Minhas Melhores Lembranças
2 Insegura
Notas iniciais
– Você não poderia perdoar a mamãe querida? – Dizia uma mulher de aparência distorcida, enquanto olhava para uma pequena garotinha. Para ser mais exato, uma versão de Aoi quando criança.
– A mamãe veio dirigindo enquanto falava no celular e olhou por um instante para ver quem estava à frente, viu que era eu e acelerou o carro para causar um acidente que possivelmente poderia me matar. – A garotinha, com vários ferimentos no corpo e no rosto continuava olhando para mulher friamente. – Eu não consigo tirar aquela expressão de satisfação que eu vi, aquele sorriso, você soltando o celular... Eu me lembro de tudo mesmo com a pancada que levei na cabeça, não posso perdoar isso. Por que queria me fazer esquecer, fazendo parecer acidente?
– Sua pequena aberração, vai ficar sozinha um dia se continuar assim!
Quando a mulher estava prestes a dar um tapa na criança, Aoi abria os olhos, finalmente acordando do pesadelo que estava tendo. Olhava para os lados assustada, ofegante, rosto ruborizado e finalmente pode concluir que havia conseguido escapar de mais um tormento sobre sua infância.
– Parece que estava tendo um pesadelo. – Marie estava sentada ao lado de Aoi, trocando uma toalha que estava sobre a testa da garota. – Você estava suando bastante então sequei seu corpo e tenho que dizer que foi deveras tentador. – Usava uma das mãos para esconder um pequeno riso.
– Sua sem vergonha, eu mandei você ir embora. – Olhava para garota com aquela expressão de raiva. – Agora sai da minha casa! – Dizia Aoi, apontando para porta com sua mão direita.
– Olha só que legal, você tem uma estante de livros. – Marie caminhou até a estante com ambas as mãos para trás, sorrindo. – Já leu todos? Consegue lembrar-se de todos eles como se lembrou do dia que cheguei à escola?
– Sim, eu já li todos e não é como se eu pudesse esquecê-los. – Aoi sentou no sofá abraçando as pernas enquanto olhava para os livros, mas ao ver que estava perdendo o foco de mandar a garota embora, apontou para porta. – Agora sai daqui, você já fez o bastante para uma desconhecida.
– Opa, parece que a sopa que fiz está pronta então espere um pouco. – Marie ignorou completamente os comentários feitos por Aoi e foi até a cozinha. Voltou para o sofá em que a garota estava com uma tigela branca e dentro dela continha pedaços pequenos de carne, alguns legumes e macarrão, tudo bem cozido. – Vamos lá, diga “Aaaa”. – Dizia a garota, com uma colher de sopa.
– Olha só, eu ainda posso comer sozinha e... – Aoi desviou os olhos verdes para garota e ao analisar sua expressão de decepção, deduziu que ela queria fazer aquilo ao menos uma vez. Então soltando um longo suspiro, deu de ombros e abriu a boca.
– Que legal, sempre quis fazer isso. – Colocava a colher na boca de Aoi sorrindo. – Está gostoso? Minha mãe me ensinou a cozinhar, para ser uma boa esposa futuramente. – Escondia um sorrisinho com uma das mãos, fechando os olhos brevemente.
– Hum... Até que não está nada mal, mas poderia estar melhor. – Aoi olhava para o lado levemente corada.
– Vou considerar isso um elogio, mas agora preciso ir para casa. – Marie se levantava, pegando seu casaco e sua mochila, que estava sobre uma pequena mesa ao lado do sofá, após entregar a tigela para Aoi.
– Hein? Ah ta, já estava demorando. – Pegava a tigela, voltando a comer, esboçando um pequeno sorriso de satisfação a cada colherada.
– Deve estar gostoso mesmo, hein. – Riu brevemente olhando para Aoi comendo.
– N-Não enche sua doida. – Corava um pouco sem jeito. – Agora pode ir, já fez o que tinha que fazer.
– Tem alguns medicamentos na mesa da cozinha, as receitas estão juntas então tome no horário certo, que acredito que esteja melhor amanhã. – Disse Marie com uma expressão séria, olhando e apontando para cozinha.
– Ta... – Aoi baixou a cabeça por um instante, mas ficou surpresa ao receber um beijo na cabeça após uma pequena aproximação de Marie.
– Eu não sei o que você tem, eu sei que não somos íntimas, mas ainda assim não a considero uma desconhecida e sim uma amiga. – Esboçou um pequeno sorriso. – Até amanhã, Aoi. – A garota retirou-se brevemente após aquele pequeno gesto.
Aoi ficou uma pouco pensativa enquanto olhava para sua estante de livros, mas logo sua atenção voltou-se para sopa, que voltava a comer após dizer em tom de voz entristecido:
– Isso não pode continuar... Espero que ela não se aproxime mais. – Deixou a tigela quase terminada sobre a mesa ao lado do sofá, logo adormecendo embaixo das cobertas.
Um dia depois...
Aoi estava sentada na sua carteira habitual com uma das mãos sobre o queixo, analisando a paisagem além da janela um pouco distraída, mas logo viu que a movimentação e a euforia da sala aumentaram de repente, o que só poderia significar que Marie tinha chegado.
– Com licença moça, poderia trocar de lugar comigo? Quero sentar ao lado da Aoi. – Marie esboçava um pequeno sorriso ao questionar a garota.
– Claro Marie, fique à vontade. – A garota juntou seu material e encaminhou para sua nova carteira.
– Ah meu deus, só pode ser brincadeira. – Aoi olhou para Marie com aquela expressão de tédio.
– AOI! Sua lindinha, como está? – Marie agarrava Aoi em uma abraço, deixando-a sobre seu peito por ser de baixa estatura. – Você é uma anãzinha muito ranzinza, espero que esteja melhor.
– Aaaah! Me solta sua doida varrida, eu tenho 1,53, não sou lindinha. – Aoi afastava o rosto de Marie com as mãos impedindo a tentativa dela de esfregar seu rosto no dela com aquela expressão de “coisinha mais fofa”. – Vou ficar melhor quando me soltar, para com isso que todo mundo está olhando.
– Quem se importa? – Questionou Marie sorrindo.
– Eu me importo! – Finalmente soltava-se e um tanto ofegante ajeitava os óculos. – Agora fica longe de mim, você é um saco e uma doida!
– Não vai dar, somos amigas. – Marie continuava olhando para garota, sorrindo.
– Não somos, para de ficar fazendo falsas afirmações. – Fechava os olhos brevemente soltando um pequeno suspiro.
– Estamos conversando, isso é o que amigas fazem. Hehe. – Marie apontava para Aoi fazendo uma pequena pose vitoriosa. – Ahá, ganhei!
– Não chamaria isso de conversa. Ai, mais que saco de garota. – Aoi ficava cada vez mais com raiva das atitudes de sua “amiga”.
Uma professora entrava na sala dando início as aulas. Aquele dia era para ser como qualquer outro, mas Aoi estava sendo perseguida por Marie em todo canto que passava, com a garota insistindo em ser sua amiga a qualquer custo, mas a resposta era sempre negativa. Aquela insistência durou até o fim das aulas, quando finalmente Aoi cansou-se daquilo tudo.
– Dá pra parar, droga? – Questionava Aoi, enquanto caminhava rapidamente pelos corredores da escola.
– Mas é só um bolinho em uma confeitaria aqui perto, depois eu deixo você em paz. – Marie ficava fazendo pequenos gestos com as mãos, implorando.
– Já disse que não. – Aoi continuava andando, sem dar muita atenção para garota.
– Vamos fazer assim. – Marie parava na frente de Aoi com o dedo indicador levantado. – Se alguma coisa ruim acontecer eu nunca mais chego perto de você, se esse for seu medo... – Esboçou um pequeno sorriso.
– ... – Aoi ficou em silêncio alguns instantes. – Espero que seja uma mulher de palavra, vamos.
– Mas caso não aconteça nada, vamos ser amigas. – Estendeu o dedo mindinho sorrindo. – Vamos selar nossa promessa?
– M-Mas isso é tão... – Corou levemente olhando para o lado. – Ta bem. – Juntou o dedo mindinho com o da garota.
– Isso vai ser divertido, não vai se arrepender. – Marie puxava Aoi com uma das mãos correndo em direção a saída da escola.
– Eu nunca me arrependo... – Sussurrava para ela mesma enquanto era puxada por Marie.
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