Minha terra tem palmeiras...
9 Gêmeos farroupilhas
Notas iniciais
NUNCA!
Nunca esqueça o repelente mágico!
Danilo coçava freneticamente atrás da orelha, onde um inseto que mais parecia uma mini foca com asas o picou... e não apenas uma vez. Doia, ardia e aparentemente Tião não se importava nem um pouco, já que ria da cara do colega de quarto sem piedade.
— Você tem um coração de trevas — Danilo acusou enquanto saiam da sala de transfiguração.
— Eu sei — Tião sorriu presunçoso — Qual a próxima aula?
O menino parou mão que coçava e pegou o papelzinho no bolso interno da capa verde escura.
Transfiguração
Transfiguração
Feitiço
Almoço
Poções
Herbologia
— É feitiço, sabe onde fica a sala? — Danilo olhou ao redor procurando por plaquinhas.
O professor Osmar, que inclusive leciona transfiguração, havia mostrado aos alunos novos onde ficavam cada sala no dia anterior. Mas é obvio que nenhum deles decorou tão facilmente.
— Acho que por aqui! — Tião saiu correndo em direção a um grupo de garotos da turma deles — Bruno, você sabe onde é a sala?
— Espera! — Danilo tentou correr atrás do colega, mas não conseguiu.
Uma perna começou a doer. Ele puxou a barrada calça para fora da bota e levantou. Uma picada feia e avermelhada se encontrava bem entre as juntas do joelho... Como esses bichos conseguiram picar ali??? Danilo gemeu sentindo a perna ficar dormente... E se perdesse a perna?! Talvez devesse ir rapidamente à enfermaria. Mas aonde fica?
— Me desculpe! — Alguém falou alto dos corredores, que já estavam vazios... sem o menor sinal de Tião.
—— Vou te ensinar olhar por onde anda, sangue-ruim — Uma voz feminina veio da mesma direção.
Danilo, que reconheceu uma das vozes, correu mancando em direção a ela. Virou o corredor em tempo de ver uma garota loura, alta e de traços delicados empurrar Lucas no chão com violência. Depois ela pegou a mochila dele e virou-a esparramando todos os materiais no chão. Quando ela tirou a varinha do bolso da lateral da calça, Danilo soube que deveria fazer alguma coisa.
— Hey! Pare com isso — Ele gritou atraindo a atenção da garota e de um garoto, muito parecido com ela, que estava alguns passos atrás sem fazer nada.
Quase que pulando, por consequência da perda, o menino correu para ajudar Lucas se levantar. Uma vez em pé este o empurrou sussurrando "O que está fazendo?"
— Olha, Marco. Parece que o caipirinha arrumou mais um amiguinho fracassado — O garota disse debochada para o louro alguns passos atrás dela.
— Parece que sim — Marco deu de ombros desinteressado.
Ela olhou com desprezo para os dois meninos e perguntou para Danilo:
— Sangue-ruim ou traidor ? — Sem resposta. Ele ficou em silêncio encarando desafiador a garota — Bah, tanto faz! Mas você sabe que está defendendo o filho do demônio, certo? Ou o caipirinha esconde esse fato quando faz novos amigos? — Ela riu maldosa e debochada.
Danilo pode ver Lucas serrar o punhos e olhar resentido para o tal de Marco... era como se esperasse que ele fizesse alguma coisa, mas o garoto alto de pele alva permaneceu em silêncio com os braços cruzados e fingindo que nada acontecia.
— Sabe, Prata. Eu tenho pena de você — Lucas disse solene e para a confusão de Danilo ele falou para a garota, mas olhando de relance o garoto... como se dissesse para ele, não para ela... O que está acontecendo aqui?
"Vaca"... Danilo olhou abismado para o garoto ao seu lado que era um palmo mais baixo. Ele disse mesmo isso? Não ouve tempo para ter certeza, pois no instante seguinte a garota avançava para eles com a varinha empunhada e os traços delicados completamente retorcidos de raiva.
— O que disse, sangue de bosta?!
— Chega, Grim! — Marco se pronunciou agarrando o braço dela e lhe tirando a varinha. — Temos que ir para a aula — E saiu arrastando-a.
Lucas ainda estava encolhido e com os olhos fechados, mesmo depois dos dois alunos mais velhos terem sumido pelos corredores, ele foi abrindo os olhos de mel devagar... estavam tão tristes.
— Quem são eles? Porque fizeram isso com você?
— Marco e Grimondana Prata, são sangues-puros do terceiro ano — Lucas massageou a base da coluna onde havia batido quando caiu no chão. Suspirando ele começou a recolher os materiais espalhados pelo corredor.
— Que nome horrível... — Danilo torceu o nariz pro nome da garota e depois acrescentou sério — Mas por que implicaram com você?
— Sangues-puros — Lucas apontou o corredor por onde os dois tinham sumido — Sangue-ruim — Apontou para si próprio um tanto irônico — Precisa de mais?
— Não se chame dessa forma! Não tem problema nenhum em ser nascido-trouxa — O menino parecia horrorizado por Lucas usar aquela palavra tão preconceituosa para si definir.
— Se você quer saber, tem sim muitos problemas. — Ele guardou o último livro na mochila -—Enfim, Valeu! Se bem que você não fez nada, mas o que vale é a intenção... Obrigado!
— Hum... ok — Danilo se sentia muito triste pela situação. Por algum motivo utópico ele pensou que não haveria esse tipo de problema ali, mas estava enganado. — Eu senti que tinha que fazer alguma coias.
— Pois é, gritar "Hey, pare!" até que funcionou, meu herói — Lucas riu divertido apesar dos olhos tristes — Vamos, estamos perdendo aula.
Ele começou a caminhar e Danilo pulou atrás, com a perna picada cada vez mais dolorida e paralisada. Não aquentando ele desistiu de seguir o outro.
— Espera! Minha perna, alguma coisa me picou — Ele gemeu indicando que precisava de ajuda.
— Subestimou o repelente? — Lucas riu divertido — Deixa eu ver... Puts! É melhor você ir para enfermaria agora! — Ele ficou sério de repente ao ver a região avermelhada.
Apoiado no menino menor, Danilo foi carregado por corredores e escadas até pararem de frente a um enorme arco de pedra cuja a porta era apenas uma grossa cortina branca. Lucas afastou a cortina e ajudou o ferido entrar.
— Dona Barbara! — Gritou alto para a sala cheia de leitos e armários com poções.
— Pois não — Uma mulher rechonchuda saiu de trás de uma porta e veio na direção deles, sorrindo fofa e balançando as banhas.
— Ele foi picado — Lucas puxou a calça de Danilo para cima mostrando a região avermelhada.
Sem dizer nada, Dona Barbara tirou o garoto dos braços do outro e o arrastou para um dos leitos. Danilo deitou e ficou observando a mulher pegar um pode com uma água marrom e folhas de ervas. Ela jogou o líquido sobre todas as suas picadas... Ardeu como o inferno! Gemeu de dor sem saber qual doía mais, a picada da perna ou da orelha ou as dos braços.
— Agora segura essa bolsa gelo em cima das picadas até melhorar e nunca mais esqueça o repelente — Dona Barbara apontou um dedo no rosto do menino e depois saiu resmungando — Esses novatos sempre esquecendo...
Aos poucos Danilo foi voltando a sentir a perna melhorar, as dores e cocegas passaram completamente. Foi então que sentiu a falta de Lucas. O procurou e o encontrou a dois leito a esquerda ao lado de um garoto de pele dourada, dentes tortos e cabeça raspada.
— Esse é o Reginaldo. Manézão, esse é o Danilo — Lucas os apresentou assim que sentiu o olhar do garoto mais novo.
— Oi... cof cof! — Reginaldo o cumprimentou e depois tossiu de arranhar a garganta.
— Oi! O que você tem? — Danilo observou as manchas avermelhadas nos braços do garoto.
— Baixa autoestima e você?
Era sério essa?... Pela forma descontrolado que Lucas riu, não deveria ser. Mas pela forma severa que Reginaldo olhou para o amigo, repreendendo, poderia ser verdade... Enfim Danilo começou a sentir-se totalmente recuperado e levantou... Estava perdendo a aula de feitiço!
— E eu de Poções — Lucas deu de ombros como se aquilo não importasse... como assim? Não faltar as aulas era uma das regras da Inspetora.
— E eu todas — Reginaldo riu pelo nariz e foi acompanhado por Lucas.
— Você está é perdendo a vida, amigo! Melhoras — O garoto de olhos cor de mel acenou para o enfermo e puxou Danilo, o levando para fora da enfermaria.
Dona Barbara entregou um papelzinho, comprovante de que ambos estiveram ali, antes que saíssem. Danilo ainda mancava pelos corredores, mas se sentiu aliviado por estar melhorando.
— O que o Reginaldo tem de verdade? — Perguntou de repente para Lucas.
— Sei lá. Ele fica doente três vezes por semana desde... sempre — Deu de ombros — Aqui que eu fico.
Lucas sorriu e depois se afastou entrando em uma sala... E agora? Danilo estava perdido sem saber para onde era a sala de feitiço e ainda sozinho. Começou a caminhar um tanto sem rumo a procura de sua sala. Levou minutos sem saber para onde ir, quando...
TOM, TOM, TOM
O alto barulho de sinos que ecoou pelos corredores indicavam o término da terceira aula do dia... Droga! Perdeu uma aula inteira! Danilo levou as mãos à cabeça um pouco desesperado... Logo no primeiro dia! Ele suspirou e seguiu os alunos, que enchiam os corredores, na direção do Refeitório do Primeiro. Antes de entrar no local sentiu uma mão segurá-lo pelos ombros.
— Onde esteve? — Era Tião e ele parecia preocupado — E se a Branchela decide te expulsar, você é maluco?
— Uma daquelas picadas inflamou e tive que ir à enfermaria — Explicou simplificando.
Ouviu-se um assobio no salão cheio de alunos. Era Lucas, sentado ao lado de Ylara e os chamando. "Vem!" Ele gritou.
Danilo se sentou entre Ylara e Tião. O almoço foi servido e estava delicioso. Lucas cochichou algo no ouvido da garota de cabelos enrolados e apontou discretamente uma mesa, ambos riram. Danilo seguiu o olhar deles e encontrou os irmãos do mal os encarando, Grimondana com cara de assassina tramando o crime do século e Marco com uma expressão séria e indecifrável.
— Então você colocou os gêmeos farroupilhas para correr apenas mandando? Nada mal — Ylara deu umas palmadinhas nas costas de Danilo e sorriu.
— Não foi bem isso...
— Por que ele não quis sentar aqui? — Tião ,de repente falou, interrompendo o colega e apontou uma mesa distante onde estava Pablo com outros alunos de laranja.
— Talvez, porque ele prefira ficar com pessoas que falam a mesma língua que ele — Ylara respondeu dando de ombros.
— Mas eu falo!
— Está com ciúmes, Barãozinho? — A menina sorriu mostrando os dentes completamente brancos e brilhantes.
— O que??? É claro que não. Eu sou cabra macho, garota! — Tião exaltou a voz e Lucas caiu em uma gargalhada descontrolada.
— Bode —Danilo corrigiu e recebeu olhares interrogativo dos outros três — Macho de cabra é bode — Explicou inocente.
Lucas e Tião gargalharam juntos sem piedade, Ylara sorriu compreensiva para ele e explicou,paciente, que era apenas uma expressão... Droga de expressões! Nesse momento que Danilo sente as bochechas esquentarem como brasa.
TOM, TOM ,TOM
Os sinos bateram novamente indicando que deveriam voltar para as aulas. Os dois segundanista vão para sala de Defesa contra Artes das Trevas e os outros dois, do primeiro, vão para aula de Poções. Dessa vez Danilo conseguiu seguir sua turma sem se perder,afinal agora a perna estava boa!
A sala de Poções tinha um cheiro esquisito igual a professora Joselina... foi as horas mais chatas de todas! A professora não os deixou tocar nos caldeirões, ela decidiu escrever na lousa as instruções de uma poção para curar furúnculo e fez os alunos copiarem... o problema era que essas instruções já estavam no livro de poções que ganharam da escola!!! E para "melhorar" no final da aula a professora disse:
— Na próxima aula vou ensina-los como cortar corretamente os ingredientes, na próxima como acender o caldeirão e na próxima vamos começar a fazer a poção. Não é entusiasmante! — Ela quase bateu palmas de alegria para os vinte cinco alunos entediados — Ótimo! Estão dispensados.
— Dá para acreditar nessa aula? — Tião conversava indignado com Danilo enquanto caminhavam para as estufas de Herbologia — Em casa eu fazia poções muito mais avançadas do que cura pra furúnculos.
— Eu ajudava meu pai a fazer algumas também. Parece que ela pensa que não somos capazes! — Danilo acrescentou igualmente indignado.
— Talvez vocês devessem entender que nem todo mundo vem de famílias bruxas — Bruno, que caminhava ao lado deles, falou um pouco magoado e se afastou à passos duros.
— Falamos algo errado? — Tião fez uma expressão de desentendido.
Danilo não respondeu, mas sentiu ficar corado...Dizer algo ignorante assim logo depois de ver Lucas ser intimidado por sangues-puros? Tudo bem, daqui para frente ele tomaria mais cuidado com a língua. Até porque Bruno tinha razão, alguns alunos nunca tinham tido contado com a magia antes e manda-los fazer uma poção logo no primeiro dia de aula poderia não ser tão eficiente.
Na aula de Herbologia o professor Florêncio deu um vasinho com graminhas-agarra-pé para cada aluno e ensinou como aquela espécime curiosa era utilizada em muitos lugares mágicos, como o Palácio da Vertente... Finalmente as aulas acabaram e estava na hora do jantar.
No Refeitório Danilo sentou com Tião, Ylara e Pablo... Onde estava o Lucas? A garota de olhos escuros o respondeu, assim que acabou a aula o amigo desapareceu pelos corredores sem dizer nada.
— Ele estava muito triste hoje — Ylara ainda acrescentou e Danilo murmurou um "Hum".
Após a refeição, pouco a pouco os alunos foram se retirando das mesas. Danilo levantou quando Ylara também o fez e juntos saíram do Refeitório deixando um Tião e um Pablo, que não paravam de comer e conversar, para trás. Pelo caminho eles não se falavam direito, por alguma razão Danilo não conseguia puxar assunto com ela... Chegaram no penúltimo andar e logo o garoto de cabelos escuros notou uma pessoa sentada nos limites dos arcos- paredes.
— Ann... Tchau! — Ele sorriu para a garota e caminhou rápido na direção de Lucas que balançava as pernas no ar.
— Não tem medo de cair? — Danilo perguntou olhando a altura do andar. Era possível ver as caiporas como pontinhos vermelhos pulando pelas árvores.
— Não tem como cair — Lucas declarou tristonho — Feitiços de proteção, sabe?
— Ah, sabia! — O menino sorriu e se sentindo mais aliviado, teve coragem de sentar ao lado do colega.
Assim eles ficaram; sentados, admirando o sol se por atrás da floresta, em silêncio absoluto, apenas as respirações fazendo barulhos discretos... quando:
— Você tinha amigos? — Lucas perguntou puxando um joelho para abraçar e acrescentou: — Da onde veio?
A imagem de Sally, a garotinha de porcelana, saltou para o campo das lembranças... esses dias todos ele não havia pensado nem uma única vez na menina. Se sentiu muito mal pela insensibilidade. "Não quero outros amigos" a voz dela ecoou em sua mente...
— Sim, eu tinha — Respondeu minimalista, não querendo trazer de volta mais lembranças.
— Eu também — Lucas repirou fundo e continuou — Mas ai eu recebi a carta. Eles foram para uma escola pública comum e eu para uma "escola militar"... É o que a Vertente nos orienta dizer. E agora, mesmo nas férias, não os vejo mais.
— Por que não?
— Para não correr o risco de me embolar com as perguntas... os funcionários da Vertente nos orienta a afastar dos trouxas, por segurança.
— Eu sinto muito, Lucas — Danilo não sabia o que dizer, nunca tinha parado para pensar como era quando os nascidos-trouxas recebiam suas cartas.
— Tudo bem, pelo menos assim conheci a Ylara e agora você — Ele sorriu e apoiou uma mão no ombro do novo amigo.
Danilo retribuiu o sorriso ainda sem saber o que dizer, mas se sentia feliz por dentro. Então se lembrou de algo que Grimondana disse mais cedo... é horrível só de pensar nesse nome! Ele riu sozinho.
— O que a... Grimondana — Também era horrível de pronunciar — quis dizer com você ser "filho do demônio".
O semblante de Lucas endureceu e depois relaxou triste. Ele se levantou do chão e disse:
— É uma longa história, fica pra outro dia. Acho melhor irmos dormir — Puxou a capa a tirando e embolou até virar um pacotinho nos braços.
— Tem razão, vai que Pisadeira pega a gente — Danilo disse temeroso.
— Não se preocupe, ela não costuma vir no andar dos dormitórios — Lucas falou confiante — Já fiquei aqui até de madrugada, ela nunca veio.
Lado a lado os amigos caminharam para os corredores fechados e deles para o dormitório.
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