Minhas Últimas Palavras
1 Minhas Últimas Palavras
Não consigo dizer ao certo quando tudo isso começou, também não sei explicar o que está acontecendo comigo, apenas sei que não sou mais a mesma.
De uns meses para cá andei adoecendo; um dia acordei de manhã para ir à escola, mas meu corpo doía tanto que eu mal conseguia andar. No espelho, eu via meu rosto mais pálido do que de costume, destacado entre as mechas vermelhas do meu cabelo.
Dias e dias sem ir à aula. Cada vez pior, meu corpo estava frio e trêmulo e meus lábios não tinham mais cor – eu não tinha mais cor alguma na pele. Tudo o que eu ingeria voltava em forma de vômito, fosse água ou remédio. Eu estava magra, fraca e vulnerável, mas não sentia fome. E o pior era que médico nenhum conseguia resolver o meu problema.
Eu não saia mais do quarto, eu não tomava mais sol, eu não podia fazer mais esforço algum; qualquer coisa me fazia desmaiar ou passar mal. Eu sentia raiva de tudo e todos.
Mas foi numa noite dessas, em frente ao espelho, que eu olhava a figura cadavérica que eu havia me tornado. As lágrimas que escorriam de meus olhos eram frias, eu inteira era fria. Com raiva, eu soquei o espelho com a pouca força que me restava, mas foi o suficiente para quebrá-lo e fazer minhas mãos sangrarem.
Caída no chão, o sangue pingava naquele meu horrível vestido branco, e no espelho, uma enorme rachadura distorcia a minha imagem morta. Apenas o vermelho dos meus cabelos era visível naquele borrão refletido.
Mas eu levei o sangue aos lábios, não sei porque, e aquilo fez meus órgãos despertarem; conforme aquele líquido quente descia pela garganta, tudo parecia ganhar vida de novo. No espelho eu me via ainda pálida, mas em meus lábios vermelhos, um sorriso cínico se formava — um sorriso estranho que não era meu.
Na manhã seguinte, por mais cansada que eu estava, eu fui à escola, mas minha mente não era mais a mesma. Tudo parecia prosperar para mim, e uma autoconfiança absurda havia se apoderado de meu ser. Eu olhava para os meus colegas como se escolhesse o melhor, o ideal. Observando seus movimentos, a pulsação de seus corpos, o som frenético de seus corações. Enfim, eu havia encontrado um.
No intervalo eu o segui, o encurralei, e em meus olhos ele não desviava; era como se estivesse sob o efeito de alguma hipnose – e talvez estivesse mesmo. Eu mordi seu pescoço, e meus dentes tiveram uma incrível capacidade de perfurá-lo — foi nessa que percebi que meus caninos estavam mais pontudos do que o normal.
O sangue parecia ser vital para mim, por mais que a quantidade fosse pequena. Depois que o garoto saía daquela hipnose, ele não se lembrava de nada. Assim, no dia seguinte e no outro e no outro, eu fiz a mesma coisa com ele. Idiota.
Mas as coisas começaram a ficar ruins. As pessoas, a meu ver eram imensamente tolas, e eu não sentia mais prazer em conversar com meus amigos, ou qualquer um que fosse. Eu passei a me isolar novamente, e o ódio de estar sozinha me contaminou. Nenhum amigo meu me procurou mais.
Sozinha em meu quarto, eu ouvia vozes dentro de minha mente, e às vezes tinha alucinações. Eu sabia que estava ficando louca, mas não sabia o que fazer.
Não consigo dizer ao certo quando tudo isso começou, também não sei explicar o que está acontecendo comigo, apenas sei que não sou mais a mesma. Pois essa maldição já me corroeu por dentro, e eu não tenho mais opções.
Com uma faca ao meu lado, eu escrevo minhas últimas palavras. Sei a muito estarei morta quando lerem isso, mas espero que não tenha sido tarde para me desculpar, por ter feito tudo e nada ao mesmo tempo. Nenhum amigo estava ao meu lado quando precisei, todos perdidos em seus próprios problemas fúteis... Sim, eu falo de vocês.
Espero pelo menos, que cheguem aqui antes dos vermes que irão me devorar.
Mas não se preocupem, meus amigos, eu não quero palavras falsas em minha lápide, nem percam seu precioso tempo.
Adeus,
Victorye Vallerius
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