Minha redenção
10 Não há fuga para desejos.
Notas iniciais
Ciel estava de pé na banheira, nu. A água escorria por seu corpo em pequenas gotículas que eu seguia avidamente com os olhos.
–Tio Sebastian, me ajude, por favor... — aquela boca deliciosa vocalizou, os braços abertos me esperando, me chamando, as coxas que, por mais pequenas que fossem, eram fartas, molhadas, água escorrendo por elas, o cabelo grudado no pescoço... E eu sedento... como um animal faminto avancei, pegando-o no colo, o abraçando, deixando que a umidade de sua pele morna molhasse o meu corpo também nu. Brusco, roubei a boca pequena pra mim, enfiei minha língua na cavidade úmida. O gosto era mais saboroso que a melhor das sobremesas, nossas salivas se misturando, seu gosto se fundindo com o meu, nosso sabor explodindo em minhas papilas gustativas como um show de fogos de artifício, minhas mãos apertando e marcando a pele sedosa, deixando meus dedos possessivos desenhados na tez pálida. Alcancei as nádegas redondas, a maciez da pele me fazendo revirar os olhos, meu pequeno circulou as pernas em minha cintura a intimidade rosada e dura se chocando contra meu abdômen, Com a ajuda da água que o lubrificava sem cerimônias introduzi um de meus dígitos no canal extremamente apertado, meu adorável sobrinho gemeu dengoso, jogando a cabeça para trás, extasiado.
–Ahh, tio Sebastian... Anh, gostoso... — arfou quando mexi o dedo dentro dele, o estocando. Minha boca foi para o pescoço, descendo por ali com a língua deixando rastros de saliva que se misturavam com a água até chegar ao mamilo e morder fracamente, ouvindo um manhoso gemido como resposta.
–Eu vou devorar você... — eu disse com a voz rouca de tesão.
–Anh, ah, faça... me devore...
Acordei bruscamente, o movimento que meu corpo realizou foi tão impetuoso que acabei por derrubar o despertador do criado-mudo, minha respiração acelerada, suor escorrendo pelo meu pescoço, eu arfava e tremia e entre as minhas pernas meu membro estava duro, tão duro que chegava doer. Deitei de novo... Suspirei derrotado. Eu tinha já a noção disso, há meses que eu já sabia que tinha perdido. Levei minha mão ao meu membro e juro que enquanto me masturbava eu tentava não pensar em meu sobrinho... Tentava não pensar em Ciel, tentava não pensar nele correndo com as roupas molhadas, sorrindo alegre por ter dado o primeiro banho em Sky, tentava não pensar em como ele ficava adorável de uniforme escolar, em como seu rosto era lindo enquanto dormia, em como mesmo que ressecados, seus lábios eram macios... eu juro, juro que tentei... Nada me fazia esquecer daquela maldita noite de meses atrás em que cuidei dele febril e vi seu corpo quase por completo sem roupas. Não saía da minha cabeça, por mais que eu tentasse! E como depois dela as coisas ficaram, cada vez mais estranhas para mim, cada vez mais difícil de resistir.
Me levantei e fui tomar um banho, eu precisava mesmo que superficialmente me limpar.
Eu sempre soube que era um doente, um monstro, eu sempre soube que por mais que eu lutasse eu nunca deixaria de ser um ser asqueroso revestido por uma bela capa. Eu cheguei a pensar que talvez, só talvez, só dessa vez eu amaria do modo certo.
Mas conforme os meses iam passando minha convivência com o meu sobrinho ia entrando em uma espiral de sentimentos estranhos e distorcidos. Não pela parte de Ciel, não jamais! Ciel era um anjo, adorável, que apesar de um gênio forte era bastante amoroso.
E era isso que me enlouquecia, me atormentava. Sempre me abraçando, sempre querendo ficar comigo na minha cama para assistirmos a um filme. E quando ele dizia que Sky era como se fosse nosso filho, porque um dos olhos do cão era como os meus e o outro como os dele... Ah... Eu queria tanto beijá-lo. Em pouco mais de sete meses em que morávamos juntos Ciel havia virado minha vida de pernas pro ar. Era muito mais denso do que eu sentia por Vincent, era muito mais perigoso, muito mais sujo e muito mais forte.
Eu, no começo, achava que meu desejo sexual impróprio por meu sobrinho se devia ao fato dele se parecer com meu amado irmão falecido, mas eu estava errado. Eu era errado. Eu era tão errado.
Sai do banho e me enxuguei, coloquei um terno preto qualquer, todos eram pretos, assim como o meu interior, sujo e pútrido.
Desci as escadas, Ciel, já vestindo seu uniforme, brincava com Sky, que não era mais um filhote, era grande e eu me preocupava com o fato dele poder machucar o menino, mesmo que o mais perigoso para ele fosse continuar comigo naquela casa.
– Bom dia, tio Sebastian! — ele disse sorrindo, vindo correndo em minha direção, feliz por me ver, se soubesse o quanto eu sou asqueroso... O sonho que tive nessa manhã voltando bem diante de meus olhos. E então, como andava acontecendo ultimamente, eu neguei o seu abraço.
–Está com a roupa cheia de pelo. — ele fez um ''Ah" desapontado, olhando para as próprias roupas, que é claro, tinham pelos. Passei reto pela sala de jantar, onde nosso café estava servido.
– Não vai tomar café da manhã, Senhor? -a senhora Coburgo me perguntou.
– Não, estou atrasado.
– Quem vai me levar para a escola? — havia um misto de decepção e tristeza no rostinho bonito ao me perguntar, eu queria... Queria tanto amá-lo da forma certa.
–Mandarei o motorista da empresa vir buscar você e te levar para escola. -disse e sorri para ele, porque por mais que eu tentasse o afastar eu simplesmente não conseguir resistir. — Mas eu prometo que vou buscar você, está bem? — um sorriso lindo surgiu em seu rosto enquanto ele assentia para mim.
–Tio Sebastian... — ele me chamou quando eu já estava na porta. -Tenha um bom dia. — falou, assim que eu o olhei...
Já na empresa eu tentava me manter focado no trabalho, mas era diferente. Quando Vincent estava vivo, eu sabia que ele não me queria por perto, ele estava lá, feliz com sua esposa e seu filho, eu não tinha a mínima chance, nunca teria. Vincent jamais seria meu. E por isso era fácil me focar no trabalho, eu cuidava da empresa, meu irmão nunca se interessou por manter-se a frente dos negócios da família, então eu comandava tudo, me afundava no mundo das grandes construções e ter cada vez mais sucesso, ter cada vez mais dinheiro era a mínima satisfação em minha vida. Eu mandava anualmente para Vincent a sua parte dos lucros, depositava em uma conta que, eu soube semanas após sua morte, ele praticamente nunca mexeu. Pelo que soube também, o dinheiro da conta só era usado para as despesas escolares ou médicas de Ciel. Mas agora era difícil me concentrar em contratos e estáticas, era diferente, porque quando eu chegasse em casa eu não ia encontrar um apartamento vazio, era diferente porque quando eu chegasse eu o encontraria lá, me esperando, de braços abertos, pronto para me dar um abraço de boas vindas... meu amor, aquele que eu tanto queria. E foi pensando nisso que eu entrei em site de um dos melhores internatos da Escócia. Talvez mandá-lo para longe de mim fosse a solução. Dei uma olhada por cima, mas então vi em meu relógio de pulso, que já estava quase na hora de buscar Ciel, então imprimi o panfleto explicativo e coloquei no bolso do meu paletó, em casa eu daria uma olhada.
Ciel, naquele dia, mais cedo...
Fiquei na janela observando o carro do tio Sebastian partir. Suspirei. Eu sei que ele é um homem muito ocupado mas... mas...
Sky lambeu minha mão e eu sorri pra ele. Meu cachorro parecia saber que eu me sentia solitário sem o meu tio.
Sentei — me no sofá e acariciei sua cabeça. E voltei a me lembrar daquele dia há meses atrás.
Quando eu estava doente.
Meu tio Sebastian cuidou de mim quando eu estava fraco e com febre. Tão carinhoso quanto minha mãe ou meu pai seriam... Sorri ao me lembrar de que ele segurou a minha mão enquanto eu tive sonhos estranhos por causa da minha doença. Aquilo me fez tão feliz...
E então fiquei sério. Naqueles dias eu tive sonhos que não saiam da minha cabeça. Num deles meu tio retirava a minha camisa ensopada de suor e me vestia com outra seca e confortável... eu me sentia tão dolorido e fraco que não conseguia me mover ou falar e então o sonho ficou estranho...
Porque nele... meu tio me beijava... na boca....
Senti a boca dele cobrindo de leve a minha e me dando um beijo suave... carinhoso... foi gostoso, pensei com o rosto ardendo de vergonha.
Levei os dedos aos meus lábios, pensando “por que tive esse sonho?” Não tive coragem de contar meu sonho ao meu tio. Talvez ele risse de mim ou me olhasse como se eu fosse estranho e isso eu não suportaria.
– Ciel, querido... o motorista chegou. Apresse-se ou vai se atrasar — Ouvi a Sra. Coburgo me chamar. Peguei minhas coisas e entrei no carro, mil pensamentos na minha cabeça.
***
Não conseguia me concentrar nas aulas porque o rosto de meu tio pairava diante de mim a todo momento. Eu gostava muito do tio Sebastian... demais! Eu queria estar sempre com ele, abraçá-lo, beijar seu rosto, sentir o calor dele contra mim e aquele cheiro gostoso que ele tinha... eu poderia ficar horas deitado com ele na cama dele, assistindo filmes de aventura e de terror, fingindo estar com medo apenas para poder me aproximar mais e esconder o rosto no peito dele, apenas para sentir aquele cheiro bom...e lembrar daquele sonho. Mas recentemente ele parecia estar evitando que eu o tocasse. Será que eu o desagradei? Não devia ter fingido apenas para que ele satisfizesse a minha sede por seus abraços...? Ele não me evitava abertamente como fazia logo que começamos a morar juntos mas ainda assim eu sentia que ele voltava a dar pequenas desculpas para
não estar comigo. Não assistíamos mais a filmes e ele ia mais cedo para o trabalho, estava trabalhando aos sábados ou sempre mantinha a sra. Coburgo por perto.
– Acorda, Ciel!! — Saí de meus devaneios ao ouvir Alois.
– Ah! Você estava dizendo alguma coisa?
– Pffff.... imagina! Tô do seu lado a um tempão só pra ficar olhando pra você.... se bem que não seria totalmente mentira, hahaha!
Corei ao ouvir aquilo, não era a primeira vez que eu ignorava Alois por estar pensando no meu tio e ele sempre fazia questão de me embaraçar por isso.
– Ciel, seja sincero comigo... você é o meu melhor amigo! Por que não me conta? Vou ficar muito bravo se tiver de descobrir sozinho. – ele disse cruzando os braços no peito e fazendo biquinho.
– Do que está falando? Contar o quê?
– Ora, me contar por quem você se apaixonou! Essa sua cara de paisagem, viajando em sonhos aí... Tá mais do que na cara que está apaixonado. – ele riu e me deu um tapa leve na cabeça.
Meu rosto queimou imediatamente e fiquei olhando estupefato para meu amigo. Eu não estava apaixonado por ninguém! Eu não pensava em mais ninguém além do meu tio Sebastian, de onde ele tirara essa ideia absurda?! Eu ia responder mas o professor entrou na sala e Alois correu de volta para o seu lugar.
Era uma aula do prof. Faustus.
Ele me olhou e sorriu, eu desviei o olhar e comecei a escrever no caderno qualquer coisa, apenas para não erguer os olhos para ele. Ele pegou o livro e começou a ler, andando pelos corredores entre as cadeiras do alunos e toda vez que ele passava por mim ele me tocava.
Às vezes era no meu cabelo, outras no meu ombro e agora ele passara a mão nas minhas costas. Eu odiava aquilo! Por que ele não me deixava em paz? Seus toques me enchiam de horror e nojo e eu percebia que isso o divertia... o prof. sentia prazer com a minha tortura.
Alois sempre me dizia que eu precisava contar ao tio Sebastian e eu realmente queria contar, mas eu não conseguia! Porque eu não sabia qual seria a reação dele... ele poderia vir à escola, reclamar e me salvar do prof. Faustus ou me olhar com descrença e dizer que era coisa da minha cabeça e que um professor não faria nada disso. Ou ainda pior, e era este pensamento que realmente me impedia de buscar a ajuda dele... eu temia, me enchia de horror que ele me olhasse com desconfiança e me perguntasse "Ciel, o que você faz para que o prof. faça isso? Você o toca? Você o abraça? Você o provoca?"
Me aterrorizava a idéia de que ele me acusasse, porque certamente era o que eu fazia com ele... Eu sempre tentava abraçar meu tio, toca-lo, ficar perto dele. Mas era apenas com ele! Com mais ninguém!
E por que... eu amava meu tio Sebastian.
Fale com o autor