Minha vida de gato vira lata - SasuSaku
2 Capítulo II - Maldito Hyuga
Notas iniciais
Aquele maldito envelope parecia pesar toneladas entre meus dedos — curiosamente ele era mais leve que uma pluma macia se alguém chegasse e falasse pra mim. O nome grifado na folha áspera me causava náuseas, me fazendo relembrar os anos torturantes que passei em uma casa luxuosa e fria, com pessoas assustadas servindo aos lobos sedentos.
Lobos em pele de cordeiro!
A escrita bem desenhada denunciava o autor de olhos perolados e sorriso de galanteador barato, que eu sabia que residia em Paris, desfrutando dos cômodos quentes da minha família esnobe e distante.
Um verdadeiro parasita! Maldito seja.
Suspiro, desviando o olhar do peso dos meus problemas, olhando a paisagem parisiense por de trás do vidro fosco do carro, tentando focar no trabalho por enquanto. Era a única coisa que me impedia de ir direto a casa de Neji e meter um soco bem dado naquele nariz empinado. E eu pensando que meu dia seria tranquilo, como outro qualquer, infelizmente estava mais para agitado e estressante, que nem aquela avenida truculenta e movimentada por carros, ônibus e pessoas apressadas em motocicletas de cores reluzentes.
O museu do Louvre passava do meu lado esquerdo, com pessoas disputando uma vaga na fila para entrar, me imaginando como parte delas, sendo apenas um turista que queria tirar fotos para mandar a família comum em um ambiente tranquilo. Não era errado se iludir um pouquinho, ainda mais tendo parentes tão amargos quanto um limão no período de safra.
—Shannarooo….que bosta, por que voltar agora seu desgraçado_ bufo irritada, querendo jogar aquele envelope — ainda lacrado — no meio fio e esquecer que um dia ele existiu.
Quando fui embora daquele fim de mundo tradicionalista e tóxico não me importei em avisar ninguém — tirando as pessoas que fizeram parte, mas isso poderia contar no dedo. Neji nem estava em casa quando catei minhas coisas e parti porta a fora daquele lugar; Hinata me ajudou com a passagem para Paris e foi desligamento total do mundo burguês.
Não sou mulher de ter arrependimentos — talvez por ter deixado de ter contado com Hina, minha meia irmã — , não era agora que ia voltar ao meu passado e encarar rostos que eu já tinha esquecido.
O motorista tossiu, me encarando pelo retrovisor do táxi, me lançando um olhar questionador. Foi aí que me toquei que o carro tinha parado na frente do prédio mediano, minha parada.
—Oh, er, quanto deu moço?_ pego minha bolsa, enfiando o envelope de qualquer jeito nela, ouvindo ele ser duramente amassado por um zilhão de coisas ali dentro, buscando minha carteira com o rosto quente de vergonha.
—12 euros senhora _ suspiro, puxando uma nota e algumas moedas, entregando ao homem de traços grosseiros, saindo do veículo o mais rápido que meu raciocínio era capaz de processar.
A placa vintage do ateliê de Kakuzou era incrivelmente grande, até demais pro imóvel tão estreito na movimentada rua cheia de lojas e bares badalados. Coloco meus óculos escuros, passando sem chamar a atenção dos demais que andavam despreocupadamente pela rua, empurrando a porta de vidro fosco do lugar, dando de cara com Pain na frente do computador, com cara de tédio.
—Que recepção mais animada e está, melhor que qualquer funeral_ sorrio ao ver os olhos castanhos brilhando ao me ver, com sua silhueta sofisticada rodeando o balcão lustroso, me dando um abraço apertado. Seu cheiro de lavanda e sabão de maracujá veio forte, assim como a maciez de suas roupas limpinhas. Como aquele homem era cheiroso, meu kami-sama.
— Sakura! A mulher do momento _ retribuo o gesto carinhoso, tirando meus óculos quando nos separamos.
— Só fui modelo da Gucci por um ou dois momentos, chère _ Pain revirou os olhos, me puxando pela mão, com um sorriso de orelha a orelha.
— Mas foi, e é a nossa cliente mais elegante. E sempre um prazer atendê-la_ aquela bajulação me dava uma pontada de satisfação, de que era a modelo mais procurada e gostosa do momento — o que não era a vez, já que meu empenho estava mais nas publicações da revista e na minha belíssima coluna de celebridade.
— Achava que era a Mito a mais elegante_ debocho, sentando na poltrona aveludada, pegando uma garrafa de água que me foi oferecida pelo ruivo.
— Ela não chega a seus pés, querida _ reviro os olhos, rindo alto junto com ele, tomando um gole da água gelada.
Pain era um homem com seus 30 anos, irmão do famoso estilista Kakuzou, na qual ajudava sendo recepcionista em seu ateliê, enquanto fazia faculdade de moda a noite — era um homem esforçado e admirava seu ilustre e famoso irmão mais velho, que por falar nisso, era o nome do momento da moda parisiense, todas as modelos queriam ter a oportunidade de desfilar com suas peças de alta costura.
No caso, já tinha desfilado duas vezes e aquela seria terceira vez, modéstia a parte adorava causar inveja na pista e nas belíssimas fotos que Konan tirava em cada publicidade que envolvia o ateliê do moreno.
Seu ateliê ficava num lugar de destaque, na rua mais movimentada, além de estar perto o suficiente de uma das regiões mais caras de Paris. Era um imóvel estreito, no meio de dois prédios modernos.
A recepção, assim como na maioria dos cômodos que já tinha visitado, tinha as paredes brancas, com araras, bustos e cabides vestidos com seus trabalhos cheios de detalhe e cor. As janelas eram destaque da sala de espera, com o sol penetrando o suficiente para deixar o ambiente claro, com cortinas de seda e algodão protegendo os clientes das altas temperaturas do dia.
Tomo mais um gole de água, vendo o moreno sair de um corredor largo, trajando um terno azul marinho, com sapatos de bico fino e gravata preta ao redor do pescoço, com os cabelos escuros presos em um rabo de cavalo frouxo. Ao me ver Kakuzou abriu um sorriso, me cumprimentando com dois beijos estalados em minha bochecha assim que levantei.
—My chère, que honra ter Haruno Sakura em meu ateliê mais uma vez _ seu sotaque londrino soava estalado em sua boca, me sentindo mais leve. Não tinha como não amar aquele homem.
— Não tem respondido minhas mensagens, precisei vir pessoalmente_ o alfineto como de costume, recebendo um bico nos lábios finos. Ele odiava perder seu tempo com tecnologia que não envolvesse trabalho.
— Estava criando, my cher, não posso perder o gancho da criatividade, e pecado _ sorrio, passando meu braço ao redor do seu, o acompanhando pelo corredor_ separei roupas magníficas para você provar.
— Se você assina, não tem como não ser magnífico.
— Realmente, eu sou um gênio_ solto uma risadinha, vendo o quanto seu peito se estufava quando seu ego era massageado. Acho que por isso ele e Sasori não se davam bem_ Pain, me ajude aqui com nossa princesa, vou pegar as peças lá atrás.
Pain me guiou até um dos provadores exclusivos, pedindo às assistentes do moreno para me ajudarem com as roupas assim que chegaram da parte de produção. Passei a manhã toda e parte da tarde provando, ajustando e massageando o ego de Kakuzou, que parecia mais animado a cada peça que provava. Quando o relógio da parede deu 15h da tarde, já sentia meus dedos doloridos de tanto subir e descer daquele pedestal. Me sentia um manequim em exibição na vitrine mais cara de Paris.
Deixei tudo acertado no ateliê com Kakuzou, assim como o horário das fotos no estúdio, colocando meus óculos escuros ao sair do lugar, sentindo-me aliviada por ter terminado aquela parte do dia. A parte tranquila do meu dia.
"Mas a pior parte estava por vir, que estresse", penso, acenando para um dos inúmeros táxis que passavam por ali, sentindo a essência de jasmim assim que abri a porta do veículo.
— Para onde senhorita?_ tiro meus óculos, olhando pela última vez à fachada do ateliê, pensando seriamente se ia pro inferno ou ia pra minha casa me enfiar debaixo das cobertas quentes pra assistir netflix o resto do dia.
“Que seja”
— Toca pro inferno….digo, pra rua L’Abreuvoir, nº 233, s’il te plaît_ apoio minha cabeça no vidro, não olhando pro motorista que apenas seguiu. O carro deu um breve solavanco, deslizando pela avenida suavemente.
Aperto minha bolsa contra meu peito, com um gosto amargo na boca, sentindo meu corpo ser tomado por pequenos espasmos à medida que o táxi se aproximava do destino. As árvores bem podadas, o cheiro de flores, aquela rua era belíssima na primavera, divertida no inverno e, agora, alaranjada no outono, era o cenário perfeito para tirar fotos. Paris era uma cidade intensa, incrivelmente bonita e com paisagens de tirar o fôlego, mas no momento, o que eu queria era me enterrar nas catacumbas da cidade, no meu mundinho silencioso e tranquilo.
Mas quando fechava os olhos, só lembrava do emblema da família hyuuga em minha correspondência — nem tive coragem de abrir. O que quer que esteja naquele envelope iria devolver nas mãos do dono da letra desenhada, e dar as costas como fiz da última vez.
— Chegamos, senhorita _ desvio minha atenção, encarando os portões de ferro envelhecido, com o símbolo da casa de minha família incrustado em bronze, com as iniciais do sobrenome Haruno. Por trás um casarão de quatro andares, estreito e alto, era destaque na rua bem arborizada, com as paredes em tons frios quase que desaparecendo no vermelho das folhas de outono.
A porta de madeira grossa, na qual sempre abri com gosto quando meu pai ainda era vivo, me recebendo com um forte abraço, assim como minha mãe. Diferente do calor do falecido Haruno, agora, o casarão era apenas a morada de um único homem, um intruso, um parasita.
Um maldito Hyuga.
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