Minha vida em suas mãos. Spemily
10 10 - Quando o mundo desaba
Notas iniciais
Eu estava possessa de raiva, a vadia que atropelou minha melhor amiga estava na minha frente, e eu não consegui me segurar. Avancei em sua direção com passos firmes e rápidos, ela se pôs de pé quando percebeu que eu fazia o caminho até ela, mas ela não devia ter feito isso, á não devia mesmo, com esse ódio me tomando, ela só deixou ainda mais fácil que a palma da minha mão fosse de encontro á sua face, o estalo foi alto, ecoando pela sala de espera. Pela minha visão periférica, consegui perceber que sua amiga me olhava incrédula, mas não dei muita atenção á isso, o meu problema era com a vadia Olivia Palito na minha frente. Logo que dei o primeiro tapa ela virou a cabeça meio de lado, horrorizada, passou alguns segundos, os quais só deram espaço para a raiva dentro de mim crescer mais, minha mão coçava e minha reação a aquele ódio maldito foi dar outro tapa na sua outra bochecha, ninguém fez menção de me segurar e foi ai que eu me descontrolei por inteira. Empurrei-a no sofá, no qual ela caiu sentada de frente pra mim, e eu agilmente, fui direto para cima dela e comecei a esbofetar seu rosto com a palma das mãos, mas ela não fazia nada, não se defendia, nem retrucava. Foi ai que percebi uma mão encostar no meu braço tentando me puxar para longe dela, mas sem muito sucesso, se pôs atrás de mim dobrando meus braços contra meu peito, encostando nossos corpos, na intenção de me imobilizar, senti um choque me tomar com o toque repentino, parei de tentar bater na maldita a minha frente imediatamente e me deixei ser levada para trás contiguamente. Apenas arregalei os olhos e fui sendo levada alguns passos para trás, enquanto a pessoa ainda me segurava, agarrada por trás, seu toque estava realmente me acalmando. Minha respiração pesada foi se estabilizando, meu peito que antes ia de alto a baixo, agora estava regular, os segundos daquela aproximação foram o suficiente para me acalmar por completa.
Quando os braços me largaram e o corpo que estava no meu se afastou, o frio tomou conta de mim. Até o momento em questão eu não tinha me dado conta de quem me segurava, nem me dei ao trabalho de me perguntar ou olhar. E assim que a figura saiu de trás de mim parando na minha frente me olhando chocada por alguns segundos, fixando seus olhos nos meus, percebi — era a amiga que acompanhava a outra na qual eu bati — eu sustentava seu olhar sem deixar que nenhuma expressão aparecesse, eu não conseguia, estava confusa por dentro, a raiva, as bofetadas, seus braços, aquela corrente que me acalmou, e eu só não conseguia expressar nada, logo ela virou para a outra sentada, — que tinha agora as maçãs do rosto vermelhas — peguntando a ela se estava bem, a qual só assentiu com a cabeça, deixando escorrer algumas lágrimas, e aquilo me afetou, realmente me afetou. Fiquei parada ainda sem reação, e ouvi passos atrás de mim, me virei e consegui avistar Mike vindo em minha direção
– Ei — chegou por trás de mim e me deu um beijo no topo da cabeça segurando minha cintura com uma das mãos e a outra apoiando minha cabeça
– Mike? — a menor perguntou admirada ao vê-lo, e fiquei confusa " Da onde eles se conheciam?"
– Aria? O que aconteceu? — fez a segunda pergunta intercalando o olhar entre ela, a outra e eu
– Segure sua criança que ela está descontrolada — disse sarcasticamente
– Quem é você para me chamar de criança? E da onde vocês dois se conhecem? — disse já irritada novamente
– Calma Hanna. Ela é minha irmã — Mike tratou logo de esclarecer calmamente.
Era só o que me faltava, a primeira pessoa da família dele que conheço e já não simpatizo, era essa a razão de não querermos colocar a família no meio da nossa relação, esses possíveis desconfortos que nós evitamos agora estava na nossa frente. Bufei revirando os olhos em resultado da sua resposta e olhei para ela e depois para a outra ainda sentada sem dizer nada e chorando baixinho nos braços da baixinha, que a acolhia, puxando o rosto dela contra seu peito, com uma mão em sua cabeça
– Eu quero saber o que aconteceu imediatamente, e quero ver a Emily — falei impaciente
– Olha criança, é só você ter um pouco de calma e ela vai te explicar tudo, e você não pode vê-la ainda — ela novamente se referiu a mim como criança e aquilo já estava passando dos limites, respirei fundo e dei um passo á frente e apontei o dedo na cara dela
– Primeiro: ponha-se no seu lugar antes de vir me chamar de criança, você nem me conhece. Segundo, gnoma: meu assunto não é com você, mas com a mudinha ao seu lado, então saia da minha frente e me deixe resolver meus assuntos com ela. — falei exasperada, e logo me direcionei para a amiga da minha lamentavelmente cunhada — Agora é com você. Como você se chama? — perguntei mais leve
– Spencer... Spencer Hastings — falou depois de de enxugar as lágrimas e se levantar olhando pra mim e logo oferecendo sua mão como cumprimento, a qual recusei de imediato
– Ok. Agora me diga o que aconteceu — falei decidida
Ela me contou tudo que havia acontecido, era possível ver em seus olhos toda a veracidade dos fatos, era obvia a sinceridade em suas palavras, e logo que ela terminou eu enrubesci de vergonha com meus atos de algum tempo mais cedo. Acabei me sentindo mal por ter sido rude e pedi inúmeras desculpas a ela
– Não, está tudo bem. Não se preocupe comigo eu mereci, eu faria o mesmo no seu lugar. Hanna não é? — perguntou
– Isso — respondi mais confortável
– Então Hanna, sua amiga está em coma, o caso dela é grave, ela bateu com a cabeça e o cirurgião não pôde fazer muito, pois é um local complicado, e se ele tentasse podia piorar a situação. Eu gostaria que você chamasse algum parente dela para poder dar a permissão para ela ser transferida para o meu hospital o Hastings Family, um dos melhores hospitais de toda Londres, ele é bem melhor equipado e preparado para casos como o dela, eu estou em dívida com ela e preciso fazer isso, preciso dar a ela uma chance melhor, eu quero isso, claro que vai ser tudo por minha conta, e eu só preciso da permissão — sua voz soava melancólica, eu já havia ouvido falar daquele hospital, em alguma revista ou jornal, apontando-o realmente como um dos melhores e assim que me lembrei me dirigi a ela
– Certo Spencer, eu falarei com os pais dela daqui a pouco, só que eles estão na América e se é grave como você disse o melhor é leva-la logo, então a permissão terá que ser por telefone, eu mesma não quero ela em perigo, quanto mais chances ela tiver melhor — e minhas lágrimas começaram a rolar, eu estava ciente da gravidade, ela estava em coma, e esse era um mal sinal
– Calma amor, vai tudo dar certo, você verá — Mike tentava me confortar em vão, baixei meu rosto contra as palmas das mãos na intenção de abafar meus soluços agora altos o suficiente para qualquer um perto da sala de espera escutar — Ei, ei olhe para mim — disse ele da forma mais afável possível, então levantei meu rosto e olhei em seus olhos e então ele me abraçou, e ficamos assim por um tempo, ali abraçados e sentados no sofá
– Eu estou muito cansada, preciso de um café — disse olhando para cima, tentando conter as lágrimas que voltavam a querer cair
– Aria você pode levar a Hanna para algum café aqui perto, eu não conheço nada, e bem, eu quero falar com o médico junto com a Spencer, se vocês não se incomodarem, pois a Hanna não está em condições de ficar mais aqui dentro e assim eu posso informar ela de tudo depois, e vocês também vão ter a oportunidade de se conhecer um pouco melhor — Mike pediu a sua irmã gentilmente, ela olhou pra mim e sorriu, voltou para ele e assentiu, já eu sem que ninguém percebesse revirei os olhos em desgosto.
Era obvio que a real intenção dele era fazer eu me aproximar da irmã dele, exclusivamente, já que mais cedo nos desentendemos com seus apelidos maldosos sobre mim. Só podia ser brincadeira, eu estava mal demais, só queria chorar no ombro dele, e ele acaba por me mandar ficar na companhia de alguém com quem eu menos queria, uma ignorante, preferia até mesmo a Spencer. Já nem conhecia minha cunhada, mas já não gostava nem um pouco, e ter que passar momentos difíceis com alguém detestável se torna pior ainda, a raiva se junta com a tristeza e vira uma mistura horrenda. Mas eu tinha que fazer aquilo por ele, que sempre foi tão bom e gentil comigo, eu tinha que suportar, e não seria por muito tempo, eu trataria de tomar café rápido e me livrar de sua detestável companhia o mais breve possível. Aceitei a proposta dele apenas com um sorris fraco e falso o suficiente para ele me olhar dando dando um sorriso de desaprovação e um aceno como quem diz "Vá lá, será bom."
Deixei ele na sala de espera com Spencer e sai sem nem olhar para trás e me dar ao trabalho de chamar... Aria. Aria a palhaça. Só soube mesmo que ela me seguia por conta do barulho que seus sapatos faziam, ao darem passos firmes atrás de mim. Sai do hospital, onde tinha um grande estacionamento em sua frente. Ali por perto eu sabia que deveria ter uma padaria, café ou coisa do tipo, em alguns míseros quarteirões de distância. Atravessei o estacionamento rapidamente parando na calçada, e fiquei ouvindo ela correr atrás de mim, comecei a rir para mim mesma, só por ser cômico o momento dela ter que correr para me alcançar. Ela parou do meu lado e foi logo falando
– Você pode ser menos estressada e me esperar por favor? — fez uma pergunta retórica, eu apenas olhei para e dei de ombros. Como quem não liga, ela revirou os olhos para mim e continuou — Então, onde quer ir? — disse olhando para os lados, provavelmente á procura de algum estabelecimento
– Vamos andando, o primeiro café que encontrarmos nós entramos — falei sem olha-la e comecei a andar pela calçada e ela só me acompanhou
Fomos andando sem dizer uma palavra uma á outra, e a única que coisa que me veio a mente foi Emily novamente. Nossa amizade era forte como uma corrente que puxa um caminhão, sempre fomos como irmãs, ela sempre me apoiou e me fez forte nos momentos difíceis e feliz em todos os outros, sempre fomos como carne e unha desde pequenas, quando morávamos em Nova Iorque. Eu também sempre a apoiei em tudo, sempre tentei ao máximo vê-la feliz, pois é isso que fazemos com pessoas que amamos, queremos vê-las sorrir, e eu amava Emily como a irmã que nunca tive, ela sempre foi meu pilar para me sustentar, meu palhaço para me fazer rir, e agora poderia estar tudo indo pelo ralo, pois aquele acidente tinha mesmo sido grave, eu sentia isso, eu sabia disso, foi isso que Spencer relatou e ela não iria mentir só para desgraçar a minha vida. Agora lembrando, acho que era esse o mal pressentimento que me veio durante a festa, era isso que havia me incomodado e eu não tinha dado atenção suficiente. Acho que era isso. Nós somos ligadas uma á outra, pois somos assim, melhores amigas, as quais não se largam por coisa alguma, as quais o tempo, nem ninguém, nem um amor louco pode separar, era isso, nossa amizade era forte o bastante para durar até o fim dos tempos e isso martelou meu coração, o machucou, o feriu o bastante para sangrar dentro do meu peito.
Minha vista foi ficando embaçada, meus olhos estavam marejados o bastante para as lágrimas caírem, continuava a andar, passando ainda em frente ao hospital, o qual era grande o suficiente para ocupar dois quarteirões, até que cheguei a esquina onde parei esperando o sinal para pedestres ficar verde, ainda evitando ao máximo chorar. Nunca gostei de me mostrar fraca na frente das pessoas, mas estava exorbitantemente difícil dessa vez, de uma forma que nunca foi, ali parada levantei o rosto para cima, apertando os olhos o máximo possível, com as mãos enfiadas no bolso do meu casaco, e fiquei assim por cerca de meio minuto, até que uma mão tocou meu ombro, desapertei os olhos, suspirei e virei meu rosto para ela que me olhava docemente, com um sorriso triste, pelo jeito ela entendia o que eu estava sentindo, sorri de canto devolvendo a gentileza ,e ainda olhando para ela, uma lágrima teimosa rolou pelo meu rosto, e eu sabia que logo mais, viria uma tempestade delas, ela levantou a mão e com polegar enxugou minha lágrima, baixei os olhos para o chão e logo voltei-os para o sinal agora já verde. Já ia voltar a andar no momento que ela entrelaçou nossos braços e só assim se pôs a andar junto a mim. Ficamos assim, sem dizer nada, por mais um quarteirão, mais uma esquina, até que encontramos um café, com portas de vidro, e no alto delas, uma escrita em metal-3D "Shadow Coffee", com algumas mesas de madeira MDF tabaco redondas, com duas cadeiras — ou três em volta de algumas — na frente do estabelecimento.
Adentramos o lugar e nos acomodamos numa mesa encostada na vidraça gelada, ela sentou de frente para mim sorrindo, olhei-a sem retribuir seu sorriso desta vez, e virei meu rosto olhando pelo vidro transparente, olhando pro nada, apenas divagando nos meus pensamentos, na tristeza que me consumia, cruzei meus braços sobre a mesa e enfiei meu rosto entre eles e me pus a chorar baixinho. Não queria perder Emily de forma alguma, e isso só de pensar na possibilidade, isso estava acabando comigo, me corroendo fortemente, me deixando em ruínas.
A dor de pelo menos se cogitar perder alguém que se ama, é grande o bastante, para se arrepender de não ter feito tudo que devia para vê-la feliz o tempo todo, é grande o bastante para já se querer que sua própria vida se desfaça, antes mesmo que aconteça com o outro. A dor da dúvida é a mais angustiante, pois nela você acaba colocando na ponta do lápis coisas que poderiam ter sido melhores, faz você lembrar das brigas e desavenças, e pensar que elas foram tão inúteis, e que você poderia ter feito tudo diferente e não magoado ninguém, e assim você se acaba, dentro de seu próprio mundo cruel, que o devasta inteiro, te levando para um poço sem fundo.
A mão dela tocou meu braço, afagando-o de uma forma tão boa, tão carinhosa e... apaixonante. Levantei meu rosto encharcado, que gelou com o ar que o tocou e olhei para ela. Aria era linda. Não tinha parado para repara-la, mas agora com calma e ainda mais perto, pude reparar seus olhos verdes, intensos e incrivelmente bonitos, sua boca vermelha pelo frio, tudo num rosto redondo perfeito. Não cessei as lágrimas, estranhamente, olhando assim para ela, eu não precisei, eu não senti essa necessidade de esconde-las. Ajeitei os braços deixando uma mão debaixo do rosto e a outra mais a frente com a palma aberta sobre a mesa e deitei novamente minha cabeça, mas agora de lado. Ela deslizou sua mão que ainda repousava sobre meu braço e colocou-a sobre a minha, logo levantou minha mão e segurou meus dedos com os seus. Fiquei ali sem dizer nada apenas segurando sua mão quente e chorando quietinha.
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