Minha vida em suas mãos. Spemily
9 9 - Situações delicadas
Notas iniciais
A ambulância em alta velocidade estava indo até o hospital mais próximo, e eu não tinha forças para ajudar os enfermeiros. A cena daquela garota á minha frente se repetia sem parar, eu estava perplexa. Ela se encontrava inconsciente, sua cabeça sangrava ainda, mais em menor proporção, ela iria precisar receber sangue, com certeza. Eu segurava sua mão, e uma corrente elétrica passava de seu corpo para o meu. Ela não podia morrer, eu não iria deixar, não podia deixar, eu não podia ter feito uma coisa dessas, foi um acidente, mas fui EU, EU quem a atropelou, nada me tirava isso da cabeça, a culpa dela estar assim era minha. Se eu não tivesse pegado aquela estrada ela agora estaria viva, mas quem sabe do que ela fugia. Devia estar fugindo, pois eu não conseguia formular na minha cabeça, outra razão para ela estar saindo em meio as árvores, rolando daquela forma. Não tinha outra explicação, não importa do que ou de quem ou da onde. Ela estava fugindo.
Eu não devia estar me preocupando com isso exatamente, mas eu queria criar uma válvula de escape para mim não pensar mais no momento exato do acidente. Parecia que a estrada nos arrastava para trás, ao invés de ir para frente. Estava demorando muito para chegar no hospital, e ela estava muito mal. Eles contiveram o sangue, colocaram uma máscara de oxigênio nela, pois sua respiração estava muito pesada e fraca.
Passou mais algum tempo, chegamos ao hospital, levaram-na diretamente para sala de cirurgia, eu não teria estômago para ver a pessoa que eu atropelei sendo cortada e remendada, sempre tive, mas dessa vez era diferente. Preferi ficar na sala de espera, sentada, com uma angustia total no peito, e um medo que me dominava por inteira, até que me lembrei do celular que eu havia pego no bolso dela. Já que ela não possuía documento nenhum, eu não sabia seu nome, nem nada, e a família dela precisava ser avisada. Então tirei o celular do meu bolso aonde ele se encontrava, e apertei um botão que acendeu a tela, deslizei meu dedo por ela desbloqueando-o facilmente e assim pude ver, uma montagem com duas fotos na tela inicial. Uma foto era dela com uma moça loira de olhos azuis as duas sorridentes com as cabeças coladas de lado, deveria ser sua melhor amiga, a outra foto era ela e uma outra moça morena de cabelos que ondulavam da metade para baixo, nessa elas faziam careta para a câmera, essa parecia ser sua irmã. Foi minha dedução. Observei mais um pouco, e fui até sua lista de contatos favoritos, o primeiro nome da lista era Hanna, e foi para esse que eu decidi ligar.
...
Tocou algumas vezes até que alguém atendeu, mas o barulho do outro lado da linha estava muito alto, e eu só conseguia ouvir música e vozes altas gritando. Falei "Alô" umas cinco vezes até que desisti e desliguei. Liguei novamente mas não me atenderam. Então desisti de vez. Adentrei o celular no bolso novamente e fiquei ali onde eu estava mesmo, sentada sozinha, com os cotovelos apoiados cada um em uma perna e minhas mãos, uma em cada bochecha, sustentando meu rosto. Ali aflita comecei a derramar algumas lágrimas. Baixei meu rosto contra minhas mãos escondendo o choro. Até que o celular começou a tocar, dei um pulo de susto e logo o peguei. Aquele mesmo nome estava ligando de volta, enxuguei as lágrimas e atendi
– Oi Em, tudo bem? (risos) — a tal Hanna começou a falar
– Alô? É... aqui é Spencer — E logo fui interrompida
– Uuuuuu Em Em — dessa vez eu a interrompi. O assunto era sério e eu tinha que falar de uma vez
– Ei. Hanna não é? Desculpe, mas eu preciso realmente falar seriamente com você. Então onde quer que você esteja se sente, pois o que vai ouvir não é de forma alguma no mundo uma coisa boa — Fiz uma pausa, mas não obtive resposta, então continuei — Olha a dona desse celular sofreu uma acidente muito sério, ela está aqui no hospital Londrino Messano, eu gostaria que você viesse aqui para trazer os documentos e chamar algum parente dela, eu... — comecei a chorar novamente, mas contive os soluços que iam se formando na minha garganta, e continuei — olha, só venha para cá o mais rápido possível.
Assim que acabei ficamos em silêncio. Tanto eu, quanto a voz do outro lado da linha. Até que ela resolveu se pronunciar
– Mas o que... o que aconteceu? — sua voz estava chorosa e trêmula
– Olha eu realmente esperava falar com quem quer que seja, quando chegar aqui, pois... — e ela novamente me cortou
– Fale! — ordenou ela gritando
– Aconteceu um acidente. Eu a... a atropelei — disse baixo e amedrontada lembrando daquela cena
– Eu estou indo para aí, espero que não fuja, sua... maldita — Concluiu brava e ao mesmo tempo chorosa e desligou assim na minha cara
Não tive tempo de explicar a situação. Ela devia ser uma pessoa muito próxima da moça que eu atropelei, foi o que deduzi depois de sua reação. E eu me pus no lugar dela. Se fosse comigo, eu não iria querer saber se o motorista estava certo ou errado, eu iria avançar com unhas e dentes para cima dele. Essa seria minha primeira reação, assim ou até pior do que a dela. E a hora que ela chegasse poderia ser bem pior.
Logo o médico que estava fazendo a cirurgia veio até a mim. Era um homem, com aparentemente cinquenta anos de idade, magro, e alto, pálido, cabelos grisalhos e olhos num tom de verde piscina, me levantei e fui de encontro á ele, e ficamos frente á frente, numa distância normal e formal
– Olá. Senhorita? — Peguntou
– Dr.ª Hastings, dona do hospital Hastings Family. Como ela está? — me apresentei apertando educadamente sua mão e perguntando sem mais rodeios
– Dr.ª as notícias não são nada boas. Ela esta realmente muito mal, ela bateu muito forte com a cabeça, provavelmente quando colidiu com o chão, ela está em coma. Eu não pude fazer muita coisa, o local do ferimento é muito delicado e tentar mexer mais á fundo pode acabar colocando sua vida em mais riscos. O estado dela é grave, ela quebrou uma perna também, foi posto um pino. O que podemos fazer agora é apenas esperar.
– Dr. — foi ai que minha cabeça começou a girar e lágrimas involuntárias rolaram. Eu sou uma médica sei que quando uma pessoa tem algum problema e não se pode mexer nele por ter grandes riscos de piorar tudo, é porque o pior está por vir. Eu seria a culpada pelo fim da vida de alguém, eu seria uma... assassina? Independente de ter sido um acidente ou não, foi meu carro que á jogou para longe, era eu a maldita motorista. Abaixei minha cabeça e levei minhas mãos ao rosto, escondendo-o com a palma das mãos
– Dr.ª, fique calma você sabe que as vezes a medicina é errônea, as vezes uma força do além faz um milagre acontecer, você tem que ter calma nessa hora. Me informaram que foi um acidente, e você tem que estar ciente que tudo pode acontecer, o que eu preciso agora é de um parente dela aqui para deixa- los informados e o que vão resolver em conta dela
Escutei tudo ainda de cabeça baixa, chorando baixinho, quando ele acabou de falar, me veio a cabeça " Se fui eu quem causou tudo isso, eu tenho que fazer alguma coisa a respeito", e eu faria.
– Dr. — olhei para seu crachá no seu jaleco branco, á procura de seu nome — Dr. Halles, eu sei que tenho que esperar os familiares dela, mas já quero adiantar um assunto com o senhor — ele assentiu com a cabeça — Meu hospital é um dos melhores hospitais de Londres, um dos mais bem equipados e preparados para uma situação como essa. Digo isso com total respeito ao seu local de trabalho. Mas a questão aqui, é que, na situação que essa moça se encontra, a melhor coisa a se fazer é transferi-la para lá. Eu gostaria de pedir ao senhor que convence-se a família dela sobre isso, não que seja realmente necessário ter que persuadi-los, pois é a melhor coisa a se fazer para ela, mas se for necessário, eu gostaria mesmo que o senhor me ajude com isso. Eu agora tenho que ajuda-la. Tenho uma dívida com essa moça.
Ele me olhou por um tempo, sério. Parecia estar pensando sobre o assusto. Até que ele assentiu com a cabeça, concordando com minha ideia.
– Sim Drª, eu farei o que for preciso para ajuda-la. Estou ciente de que lá será o melhor lugar para ela ficar
Conversamos mais um pouco sobre alguns procedimentos, e resolvi ligar para Aria para pedir que ela viesse até o hospital, eu estava mal, realmente muito mal. Depois de alguns minutos ela chegou e foi logo me abraçando. Eu precisava daquele abraço, estava tão mal e precisava de um "pilar" para me segurar. As impiedosas lágrimas começaram a rolar e eu já não conseguia conter meu soluços baixos
– Ei! Fique calma. Tudo vai ficar bem — Ela disse me confortando, soltou o abraço e pegou meu rosto entre as mãos, — ela com botas de salto e eu descalça, o que nos deixa da mesma altura- , e ela me olhou nos olhos — Tudo. Vai. Ficar. Bem. Entendeu? — Falou pausando cada palavra me passando positividade e calmaria
– Ok! — Enxuguei minhas lágrimas com as costas da mão e sorri fraco para ela em forma de agradecimento e ela sorriu de volta da mesma forma
Contei á ela tudo que havia acontecido. Cada detalhe desde o jantar com Toby, e ela ficou horrorizada com a reação dele, logo depois falei do acidente e ficamos ali apenas olhando para os lados, vendo o tempo passar, já estava amanhecendo e ninguém chegava. Esperamos que alguém chegasse, e foi o que aconteceu. Ouvi passos barulhentos vindo do corredor para dentro da sala de espera, o barulho ecoava por conta do local quase vazio, composto só por Aria e eu, sentadas no sofá de couro marrom. E enquanto os passos soavam mais perto o celular dentro do meu bolso começou a tocar, era o da garota que atropelei. Olhei para tela e depois em direção da onde os passos antes faziam barulho e que agora não faziam mais e avistei a mesma figura da foto da tela do celular ali na minha frente, que hesitou alguns segundos e logo avançou em minha direção.
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Eu estava no meio da boate dançando com Mike. Tudo estava muito bom, até que meu celular começou a vibrar no bolso da minha calça. Peguei-o e vi que era Emily que me ligava, e então atendi, mas o barulho era tão alto que eu não conseguia distinguir qualquer palavra que ela falava do outro lado da linha, das vozes a minha volta. Gritei no ouvido do Mike para que ele me escutasse, que eu iria lá para fora atender meu celular, pois uma amiga estava me ligando, ele assentiu rindo, já mostrando sinais de embriagues mais que eu. Enquanto saia da boate o celular tocou de novo, mas não atendi, pois seria em vão. Até que cheguei do lado de fora, onde a música não soava tão alta e leguei de volta, e logo ela atendeu.
...
O frio tomou conta de mim, meu dedos tremularam, assim como minhas pernas, e minha cabeça foi a mil em milésimos de segundos. Tudo aquilo só podia ser uma brincadeira. TINHA que ser uma brincadeira. Eu não estava mais em mim, eu queria gritar correr, era como estar caindo de um maldito precipício que não tinha fim, minha mente escureceu, minha vida se tornou nada, minha existência inútil por completa. Fiquei sem reação, por momentos as palavras fugiram da minha boca, como minha cor fugiu do meu rosto, a palidez me tomou. Aquela ligação, me fez tudo isso. O álcool ainda estava no meu sangue e minha pernas não faziam mais movimentos regulares, mas depois do que ouvi pelo menos minha mente se pôs no lugar. Queria correr da onde estava naquele exato momento e ir até lá ver se tudo que eu acabara de ouvir era realmente verdade e se a gravidade do assunto possuía proporções horrendas como minha mente estava fantasiando. Eu estava extremamente desesperada com a notícia que recebera.
Voltei para a boate até onde Mike se encontrava, e o puxei, mesmo tendo em mente que minha força não era maior que a dele e que se ele quisesse não sairia dali, mas ele me acompanhou instantaneamente. Ele se dirigiu junto a mim para fora daquela baderna total em que aquele lugar se encontrava.
Chegando lá fora o ar frio tomou conta de meu corpo — a boate estava totalmente quente e abafada, por conta de tantas pessoas aglomeradas ali — Me virei para Mike que me olhava confuso, ele também estava bêbado, um pouco mais que eu, sua coordenação motora fora afetada, mas sua cabeça ainda estava o necessário no lugar. Quando as informações me caíram mais fortemente na cabeça, me deixei levar e derramar algumas gotas do meu mar, molhando meu rosto, deixando uma trilha quente e salgada por onde escorria. Pedi a ele que saíssemos dali e voltássemos imediatamente para a casa dele. Ele hesitou e me perguntou porque. Mas eu não respondi, apenas pedi novamente para irmos embora, pois era importante. Ele sempre foi um cara compreensível comigo, não falou mais nada e concordou em irmos. Pegamos o táxi e rumamos para a casa dele.
Chegando lá comecei a chorar sentada no sofá, e ele lá de pé na minha frente me olhava confuso, até que me perguntou o que era e eu expliquei o que havia acontecido. Ele ouviu tudo e me abraçou, foi ai que pedi que ele me levasse imediatamente de volta para Londres, mas ele discordou
– Amor, eu sei que você está preocupada com sua amiga. Mas nem eu nem você estamos em condições de dirigir agora. Sair assim bêbados só vai provocar outro acidente e você não quer isso. Vamos tomar um banho, um café e um remédio, e daqui algumas horas estaremos bons o suficiente para irmos — Ele falou calmo e convincente.
Eu sabia que era verdade e certo tudo que ele falou, mesmo por dentro querendo ir logo, concordei com ele e fomos fazer tudo que ele disse. Depois de tomarmos o remédio ele pediu que dormíssemos por pelo menos uma hora, para fazer efeito mais rápido e estarmos mais dispostos. Concordei novamente e deitamos na sua cama, mas só ele dormiu, eu não consegui. Acordei ele depois de uma hora e nos aprontamos para ir, ainda estava escuro e de madrugada. A viagem levaria de uma hora á uma hora e meia. Fomos no meu carro, com ele no volante, pois eu não estava em condições psicológicas favoráveis. Parecia que não chegaríamos mais, quando estávamos entrando em Londres, liguei o GPS e informei o local para que ele nos guiasse, o dia estava amanhecendo, e nós chegamos, enquanto ele estacionava desci apressadamente e deixando ele para trás. Adentrei o lugar quase vazio se não fossem pelos funcionários, e fui direto para a sala de espera em passos barulhentos e firmes, e liguei para o celular de Emily para saber onde a maldita que atropelou minha melhor amiga se encontrava, e passando pelo corredor já ouvi o toque do celular ecoando pelo local, quando cheguei no fim do corredor e avistei duas moças. Uma delas tinha o celular na mão e foi nela que eu foquei, parei e logo após alguns segundos avancei.
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