Minha vida em suas mãos. Spemily
19 19 - Confidências
Notas iniciais
Minha cabeça já começava a doer, não entendia o porque de Aria estar daquela forma, e eu só esperava ajudar, mas se ela não queria minha colaboração, então que simplesmente ficasse a beira do abismo sozinha, pronta para pular. Pensei que eu fosse alguém em quem ela confiava, alguém que se abrisse. Era uma questão de amizade e confiança. Ela estava diferente, talvez tivesse tido problemas com Ezra, ou com seus pais, não sei, mas nenhuma das opções se encaixavam. Ezra poderia te-la traído, mas eu seria a primeira pessoa para quem ela contaria, sempre foi assim, não fazia sentido, agora, ela não querer dizer quais eram seus problemas. Em todos os momentos ruins de sua vida, fui eu quem à dava um ombro amigo para chorar, era para mim que ela contava suas desilusões, suas mágoas mais profundas, problemas íntimos, qualquer coisa.
Mas dessa vez ela estava um tanto quanto absorta, se fechado no seu próprio mundo sombrio, sem me deixar mostrar a luz. E de certa forma, isso me deixava frustrada, pois ver seu melhor amigo, se afundando, sem se deixar ser puxado para cima, é agoniante. Me doía vê-la mal, eu me sentia mal por ela. Aria era também do tipo que sentia raiva por qualquer coisa quando estava magoada, mas comigo bastavam dois questionamentos e ela logo se abria, chorava suas mágoas, enfrentando-as, também, bravamente. Só que nesse momento ela estava atacando á todo custo sem deixar brecha nenhuma, colocando o mais forte escudo, e impedindo qualquer um de quebra-lo, se englobando.
Voltei desapontada para aquele quarto, uma raiva que me subia rapidamente à cabeça, lembrando que segundos atrás, Aria me acusava indiretamente de entrometida, quando eu apenas queria lhe ajudar. Hanna passou por mim, e para onde quer que ela fosse e consequentemente encontrasse Aria ela teria que ter sorte, pois poderia também ser enxotada. E foi simplesmente o que eu lhe desejei. Sorte. Ao entrar, vi Emily tentando se levantar, mas ela estava cambaleando um pouco, e fui rapidamente ajudá-la
– Ei, tome cuidado — falei gentilmente, segundo um braço com uma mão e lhe apoiando as costas com a outra
– Claro doutora — me respondeu em tom de brincadeira, se sentando na cama — Minha perna... eu não consigo mexe-la direito — me olhou confusa
– Emily, você quebrou uma perna, e foi necessário a colocação de um pino, você com certeza terá que fazer fisioterapia, mas logo estará de volta á sua vida normal. e tudo tem que ser bem feito. A ala fisioterapêutica daqui é muito bem equipada e tem os melhores profissionais. Faço questão de acompanhar todo seu tratamento.
– Como sempre, pelo jeito, não é doutora Spencer — riu
– Não entendi — ri confusa
– Você. Sempre cuidando de mim. Isso as vezes, deixa as pessoas mal acostumadas — deu uma piscadela para mim inocentemente
– Ah — senti minhas bochechas queimarem instantaneamente de vergonha — Não tem problema — falei já desviando o olhar
– Qual parte? Cuidar de mim ou me deixar mal acostumada? Pois eu não vejo problema em nenhuma das opções anteriores — um sorriso discreto e indecifrável tomou seus lábios
Desviei novamente meu olhar do seu e mudei de assunto completamente, fugindo de dar uma resposta, cuja qual eu nem conseguia formular. Ela tinha me deixado extremamente envergonhada sem nem ter feito nada demais.
– Seus pais são pessoas muito simpáticas, apesar de eu te-los conhecido numa época ruim, mas é totalmente notável como eles são amáveis e gentis. Eles se importam muito com você — afirmei, saindo do rumo de meu pensamento anterior
Primeiro ela me olhou, em meio à um sorriso desconfiado, percebendo a mudança rápida de assunto, e também, como se se perguntasse o por que daquela minha reação. Porém, ela não me questionou sobre tal comportamento
– Sim, eles são perfeitos, apesar de terem, como quaisquer outros pais, intolerâncias, implicâncias e tudo mais. Nossa relação sempre foi muito boa, exceto no tempo que me assumi para eles, ou para ser mais exata, para minha mãe. Ela ficou destruída, não queria aceitar minha opção sexual, ficou tempos sem falar comigo, apenas me ignorando, falando somente, unicamente e sofrivelmente, o básico. Ela não me olhava nos olhos, e eu muitas vezes, descobri ela chorando pelos cantos da casa, e aquilo me destruía também, pois ela é minha mãe, e vê-la decepcionada comigo daquela forma foi completamente desmoronante. — ela olhava para o nada, revivendo toda a situação, e tal gesto me fez doer o coração — Eu queria sim ser um orgulho para ela, da forma dela, mas de tal modo eu não pude, ou do contrário eu não seria feliz, e o que é um pouco de ignorância, quando o caminho é a sua genuína felicidade? Foi difícil, mas passou. Acho que ela compreendeu que essa sou eu de verdade, essa é a autentica Emily, a que sorri, a que vive a vida de um jeito que sabe que terá um sorriso no rosto, por não mentir para o mundo algo que não é. — sorria lindamente, os olhos brilhando, fixados no teto do quarto, pensando minuciosamente em cada palavra que proferia por seus lindos lábios
– Bom... eu gostaria de dizer que te entendo, até posso, mas... não dessa forma. Meu problema com meus pais foi sobre minha carreira — lembrei-me dos tempos de adolescente, quando meus pais viviam à falar que eu viria à ser uma grande advogada, juíza, ou qualquer outra coisa do ramo, o qual eles seguiam — A vontade deles era que eu seguisse o ramo deles... — ela me interrompeu
– Qual? — perguntou calmamente
– Direito. Era o sonho deles que a família toda seguisse junta no trabalho, uma empresa grande de advogados, e tudo mais. Só que tudo aquilo não me vinha bem à cabeça, eu não queria, e foi um inferno convence-los que minha vocação era a medicina, que eu tinha paixão por ajudar pessoas. Foi uma época chata na verdade, eles viviam zangados com tudo, e eu contrariada às ideias deles, também acabava enfurecida. Só que, eu, como sou uma pessoa determinada e corajosa, fui em busca do meu sonho. Estudei tanto. Passava madrugadas inteiras acordada, lendo livros e mais livros. E cá estou eu — sorri — Doutora Spencer Hastings
– Meus parabéns Drª, somos duas vencedoras — estendeu a mão para mim e eu à peguei
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Eu estava tão preocupada com os sentimentos que não saiam dos meus pensamentos e me tomavam por inteira, que tudo o que eu fazia era tentar ao máximo fugir de qualquer pergunta que pudesse me levar à um escorregão e abrir minha grande boca para soltar fatos presos à garganta. A única pessoa com quem eu poderia inteiramente me confidenciar, era minha melhor amiga, mas as coisas com as quais eu estava lidando eram novas, e ter em mim minhas próprias dúvidas, fazia de nada adiantar me confessar. Eu havia me prometido esquecer, e por alguns momentos até conseguia, só que meu livro do destino era maldoso e traiçoeiro, guardava em si páginas complexas, com labirintos abrangentes, e por fim dava a resposta mais simples e ainda assim mais complicada.
O choque que me abateu ao ver aquele paraíso em pessoa: sol e mar ao mesmo tempo, felizes e caídos, como dias de domingo em casa, um sol sugestivo a praia, e uma preguiça gostosa de cama. Foi quase que impossível de se acreditar na minha própria idiotice. Eu sabia do acordar de Emily, e nem assim me dei conta de que obviamente Hanna estaria ali. Apenas fui ao meu trabalho, e me dei com o motivo das minhas confusões, em carne, osso, e beleza. O travar da minha boca era fato, minha pernas tremulas, consequências, e um coração à sair pela boca, inconfundivelmente.
Seu olhar pesado em mim, formou-me inteira de agonia. Era sair dali, ou morrer em combate interno. Spencer com mil e uma dúvidas, ressaltou perguntas das quais eu fugia, e foi aí que minha cabeça fez ainda mais o sangue ferver. Era atirar o canhão em sua direção e sair correndo para o lado contrário. Foi simplesmente o que me pus à fazer. Eu estava tão fora de mim, que nem pensava no que falava, apenas me deixei ser rude, e acabei por brigar com uma das únicas pessoas que realmente tinha o interesse de me ajudar. Brigar com ela, ainda sim, não foi o lado pior. O péssimo foi minha consciência falando segundos depois, esmagando-se sobre mim.
Só resolvi que era mais viável tomar alguma coisa para acalmar os meus nervos alvoroçados. A lanchonete seria meu refugio. Primeiro erro. Mal sabia eu, que lá seria o lugar onde eu chegaria mais perto ainda do meu hospício interno. Uma xícara de bebida derramada. Um olhar me fazendo afundar, um mar todo me afogando num delírio bom. Gaguejei e fraquejei. Mas logo tratei de me constituir e fingir que eramos unicamente conhecidas, e que nada de mais tinha acontecido. Fui o mais simpática que pude, resolvi ajuda-la com o estrago em sua blusa, o banheiro era o lugar melhor para tal tarefa. Lá tinha água e toalha, e esses eram os instrumentos necessários.
Segundo erro do dia. Estar tão perto dela fazia meu coração palpitar tão forte, uma metralhadora no meu peito, com cartuchos e mais cartuchos de balas, um arsenal colossal. Tentei, realmente tentei, ficar controlada, me aquietar, e não fazer nada de que eu pudesse me arrepender depois. Mas foi impossível. Sentir novamente tal toque, um doce natural... Foi trivialmente utópico. Uma viciada, depois de meses internada, consegue fugir e traga seu tão bom e velho vicio para dentro. Não recuei. Não pude. Não consegui. Como eu estava viciada! Vício rápido, um único trago, e eu já era dependente.
Foi diferente do que da primeira vez. Estava sendo mais voraz. Sua língua entrelaçando-se com a minha, quente e macia. Inúmeras sensações me tomavam, um desejo que só crescia. A parede fria tocando minha pele não me incomodou, apenas fez esfriar meu tez em chamas. Sua cintura fina estava presa por meus braços, não querendo desgrudar um segundo sequer. Eu não compreendia o porque de ficar tão entregue, eu não tinha comando sobre mim mesma, por mais que eu tentasse era inverosímil, parecia atada a correntes, sendo arrastada, sem escolha. Naquele momento nada merecia fazer sentido, tudo era irrealmente real.
Minha excitação só se fazia maior, ainda mais com o forte ataque contra meu pescoço. Um ataque sensual e puramente gostoso. Ela tinha poder sobre mim, e eu também queria sobre ela. Esse era o meu maior problema, a minha maior contradição: no mesmo segundo que eu queria esquecer, eu à queria toda. Quando ela voltou a tomar meu lábios, reagi impulsivamente. Minhas mãos adentraram sua blusa, tocando a pele em chamas, posicionei-as sobre seu quadril e involuntariamente cravei minhas unhas no local, como resposta ela pressionou ainda mai nossos quadris. E eram mais sensações que me vinham.
Empurrei-a para trás, andando em passos lentos e desajeitados, até faze-la encostar no concreto gélido. Agora eu tinha um pouco de poder. Prensei-a forte, e deixei minhas mãos agirem. Escorreguei minhas palmas até a parte de trás de suas costas, mais precisamente no meio delas, e pressionei minhas unhas, não tão forte, nem tão fraco, e as arrastei devagar e dolorosamente sexy até o fim de seu dorso, e iniciei outro caminho, agora fazendo uma curva e subindo por suas costelas. Senti-a arrepiar, e conclusivamente arfar e soltar pequenos gemidos, mesmo tentando à todo custo esconde-los.
A resposta contra minha investida foi uma mão na minha nuca, e um leve puxão nos meus fios negros da raiz. Sua tensão sexual só se fazia mais e mais presente, eu sentia-a pairando no ar, tanto que ela enterrou seu rosto no meu pescoço, primeiro inspirando meu perfume, depois cravando seu dentes fortemente na curva em que se encontrava, e por fim selando o local afavelmente. Suspirei pesadamente, ainda de olhos fechados, exclusivamente apreciando o toque escorregando da minha nuca para meu colo, para meus ombros, pelos meus braços, até tocar as costas da minha mão. Entrelaçou nossos dedos, e desgrudou seu rosto da minha fauce e tratou de conectar nossos olhares.
Me perdi no poço dos desejos de águas azuis límpidas. Não alcancei forças para desviar, apenas a fitei reciprocamente. Senti meu braço subir, seus dedos agarrados aos meus. Direcionou e espalmou minha própria mão contra seu peito, fazendo-me sentir seu coração. Ele estava tão acelerado quanto o meu, batendo num ritmo frenético, como uma batida de rock pesado, com letra romântica. Fiz menção de falar algo, mas fui interrompida por seus lábios, selando os meus forte e demoradamente. Apenas correspondi. O errado era incontestável, mas também ardoroso. Era meu cérebro à comando de meu corpo e não o contrário.
Suas mãos seguravam meu rosto, e por um momento de consciência eu me esquivei. A razão tinha voltado à seu devido lugar. Ela tinha, naquele instante, os olhos arregalados, confusos, ainda segurando sua cintura consegui falar
– Isso é errado Hanna — minha voz era angustiada, mas seu nome soava macio e lindo
Suspirei pesadamente, sentindo-me um fiasco. Quem era aquela pessoa que já não tinha controle sobre si própria? Era impossível ser eu. Eu era forte e consciente, não essa garota frágil, uma marionete do meu próprio ser. Ah. Eu era vitima de mim mesma. As confusões pendiam no ar, deixando cada vez mais perguntas para o cosmo responder. Mas nada foi comparado com ouvir aquela afirmação que viria à seguir
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Seu toque era terno e aveludado, assim como ela num todo era meiga e suave. Sua voz macia, seu rosto delicado e seu corpo esbelto. Não havia pretensão nas minhas brincadeiras, mas ela parecia entender o contrário, e vê-la corar era lindo. Segurei firme o aperto e não soltei, testá-la era uma boa ideia. Ela me sorria tímida, e eu tentava á um bom custo não entregar meu jogo. Olhei fundo nos olhos dela, um castanho mais claro, totalmente fascinante. Permaneci séria e pude perceber que ela só ficava cada segundo mais acanhada, e chegava a ser engraçado. Tanto foi seu constrangimento que ela desviou o olhar. Não suportei e me pus a rir, soltando em seguida sua mão.
– Não fique envergonha, só estou brincando com você. Pelo jeito você facilmente se inibi
– Puf — ouvi atrás de mim
Me virei, e só naquele momento pude perceber a presença de uma senhora, já não tão nova, mas de aparência muito simpática e extrovertida
– Diga-me seus pensamentos — induzi a senhora, e ela assim o fez
– A doutora Spencer é facilmente inibida? — perguntou com uma expressão do tipo "Tem certeza?". Sem esperar resposta ela continuou — Spencer é o tipo de mulher que intimida, e não o contrário. Pergunte à qualquer um dentro desse gigantesco hospital, todos falarão o mesmo que eu, tenha certeza menina, você não deve conhecer mesmo está bela senhora à sua frente — e riu-se toda, falando para mim com toda convicção do mundo, cada palavra que lhe saia pela boca
– Dana — Spencer à repreendeu, mais era muito notável que suas bochechas estavam ainda mais coradas
– Me desculpe doutora, mas você sabe que eu tenho meu histórico em falar demais — fez uma careta a senhora e riu
– Dana, sou uma verdadeira vencedora, então. Olhe bem para as bochechas dela — falei unicamente para a velha simpática, fazendo como se Spencer não pudesse ouvir
– Considere-se no topo do pódio — Dana me respondeu amigável
– Acho que minha presença aqui não vale nada, realmente — Spencer se pronunciou, fingindo cólera
– Só estou te conhecendo melhor. Nada mais justo com alguém que passou tanto tempo amarrada à mim — confirmei cordialmente
– Concordo — Dana mais uma vez veio a falar
– Viu — falei para Spencer, apontando para a mulher, mostrando à ela que eu tinha razão
Ela não falou nada, apenas virou seu rosto quando ouviu o soar de sapatos vindos do corredor. Entrou pela porta a mesma enfermeira de antes, a tal cunhada de Hanna. Consegui me lembrar com pouco esforço, Aria era o nome dela. Seu rosto abundava de preocupação, desespero, e até mesmo um pouco de loucura. Os olhos apresentavam uma vermelhidão considerável, como alguém que está segurando o máximo para não chorar. Sua voz saiu rouca e sôfrega.
– Spencer, eu posso sair mais cedo hoje, não estou muito bem. — exprimiu sem rodeios
– O que há Aria? Você está pálida — Spencer estava preocupada
– Por favor Spencer, eu só preciso ir — uma lágrima escorreu por seu rosto, e na tentativa de esconde-la a morena abaixou a cabeça e ergueu as mãos, cobrindo toda a face
– Aria, ei — a doutora não exitou e foi imediatamente até o lado da amiga, segurando seus ombros afavelmente — Vamos, eu te levo embora
– Obrigada Spencer, mas não precisa, eu vou sozinh... — a mais baixa foi interrompida
– Eu. Vou. Te. Levar. — falou cada palavra pausadamente — Eu não vou te deixar sair daqui sozinha nesse estado — articulou um pouco alterada. Logo se virou para mim — Desculpe Emily, tenho que ir, e saiu dali sem dizer mais nada
Fiquei ali olhando para porta, confusa, curiosa. Fui me ajeitando, tentando deitar novamente, já que não tinha nada para mim fazer. Quando consegui arranjar uma boa posição olhei para a senhora que ainda estava no quarto arrumando algumas coisas numa prateleira. Fiquei a observando por alguns segundos e logo em seguida voltei minha atenção para o teto. Comecei a pensar na minha vida, e forçar minha memória para o dia do tal acidente. Era um dia frio, uma ida ao shopping e uma compra para minha amiga, eu precisava de inspiração para projetar e como sempre, nada melhor que meu chalé longe da cidade. Tinha arrumado tudo, havia resolvido passar o fim de semana todo lá trabalhando já que minha namorada tinha me deixado só.
Minha namorada. Quando foi que esqueci que tinha uma? Pelos céus, eu havia me abstraído de Maya. Não havia perguntado dela, mas ninguém, também, falara dela. Será que Hanna tinha avisado à ela que eu acordara? O jeito era perguntar quando ela aparecesse. E Hanna? Que lanche demorado era aquele? Já fazia um bom tempo que ela havia saído, não sabia dizer ao certo quanto havia se passado pois tinha perdido a noção dos minutos.
– Como você se sente? — a voz doce da senhora ecoou para dentro de meus ouvidos me trazendo certa paz
– Bem, dadas as circunstâncias — me virei respondendo-a e sorrindo por fim
– Você ficará inteira logo, menina. Há um bom tempo não vejo Spencer tão feliz como hoje. Os olhos dela estão brilhando — Dana falava olhando para o nada, certamente formando em sua cabeça o rosto da doutora
– Acho que ela ficou feliz por não ter que se sentir culpada por matar alguém — argumentei naturalmente
– Não garota, não é só isso. Eu não sei. Tem algo a mais nela, eu sinto isso. Não é apenas o alívio que caiu sobre ela, é uma outra coisa também
– Como o que? — encarei-a confusa, sem ter a mínima ideia sobre o que ela se referia
– Não sei dizer, menina, só sei que ela está totalmente diferente
– Se a senhora diz... — dei de ombros deixando de lado o momento de imprecisão de Dana
Em seguida Hanna entrou no quarto. Uma expressão perturbada, os olhos arregalados vigiando o vácuo. Ela nada falou, o mudo reinava dentro do cômodo. Seu rosto estava tão desorientado quanto o de Aria à segundo atrás, e eu me perguntava o que havia acontecido com aquelas mulheres
– O que foi Hanna? — perguntei sem obter resposta alguma, apenas tendo um corpo sem alma sentado ao meu lado olhando coisa alguma — Hanna — chamei novamente, e nada — HANNA! — dessa vez aumentei o tom da voz, falando firme e alto
– Oi — a loira me olhou assutada, depois de ter sido tirada de sua bolha
– O que você tem? — questionei indignada
– Na...nada — gaguejou negando, mentindo
– Eu fiquei um tempo longe de você, mas ainda te conheço muito bem.
– Sim — ela estava desnorteada
– Sim o que, pequeno gafanhoto? — continuei tentando uma reposta descente
– Sim — a alma dela devia ter sido roubada
– Ei Hanna, quer transar? — quem sabe assim ela despertava de seu sonho acordado
– Sim — pelos céus
– HANNAAAA — não suportei, e soltei um berro
– Está ficando louca — me olhou sobressaltada
– Sou eu quem lhe pergunta! — exclamei — Acabei de perguntar se você quer transar e você simplesmente confirmou — fitei-a revoltada
– Me desculpe Emily, eu estou fora de órbita — falou cansada
– Isso você nem precisava dizer — falei o óbvio
– Sabe, enquanto você estava em coma, muitas coisas aconteceram — agora ela esfregava o rosto, na tentativa de espantar seu esgotamento
– Eu tenho todo tempo do mundo — fui totalmente compreensiva, afinal, eu já havia notado certa mudança nela
– Eu não quero falar sobre isso agora. É muito complicado e...
– Já disse. Tenho todo tempo do mundo
– Mesmo assim, Emily. Eu quis dizer que é complicado para mim
– Eu vou respeitar seu tempo, mas isso não quer dizer que eu irei esquecer — sorri para ela, passando um pouco de força emocional — Então, mudando de assunto, você ligou para Maya?
– Liguei assim que estava vindo para cá. Ela disse que vinha logo que terminasse o serviço dela. Aproposito ela já deve estar chegando
– Assim, sem nem ficar entusiasmada?
– Desculpe. Sim
– Grande consideração da parte dela. Fica sabendo que a namorada saiu do coma e não dá a mínima importância — falei enraivecida
– Olha Emily, não quero te deixar pior do que você já está, mas a Maya não esteve tão presente aqui por esses tempos
– Para um doente, o que é mais uns dias no hospital, não é?
Hanna nada respondeu, apenas acenou com a cabeça concordando. Passamos pouco tempo conversando, lembrando dos tempos de criança, até que entra ela pela porta.
– Ei — seus olhos estavam cheios de lágrimas reprimidas — Emily — e desabou a chorar
A pouca raiva que havia se estabelecido em mim, se foi ao ver seu deslumbre natural passar pelo batente e vir em minha direção. Poucas coisas físicas tinham mudado nela, talvez o cabelo mais comprido, mais encorpada, mas o que realmente me chamou mais atenção foi seu cheiro. Agora não era mais aquele cheiro de maçã, e sim um de morango forte e doce que a acompanhava. Eu estava parada apenas observando seus movimentos, e foi realmente confortante sentir seu calor me abraçando, ternamente e dolorosamente.
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– Eu estou apaixonada por você — eu não sabia de onde havia tirado aquelas palavras, mas de algum lugar do meu interior, elas gritavam insistentemente, pedindo, implorando para sair.
Seus olhos tomaram uma expressão tão confusa, esgazearam-se, deixando que de perto o verde deles tomassem mais cor e brilho. Meu coração queria explodir como uma bomba atômica, tomando mais e mais pressão. As veias de meu corpo tinham parado de bombear o sangue corretamente, e meus pulmões perderam as habilidades de inspirarem e expirarem, meu chão tinha sido tirado, e eu não sabia se estava caindo ou flutuando. Eu não sabia se minhas palavras tinham sido libertadoras ou destruidoras. Tudo que eu queria era me teleportar daquele lugar, mas não para ir para um lugar qualquer. Eu queria estar dentro da cabeça dela, queria saber o que ela estava pensando.
Eu queria ler o livro do destino, pular alguma páginas de angústia e chegar, finalmente, no final, e saber que desfecho me aguardava. Mas as páginas só se passavam depois de cada uma ser lida inteira e corretamente, elas tinham um dispositivo inteligente. Seu rosto se empalideceu, as mãos foram se afrouxando do meu quadril, e ficando cada segundo mais longe.
– Não — foi a vez mais doída que ouvi um não em minha vida, um "não" sem pergunta, apenas a negação do meu sentimento. Não apenas. TUDO!
E vê-la sair pela porta fez doer ainda mais meu interior. Um tiro certeiro no meu coração, tal qual, me matou imediatamente. Matou minha alma. Eu havia posto de lado toda minha razão, toda noção do certo, e tinha deixado o coração agir. Mas minha felicidade não dependia só de mim.
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