco a Alastor, que finalmente parecia alcançar uma conclusão:

– E é por isso que os convoquei aqui hoje, faremos um treino de duelo – concluiu ele, triunfante.

– Isso é ridículo, Olho Tonto! – exclamou Sirius, antes mesmo que Tonks pudesse encontrar palavras para dizer o mesmo. – Nós por acaso temos cara de estudantes de Hogwarts agora?

As pessoas ao redor da mesa concordaram em uníssono.

– Mas a perfeição requer prática, não podemos nos deixar correr o risco de ter baixas – foi a vez de Remus dizer, olhando ao redor como se estivesse contando a sextanistas de Hogwarts um segredo inestimável.

— Isso é besteira – bufou Marlenne, revirando os olhos. – Metade de nós são aurores estimados, a outra metade professores excepcionais, não entendo porque precisaríamos brincar de escola por aqui.

— Isso não impediu que você fosse atacada há algumas semanas, McKinnon – disse Moody, o olho de vidro rodeando o perímetro, o outro focando no rosto, agora escarlate, de McKinnon. – E eu também não me lembro de ter aberto isso para discussão. Vamos, todos de pé. Molly nos fez o favor de retirar os móveis da sala de estar, faremos isso lá. Vigilância constante!

Foi a vez de Tonks revirar os olhos. Não conseguia acreditar que fora tirada de sua merecida noite de descanso para duelar com alguém da Ordem apenas porque o orgulho de Olho Tonto estava ferido. Levantou-se em um suspiro, mas voltou à cadeira antes que pudesse dar um passo, esbarrara em alguém, Lupin.

— Tudo bem? – perguntou ele, que havia se levantado no mesmo instante que a auror. – Desculpe, não estava prestando atenção.

Tonks balançou a cabeça sem encará-lo, levantando novamente e contornando-o sem lhe responder e passando por Sirius que assistia à situação com um olhar de pena destinado a ela. A mulher bufou, não gostava de olhares de pena, queria acabar com aquela noite logo, tomar uma longa ducha e dormir para esquecer o cansaço e seu coração partido.

Ainda não conseguia entender o que gerara o término. Afinal, eles estavam bem, felizes, conhecendo um ao outro e se apaixonando cada dia mais. Ou melhor, “você se apaixonava cada dia mais” pensou ela no tom autodepreciativo de quem se sentia humilhada e deixada de lado. A crença de que Remus não a amava ou ao menos não a amava tanto quanto ela o amava trazia uma sensação de enjoo ao seu estomago. Não conseguia acreditar nem por um minuto que ele realmente se achava velho, pobre ou perigoso demais para ela, não era nem remotamente possível que ele não conseguia enxergar-se como ela o enxergava: um homem bom, gentil e sábio.

A auror suspirou mais uma vez quando alcançou o restante das pessoas, que formavam um círculo ao redor do cômodo largo e sombrio que era a sala de estar dos Black, aproximou-se de Kingsley que se apoiava no batente de uma das altas janelas, querendo afastar-se de Remus e Sirius que a seguiram em silêncio após o breve incidente na cozinha.

— Vocês trabalharão em pares – contou Moody. – Quando eu dar o sinal, ambos lançam um feitiço, vocês já fizeram isso antes.

— Sim, em Hogwarts – sussurrou Hestia Jones, que estava do outro lado de Tonks. – Ridículo, não? Preferia estar em casa.

— Demais. Estou tão cansada que se alguém me estuporasse eu provavelmente agradeceria – murmurou Tonks de volta, fazendo Kingsley e Jones lhes oferecerem sorrisos amarelos.

— Vamos aos pares: Marlenne e Kingsley, Arthur e Sirius, Hestia e Molly, Charlie e Bill... – Olho Tonto dizia, fazendo anotações em um pergaminho amassado que retirara das vestes. – Nymphadora e Remus. Mundungus, isso deixa você comigo.

Tonks não sabia quem parecia mais infeliz com o emparelhamento escolhido por Moody, ela mesma ou o coitado de Fletcher, que xingava baixinho enquanto se dirigia ao ex-auror que comandava a reunião. A mulher se dirigiu ao meio da sala, onde Remus se encontrava e se manteve há alguns passos de distância, sacou a varinha das vestes de auror e colocou-se em posição de ataque, fechando o rosto quando percebeu que Remus, ao invés de seguir seus passos apenas a encarava com os olhos cheios de mágoa.

— A gente não vai conseguir fazer isso se você não sacar sua varinha – disse ela, deixando o rancor manchar sua voz.

— Preparados? – indagou Moody, olhando ao redor. – Já.

A luz de inúmeros feitiços de ataque e o som de vários escudos sendo conjurados encheu a sala. Com sua visão periférica, Nymphadora notou Eliphas jogado no chão, rindo desesperadamente, atingido por um Rictusempra. Suspirou.

— Remus e Nymphadora! – berrou Moody. – Não estou vendo nenhum duelo. Algo errado com suas varinhas?

— Vai haver algo se me chamar assim mais uma vez – berrou Tonks de volta, os cabelos passando do rosa opaco que carregava ultimamente para vermelho vivo e de volta para o rosa sem vida em questão de segundos. – Saque sua varinha, Remus! – disse novamente, o rosto contorcido em aflição.

— Novamente, – disse Moody, sobre o som das gargalhadas de Eliphas, que se recuperava aos poucos – um, dois, três!

Remus não mexe um músculo, os olhos ainda grudados em Tonks.

— Você só pode estar brincando comigo, porra! – berrou Tonks.

— Algum problema? – é a vez de Sirius perguntar, enquanto ajudava Arthur a se levantar.

— Volte para sua posição Black! – disse Moody, dirigindo-se para Remus e Tonks em seguida. – Se vocês dois não começarem a lutar, eu vou manter ambos aqui a noite toda.

Tonks bufou novamente, a raiva borbulhando em seu cérebro:

— Eu vou fazer mais que apenas azarar você se não começar a fazer isso direito!

— Um, dois, três!

— Expelliarmus – finalmente dissera Lupin que sacara sua varinha a pouco, percebendo que teria que fazer algo ou Moody cumpriria sua promessa.

Tonks desvia o feitiço com um breve aceno de varinha, o cabelo novamente vermelho, dessa vez em um tom vivo.

— Eu sou uma auror formada, Remus, você pode fazer melhor que isso, lance um feitiço de verdade – disse, desprezo em seu tom. – Eu não vou quebrar.

— Eu não quero de machucar – retrucou Remus, o rosto sério.

— Como poderia? – retruca a mulher com sarcasmo. – Você mal está tentando.

– Três!

– Estupefaça – grita Tonks e Remus defende-se imediatamente, conjurando um escudo.

– Três!

– Levicorpus! – grita Remus, que erra o alvo por alguns centímetros e faz com que Hestia fosse presa pelos calcanhares do outro lado da sala.

– Você errou de propósito – fala Tonks, que agora tinha os olhos em um negro aterrorizante, Remus não pode evitar pensar que assim ela se assemelhava à Sirius.

– Três!

— Rictusempra – Tonks diz, sendo evitada por um escudo conjurado sem o auxílio de palavras. – Ventus Tria – volta a gritar Tonks assim que Remus abaixa o escudo, sem nem esperar que Moody dê o sinal mais uma vez e o ex-professor o desvia com um aceno complicado, porém rápido, da varinha.

Ela sente o olhar das pessoas ao redor queimarem às suas costas, quando seus colegas saem de posição para observar a pequena cena que Remus e ela propiciavam.

– Você realmente quer fazer isso? – indaga o lombisomem e Tonks pode ver lágrimas em seus olhos.

– Ora, como é lisonjeira a sensação de ser questionada a respeito de algo, não? – diz ela, com ainda mais irônia. – Petrificus Totalus!

Remus novamente defende-se, suspirando impacientemente. Tonks sorri, finalmente percebendo outra reação dele perante ela, que não condescendência.

– Eu acredito que isso já seja suficiente por hoje, não? Alastor? – pergunta Molly Weasley, um tanto exasperada.

– Sim, sim – concorda Moody, saindo de um estupor afável. – Nos vemos semana que vem na próxima reunião, obrigada pela presença de todos.

Tonks finge não ouvir, assim como os demais, que não se atrevem a mexer um músculo, nem mesmo Sirius consegue tirar os olhos do par, que se encarava vorazmente em posição de ataque.

– Ventus Tria! – grita Tonks, um redemoinho de ar forte saindo de sua varinha para atingir Remus como uma brisa de verão, depois de ele defender-se com um contra-feitiço. – Flipendo Duo!

Remus é lento, contudo, e voa para o fim do quarto, batendo na parede com um estrondo e deslizando por ela até o chão. O restante da Ordem a encara como se houvesse três cabeças em seu pescoço. Tonks já se punha pronta para defender-se de qualquer feitiço que Remus tentasse lhe lançar, mas é impedida de enxergar quando seus olhos começam a transbordar lágrimas depois de vê-lo encará-la com os olhos carregados com nada mais que afeto e remorso.

Olho Tonto lança um escudo entre ambos, antes mesmo que Remus pudesse levantar e Tonks sente-se ser carregada para longe, mas não sabe dizer se por Sirius, Kingsley ou Charlie, uma vez que todos investem para seu lado, tentando alcança-la primeiro.

— Você não devia ter feito isso – suspira seu protetor, que Tonks reconhece após poucos segundos como Charlie, que agora a acompanha escada acima até o banheiro mais próximo.

Tonks solta uma exclamação aflita, o rosto manchado pelas lágrimas que continuavam a descer. Ela abre a porta do banheiro ao alcança-lo, deixando Charlie entrar depois. Ele se senta no vaso sanitário, um sorriso travesso manchando seus lábios enquanto a bruxa encarava seu reflexo no espelho.

— Eu nunca a vi perder o controle de seus poderes assim – conta ele. – Nem em nosso primeiro ano em Hogwarts.

A auror faz sua cara de concentração cotidiana, metamorfoseando seu cabelo em rosa novamente, sem conseguir manter o tom vivo nele, mais lágrimas escapam seus olhos quando ela os deixa no natural tom de castanho.

— Não pode lançar azarações e maldições em todos os homens por quem se apaixona, Nymphadora – diz Charlie, sorrindo orgulhoso para si mesmo quando a moça ri com suas palavras. Charlie sempre conseguira fazê-la rir em Hogwarts e nas últimas semanas também. Desde que ele viera visitar os pais, em férias, haviam reatado a amizade de anos.

— Eu não era apaixonada por você, seu arrogante – conta ela, sentando-se no chão e apoiando sua cabeça na parede atrás de si. – Você, por outro lado...

Charlie sorri, balançando a cabeça, o cabelo ruivo mexendo vividamente. Ele abaixa-se para sentar-se ao lado de Tonks, que encosta sua cabeça em seu ombro.

— Eu sei que nós não somos melhores amigos há um longo tempo – começa ele – e eu provavelmente não deveria me intrometer na sua vida, mas eu posso te dar um conselho?

— Quem disse que nós fomos melhores amigos? – Tonks brinca e revira os olhos, o semblante sereno, uma grande distinção do que carregava a pouco. – Claro que pode, Charlie.

— Talvez seja hora de esperar, espere semana por semana, dia por dia, se for difícil demais, espere minuto por minuto – comenta ele. – Eu não conheço ele bem, é claro. Mas pelo que ouvi as pessoas por aqui falando, até mesmo você falando... Ele é uma pessoa boa, vai cair na real.

Tonks assente.

— E, cara, para não ter lutado com você da mesma forma que você lutou com ele, chutando o traseiro dele, quero dizer – Charlie ri e Tonks o acompanha – ele, com certeza, te ama. Homens são assim, eles têm a mania de correr de seus sentimentos, principalmente quando são direcionados a mulheres fortes e bem resolvidas como você. Eu, por exemplo, fugi pra Romênia, han?

— Esse é um péssimo momento para voltar da puta que pariu onde você estava escondido e dizer que me amava, você sabe, não é? – a auror diz, levantando a cabeça e encarando o Weasley ao seu lado.

— Eu nunca vou admitir que eu me declarei para Nymphadora Tonks em voz alta enquanto ela chorava por um lobisomem no banheiro de uma casa imunda, você sabe, não é?

— Você continua um tremendo idiota. E se me chamar de Nymphadora de novo, eu vou chutar seu traseiro também – disse ela, levantando-se e estendendo a mão para o homem. – Eu deveria ir para casa.

— Ok – diz Charlie, puxando-a para um abraço apertado. – Sabe que pode me chamar para qualquer coisa, não é?

— Eu sei – contou ela, abrindo a porta e saindo para o corredor da sede, Charlie em seus calcanhares.

Eles seguiram rumo a escada em silêncio e desceram ouvindo as vozes vindas da cozinha, o cheiro da comida de Molly Weasley enchia a boca de Tonks de água, mas ela estava certa de que não aguentaria comer ali, com todos aqueles olhares sobre ela e com Remus do outro lado da mesa, provavelmente. Despediu-se de Charlie próximo a porta com um abraço e um agradecimento, abrindo um sorriso largo para ele, que abriu a porta para que ela passasse e fechou-a com um baque depois de lhe oferecer um último aceno de despedida.

— Eu não sabia que você e Charlie eram tão próximos – diz uma voz atrás dela, que Tonks soube imediatamente que pertencia a Remus. Ele estava sentado na escada de mármore, um cigarro aceso nos dedos e uma expressão de pesar no rosto.

Tonks suspirou pelo que parecia ser a milésima vez na noite, sentando-se ao seu lado.

— Há muitas coisas que você não sabe, por mais surpreendente que isso possa soar – contou ela. Recebendo apenas um aceno de cabeça como resposta. Ela estende a mão, pegando o cigarro que ele carregava e puxando um trago. – Eu sinto muito por toda a cena na sala de estar.

— Eu também – afirma ele. – Achei que você e Charlie tivessem ido embora.

— Eu achei que seria melhor me acalmar antes de aparatar de volta para casa.

— Eu te amo, você sabe – fala ele, um sorriso autodepreciativo nos lábios.

— Eu sei – conta ela, devolvendo o cigarro para ele e levantando-se novamente, pronta para ir de uma vez para casa. Ela desce os degraus e para no último, virando-se repentinamente. – Sabe, eu estou cansada disso.

Remus ergue uma sobrancelha.

— Em um dia você está apaixonado e nós estamos fazendo planos – conta ela, a voz surpreendentemente calma, a moça só levanta um dedo para impedi-lo de interrompe-la. – No outro você é perigoso demais, pobre demais ou qualquer merda que você fica repetindo como um mantra. Dias depois de eu dizer que não me importo com nada disso, você aparece na minha porta dizendo que não me ama e que sente muito por ter me iludido. E agora está com ciúmes de Charlie Weasley e fazendo declarações. Eu não sou seu brinquedo, Remus.

Remus permanece em silêncio.

— Me procure quando souber o que quer de verdade. Eu estarei esperando.

Notas finais
Espero que não tenha sido tão ruim ;)
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!