Minha redenção
2 De céu turvo a céu azul royal
Notas iniciais
Levei meus dedos trêmulos à maçaneta fria, a porta rangendo ao ser aberta. Dentro do quarto completamente branco de um hospital estava deitado, em um embrulho de cobertas amarrotadas, o garoto que eu não via há quase dez anos.
O filho de meu irmão, meu sobrinho. Um menino de aparência frágil, o rosto retorcido em uma expressão tristonha e um braço quebrado. Não dormia, mas não fez menção alguma de ter me notado ali. Me aproximei da cama, puxando uma cadeira até que o móvel estivesse ao lado da cama e me sentei nesta. O observei, notando só agora que silenciosas lágrimas escorriam por um de seus olhos. O direito ainda tinha um curativo tapando-o. Alguns hematomas e arranhões marcavam a pele , mas nada disso poderia me livrar da surpresa macabra que tive, quando, dias atrás o vi pela primeira vez desde que ele deixara de usar fraldas.
Ciel era uma representação fiel de Vincent. Um pouco menor que ele nessa idade mas, ainda assim, idêntico. Só os olhos, estes azuis como o céu, ele herdara da mãe. Toquei a mão livre do gesso em um pedido mudo para que ele me olhasse, ele virou o rosto em minha direção lentamente e de minha parte eu achei digno ofegar. Era como se a vida resolvesse me dar outra chance.
– Ciel... — o chamei baixinho. E o quarto foi engolido pelo som dos soluços melancólicos do menino. Talvez para ele também fosse difícil, da mesma maneira que era difícil para mim. Afinal se ele lembrava-me Vincent quando criança, eu o lembrava o pai em sua idade atual. Eu e o Vincent éramos gêmeos.
Me segurei para não deixar-me cair na tentação de me juntar à criança naquele momento de desespero. Em um movimento desengonçado dei-lhe um meio abraço e selamos ali um contrato. Sem palavras, sem explicações. Eu não precisava dizer que sentia muito por sua dor ou que a entendia. Eu a sentia também e ele parecia saber disso.
Parecia saber que, assim como ele, eu não conseguia falar e por este fato eu era extremamente agradecido.
Após poucos minutos desfiz o contato entre nós, levantei respirando fundo e fazendo força para conseguir encarnar meu papel. Eu tinha mesmo muita habilidade em atuar, fingir era uma das minhas melhores qualidades.
– Você recebeu alta. — eu disse enfim, ajeitando meus cabelos.
Ele fez força para levantar querendo ir embora imediatamente, mas o corpo estava frágil.
– Me leve. — de joelhos na cama ele disse, os braços estendidos em minha direção. — Por favor, me leve...
Eu fiquei atordoado, até mesmo a voz era igual à de meu irmão.
– Me leve, para ver meus pais. — a voz falhou em soluços, a respiração ofegante e ainda assim uma determinação em suas ações que também só podia ter herdado do pai.
Depois disso deixei o hospital com o garoto em meu colo, Eu já havia acertado a conta quando cheguei e fui informado que meu sobrinho tinha ganhado alta. Dentro do carro o coloquei no banco de trás onde certamente ele ficaria mais confortável, coloquei-lhe o cinto e dei a volta entrando no automóvel e rapidamente dando a partida.
–Talvez prefira ir para meu apartamento? Tomar um banho e trocar de roupas?
Afinal ele ainda usava a roupa do hospital, eu não tinha levado nada, não sabia que ele teria alta e quando ele me pediu colo para que eu o tirasse de lá rapidamente meu plano de avisar que voltaria em casa para pegar uma muda de roupa se fez obsoleto.
– Não. — foi tudo o que ele respondeu e foi também tudo que disse o trajeto inteiro.
Quando chegamos ao cemitério e fui ajudá-lo a sair do carro ele foi taxativo ao me informar que conseguia caminhar sem a minha ajuda.
Resolvi que seria melhor deixá-lo sozinho com sua dor, talvez isso ele tivesse puxado a mim, quem sabe? Mancou um pouco na distância curta de onde deixei meu carro até o seu destino.
E meu coração se apertou ao ver a criança se ajoelhar em frente aos túmulos dos pais. Parecia sumir diante das duas imponentes lápides de mármore. "Vincent Phantomhive. Amado marido, pai e irmão." Era o que dizia uma delas. Ele permaneceu lá por quase uma hora antes que começasse a chover e eu me visse obrigado a buscá-lo.
De volta ao carro o silêncio era massacrante. Eu queria dizer que a partir de agora as coisas melhorariam. Que ficariam bem, que eu como único parente vivo cuidaria dele e que talvez em pouco tempo seríamos quase felizes. Mas eu era bom em fingir, não um mentiroso.
Meirin era minha secretária. Ela era quase como uma amiga, me ajudou a cuidar de todos os detalhes dolorosos do velório. Meus pais estavam mortos e os pais de minha cunhada também. Meirin também me ajudou a organizar um quarto em minha casa para Ciel.
O que antes era um escritório agora serviria de quarto para o garoto e foi neste lugar que o deixei logo que chegamos ao meu apartamento.
As malas de Vincent e de Rachel eu guardei na lavanderia e as dele eu pedi para a diarista arrumar no roupeiro. Ele ficou quase quinze dias internado então deu tempo de tomar as medidas necessárias, ou quase todas, para recebê-lo. Afinal, em nenhum momento eu reneguei que agora meu sobrinho era minha responsabilidade, apesar de tudo. Era ao menos o que eu podia fazer pelo meu amado irmão, cuidar da criança dele.
Vincent e Rachel, junto do filho, viajavam para férias felizes em família. Uma família da qual eu tinha sido excluído quando, em uma tempestade, a pista ficou extremamente escorregadia e meu irmão perdeu o controle do carro fazendo este rolar ribanceira abaixo. Com o impacto meu irmão morreu na hora, minha cunhada ainda foi levada às pressas para o hospital quando os paramédicos chegaram, mas não resistiu vindo a falecer horas depois do marido. O menino ficou gravemente ferido, quebrou um braço e teve escoriações graves no lado direito da cabeça. Mas em nenhum momento perdeu a consciência e teve a confirmação, logo após a sua cirurgia, que os pais estavam mortos. Afinal, meus olhos vermelhos e minhas atitudes titubeantes não me deixaram negar quando este me questionou se seus pais estavam vivos. Naquela hora eu não conseguira fingir.
Eu não sabia bem o que fazer naquele momento, talvez cozinhar e o chamar para um jantar onde teríamos uma conversa sobre como as coisas seriam daqui pra frente fosse o certo. Mas em vez disso eu me entorpeci com os remédios que me eram receitados para dormir e me deixei levar por um sono doloroso, deitado em minha cama.
"Tinha em meu colo o pequenino, as bochechinhas eram rosadas e os olhos eram tão lindos, mesmo que eu soubesse de quem vinham. Brincava com as mãos em meu rosto, soltando uma risadinha adorável, eu fazia esforço para que ele se interessasse pela pelúcia que eu lhe levara de presente de aniversário. Um coelho branco com um colete azul. Fazia com que a pelúcia beijasse suas bochechas, mas a sua atenção não se desviava do meu rosto.
– O que você ainda faz aqui? — Vincent entrou na sala, sendo rápido em tirar o garoto do meu colo.
Não respondi, não me atrevia a falar diante da cena tão perfeita que se desenrolava à minha frente. Ambos os meus amados Phantomhives juntos.
– A festa já acabou. Vá embora! — ele disse ríspido. Fez que ia sair da sala com o pequeno Ciel no colo. Este, atento, se mantinha calado com os grandes olhos indo de mim para o pai.
–Vincent, eu... — comecei — Sei que já te pedi perdão por aquele dia, mas...
Ele se virou para mim, os olhos cintilando de raiva.
– Eu suporto você só por causa de Rachel. Mas existe um limite, Sebastian, e ver você com meu filho no colo é o limite. — ele segurou fortemente o garoto em seus braços e eu o olhei chocado.
– Eu nunca faria mal a ele, você deveria saber disso. Eu o amo.
O seu olhar ficou, se possível, ainda mais raivoso.
– Sei bem como é a sua forma de amar... — lágrimas começaram a escorrer pelo meu rosto. -Você me dá nojo, Sebastian, eu cansei de negar o que quero, e eu quero você longe de nós, quero você bem longe da minha família. — ele disse, daquele modo, sempre calmo como sempre era. E era isso o que mais me destruía, ver que ele não ficava nem minimamente abalado em me expulsar de sua vida.
Eu o segurei pelo braço, agoniado, eu não poderia viver longe deles, longe dele.
– Você é a minha única família, Vincent, você e o menino! — ele se soltou com pressa de mim, como se meu toque o queimasse.
– Acha mesmo que eu quero alguém como você perto do meu filho? Eu vi o modo como você o olhava Sebastian...
– Eu nunca faria mal nenhum a ele. — me defendi. Era, afinal, a verdade — Eu nunca machucaria meu sobrinho.
– Eu já sei. — ele disse cheio de escárnio. -Você o ama.
O olhei atordoado. Era tão difícil ver Vincent agindo daquele modo, ele que era sempre tão dócil, tão meigo.
–Você é um monstro, Sebastian, e eu o quero longe de nós. Por favor, saia da minha casa e esqueça que eu sou seu irmão. Esqueça das nossas existências..."
Acordei suando, o barulho de algo caindo na cozinha sendo a causa.
Olhei para o relógio na cabeceira da cama. Duas horas inteiras haviam se passado desde que me deitei. Continuei a ouvir o barulho na cozinha. Só poderia ser Ciel, afinal não havia mais ninguém no apartamento.
Senti um certo remorso. Com certeza o menino deve ter ficado com fome e foi buscar algo para comer. Eu não posso mais me abandonar a essa dor da perda e deixar Ciel de lado. Ele agora morava comigo e ainda estava se recuperando. Como adulto, eu devo cuidar das necessidades dele antes das minhas.
Levantei-me e segui para a cozinha, pronto para dizer a Ciel que eu faria algo para o jantar e que ele descansasse enquanto aguardava mas ao entrar no cômodo, meus olhos se arregalaram com a visão.
Ciel estava parado diante do forno de microondas, de costas para mim. Ele usava apenas a calça do pijama azul. Estava descalço e sem camisa.
A mesa estava posta para dois, os pratos, talheres e copos arrumados. Ele estava preparando algo não apenas para si mas também para mim. Por alguns momentos senti o peso da culpa mas em seguida ela foi esquecida por outro sentimento.
Eu via as costas nuas de Ciel. A curva delicada de seus ombros, a pele clara ainda marcada por arranhões e hematomas, o cabelo macio levemente bagunçado.
Era Vincent. Era como eu me lembrava de Vincent quando ainda éramos próximos, enquanto ele ainda não me rejeitara. Meu coração, sempre ele, acelerou, martelando meu peito. Minha mente vagueou em cenas perdidas do passado. O apito agudo do eletrodoméstico, anunciando que a refeição estava pronta, me assustou, fazendo-me sair de meus devaneios. Ciel se virou para pegar a luva térmica sobre a mesa e só então ele me viu.
– Oh! Eu... desculpe. Eu fiquei com um pouco de fome, a porta do seu quarto estava fechada... Achei um congelado no freezer e decidi preparar o jantar... Espero não ter feito nada errado... — ele se explicou tímido, adoravelmente rubro.
– Não, está tudo bem. Eu é quem deveria fazer isso... me desculpe... — passei a mão pelos meus cabelos um tanto nervoso.
Ciel me olhava com aquele imenso e lindo olho azul, o outro ainda coberto por uma bandagem. Meu sobrinho tinha um rosto realmente encantador. Fiquei ali como um tolo olhando para ele, sem saber bem o que dizer ou como começar qualquer assunto. Meus olhos desceram para o gesso em seu braço e em seguida para o seu peito. Havia um hematoma de bom tamanho logo acima de um de seus mamilos e fiquei observando o contraste da mancha contra aquela pele tão branca... Tão macia...
– E-eu não consegui pôr a camisa sozinho... Por causa do gesso... — ouvi ele dizer. — Por favor, não me olhe assim...
Essas palavras me fizeram erguer os olhos imediatamente para o rosto dele e o vi com a cabeça baixa, envergonhado. O rosto, muito vermelho, virado para o lado. Evitando contato visual comigo.
–Ah! Não... me desculpe! Sente-se, eu vou servir. — eu disse apressado, passando por ele. Peguei a luva e abri o microondas para pegar o nosso jantar.
" Olhar para o meu sobrinho deste jeito... Talvez Vincent tenha razão... eu sou mesmo um monstro... "
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