Notas iniciais
Olá!! Atrasei um dia, mas eu estava estudando bastante esses dias (ainda estou), e também tive um certo bloqueiozinho. Estou com uma bela dor de cabeça aqui desde tarde, mas fiquei escrevendo pra deixar vocês felizes. Espero que gostem. Por favor, comente! Boa leitura!

Abri meus olhos lentamente, diferente de antes minha visão não estava tão turva, apenas um acordar normal depois de uma boa noite de sono. O movimento à minha volta era perceptível, mesmo eu ainda não tendo nem me virado para ver as pessoas. Minhas duas mãos estavam sendo seguradas, cada qual com seu toque diferente, um era aquele velho aperto de sempre, aquele da pessoa que tanto prezei por ter em minha vida. Hanna. O toque carinhoso de uma irmã preocupada, acolhedora e amável. Virei-me para ela, seus olhos sorriram antes mesmo da boca fazer qualquer movimento, suas orbes azuis brilharam quando meu olhar encontrou o seu. Depois de alguns segundos confortavelmente quietas, ela sorriu abertamente, e lágrimas começaram a rolar por sua face.

Suas lágrimas eram felizes, e eu sabia, pois depois de uma vida inteira andando ao seu lado não era mais um segredo saber a verdadeira razão de cada reação sua. Num movimento rápido ela se inclinou e com os braços levantou insignificantemente minhas costas do colchão, apenas para poder me abraçar apertado, explicitando toda sua felicidade, e deixando a angustia ir embora de sua matéria, sua alma. Ainda me segurando, um sussurro quase que inaudível saiu de sua boca

– Eu te amo Emily — proferiu em meio ao seu choro agora intensificado — Nunca mais faça isso comigo — ordenou

– Juro que não Hanna. Juro. — soltei a outra mão que me segurava, e apertei com a pouca força que tinha o corpo de Hanna — Também te amo — agora foi minha vez de começar a chorar

Ficamos assim por alguns minutos, apenas abraçadas, chorando a falta que cada uma havia sentido, mesmo que para mim o tempo não tivesse se passado, dois dias no máximo. Mas eu sabia que mais de um mês estava sendo contado por ela, e sua saudade havia se acumulado mais e mais a cada dia. Nossa amizade sempre foi muito forte, e eu sempre valorizei muito ela. Quando Hanna me soltou éramos completamente lágrimas, mesmo sabendo que elas eram de felicidade nunca gostei de choro, e decidi quebrá-los

– Tudo isso era saudade? Como você me ama garota — caçoei, rindo logo em seguida

– Sim Emily, tudo isso era saudade. E sim, eu te amo. Você não imagina o quanto eu fiquei mal por você ter me deixado aqui sozinha, você não tem ideia de como foi difícil não ter você do meu lado, sempre cuidando de mim. Nunca mais fique longe de mim assim, por favor. Eu tive tanto medo de te perder, de nunca mais te ver sorrir. Isso acabou comigo por esse tempo todo — disse séria e tristonha. A brincadeira só gerou mais choro

– Eu estou aqui Hanna e nunca mais vou te deixar, vou cuidar sempre de você, tudo bem? — olhei no fundo dos seus olhos

– Ok — confirmou, liberando um sorriso de lado

Eu estava tão desconexa da vida lá fora, o tempo havia passado, mas não para mim. Hanna estava mais magra, os cabelos crescidos, os olhos um pouco fundos, bem diferente de seus dias normais, onde ela se arrumava impecavelmente, sem deixar nem um resquício de cansaço transparecer. Ela sempre foi alguém forte demais e dificilmente era abalada pelas pessoas à sua volta. Mas alguma coisa me dizia que aquilo não era apenas pela falta que ela sentira de mim, era mais, haviam outras razões obscuras escondidas para ela estar daquela forma. Seus olhos tinham um brilho opaco, como se minha recuperação fosse apenas parte de sua felicidade, e ainda faltasse um item para que fizesse seu mar ser o mais luzidio de todos.

Meus pensamentos fugiram um pouco, tentando em algum segundo entender o porque dela estar daquela forma, mas depois de tanto tempo desligada do real, muitas coisas poderiam ter acontecido, e a única forma de saber realmente a origem de sua melancolia, seria lhe perguntando. Todavia aquele não era o momento mais propício. Tudo que nós precisávamos naquele instante, era desfrutar da felicidade da minha sobrevivência. A última coisa que eu conseguia me lembrar era de estar correndo num lugar escuro e frio com alguém me seguindo, e depois uma luz forte invadindo minhas vistas, uma dor, e mais nada, simplesmente... nada. Só agora. Eu. Aqui. Depois de um tempo hibernando.

Se Spencer e o doutor não tivessem me informado do meu acidente ao acordar eu certamente nem imaginaria. Ficaria no mínimo confusa pelo fato de estar deitada num quarto de hospital, rodeada de aparelhos me monitorando, e sentindo dores pelo corpo. Spencer. Ao me lembrar dela olhei para o lado, onde momentos antes alguém segurava minha mão. Quando completei a volta encontrei o rosto cansado de Spencer. Logo me lançou um sorriso carinhoso, parecia até um bebe rindo enquanto dorme. Um riso silencioso e discreto, mas cheio de um brilho escondido. Fiquei maravilhada. Um anjo cuidando de mim. Sorri de volta, retribuindo toda ternura de seu olhar. Ficamos um tempo nos encarando, sem dizer nada, apenas sorrindo. Eu estava no paraíso, dentro daquele sorriso.

Sai do meu transe, depois de alguns minutos não contados. Eu iria dizer algo, mas não sabia o que. Abri e fechei minha boca, em busca de alguma coisa para lhe falar, mas ela tinha me deixado muda, apenas pelo simples fato de me hipnotizar com seu sorriso. Com minha tentativa em vão de começar um diálogo, ela mesma se pronunciou

– Oi — disse num tom baixo e meigo

– Oi — retribui.

– Como está se sentindo? — continuou rapidamente a conversa

– Bem, apesar de não ser totalmente — ri — Sabe, ficar hibernando cansa — comentei ironizando

– Parece que sim. — arqueou os lábios, mostrando seus dentes brancos e tão bem alinhados — Apesar de que você já descansou bastante nesse tempo todo, não devia estar tão abatida assim — entrou na brincadeira

– Sabe que, você tem razão — concordei ainda mantendo o tom brincalhão no ar — Me diga você como eu estou, então... — olhei para baixo, observando suas roupas, ela estava de jaleco, um crachá preso à ele escrito Drª Spencer Hastings — Drª? — arqueei as sobrancelhas, misturando meu riso á minha curiosidade

– É, Drª. Mas você pode me chamar só de Spencer — informou. Confirmei com a cabeça e ela continuou — Bom, você vai passar mais alguns dias aqui. Vai ser monitorada, fazer alguns exames, ver como está se recuperando, todo o procedimento necessário para saber se você não corre nenhum risco. Mas fique tranquila, acredito que você não terá complicação alguma, mas são as condutas do hospital, e vamos segui-las á risca. Logo você voltará para sua casa — por um momento pensei ter visto um resquício de tristeza em seu olhar ao dizer sua ultima frase. Apenas impressão, confirmei para mim mesma

– Oh Drª, muito obrigada por me manter mais alguns dias no hospital, sabe, essa cama meio que já faz parte de mim — brinquei — Confesso que sempre odiei essas regras dos hospitais — confessei

– Reclame com quem as criou — incentivou rindo — O dono do hospital é cheio dessas regras

– Chame-o aqui agora — ordenei brincando — Vou dizer à ele que é um absurdo esse, de me manter aqui — falei séria, mas logo ri

Ela olhou para um lado, depois para o outro, em seguida me fitou, jogou os cabelos para trás — e sinceramente, como ficou sexy — deu um risinho sínico de lado e disse

– Aqui estou — a olhei confusa, me perguntando se era isso mesmo, se ela era a dona do hospital — Sim, eu sou a dona do hospital — respondeu minha pergunta não feita em voz alta

A mulher à minha frente não era apenas uma outra médica do hospital, mas também, dona dele.

– Nossa! Quanta responsabilidade

– Realmente — sorriu

Eu estava impressionada, pois um hospital não era uma propriedade qualquer, era mais que um super-mercado, mais que uma loja, mais que qualquer empresa, envolvia vidas, e ser responsável por um lugar que é específico para isso, cuidar, salvar pessoas envolve muito comprometimento, seriedade. E ela não aparentava ter nem seus trinta anos, era muito nova para ter conquistado tal coisa tão grandiosa.

– Você devia agradecer a Spencer por ter se importado com você — Hanna se pronunciou

– Já me disseram isso, mas ainda não tive tempo — respondi à ela

– Pois bem, agora tem — Hanna insistiu

– Oh sim, mas será deselegante da minha parte agradece-la sem nem levantar, e bem, eu não estou muito em condições agora — fui evasiva

– Não se preocupem comigo, eu fiz o que tinha que ser feito, qualquer outra pessoa faria o mesmo — Spencer falou docemente

– Como não? Claro que devemos a você tudo, pela sua preocupação à cima de tudo — Hanna olhava Spencer, indignada com sua humildade. Logo ela se virou para mim e continuou — Emily, você sabia que a Spencer passou todo esse tempo aqui? Todos os dias, só para ficar cuidando de você. O único dia que ela saiu daqui foi esse final de semana, para ficar na nossa casa, mas só concordou depois de muita insistência, e ainda assim, ficou inquieta o tempo todo, falando que precisava voltar para ficar com você, meu Deus, ela ficou pior até que eu mesma.

– Como assim, todos os dias? — perguntei. Não estava entendendo muito bem aquilo

– Isso mesmo Emily, todos os dias. Ela deixou a casa dela e estava morando aqui no hospital — Hanna disse risonha — Vê ali — apontou para um canto do quarto, logo olhei, tinha uma cama — Ela dormiu ali, todos os dias, desde que você chegou aqui. Ali — apontou para o lado de Spencer onde havia uma poltrona — Ali foi onde ela passava as tardes inteiras do seu lado — um sorrisinho malicioso brotou de seus lábios — Nem eu mesma passei todos os dias neste lugar, claro que eu vim todos eles, mas não ficava aqui vinte e quatro horas, e ela ficava, cada segundo do seu lado. Eu ficaria louca vendo apenas essas paredes brancas. Meu Deus, até uma senhora faxineira me pediu para tirar ela daqui um pouco. — aquele sorrisinho malicioso só aumentava em seu rosto — Apesar de que não é tudo tão branco assim à ponto de enlouquecer, ela pode ter desviado um pouco das paredes brancas e ficar olhando essa sua pele morena da cor do pecado

Me senti totalmente envergonhada, e minha bochechas queimaram. Hanna brincalhona estava de volta, mas mesmo isso sendo algo bom não quebrava o fato dela estar me deixando numa situação um pouco constrangedora. Dei um tapinha na mão dela sobre a cama e ela mostrou a língua, ela não se importava em me deixar numa condição embaraçosa como aquela. Qualquer brecha que ela encontrava ela jogava suas piadinhas para cima de mim.

– Apesar de que você está meio sem sal, acabada, mas nada que não possa ser resolvido — riu de mim, e eu sabia que devia estar mal mesmo

– Bom Hanna, você também já teve seus dias de glória não é — casso-ei-a

– Como eu disse, nada que não possa ser resolvido — falou falsamente séria — O que você acha Drª? — perguntou para Spencer e eu prontamente me virei para olha-la

Ela estava corada, com os olhos arregalados e a boca semi-aberta. Grande Hanna, que adora deixar as pessoas assim, envergonhadas e sem palavras

– Deixe ela em paz, sua loira aguada. De todas nós, é ela quem está em melhores condições, a mais bonita de nós — falei para tirá-la daquele estado, mas ao virar meu rosto novamente para fitá-la ela possuía uma cor ainda mais avermelhada nas bochechas

– Nem saiu direito do coma e já está cantando a mulherada Dona Emily — mais uma vez Hanna disparou seu canhão

– Se vocês não perceberam, eu estou aqui — Spencer ressaltou

– Desculpe Spencer, eu só queria calar a boca dessa tonta ai — esclareci — Mas mudado de assunto, onde estão meus pais?

– Eu liguei para eles assim que soube que você tinha acordado, sua mãe disse que pegaria o primeiro voo para cá que conseguisse — Hanna me informou

– Que bom — minha alegria foi à mil

– Seus pais quiseram ficar aqui, mas os chefes deles não lhes autorizaram passar tanto tempo fora — Hanna avisou

– Eu entendo, minha mãe sempre reclama sobre isso — sempre fui uma pessoa compreensível com meus pais e dessa vez não seria diferente, eu não ia dar uma de menina mimada

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Aquela noite — como muitas dos últimos tempos — foi difícil. O fato de não conseguir ter sentido nada, nem mesmo enquanto transava com Mike, só complicou mais minha cabeça. Em outros tempos eu teria me derretido ainda mais em seus braços com sua declaração, mas desta vez foi diferente. Eu preferia não ter ouvido, pois eu sabia que não podia dizer o mesmo sem sentir. E o que eu mais queria esquecer, me veio á mente novamente. O meu momento com Aria. Foi tudo tão natural, tão intenso, mesmo tendo durado tão pouco e não ter tido nenhum tipo de aprofundamento. Aquele beijo tinha abalado todas minhas estruturas. Foi um carro à 300 km/h, colidindo com parede de tijolos mal feita. Mas um acidente não foi. Aquilo não podia ser classificado como um acidente, mas sim como a consequência de uma escolha pensada erradamente.

Foi um motorista correndo com sua Ferrari numa pista plana, alguns quilômetros de distância de um paredão em meio à ruína, 300 km/h, uma escolha decisiva, a qual ele não sabe as consequências. Ela são duas: ele acelera e bate no paredão, ele desmorona e o mata; ou ele colide, mas o carro destrói e atravessa o paredão, deixando apenas arranhões no veículo, o motorista ileso. Então o condutor liga sua Ferrari, acelera, rangendo o motor, e segue cada vez mais rápido, e a pior das circunstâncias vira fato, o paredão foi aniquilado, caiu igualmente como o Titanic naufragou, fazendo com que um mal se instala-se em efeito dominó.

Toda minha traição para com Mike, com um outro alguém que ele tanto amava, alguém tão próximo quanto qualquer amigo dele de faculdade com quem eu pudesse ter saído. E agora eu estava descobrindo que aquele paredão sempre esteve ali, escondido pela distância, que com o tempo foi descoberto e impossível de não ser notado. Mas que eu não tive a decência de desviar, ou de ao menos frear meu automóvel. E agora as consequências da minha escolha mal pensada estavam vindo até a mim, sem dó nem piedade, resultando num coração quebrado dentro de mim, sem um rumo certo para seguir, sem ter um lugar para parar e descansar, pois a cada passo dado é um posto de gasolina afundado, destruído e abandonado. É um poço fundo, sem luz e sem cordas para subir, apenas uma caverna lá embaixo, escura e nojenta, que me leva para um caminho desconhecido, onde eu não sei o que vou encontrar.

E meu medo de estar querendo levar adiante aquele relacionamento que nem eu mesma estava certa de querer, era angustiante, mesmo sabendo que dependendo dele tudo continuaria tão bem como foi no começo, mas sem que ele tivesse conhecimento da burrada que eu tinha feito. Apenas nós dois, nosso namoro sólido e irmã nenhuma para me desequilibrar. De uma coisa eu tinha certeza, ela não ia contar nada à ele, pois isso desencadearia em um ódio dele profundo por ela.

Minha vida tinha mudado tão de repente, sem planejamentos, sem trocas de olhares propositais, nada de charme, apenas a pura naturalidade de uma pessoa, de um jeito que eu nunca pensei em me impressionar por alguém. E da mesma forma que aconteceu, eu queria que sumisse. Sem esforços, apenas que tudo relacionado à ela que me fazia sentir, evaporasse. Contudo, nada é tão fácil na vida, e nem sempre nós temos aquilo que queremos — e eu nem tinha tanta certeza se queria mesmo esquecer.

Mesmo depois de ter ido dormir pensando no momento com Mike na faculdade, durante toda a madruga, não cheguei a nenhuma conclusão, se eu quisesse esquece-la eu teria que dar tempo ao tempo, pois nada melhor que o tempo para curar feridas extremas. Elas vão cicatrizando pouco à pouco, gradativamente e lentamente, mas quando se percebe, só há uma pequena marca para te lembrar que você conseguiu curar sua ferida, por mais que tenha demorado, por mais difícil que tenha sido, mas te mostra que você foi forte o suficiente, e que o remédio foi esperar as células se regenerarem. Esse era só o começo, era apenas um corte profundo, jorrando o sangue ainda fresco, esperando para ser cuidado, costurado e curado.

Ligações não eram o meu forte, todavia aquele dia foi um acontecimento de glória. Após a noite mal dormida, e o desconforto que meu interior estava passando devido à uma transa não tão desejada por meu corpo, ouvir o barulho daquele aparelho tocar e receber a notícia mais esperada à tempos me causou uma grande euforia. Deixei todo o trabalho para trás, pedi folga, e felizmente eles me concederam, pois se tivesse sido diferente eu teria largado aquele emprego no mesmo segundo. O tom de Spencer era eufórico, primeiro gaguejou, até que conseguiu recuperar o ar, e contou a novidade. " A Emily acordou", uma frase tão curta, mas que me causou uma emoção tamanha. Por alguns segundos pensei estar sonhando, só que logo tomei ciência do fato, ela estava de volta.

Corri o quanto pude, esqueci de tudo ao meu redor, de todos os problemas, aflições, angústias, só queria receber minha amiga com um abraço apertado, ouvir sua voz que à tanto havia sido privada de ouvir. Quando à vi meu coração quase se deixou desmoronar novamente, ela estava dormindo, só que rapidamente Spencer tratou de dizer que ela tinha tido uma queda de pressão, que era uma coisa normal, para uma recém saída do coma, que tomou um choque com a notícia do acidente e do tempo que tinha passado desacordada. Esperei do lado dela, ninguém me tiraria dali, e satisfatoriamente ninguém o tentou fazer. Seu abrir de olhos foi tão magnífico, foi como ver o sol, depois de dias na escuridão. Ouvir sua voz foi que nem ouvir um passarinho cantando com o nascer do sol.

Conversar com ela depois de tantos dias chorando sua falta, foi como não ter ficado nenhum segundo sem ela. Parecia que eu tinha acordado de um longo pesadelo. Um pesadelo tão real, que havia feito meu coração se despedaçar. Só que tudo tendia a mudar, te-la novamente era um presente da vida para mim. E agora eu faria meus outros problemas acabarem. Fique um tempo por ali, matando a saudade. Tudo estava tão bom, tão perfeito, que alguma coisa teria que atrapalhar. Depois de quase à uma hora ali, conversando, rindo, ela entrou pela porta, distraída, sem olhar para frente, verificando alguns papéis que carregava em mãos. Os cabelos presos num rabo de cavalo alto folgado. Se eu tinha esquecido ela por pelo menos quase uma hora, agora ela tinha voltado com tudo, seus lábio, seu cheiro, suas mãos me acariciando.

Me perdi com sua presença, ninguém mais estava ali presente, só ela na sua entrada simples triunfal. Ela era só mais uma enfermeira qualquer para Emily, mas para mim não. Ela não era uma simples enfermeira, que vem, lhe dá os medicamentos, pergunta se está tudo bem e vai embora. No meu mundo ela era minha doença, que se instalava mesmo eu estando tomando todos os remédios. Foi chegando perto da Spencer, e parando, para logo começar a falar, mesmo ainda não tendo desviado a atenção dos papéis.

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Foi uma felicidade colossal, demasiada. Vê-la acordar me proporcionou uma sensação que eu não soube explicar, só sei que seu tamanho era enorme. Fiquei sem palavras. Tanto esperei, que ali estava o meu desejo se realizando. Tudo à sua volta ficou cinza e só o castanho de seus olhos tinham brilho, só eles me chamavam para a cor do mundo. Suas primeiras palavras entraram no meu ouvido como um canto, fazendo meu coração frio se aquecer. Ela parecia um anjo, mas disso ninguém precisava saber, um segredo como esse deve ser trancado à sete chaves, e além do mais eu estava muda. Foi um choque bom, e minha surpresa era certa. Ela conversava fraco, mas esbanjando charme, e cantadas — que nem eu mesma sei se o eram — só pude dizer seu nome, um chamado à vida.

Só consegui ter um impulso, beijei sua testa, demostrando carinho e nirvana. Ela até tentou manter uma conversa informativa, mas minha euforia era tamanha que eu tinha que ter certeza que ela estava bem. Nada melhor que chamar Wren. Quando voltei com ele, nem ao menos deixei-o começar a falar, avisei rapidamente que eu era a culpada dela estar ali. Ela não ficou nervosa comigo, apenas quis me acalmar e isso me deixou muito aliviada. Wren era bem mais direto, não esperou nada, foi logo despejando seu monólogo sobre Emily. Isso ela não aguentou, e meu desespero voltou quando seu olhos novamente se fechavam. Foi tempo demais esperando para ver aquele brilho, e apenas instante foi muito pouco que pude aproveitar.

Tratei de ligar para Hanna, e fiquei esperando, sem sair do lado de Emily nem um segundo. Hanna chegou e lá estava eu. Ficamos aguardando ela acordar, e foi lindo quando ela o fez. Dessa vez, delas jorrou amor, um carinho sem igual. Era totalmente visível que Hanna se livrava de uma angustia alojada à um bom tempo em seu peito. Era tudo muito natural, uma amizade tão doce e boba, mas perfeita. Depois de Hanna chorar, e despejar sua tristeza para fora de si, com abraços apertados e palavras simples e tocantes, elas se livraram da melancolia e o lado bobo daquela amizade veio à tona, e de uma forma que acabou respingando em mim. A loira não perdia tempo, entregou que eu havia ficado naquele lugar sem querer sair, sem querer deixa-lá só, e ainda por cima insinuando que eu só não fiquei louca porque passava o tempo observando Emily. Não era de toda uma mentira, mas não era bem daquele jeito que ela falava.

Meu nível de vergonha se elevou, minhas bochechas coraram instantaneamente, ainda mais quando Emily me elogiou, não era normal eu estar daquela forma, era o simples elogio de uma outra mulher, normal, só que alguma coisa fez com que meu corpo encarasse a situação de modo diferente. Não sei dizer como, mas normal não foi. Conversamos, rimos e com isso o tempo passou. Até que Aria veio me procurar. Qualquer assunto que fosse se fez menos importante. Quando ela virou a atenção para seu redor ela travou. Não consegui decifrar o porque, mas foi de repente.

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– Spencer, tem um paciente seu que... — levantei a cabeça — Que... e-ele... está... Bom... — gaguejava e travava. Balancei a cabeça e suspirei. De nada adiantou — Ele veio... — estava na cara que a presença de certa pessoa tinha me afetado. Eu intercalava a atenção entre rosto de Spencer e do dela, mas acabava fixando mais na loira que na outra — Spencer a gente por favor pode conversar lá fora? — tomei todo ar em meus pulmões e disse num fôlego só

– Podemos — ela me fitou desconfiada apertando os olhos, confusa — Vamos — chamou, depois de me estudar alguns segundos

Seguimos para fora do quarto, ela me seguindo, até pararmos atrás da parede, virei de costas para a porta, ela à minha frente. Cruzou os braços, ficou me encarando curiosa, sem entender meu estado de instantes atrás. Resolvi fugir de qualquer pergunta que pudesse vir à surgir

– Então Spencer, é que tem um paciente seu que veio para uma consulta sem hora marcada. Ele disse que é importante — falei com calma, aproveitando a distância que eu havia estabelecido de Hanna naquele momento.

Eram apenas alguns metros longe, mas apenas de não ter que ficar encarando seus olhos eu já me sentia mais calma, o coração de palpitante acelerado, ia à calmaria. Spencer não me respondeu, nem ao menos se moveu.

– Você me ouviu Spencer? — perguntei irritada

– Sim Aria, ouvi. O que eu quero saber agora é o que está acontecendo com você. O que foi isso ali dentro? — perguntou num sorriso intrigado

– Nada. Do que você está falando? — me fiz de desentendida. Quem sabe assim ela me deixasse em paz. Doce ilusão

– Do que? Você ainda quer se passar por imbecil, Aria? Não tente me enganar, eu não sou você. — ok. Ela era uma das pessoas mais insistentes que eu já tinha conhecido

– Como assim: "Eu não sou você"? — nada melhor que uma evasiva

– Isso. Tentando se passar por tonta. E não mude de assunto. — falou indignada

– Você está à tempo demais nesse hospital, deveria procurar um psicólogo — ri ironicamente

– Eu? Quem anda perdendo o controle aqui, é você. — riu também — Agora me diga o que há com você. — ordenou

– Não há nada Spencer — eu já começava a alterar meu tom — Chega disso, eu não tenho nada, pare com essa idiotice de ser achona. Fica criando coisas onde não tem. Cuide da sua vida, que da minha eu tomo conta, já sou bem crescidinha para isso. Me deixe em paz — o nervosismo tinha me tomado, meus olhos deviam estar pegando fogo

– Que seja Aria, quando você estiver acabada no fundo de um poço, com problemas para resolver e não tiver mais ninguém para te ajudar, espero que também não venha me procurar, já que eu sou entrometida demais vou acabar falando mais e mais idiotices — ela estava magoada, esse era uma das suas formas de lidar com a mágoa: atacar.

– O recado está dado Drª, seu paciente te espera — fui indiferente, não me desculpei, não mais afrontei, apenas sai, pois minha raiva falaria mais forte, e eu não seria mais responsável por minhas próprias palavras

Sai andando, sem ter recebido nenhuma resposta. Eu precisava me acalmar, e tomar alguma coisa fria ajudaria. Talvez um cappuccino gelado, e bem doce, colaboraria. Tomei rumo à lanchonete do hospital.

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Quando ela levantou o olhar, seu olhos fitaram os meus profundamente. O frio e o calor batalhavam dentro de mim. Ela tinha se desestabilizado também. Era tão perceptível. Seu modo de falar à denunciou. Gaguejando, parando, não conseguia concluir sua frase. Como ficava linda, assim, intimidada. O rosto corado, a voz embargada. Sem tirar, nem pôr. Como de costume ela fugiu. Mas meu olhar acompanhou sua saída, e mesmo depois de já não se encontrar no meu campo de visão, eu continuava perdida, olhando para a porta, nem lembrando da presença de Emily. Até que ela chamou minha atenção, me tirando da minha bolha.

– Ei aguada, E-Ei. Terra chamando a loira aguada. — virei para olha-la, tentando dispersar as lembranças que voltavam à minha cabeça.

– Diga princesa — ri

– Quem é ela? — perguntou

– Quem? — estava tão fora do eixo, que nem entendi direito de quem Emily falava

– A baixinha que chamou a Spencer. — ah sim. Aria

– Por onde eu começo? — coloquei a mão no queixo como se estivesse pensando — Ela é enfermeira, melhor amiga da Spencer, minha cunhada, e... — parei. Quase me entreguei

– E...? — ela percebeu minha pausa repentina

– E é isso — ri, tentando disfarçar

– Hum. Bonita ela — elogiou, e meu sangue ferveu um pouco. Ciúmes.

– Hum. Nem venha se jogar pra cima dela — falei, querendo transparecer indiferença

– Por que, Srª Marin? — perguntou rindo maliciosamente — Ciúmes da cunhadinha?

– Não! — respondi imediatamente, quase antes de deixa-la terminar a frase — Só não faça isso, o Mike não ia gostar.

– Tem certeza de que é ele que não vai gostar? — manteve a malicia nos lábios

– Tenho — afirmei para ela, e rapidamente continuei — Emily, vou tomar alguma coisa na lanchonete, vim para cá correndo e não tive tempo de comer nada.

– Tudo bem, vai lá — me liberou

Assim que ia passar pela porta Spencer vinha entrando. Ela mantinha um olhar gélido, irritado

– Vou na lanchonete — avisei à ela

– Boa sorte — não entendi o porque dela ter dito aquilo, mas não perguntei, apenas segui meu caminho

Fui andando calmamente, até passar pela porta da lanchonete, e quando passei o olhar pelo local, me arrependi por ter ido até lá. Lá estava Aria, escorada no balcão. Só não dei a volta porque estava com fome, realmente não tinha comido e acabaria passando mal. Tomei ar, e segui, pisando forte. Ela estava exatamente, bem de frente com o atendente. Eu teria que parar do lado dela. Reuni forças e cheguei perto. Quando parei do seu lado, ela se virou para sair e acabou derrubando sua bebida na minha roupa.

– Desculpe, desculpe, desculpe — falou ainda olhando para minha roupa. Pelo jeito ela não tinha percebido que era eu.

– Não foi nada — segurei sua mão, a qual ela passava sobre meu braço, tentando limpar o estrago.

Foi quando ela subiu seu olhar, e me encontrou. Os olhos se arregalaram. Sua mão na minha. Ela abria e fechava a boca, certamente em procura de palavras

– Ha-Hanna — conseguiu dizer — De-Desculpe Me-Mesmo

– Já disse, não foi nada Aria. — sorri forçadamente, tentando ser apenas simpática, fingindo que não havia acontecido nada entre nós

– Como eu sou desastrada, me deixe te ajudar — pediu sem jeito, fazendo o mesmo que eu

– Não tem problema Aria, eu me viro — tentei, mas ela insistiu

– Por favor — pediu, já me puxando pela mão que eu não havia soltado da dela.

Fomos até o banheiro da lanchonete. Nós entramos e ela fechou a porta sem trancá-la e me guiou até a pia, pegou uma das toalhas de rosto que ali tinha, e molhou a ponta, logo em seguida á levando até onde mais estava manchado, e esfregando levemente. Ela não ousava me encarar, mas nossa proximidade era uma zona de perigo. Nenhuma das duas se moveu. Ela ainda tentava limpar a mancha maior, quando se aventurou a fitar meu rosto. Pronto! Meus olhos nos dela. Um perigo constante, e uma força que me trazia para mais perto dela. Alternei minha atenção entre sua boca e suas íris esverdeadas, era uma tentação grande demais.

Não suportei vê-la tão perto, e mesmo assim tão longe. Longe dos meus lábios. Não consegui mais exitar. Fechei meus olhos e me deixei levar. Beijei sua boca. O doce estava ali como antes, tão tentador e bom. Um vício delirante e tranquilizador. Ela não me enxotou. Ela simplesmente correspondeu. Moveu seus lábios contra os meus, tão á procura de contado quanto eu mesma. A mesma sensação de antes: éramos apenas nós duas, nenhum problema, ninguém. Minhas mãos tinham vida própria, se guiaram sozinhas para a nuca dela, segurando com força. As dela apertavam minha cintura. Num beijo lento e saboroso, nossas línguas se tocaram, deslizando uma sobre á outra. Guiei-a até a parede mais próxima, e a pressionei contra ela.

Nós nos trazíamos uma para mais perto da outra, aprofundando o beijo. Mas bendito ar que há sempre de faltar. Desgrudei nossas bocas, chupando sua língua fortemente, e colei meus lábios no seu pescoço. Beijei levemente, só que minha boca queria mais, e mais eu busquei. Comecei a chupar seu pescoço, e beijá-lo, e por fim mordi, mas mordi forte, cravando meus dentes na pele exposta, e recebi um gemido abafado em agradecimento. Apenas aquelas ações estavam me deixando excitada, resultando numa calcinha molhada, a qual eu já sentia lá embaixo.

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Notas finais
Espero que tenham gostado. Por favor quem nunca comentou, comente; e quem já comentou, continue. Indiquem para amigos, quanto mais gente lendo melhor. Até o próximo ;D