Minhas Melhores Lembranças
1 Memória perfeita
Notas iniciais
Muitas pessoas gostariam de ter algum poder especial igual aqueles heróis da televisão, bom pelo menos uma boa parte das pessoas que conheci durante minha infância.
Eu era uma dessas pessoas... Mas hoje estou arrependida por ter desejado isso.
Ao contrário de muitas pessoas que esquecem as coisas com facilidade, eu me lembro de tudo com perfeição, não importa o tempo que passe eu sempre vou lembrar. Isso é o que chamam de “memória fotográfica” e apesar de ser algo extremamente raro, não é considerado uma doença pela medicina, então não há tratamento para essa maldição...
Sim, para mim isso é uma maldição porque “machuco” todos ao meu redor, mesmo contra minha vontade... eu apenas queria não ser assim. Não queria ser infeliz, mas se minha felicidade traz a infelicidade dos outros... eu viverei infeliz até meu ultimo suspiro.
Era uma garota morena de cabelos medianos, que passavam um pouco dos seus ombros, lisos, porém bagunçados e olhos verdes usando um grande par de óculos. Vestia uma camisola branca enquanto fechava um diário sobre uma escrivaninha, mas logo guardava o caderno em uma gaveta e trancava com um cadeado, soltando um longo bocejo em seguida. Ela olhou para o relógio digital ao lado de sua cama e retirou os óculos, coçando um pouco os olhos.
– Parece que acordei mais cedo do que esperava, mas pelo menos posso ir à escola tranquilamente. – A garota caminhou até o banheiro e fechou a porta, podia se escutar apenas o barulho do chuveiro sendo ligado.
Alguns minutos depois a garota saiu, já usando um uniforme escolar que se resumia em uma camisa social vermelha, gravata branca, saia curta preta e tênis brancos. Ela caminhou até o espelho de seu guarda-roupa, usou o secador para secar o cabelo, uma escova para pentear e colocou seu par de óculos, logo se retirando da sua residência. Enquanto caminhava, algumas alunas acenavam e ela correspondia o mesmo gesto com um sorriso, mas esse pequeno sorriso sumia em instantes.
Não demorou para garota chegar a sua escola e entrar em sua sala, que naquele momento estava quase vazia, por ser um pouco cedo para as aulas começarem. Ela apenas sentou e colocou seus fones de ouvido para apreciar alguma música, enquanto o período de aula não começava.
– Bom dia Aoi, você chegou cedo. – Disse uma aluna de cabelos escuros.
– Bom dia, pois é. – Esboçou um sorriso forçado.
– Er... – A garota ficou um pouco sem jeito com a atitude da colega e foi se enturmar com um grupo de garotas em outro canto da sala.
– Droga, tenho o pressentimento que esqueci alguma coisa e... Bom dia, galera! – Dizia uma garota de cabelos castanhos cacheados e olhos no mesmo tom de seus cabelos, somente um pouco mais claros. – Preparados para mais um saco de aula?
– Marie! – Gritaram algumas garotas.
– Você sempre aparece de bom humor, hein. – Disse uma garota loira.
– Exatamente, alguém tem que levantar o astral dessa turma. – Marie esboçou um pequeno sorriso, mas logo seu olhar desviou para garota de óculos com fones de ouvido, que mal prestou atenção nela. – Ei vo...
– Muito bem, todos em seus lugares que farei a chamada. – Disse um velho entrando na sala, interrompendo o possível protesto de Marie contra a aluna que a ignorava. – Aoi Sasaki.
– Presente. – Aoi retirava os fones após responder, focando-se apenas no professor à frente, mas logo espirrou e coçou o nariz um pouco avermelhado.
– Marie Anne Clairet. – Prosseguiu o professor com sua chamada.
– Faltei. – Tampou um pequeno riso com uma das mãos, enquanto outras garotas riam baixo.
– Muito engraçado, senhorita Clairet. – Disse o velho, olhando para aluna e prosseguiu com sua chamada.
A aula ocorria tranquilamente após o término da chamada, mas foi interrompida por uma crise de espirros de Aoi, que continuava com o nariz vermelho.
– Senhorita Aoi, você não me parece muito bem, pegue suas coisas e vá para enfermaria. – Disse o professor, interrompendo sua leitura.
– Tudo bem. – A garota espirrava, enquanto arrumava seu material e retirava-se da sala rapidamente.
Marie acompanhou a garota com os olhos sem dizer nenhuma palavra, mas logo voltou sua atenção para o professor, que voltava a lecionar. Naquele dia as horas passaram como segundos e no fim da última aula a garota de cabelos castanhos aproximou-se da professora e disse:
– Professora, poderia me passar o endereço da Aoi Sasaki? Quero entregar a matéria que ela perdeu hoje. – Esboçou um pequeno sorriso.
– Que garota boa você é. – A mulher pegou um pedaço de papel e usando uma caneta escreveu o endereço, entregando-o para jovem. – Aqui está, mande melhoras para Aoi, pois ela é uma ótima aluna.
– Eu deixo recado, bye! – Marie retirou-se rapidamente da sala e correu em direção à saída da escola.
A garota caminhou por algumas horas olhando cada portão que passava para ver se encontrava o número da colega de classe. Marie carregava uma sacola com alguns alimentos e remédios.
– Eu to mais perdida que cego em tiroteio, mas em que fim de mundo essa garota mora? – Olhava para o papel e para as casas até finalmente esboçar um sorriso vitorioso. – Ahá! Achei. – Passou pelo pequeno portão da casa e bateu três vezes na porta de madeira.
– Pois não? – Aoi abria a porta, usando apenas sua camisola. O nariz vermelho, escorrendo, os olhos inchados e rosto ruborizado.
– Caramba, você ta acabada. – Marie piscou os olhos algumas vezes, olhando para garota.
– Se veio apenas para falar algo que eu já sei, tchau! – Aoi estava para fechar a porta, mas foi interrompida por uma das mãos de Marie.
– Calma, foi brincadeira, poxa... Trouxe a matéria que perdeu hoje. – Disse Marie, fazendo um pequeno bico enquanto entregava três cadernos.
– Obrigada. – Aoi pegou os cadernos e quando foi fechar a porta Marie interrompeu novamente.
– Calma ae garota, eu trouxe alguns remédios e ingredientes para fazer uma sopa, então poderia me convidar para entrar? – Disse Marie, balançando a sacola.
– Não gosto de visitas e você não é minha amiga para cuidar de mim. – Aoi fechou a porta e encostou-se à mesma soltando um longo suspiro, enquanto fechava os olhos.
– Mas que garotinha mais ranzinza, só que tenho meu jeito de fazer as coisas. – Esboçou um sorrisinho malicioso.
– Que garota doida, vive chegando todo dia hiperativa na sala, achando que é amiga de todo mundo... saco. – Aoi deixou os cadernos sobre a escrivaninha e deitou-se no sofá, cobrindo-se com um cobertor marrom.
– Oiiiii. – Dizia Marie com o rosto próximo ao de Aoi.
–Aaaaah! – A garota tombou para o chão com o coração acelerado e aparência assustada. – Como entrou na minha casa, sua doida varrida? – Questionou a garota ainda caída no chão.
– Você deixou a janela aberta então... entrei. – Coçou a bochecha com o dedo indicador. – Não pode fazer isso sabia? Está gripada.
– E só por isso entrou? E não tenta mudar de assunto, não. – Aoi levantou-se e caminhou furiosa na direção de Marie.
– Para de fazer tanto drama, eu só quero cuidar de você. – Fazia um pequeno bico. – Me cha...
– Marie Anne Clairet, foi transferida para nossa escola no dia 15 de maio do ano passado, mas só foi à escola dia 18 por falta de documentos e também por ter sido feriado nos dias 16 e 17. Você tropeçou no seu primeiro dia e machucou o nariz quando caiu. – Aoi cruzou os braços enquanto batia um dos pés. – Eu sei quem você é, agora sai!
– Uau! Eu não lembrava nem de metade disso, como consegue? – Marie olhou para garota impressionada. – Faz de novo?
– Não interessa, não e agora sai da minha casa ou vou chamar a poli... – Aoi começou a sentir tonturas e quando estava para cair Marie a segurou nos braços olhando fixamente em seus olhos, um tanto preocupada. – Que tontura...
– Você está bem Aoi? – Questionou Marie colocando uma das mãos na testa da garota. – Você está com febre alta, melhor descansar.
– Não to bem, para de dizer coisas que eu já sei. Você é um saco, sai da minha casa... – Aoi fechava os olhos e desmaiava completamente.
– Essas são suas ultimas palavras, milady? É ruim até para desmaiar, credo. – Marie caminhou até o sofá deitando o corpo de Aoi tranquilamente sobre o mesmo e foi para cozinha.
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