Minha árvore
1 Árvore de Fogo
Estava fazendo o almoço de Lara enquanto ouvia uma música lenta vir do som da sala. Estava alto e isso não me importava ou incomodava. A música fazia com que eu não me lembra se ou que eu não tenta se me lembrar.
Olhei para o relógio da parede e segurei um pequeno riso com a minha travessura de mais cedo. Lara não iria — se atrasar para a escola hoje e eu vou garantir isso hoje.
O relógio tocou dez horas, abri uma gaveta e peguei algodão , colocando em meus ouvidos. Não deu cinco minutos e Lara desceu as escadas correndo quase tropeçando no ultimo degrau . Seu longo cabelo ruivo estava bagunçado, seus olhos verdes arregalados e sua boca não parava quieta.
Tadinha, talvez eu tenha pegado um pouco pesado com ela, olhei para o relógio e as dez e vinte ele parou. Vendo isso como um sinal tirei os algodões e olhei para a criança na minha frente.
—Mami o que foi isso? — ela estava horrorizada.
Olhei um pouco para ela, sorrindo de lado me virei de costas voltando para os meus afazeres.
—Lara você tem algo muito importante hoje, lembra se? Agora, por favor vá se arrumar ou colocarei um dos cds de seu pai para tocar. — não precisei me virar para saber que ela corria de volta para o seu quarto.
—Meu primeiro dia de aula, tenho que me arrumar. — ouvi ela gritar no andar de cima.
Mexi com a cabeça de um lado para o outro, sabendo que um pequeno sorriso brincava em meus lábios, alegrando o meu rosto.
As onze e meia estava tudo pronto para a minha pequena vir almoçar e partir para o seu primeiro dia. Deixei meu olhar percorrer ao meu redor e sem notar parei em um retrato.
—Pensei que eu tinha te jogado fora — segui ate a sala, parando em frente a lareira , me estiquei um pouco e peguei o retrato em minhas mãos.
Na foto estava a imagem de um homem alto e ruivo.Ele estava de costas para a foto, uma de suas mãos se apoiava em um tronco enquanto uma garota de longos cabelos negros estava sentada em um balanço em baixo da árvore, os dois pareciam estar se divertindo juntos.
—Mamãe qual o problema? — eu pisquei um pouco e olhei em outra direção.
—Nada querida, nada... — olhei para a moldura em minhas mãos e respirei fundo — Esta pronta?
—Estou e com muita fome — eu a ouvi seguir para a cozinha e soltei minha respiração, que somente naquele segundo me dava conta de ter segurado.
Deixei o retrato no sofá da sala e segui minha pequena até a cozinha.
—Mãe assim que eu terminar vou me despedir do papai, está bem? — fechei a geladeira e a olhei espantada.
Lara não havia notado o meu choque. Afinal, por que deveria?
Eu mais que ninguém desejava que ela fosse uma vez ou outra ver o pai, mesmo que ele não a visse
Um novo sorriso enfeitou meu rosto.
—Claro, você pecisa que eu vá junto? — esperei sua resposta em silencio, mas notei que ela não viria e eu interpretei isso como um não.
As doze horas Lara corria para o ônibus escolar, ela vinha eufórica e com um lindo sorriso em direção ao automóvel , olhou para mim , mandou um beijo e fez um sinal de V com os dedos.
Eu sorri enquanto olhava o ônibus partir.
"Tipico dessa família"
Meu olhar caiu na enorme arvore que ficava na parte de traz da casa, mas bem afastada. Respirei fundo e segui naquela direção.
Em minha mente vinham os risos e piadas, as lagrimas e as brigas, tudo vinha, tudo que eu tentava esquecer.
Parei atras do tronco olhando para frente, tentando demorar o máximo que eu poderia.O máximo que eu conseguiria.
Quinze minutos depois me vi ajoelhada em frente a um tumulo, minhas lagrimas eram derramadas em silencio.
A foto de David Olivier me encarava com o seu tipico sorriso malicioso, seu olhar castanho intenso e seus ruivos cabelos jogados de lado fazendo charme. Na parte de baixo de sua foto os dizeres
"Aqui jaz um homem que amou e foi amado"
"Um amigo de confiança e lealdade.”
“Irmão de sangue e coração.”
“Filho amado e desejado.”
“Marido e pai pela eternidade"
"Um homem que deu o coração, para continuar amando"
—Querido seja onde você estiver, por favor se lembre que nos o amamos e sabe? Nossa garotinha foi para a escola sozinha, ela já é uma mocinha para entender, que o pai deu o coração para que ela não fica se sozinha. — toquei a fria pedra e olhei para a enorme arvore. — Onde tudo começou não é meu amor? — senti o vento passar tocando o meu rosto.
Me levantei e sentei no balanço que tinha preso ao tronco da árvore, movi um pouco e logo estava me balançando para frente e para traz. As lembranças daquele quadro vieram em minha mente.
O riso de meu marido preencheu a minha volta, enquanto eu sentia o balanço ir com mais força e alguém me empurrar atras de mim.
"_Julia, eu sempre estarei aqui, te amo muito e para sempre"
O vento soprou com mais força, enquanto eu olhava para o topo da árvore.
Minha amada árvore de fogo
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