Minhas Melhores Lembranças
3 Apenas uma chance
Notas iniciais
— Aquele é o lugar que eu falei Aoi. – Dizia Marie, apontando com a mão livre para a confeitaria a sua frente, cuja qual era bem chamativa devido a grande placa iluminada com o nome do estabelecimento “Sweet Dreams”.
— Nunca vi esse lugar, com certeza me lembraria se já tivesse visto. – Respondeu Aoi, soltando um pequeno suspiro enquanto ainda era arrastada por Marie pelas ruas, até finalmente entrar na confeitaria.
— Isso é bom, porque assim nossa promessa ainda fica de pé. – Esboçou um pequeno sorriso, sentando em uma mesa perto da janela.
— Mas o que isso tem a ver? Quer saber, esquece. – Ajeitou os óculos e passou a observar o lugar.
— Posso anotar os pedidos? – Questionou uma garçonete do lugar, com um bloco de notas em mãos acompanhado de uma caneta.
— Claro. – Respondeu Marie. – Dois pedaços de bolo de chocolate, por favor.
— Um minuto senhorita. – A garçonete anotou o pedido e retirou-se brevemente.
— Espera um pouco, não era um bolinho? – Questionou Aoi olhando para Marie.
— É um “bolinho”, oras, você realmente pensou que fosse apenas um bolinho? Caramba, você leva tudo ao pé da letra. – Marie fazia um sinal de aspas com os dedos ao dizer a palavra bolinho pela primeira vez, após coçava a bochecha com o dedo indicador piscando algumas vezes.
— Mas é claro, existem bolinhos que são doces pequenos, e bolos que são doces grandes e...
— Ai ta, ta, ta, já entendi baixinha. – Marie interrompia a pequena explicação de Aoi rindo brevemente, o que deixava a garota levemente irritada.
— Ora sua... – Aoi fuzilava Marie com os olhos como se estivesse querendo avançar em seu pescoço, mas mudou de idéia quando viu a garçonete chegando com os pedaços de bolo.
— Os pedidos. – A garçonete deixava um dos pratos na frente de Marie e fazia o mesmo com Aoi. O bolo era coberto por chocolate, granulados coloridos por cima e um morango no meio. – Bom apetite, senhoritas. – Fazia uma pequena referência e se retirava.
— Até que não demorou tanto. – Marie sorriu e pegou uma colher em um pequeno recipiente que tinha no centro da mesa, em seguida cortou um pequeno pedaço do alimento levando até a boca de Aoi. – Como da última vez, diga “Aaaah”.
— Da última vez estava doente e você ficou me olhando com aquela cara de cachorro pidão. – Aoi balançou a cabeça negativamente vendo a colher se aproximar. – Não vou fazer isso de novo só porque você quer.
— Não seja ruim Aoi, é só para experimentar. – Marie fazia um pequeno bico, ainda insistindo.
— Não foi por isso que pediu dois? Vou comer o meu. – Aoi pegou uma colher e cortou um pedaço do seu bolo levando-o até boca e ficou um tanto surpresa com o sabor. O doce de leite parecia derreter na boca, tinha um gosto diferente de todos que já provou e, com certeza, se lembraria caso já tivesse comido algo parecido, pelo fato de nunca esquecer nada, aquela sensação era nova. A garota continuou a comer sorridente e ignorando completamente Marie.
— Parece que não vai rolar na boca, mas pelo menos aparenta estar gostando. – Marie dava de ombros enquanto começava a saborear seu bolo.
— Esse bolo, com certeza foi a melhor coisa que já comi na minha vida, nunca provei nada assim antes. – Dizia Aoi apontando para o prato sorrindo.
— Acho que deve estar exagerando, pode ser que tenha se esquecido de ter provado algo melhor. – Respondeu Marie rindo também, terminando seu bolo.
— Isso está fora de questão, eu nunca esqueço nada. – Olhou para o lado, um pouco entristecida.
— Sei... – Marie notou a mudança de humor repentina da amiga e resolveu mudar o assunto. – Vamos nos conhecer um pouco, você mora sozinha?
— Sim, desde os meus 16 anos que estou morando sozinha, mas meus pais cuidam das despesas mandando algum dinheiro todo mês.
— Quer dizer que morar sozinha é opção sua? – Maria tombava levemente a cabeça para lado, um pouco confusa.
— Sim, eu prefiro ficar sozinha a ficar com eles. – Mordia levemente os lábios olhando para o lado.
— Algo grave deve ter acontecido, mas não vou fazer perguntas desnecessárias. – Usava uma das mãos para coçar a nuca. – Tem algum irmão ou amigo próximo?
— Ninguém mora perto de mim, mas a única pessoa que ainda considero é meu irmão mais velho, Soutaro, de vinte e cinco anos que já é casado e tem uma filha de oito aninhos.
— Quer dizer que já é tia? Poxa, que legal. – Colocava ambas as mãos no queixo, sorrindo enquanto olhava fixamente para Aoi.
— Sim, er... – Corava levemente. – Não fica me encarando assim sua doida, é estranho! E agora, me fale de você.
— Eu? Estou te olhando normal ué, mas posso dizer que às vezes te olho um pouco diferente, sabe? – Alargou um pouco o sorriso e voltou a falar. – Seus olhos verdes são lindos e esses óculos a deixam com uma aparência mais bela, algo lindo de se admirar, então às vezes não consigo disfarçar Aoi, desculpa. – Ria um pouco sem jeito, coçando a bochecha com o dedo indicador.
— V-Você sai cantando toda garota que vira amiga, é? – O rosto de Aoi ficava completamente vermelho e ela gaguejava um pouco enquanto falava. – Pode parar por aí, você é a última pessoa da terra com a qual quero um relacionamento mais sério.
— Toda garota não, só você, baixinha. – Colocava o indicador na ponte do nariz de Aoi, sorrindo.
— E-E-Eu... Sai! – Batia com uma das mãos no dedo de Marie cada vez mais envergonhada com as atitudes da garota. – Você é um saco de garota, mala, giganta, chata!
— Olha só que coisinha mais fofa envergonhada. – Marie apertava as bochechas de Aoi ainda sorrindo. – Quem é a garotinha da Marie? Quem é a garotinha da Marie?
— Aiii minha bochecha, para com isso sua doida. – Aoi fazia uma pequena careta ao ter as bochechas apertadas e com um pequeno esforço afastava Marie.
— Olha só, vamos continuar com nossa promessa, hoje foi um final de dia legal só pelas suas atitudes, e nesse final de semana podemos fazer várias coisas divertidas.
— O que está sugerindo? – Questionou Aoi fitando a garota um pouco confusa.
— Hoje à noite eu posso dormir na sua casa e amanhã podemos sair para alguns lugares juntas, sabe? Claro que vou em casa pegar algumas roupas, avisar meus pais e blá blá.
— Você não está aproveitando a situação para me “pegar” não, né? – Aoi estreitava os olhos enquanto olhava para Marie.
— Te pegar? Como assim? – Ria brevemente usando uma das mãos para esconder o riso.
— Você entendeu a referência, não se faça de boba. – Cruzou os braços, ainda aguardando uma resposta.
— É apenas o convite de uma amiga para se divertir, sem segundas intenções. – Revirou os olhos. – Talvez tenha um pouco de malícia e... – Dizia em um tom de voz baixo apenas para provocar Aoi.
— O que você disse?
— Nadinha.
— Sendo assim tudo bem, pode vir, mas já deixo claro que vamos limitar nossas intimidades e você também vai me falar um pouco sobre sua vida quando vir.
— Feito. – Estendia a mão como se fosse uma promessa. – Vou para casa e nos vemos a noite, Aoi, tchau! – Marie se levantava após pegar sua mochila, e antes de se retirar do local beijava suavemente a bochecha de Aoi, esboçando um pequeno sorriso.
— Essa garota me tira do sério. – Corava com uma leve expressão de irritada, mas logo sorria passando a mão do local do beijo.
Quando foi mesmo que recebi um beijo assim? O beijo da minha mãe na cabeça ao nascer, os beijos e abraços em meus oito aniversários dos parentes... mas nunca recebi um carinho assim de uma colega de classe... Acho que o fato de que eu não posso deixar nada passar em branco na minha mente possa ser uma benção de vez em quando, e com a Marie eu poderia fazer tantas lembranças boas, que possivelmente poderiam substituir as ruins... mas corro o risco de magoá-la. Eu não posso continuar sendo amiga dela, tenho que me afastar.
Aoi ficou perdida em seus pensamentos por alguns minutos, até finalmente se tocar que já estava sozinha na confeitaria, e ir embora. Não demorou muito para a garota chegar em casa, pois não estava muito distante do estabelecimento, parando em frente à sua porta para pegar a chave na mochila.
— Onde foi mesmo que eu deixei? – Olhava lá dentro, procurando a chave.
— Eae, maninha. – Dizia uma voz masculina atrás de Aoi.
A garota virou-se, assustada ao escutar a voz nas suas costas, deparando-se com um rapaz moreno de cabelos curtos lisos, porém rebeldes e olhos verdes. Suas vestes se resumiam em uma camisa branca, bermuda jeans e tênis brancos.
— Souta?
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