Minha redenção
36 Trezentos e um.
Notas iniciais
Querer.
Verbo de inúmeros significados, muitos.
Mais amplos que somente aquele usado em conjugações verbais.
O querer profano, aquele que fere, aquele que machuca.
O querer puro, aquele que protege, aquele que zela.
O querido. O desejado, o ambicionado.
Aquele que corre, aquele que teme.
Aquele que ama, aquele que quer.
Três formar de querer.
Que se fundem, que se completam.
~Chibi lord
Claude
Eu vi quando eles deixaram a casa e os segui. Eu deveria ir embora mas eu simplesmente não conseguia! Ter testemunhado aquele beijo entre o meu doce pássaro e aquele outro predador imundo me fez perder a noção da prudência. Eu usava um boné, óculos e um cachecol, mesmo que não fosse tão frio. Eu tinha motivos para esconder meu rosto.
Eu precisava ver aonde aquele homem levaria o meu Ciel, o que faria com ele, se o beijaria novamente! Creio que eu não suportaria. Muito provavelmente atiraria no maldito se o observasse tomando a boca de meu querubim mais uma vez.
Eles foram ao cinema. Fiquei aguardando do lado de fora, atento ao momento em que eles sairiam da sessão. Minha mente perdida em devaneios, cogitando se eram apenas beijos que aquele homem roubara daquele que era o objeto dos meus mais sórdidos desejos.
Terminado o filme eles saíram e passearam pela feira de antiguidades que havia nas ruas. Tudo o que eu via era Ciel, sorrindo ao lado do tio, feliz e despreocupado.
Que desejo de discipliná-lo...
Que vontade de me revelar e ver sua reação.
De arrebatá-lo durante alguma distração do maldito tio.
Mas este jamais se distraía. Seus olhos sempre seguiam o menino e sua mão, sempre que possível, tomava a do jovem. E eu ali, saboreando minha inveja e minha raiva.
Foi quando uma mulher de cabelos vermelhos se aproximou deles e eu notei a atitude do tio de Ciel mudar. Ele ficou tenso, diria até que ele se tornou outro.
Ciel se aproximou e tinha no rosto a inocência de quem não sabe o que está acontecendo.
Quem seria a mulher? E porque o homem mudara tanto na presença dela? Eu vi o mal estar estampado no rosto dele.
Eles foram juntos a uma casa de chá e eu continuei a segui-los, mantendo-me oculto em meio aos transeuntes. Eu fiquei do lado de fora, observando-os pelas imensas janelas. Eu tinha a sensação de que esse encontro, por mim testemunhado, poderia oferecer-me alguma arma contra o meu inimigo. Ao final de quase uma hora eles deixaram o estabelecimento. Vi a dama de cabelos rubros oferecer, sorridente, um pequeno cartão ao meu querubim antes de ir embora e também vi o tio o retirar das mãos deste.
Parecia que finalmente a sorte resolvera brilhar para mim. Quando eles se afastaram eu percebi que o homem amassara o pequeno papel e o jogara na lixeira. Me aproximei e a vasculhei em busca do papel. O encontrando e descobrindo ser um cartão de visitas.
"Doutora Angelina Durless, psicóloga". Havia também o endereço do seu consultório e um telefone. Eu não podia ligar, obviamente, então... Eu decidi ir até lá. Observei meu pequeno pássaro bicolor desaparecer com o tio na multidão e mentalmente lhe prometi que eu o iria buscar tão logo eu pudesse. Virei-me e parti rumo ao endereço informado.
Era um prédio grande em uma das regiões nobres de Londres, vários escritórios de médicos direcionados a tratamentos psicológicos e psiquiátricos. Poderia não ser nada, mas eu senti um arrepio de ansiedade ao ler aquele pequeno papel. Poderia mesmo não ser nada mas eu preferi acreditar na minha intuição.
Invadir o local não foi difícil, havia pouca segurança. Apenas um homem de meia idade que dormia em uma guarita. Era final de semana e o prédio estava vazio.
Entrei pelo estacionamento, me estreitando pelas paredes. Minhas mãos suavam. Peguei mais uma vez o papel dentro de meu bolso, olhei o número da sala antes de subir pela escadaria de incêndio.
Trezentos e um, dizia a placa na porta branca. Eu girei a maçaneta, estava trancada. Observei o capacho em frente à porta e o levantei. Encontrei ali uma pequena chave. Sorri amplamente. O quanto essa gente confiava naquele segurança dorminhoco?
Entrei. A sala era ampla e bem decorada. Prateleiras repletas de livros, um sofá, uma mesa, a poltrona e o tão clássico divã. Em um canto havia um armário de arquivos. Este também estava trancado, fui até a mesa da doutora. Lá um porta retrato da mulher com uma criança e um homem sorrindo alegres. Procurei pelas gavetas, não encontrando chave nenhuma desta vez.
Fiquei irritado, revirei as gavetas, joguei os papéis no chão. Eu precisava achar algo que me ajudasse a abrir aquele maldito armário.
Encontrei um extrator, um objeto pequeno de ferro usado para retirar com cuidado os grampos das folhas. Admirei o objeto em frente ao rosto, aquilo serviria. Forcei a fechadura com ele, tive um pouco de dificuldade mas finalmente consegui abrir a gaveta.
Nela várias pastas, organizadas por nomes em ordem alfabética. Procurei na letra C mas não encontrei Ciel. Então optei por ir para a letra P e encontrei o que procurava.
Uma pasta cinza, de plástico, com várias divisórias. Num canto, escrito em letras pretas em um recorte de ofício e colado com fita adesiva lia-se: Phantomhive.
Mas não era sobre meu Ciel e sim sobre o tio.
Abri a pasta e peguei uma folha qualquer.
"Sebastian tem pensamentos pessimistas sobre a própria existência. Ele acredita que o destino o castiga pelo sentimento errôneo que cultiva. Ele mesmo costuma dizer: ‘Eu sou um monstro por querê-lo assim’.
Ele falara sobre Ciel para a mulher? Olhei no canto superior direito da folha. Havia uma data, uma data antiga, mais ou menos uns quatro anos atrás. Não, não podia sobre Ciel que ele falava.
Peguei outra folha qualquer e li mais algum trecho da escrita bonita da doutora: "O paciente parece saber que seus desejos e sentimentos nunca serão correspondidos, mas ainda assim se nega a seguir em frente e deixar-se envolver com outro alguém. Para Sebastian só existe o irmão".
Eu arregalei os olhos. Oh...! Aquilo estava cada vez mais interessante!
Continuei lendo, indo mais para o fim da mesma folha: "Vincent permanece mantendo Sebastian afastado da família. Sebastian sabe o porquê. Mas não nega e nem nunca negará seus sentimentos pelo irmão. O afastamento forçado de Vincent o deprime em demasia. Fazer o paciente entender que seu amor pelo irmão precisa ser superado é difícil, ele não acredita que possa deixar de o querer. Tenho receios de que Sebastian se mantenha para sempre preso a esse sentimento, se negando a ter outro alguém em sua vida".
Vincent? Seu próprio irmão? O pai de Ciel?
Aquilo era maravilhoso!
Parece que eu tinha encontrado uma forma de fazer com que meu pequeno passarinho batesse suas delicadas asas até a minha gaiola.
Saí do consultório às pressas, levando junto de mim a pasta. Desci novamente pela escada de incêndio. Eu teria que esperar até a segunda para agir. O que me daria um tempo para poder organizar as minha idéias.
Ah... meu passarinho... não tema, eu não me demoro. Eu vou livrar você desse monstro e você pertencerá a mim de corpo e alma.
Sebastian
O domingo transcorreu de modo normal. A Senhora Coburgo teve a sua folga semanal o que nos rendia um tempo a sós. Ela avisara que voltaria tarde.
Mas eu não conseguia relaxar. O menino, com a cabeça deitada em meu peito, ria vez ou outra colhendo com as mãozinhas as pipocas da bacia em meu colo.
Eu amava aqueles momentos calmos entre nós. Eu amava todos os momentos em que estávamos sozinhos. Mas meu peito estava pesado.
O cão dormia tranquilo também, em cima do sofá ao lado de Ciel. Este vez ou outra acariciava a pelagem do animal.
– Quer trocar de filme? Ou fazer outra coisa? — Ciel perguntou elevando o rosto e me olhando.
– Não, por quê? — Eu respondi.
–É uma comédia e você não está rindo. — ele passou o dedinho em meu peito com um olhar triste. -Você está preocupado com algo?
Acariciei o rostinho dele. Sim, eu estava preocupado com algo. Não sabia definir o que, mesmo que lá no fundo a minha conversa com o meu advogado fosse o motivo.
Ainda assim eu não desejava manchar a felicidade de minha criança com temores tão inexplicáveis. Suspirei e beijei o topo de sua cabeça. Meu peito amargurado e uma vontade de chorar. Que sentimento era esse? O que estava acontecendo? Por que essa sensação de que algo de horrível aconteceria?
– Ciel... — falei levantando seu rosto. — Amanhã quero que fique em casa.
Ele fez uma expressão desentendida, mas esperou eu terminar.
–Não quero que vá a aula. Não quero que saia de casa. Está bem?
– Mas por quê? — ele perguntou.
As mãos ambas em meu peito, agarraram minha camisa.
– O que está acontecendo? Do que tem medo, tio? Por favor, me diz. –ele pediu assustado.
– Ciel, por favor, só faça o que eu estou lhe pedindo. Fique em casa e eu lhe prometo que isso será o suficiente para que eu fique bem. – eu lhe disse, o nariz passando pela bochecha macia. — Só... por favor, fique seguro.
Antes que ele dissesse qualquer coisa eu prossegui, beijando seu rosto e depois o seu pescoço. Distraindo-o de sua ansiedade.
– Eu preferia ficar aqui ao seu lado. — senti o corpinho em meus braços se arrepiar conforme meu nariz resvalava pela pele branquinha. — Mas tenho compromissos importantes amanhã. Então só me prometa que ficará aqui com a sra. Coburgo.
– Sim... ahn... está bem... — ele respondeu dengoso.
Eu sabia bem como o distrair. Minha língua acariciou logo abaixo do queixo delicado e ele gemeu baixinho.
– Ciel? — o chamei. Seus olhinhos piscaram para mim, lutando contra a vontade de permaneceram fechados, pelo fato dele ter minha boca passeando pelo seu pescoço alvo.
– Eu quero sim, fazer outra coisa hoje. — Eu disse temeroso. -Você quer?
Sim, eu estava explicitamente convidando meu sobrinho a fazer amor comigo. Eu precisava sentir que ele me pertencia, eu precisava sentir que ele estava ali comigo. Eu o queria tanto.
– Sim, quero. — ele falou baixinho, o rosto corando adoravelmente.
O beijei delicadamente nos lábios, o ergui em meu colo e o levei para meu quarto.
Naquela noite eu o fiz meu pela segunda vez e, assim como na primeira, foi deslumbrante, emocionante e mágico. Como algo carnal podia ser considerado divino?
Eu não sei como e nem porquê. Mas estar com Ciel em meus braços era sim, algo comparado a um milagre.
Dormimos abraçados, os corpos suados e nus. Eu trancara a porta para a governanta não entrar ali. Eu não queria Ciel longe de mim, eu precisava que ele estivesse tão entregue a mim quanto eu estava a ele. Somente o calor dele, do corpo dele junto ao meu me acalmou de meus temores.
Na segunda pela manhã o despertador tocou me acordando. Ciel estava desgastado a ponto de nem se mexer. Beijei várias e várias partes de seu corpo antes de ir para seu quarto e pegar uma muda de roupa dele para que, quando acordasse, ele pudesse tomar um banho.
Deixei a muda de roupa dobrada no meu lado da cama. A porta eu fechei a chave, deixando uma sobre o criado mudo para que ele pudesse sair quando despertasse. Eu disse à nossa governanta que Ciel tivera um pesadelo na noite anterior e dormira em meu quarto. A instruíra para que não o incomodasse, que deixasse ele dormir até a hora que quisesse.
Eu também deixara, junto á chave no criado mudo, um bilhete para Ciel.
"Por toda a minha vida esperei por alguém que aceitasse o meu querer.
E você não só me aceita como também me quer.
Te amo mais do que posso suportar. Te quero tanto que chega a doer.
Nunca, nunca se esqueça disso, Ciel, você é o que de melhor eu tenho em minha vida.
Eu sempre e para sempre te amarei.
Do seu amado, tio e protetor, Sebastian.
Tenha um bom dia. Nos veremos a noite. "
Eu sentia uma urgência em lhe deixar aquelas palavras de amor, em deixar para ele este pequenino registro dos meus sentimentos. Eu ainda me sentia muito inquieto, algo dentro de mim se remexia, me angustiava. Eu me sentia assim desde que meu advogado me contara sobre a explosão na penitenciária, mas desta vez a sensação era muito pior.
Olhei o relógio e notei que me atrasaria. Saí e peguei o meu carro. Talvez o trabalho me distraísse. Não havia porque eu me preocupar tanto. Ciel ficaria em casa com Sky e a sra. Coburgo.
Puxei o ar, respirando fundo para me acalmar e parti até o meu escritório.
Ciel
Passei a mão pelos lençóis macios, procurando meu tio Sebastian. Abri meus olhos ao notar a sua ausência. Eu estava sozinho em sua ampla cama.
Sentei-me e me espreguicei. Bocejei e esfreguei os olhos para afastar os resquícios do sono. Observei meu próprio corpo, ainda nu, envolto apenas levemente pelo macio linho. Eu tinha pequenas marcas avermelhadas por todo o meu peito e por minhas coxas. Evidências dos beijos doces e mordidas suaves e carinhosas que eu recebera na noite anterior. Ri baixinho, pensando que meu tio parecia fazer questão de me cobrir de marcas de amor, como se para demonstrar que eu era todo dele.
Bem, eu também lhe deixara lindas marcas. Eu também gostava de deixar na pele dele sinais de que ele era meu. Éramos dois possessivos, na verdade.
Havia sobre o lugar dele na cama, uma muda de roupas limpas que ele deve ter deixado para mim. Me levantei para tomar banho e então vi um bilhete no criado mudo, ao lado da chave do quarto.
Eu peguei o papel e o abri, e meu sorriso abriu-se a cada palavra que eu lia. Meu coração se aquecendo e se enchendo de luz. Ao final, tolamente eu abracei o bilhete, sussurrando para o nada como se meu tio pudesse ouvir minhas palavras.
– Também te amo mais do que posso descrever...
Corei em seguida, levemente envergonhado por meu comportamento de tolo apaixonado.
Levantei-me e fui, todo sorrisos, tomar o meu banho.
Mal podia esperar para que ele voltasse ao final do expediente.
Eu me sentia tão feliz, nada poderia estragar o meu dia.
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