Minha redenção
39 Um grito na escuridão.
Notas iniciais
As preciosas plumas de um doce anjo caem.
Tocam o solo com o estrondoso som do fim de uma frágil inocência.
A morte derrama o seu pranto, clamando por um sacrifício.
Desejando levar alguém.
Um demônio
Um monstro
Um anjo
Todos são iguais aos olhos de um ceifador.
Delicadas plumas tocam o chão...
Não há mais nenhuma pureza.
~Chibi Lord
Claude
Observei, admirado, o meu doce passarinho.
Amedrontado, entristecido, recostado a uma pilastra. As pernas flexionadas para o lado, o rosto bonito banhado por lágrimas.
Tão belo.
Eu tinha lhe arrancado a confiança no tio. O som dos soluços incessantes mostrava-me o quanto eu havia quebrado aquele pobre coraçãozinho. Eu sorri. Satisfeito por ter tirado daquele homem aquilo que eu nunca tive... O amor do meu pequeno pássaro.
Os soluços sôfregos enchiam meu peito de uma felicidade aterradora. Ciel chorava perdido, sem saber ao certo qual seria seu futuro dali a diante.
Mas, eu sabia qual seria o seu destino. Ele pertenceria a mim, isto era certo. Deixei que um sorriso hediondo moldasse meus lábios. Deixei que a criança derramasse seu pranto, limpando vez ou outra as lágrimas na manga da blusa.
Tão angelical. Um criatura divina.
Sentei-me em um amontoado de restos de construção, esperando o momento exato para agir. Minutos depois Ciel ficou em silêncio. As faces marcadas pelas lágrimas que começavam a secar. Era o meu momento.
Me aproximei bem devagar. O menino não me via. Ele tinha os olhos abertos mas parecia não enxergar. Ele olhava para o lado, em direção à queda livre até o solo, o reflexo da lua desenhado em seus olhos.
Ciel, meu doce passarinho, tinha os olhos vazios.
Como alguém que não tem mais nada a perder nessa vida. E mesmo que sentisse certa alegria em ver o quanto o senhor de meus desejos estava destruído pela mentira do tio, eu tinha também certa tristeza.
Por saber o quanto aquele homem significava para ele. Tanto a ponto dele se esquecer de minha presença ali.
Ajoelhei-me à sua frente, segurei o seu queixo. Obriguei o garoto a virar o rosto em minha direção.
– Agora, meu doce pássaro... – sussurrei para ele, os olhos tão belos e de cores diferentes ainda não focavam em nada além de sua própria desilusão.
Eu estava louco para deixar aquela melancolia de lado. Eu queria começar logo a brincar com o meu passarinho. Procurei tocar aquele rosto com a minha mão e o garoto recuou instintivamente. Eu sorri, satisfeito.
Pois era isso que me acendia. A luta, a dor, a repulsa por meus toques, o terror nos olhos doces.
Firmei minha mão no queixo, segurando forte, finalmente fazendo com que seus olhos me notassem. Me aproximei rapidamente, meus dedos deixando marcas na pele delicada. Forcei-me contra o meu doce menino.
Minha boca pressionou-se contra a dele. O garoto finalmente esboçou uma reação, me empurrando, mas o corpo delicioso era delicado demais para me afastar. Eu enfiei minha língua à força na boca miúda e Ciel mordeu-a, me enervando e excitando, deixando-me louco de tesão.
Me afastei, constatando que de minha língua saía sangue. As costas de minha mão direita ficaram com uma pequena mancha vermelha quando limpei minha boca. O olhar do garoto era apavorado.
Eu usei a força de meu corpo para estapear o rosto do garoto com a parte suja de sangue de minha mão. Ouviu-se um som alto e o menino teve o rosto jogado para o lado pela força de meu golpe. Ele perdeu o equilíbrio, e foi ao chão. A face delicada devia estar em extrema ardência, ficou vermelho vivo e uma manchinha proveniente de meu próprio sangue sujava a pele machucada. Eu estava completamente duro.
– Estou feliz que o segredinho de seu tio não tenha lhe deixado menos intrépido. – Inclinei-me sobre ele, o garoto voltando a ter seu foco em mim depois de se recuperar do choque da pancada. — Mas é isso que eu gosto em você, é isso que o torna especial. — toquei sua perna, minhas mãos apertando-lhe o tornozelo.
– Por favor... não... — ele implorou.
Isso meu pássaro cante para mim!
– Saber que foi usado por ele. — o puxei para mim, o corpo pequeno e frágil tentando lutar contra o meu. — Mesmo depois de saber que você não passa de um substituto, uma cópia!
Agarrei-lhe os cabelos, segurando-os na nuca, puxando com força fazendo sua boca se abrir em um grito doloroso.
– Depois de saber que aquele que você tanto ama apenas lhe usou. — os olhos dele voltaram a se encher de lágrimas e ele rapidamente pôs as mãos em meu peito tentando me afastar.
Eu estava no céu, estar com meu pássaro daquele modo era tudo que eu mais queria no mundo.
– Descobrir que o titio amado o fodeu pensando no papai... – prossegui.
– Pare, Pare! — ele gritou desesperado.
–E ainda assim tem forças para lutar. Ah, Ciel, é isso que o torna único.
Agarrei-o e mais uma vez cobri a pequena boca com a minha. Queria sentir o gosto dele mais uma vez, saborear o seu desespero. Ele lutou tentando me afastar mais uma vez. Aquilo me deliciava! Me excitava!
– Ele não te quer como eu — murmurei sôfrego enquanto possuía seus lábios — Ele mentiu pra você. — Eu segurava sua nuca o obrigando a me aceitar
– Ele nunca te amou...
E então veio o inesperado.
Senti um soco violento contra minha face direita. Meus óculos quase voaram do meu rosto. Passado o choque inicial eu pude ver quem me havia desferido o golpe...
Tinha sido Ciel!
– Não importa! Não importa que meu amado tenha mentido para mim! Não importa que este amor que me domina não seja recíproco! Mesmo que para ele eu não passe de um mero substituto, ainda assim, para mim... Foi tudo verdade! Meu amor sempre será verdadeiro! Sebastian, meu tio, sempre será o homem da minha vida, sempre será! Para todo o sempre meu eterno e único amor... E meu corpo nunca será violado de maneira bruta por você! Prefiro morrer! É ao meu amado que meu corpo pertence! Meu corpo, minha alma!
Ele gritava, furioso. Os olhos cheios de lágrimas. A face crispada em ódio. Tudo contra mim.
E eu sorri. Eu jamais pensei que ele se tornaria uma pequena fera. A descoberta de toda aquela traição o transformara. Senti arrepios me descerem pela espinha.
Sim... eu teria o prazer de domar você, Ciel. De quebrar essa vontade de ferro. De ver você me implorar. Nunca me senti tão tomado. Tão desafiado. Sedento por alguém.
– Vou fazê-lo meu agora... — sussurrei lambendo os lábios – E quero que grite com toda esta fúria quando eu o possuir.
Ele estremeceu ao ouvir minhas palavras e notei seus olhos rapidamente correrem para a nossa direita por uma fração de segundos. No mesmo instante percebi que ele olhara para onde eu havia deixado a minha arma. Ele se lançou naquela direção. Mas eu já havia antecipado seu movimento. Agarrei-o pela blusa fina e está se rasgou. Minhas mãos tomaram sua cintura, agarrei suas roupas, o puxei e o derrubei no chão.
Arrastei-o de volta pra mim, as pequenas unhas dele tentando se cravar inutilmente no piso não acabado. Eu o virei e sentei-me sobre ele. As delicadas mãos voaram contra o meu rosto, arranhando furiosas!
Eu as agarrei e as prendi contra o chão. Ele chutava o ar desesperado mas não adiantaria. Sentado sobre seus quadris eu o imobilizava. E então eu observei. A blusa rasgada não lhe cobria mais o peito. Aquela pele branca e tão macia tinha várias pequeninas marcas, suaves e pouco visíveis. Evidências daquele outro homem no corpo do meu querido pássaro.
Isso me encheu de despeito.
– Deixou que aquele que não o ama marcasse você... — Sussurrei friamente para Ciel.
Ele soluçou em pânico, seus olhos arregalados a me observar. Tão lindo...
– Oh, meu passarinho, não sofra mais, eu irei varrer para longe as lembranças daquele ser. Eu irei lhe causar novas marcas...
E então eu me curvei e abocanhei o seu pescoço e suguei com força. Eu o ouvi gritar e o senti espernear sem resultado abaixo de mim e quando me afastei uma enorme mancha arroxeada se via sobre a pele de porcelana.
– Ahh... bem melhor... — eu disse sorrindo amplamente.
Sebastian
Minhas mãos tremiam. Presas ao volante, exerciam um força desnecessária. Meus olhos, úmidos pelas lágrimas, estavam embaçados. Eu dirigia o mais rápido que meu carro podia ir. Desesperado, temeroso.
Minha vida, meu doce menino, ele podia estar sendo... Eu não queria nem pensar no que poderia acontecer, no que deveria estar acontecendo!
Meu doce Ciel, meu anjo, com aquele... Aquele ser asqueroso, com aquele monstro!
Agora as lágrimas escorriam pelo meu rosto.
“Por favor, Deus, por favor... Eu sei que sou um pecador, mas não tire de mim o meu raio de sol, não, por favor, não tire o meu menino de mim. Não deixe que aquele ser monstruoso tenha o que quer. Não deixe ele machucar meu Ciel”
Meu caminho até a obra do prédio residencial foi longo. O local não era muito longe de nossa residência, ficava há uns trinta minutos de carro. Eu acho que fiz o trajeto em quinze. Meu medo só aumentava a cada vez que meus olhos alcançavam meu relógio de pulso.
Eu desejava que o tempo parasse. Eu queria que o mundo parasse de girar. Eu queria meu pequeno em meus braços, eu queria matar Claude Faustus!
Estacionei o carro em frente ao conjunto de prédios inacabados, desci rapidamente, larguei a porta aberta. Corri até uma abertura em um dos compensados. Deveria ter sido por ali que eles entraram. Foi quando vi um único carro, um pouco mais afastado.
Eu fiquei em dúvida, se deveria seguir em frente ou ir até o carro. No fim fui até o automóvel. Este não estava trancado. Abri a porta do motorista vasculhando rapidamente o local, não me demorando muito na inspeção. Abri a porta do banco de trás, me abaixei, nem mesmo sabia que o eu procurava, mas... senti meu peito se apertar, meus lábios tremeram... Havia...
Havia um calçado caído no piso do carro. Era de Ciel. Seu All Star vermelho. Peguei-o e me abracei ao tênis, fechei os olhos e deixando que as lágrimas escorressem pelo meu rosto. A confirmação de que eu entendera corretamente a mensagem de meu sobrinho.
– Ciel, você está aqui perto!
Levando o tênis e corri para a abertura que tinha achado mais cedo. Entrei e cheguei até a entrada do prédio. No local havia um monte de restos de materiais de construção.
Varri o local com os meus olhos, havia luzes acesas mais ao fundo, corri para lá. Achei então o elevador. Estava ligado, mas ele estava parado lá em cima, eu teria que subir as escadas. Eu dei a volta, cheguei à escada de incêndio e subi com a máxima velocidade que meu corpo conseguia. Depois de subir vários lances de escada eu escutei.
Um grito, um pedido por socorro.
Era Ciel! Pedindo por socorro. Clamando por uma salvação. E eu estava a caminho.
Seu grito desesperado aumentou a minha força, minha adrenalina nas alturas. Eu simplesmente voei pelos degraus, correndo agora na direção que seu gritos me levavam.
Meus olhos triplicaram de tamanho, de minha boca um grito mudo ecoando em meu interior, sentia o sangue fervendo correndo veloz pelas minhas veias.
Então cheguei. Irrompi pelo andar correndo na direção dos gritos do meu menino. E eu os vi.
Aquele monstro, aquele verme, as mãos nojentas dele, tocando, de uma forma indevida, tocando meu Ciel! Ele prensava-o contra o chão, sua boca correndo sobre a pele delicada de meu sobrinho!
Meu raciocínio não acompanhava mais os meus movimentos. Tudo o que eu registrava agora era minhas mãos em sua blusa, o arrancando de cima do meu pequeno, o jogando para longe. Gritando para que ele se afastasse de meu menino. Avancei contra seu corpo furioso e vi um sorriso em sua boca asquerosa.
– Olha quem chegou para a nossa festinha, meu passarinho.
Eu olhei para Ciel por um minuto. Para ver se ele estava bem. O chamei mas ele não levantou seus olhos para mim. Ele não me olhou.
Seu rosto abaixado, voltado para o chão. Ele tremia. Sua camisa e a blusa rasgadas deixando todo o dorso pálido a mostra. Marcas escuras sobre a pele de marfim. As pequeninas mãos tentando esconder a nudez indesejada.
– Não se preocupe, titio. — Claude falou e minha atenção se voltou a ele. — Eu não fiz nada a ele que você já não tenha feito.
– Seu nojento. — eu esbravejei furioso, avançando mais uma vez contra seu corpo. — Seu monstro! Eu vou matar você!
– Eu sou um monstro?! — ele riu cheio de escárnio, se levantando rapidamente e se postando em defensiva contra mim.
–Veja o que você fez ao garoto. — ele apontou para o meu menino. – Você o enganou... mentiu para ele, o usou!! Usou o corpo dele para saciar sua vontade do pai...
Ouvi meu pequeno soluçar. Aquilo me doía. O maldito ainda o torturava.
–E eu é que sou um monstro? Eu? Você mentiu para ele dizendo que o amava apenas para usá-lo!
– Eu o amo! Eu não menti! — Eu gritei, avançando contra ele, não aguentando mais ouvir suas acusações.
Soquei seu rosto com força, seu corpo vacilou, mas não caiu. Ele revidou com força me acertando um soco no estômago.
– Eu vou te matar. — ele falou, enquanto mutuamente nós nos agredíamos. -Mas antes, vou fazer você ver eu me deliciando com o seu menino.
– Não irá tocar nele nunca mais. – gritei e desferi um golpe que o atingiu no queixo e desta vez ele caiu. Subi em cima dele, minhas mãos indo rápidas para o pescoço dele, eu iria matá-lo desta vez!
Nada me impediria. Meu ódio me tornava forte, meu medo de perder minha criança me tornava um deus, tendo o poder de decidir quem vive e quem morre.
E Faustus morreria.
Meus dedos longos se apertavam em torno de seu pescoço, enquanto eu fazia movimentos brutos, batendo a cabeça dele contra o solo. Mas então, a mão do homem achou em seu caminho uma barra de ferro.
Ele bateu com ela em minha cabeça com força. Eu caí para o lado, momentaneamente cego com a dor. Senti o sangue quente escorrer por minha testa.
Ouvi ao longe Ciel gritar em pânico. Eu estava tonto, minha vista embaçada. Tentei me levantar, eu precisava, mas meu corpo não me obedecia. Então meus olhos enfim voltaram a ter foco e eu vi Faustus.
Ele estava de pé diante de mim, uma arma em sua mão. O céu escuro e cheio de nuvens pesadas. Trovões e raios avisando que uma estrondosa tempestade começaria. Levei minha mão à minha cabeça, escorria sangue e eu mais uma vez falhei em me levantar.
– Eu mudei de ideia, titio. — Ele apontou a arma para mim. — Eu iria te matar depois de brincar com o meu passarinho. Mas quer saber? Deixa pra lá... Você já teve diversão demais com ele.
E ele aproximou a arma do meu rosto.
Eu morreria. Eu deixaria meu Ciel só. Sozinho, à mercê daquele monstro. Eu não acreditava naquilo, mais uma vez eu falhara em proteger aquele a quem eu mais amava.
E com o final eminente de minha vida, a coisa que eu mais temia era morrer enquanto meu doce menino me odiasse. Era isso, que fazia as lágrimas rolarem pelos meus olhos. Olhei para Ciel. Ele ainda estava caído no chão, paralizado de horror. Aqueles belos olhos bicolores, arregalados em pânico...
Se eu tivesse direito a um único último desejo, neste fim da minha vida, eu só desejaria que meu pequenino céu me olhasse uma última vez com amor.
– É a minha vez ter diversão com ele... – ele riu e engatilhou a arma.
Fechei meus olhos esperando o som do tiro vir, mas o que ouvi foi diferente.
Um grito, rouco e doloroso.
Ciel gritava, alto, tão alto que me fez abrir os olhos.
–NÃOOOO! — ele berrou, o rosto todo vermelho pela força utilizada na voz. Ele corria em nossa direção. Seus braços esticados chegaram antes de seu corpo em Faustus e então eu fiquei consciente de onde estávamos.
Estávamos a apenas meio metro da beirada da varanda. De uma queda livre de mais de trinta metros.
Ciel, forte e valente... Um verdadeiro sobrevivente, chocou-se com força contra o homem. Claude se desequilibrou, voltou a arma contra meu menino e disparou.
O som do tiro ecoou na noite escura juntamente com o grito daquele monstro. Eu não registrei suas últimas palavras.
Minha atenção totalmente focada no garoto que respirava ofegante, segurando o ombro, o sangue se espalhando.
Lá embaixo jazia o corpo com a arma ainda na mão.
Claude Faustus estava morto.
Ciel o matara para me salvar.
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