Minha redenção
30 Jantar para... quatro.
Notas iniciais
A entrega é mútua.
O sentimento também.
Mas... Há segredos, segredos que tenho temor em revelar.
Revelações que podem destruir minha frágil felicidade.
Uma felicidade que temo perder.
Sou todo temores.
E essa culpa de esconder.
Essa culpa me corrói por dentro,
fazendo com que a minha frágil felicidade
seja ainda mais delicada.
Um passo em falso.
E tudo pode me escorrer pelos dedos...
Chibi Lord
Ciel
Era fim de domingo, já anoitecera.
Estávamos eu e tio Sebastian em um restaurante no centro de Londres.
Ele tinha me perguntado o que eu queria fazer nesta noite e, certamente que ele supunha que eu fosse querer alguma diversão adolescente.
Mas eu queria algo especial.
Nós tínhamos tido a nossa primeira noite de amor juntos e eu me sentia tão feliz. Mas o que poderia ser? Lembrei-me que minha mãe sempre me aconselhara a fazer junto da pessoa amada algo que também a agrade.
Ela me disse isso certa vez quando perguntei a ela o porquê de acompanhar meu pai e eu nas corridas de cavalo sendo que obviamente ela ficava entediada. Lembro-me de seu sorriso ao responder-me aquilo e meu pai sorrir de volta e prometer que no próximo passeio seria a vez dela de escolher para onde iríamos.
Por isso optei por um programa um pouco mais adulto e calmo que certamente agradaria ao meu tio. Jantaríamos a dois e a noite parecia até um conto de fadas, pois o fim de semana ainda trazia o clima romântico do Valentine´s Day.
Jantávamos conversando amenidades, como pessoas comuns fazem. Tudo o que nós mais queríamos era parecer normais aos olhos das outras pessoas e ali ninguém olhava para nós como se fôssemos incestuosos. Para eles talvez fôssemos apenas um pai divorciado jantando com o filho único, nada de extraordinário.
À nossa volta, casais se tocavam e sorriam, seguravam-se as mãos e trocavam juras de amor. Mas nós não podíamos fazer isso, mesmo estando tão apaixonados quanto qualquer um deles.
Isso era um pouco triste, principalmente por saber que seria assim por toda a minha vida. Não poder assumir ao mundo quem eu amava.
Mas se esse fosse o preço a se pagar para estar com ele, eu o pagaria sorrindo.
Ainda assim, fazíamos pequenas travessuras. Havia um pouco de excitação em flertar com o perigo, eu devo confessar. Nossos olhares um para o outro não eram de forma algum os que um pai e um filho trocam. E alguém mais atento poderia notar.
Ríamos e falávamos do dia-a-dia mas cada vez que ele enchia meu copo ou me oferecia uma porção de alguma coisa, seus dedos roçavam de leve a minha mão numa carícia de amor, eu brincava e dizia que havia algo em seu rosto e, delicadamente, passava um dedo sobre seus lábios. Sob a toalha longa e branca, ninguém via mas eu havia descalçado um dos meus pés e, vez ou outra, acariciava-lhe a perna. E ele me sorria extasiado.
E assim a nossa noite seguia cheia de romance e diversão que apenas nós entendíamos.
– Ciel... se passar o pé na minha perna de novo eu vou saltar sobre você e te deitar aqui na mesa mesmo. Não me provoque. – ele sussurrou sem olhar para mim, cortando o alimento em seu prato e qualquer um pensaria que ele falava sobre o tempo.
– Ah, é? Isso seria um problema... – respondi levando o talher a boca, e ao mesmo tempo levantei o pé e desta vez o rocei na parte interna da coxa de meu tio – É melhor não fazer isso.
O talher na mão dele oscilou e então ele me sorriu com uma expressão maliciosa.
– Meu auto controle não é dos melhores. Você sabe bem...
Eu ri e abaixei minha perna.
– Eu sei muito bem. Já parei.
– É melhor assim... – ele relaxou um pouco – hoje não estaremos sozinhos em casa e além disso você precisa de um tempo. Você sabe... para se recuperar.
Tossi de leve e limpei a minha boca com o guardanapo.
– Eu não estou lhe sugerindo isso tão já. – respondi sentindo meu rosto queimar – mas eu quero meu beijo de boa noite. Beijos, tio Sebastian!
Ele riu e disfarçadamente tocou a minha mão.
– Eu sei. Mas é realmente uma linda visão quando seu rosto adquire esse tom.
Antes que eu pudesse responder com uma bronca, meu celular tocou. Olhei quem era e pedi ao meu tio licença para atender.
– É o Alois.
Eu vi ele fazer uma expressão de desgosto e se concentrar na refeição. Desde aquela tarde no jardim eu notei que meu tio desenvolvera uma certa aversão ao meu melhor amigo. E para piorar, meu melhor amigo se tornara absolutamente grudento comigo desde aquela mesma tarde.
– Alô, Alois?
– Ciel! Finalmente! Eu deixei mensagens pra você. Você nem as viu! Está tudo bem com você?
– Eu estou bem. Me desculpe. Meu celular esteve desligado por todo o dia. – eu não podia comentar o motivo de tê-lo deixado desligado.
Eu passara o dia na cama, nos braços do tio Sebastian, sendo cuidado e mimado após nossa noite juntos. Ele se mostrara muito preocupado comigo por mais que eu lhe dissesse que eu estava bem.
Sabíamos que no fim da tarde a sra. Coburgo retornaria de sua viagem então procuramos aproveitar ao máximo o pouco tempo que nos restava entre beijos e carícias. Sussurrando as palavras, não pelo receio de alguém as ouvir, mas apenas porque era muito mais gostoso levar os lábios ao ouvido do outro quando trocávamos nossas promessas de amor.
As doces lembranças me fizeram vaguear por um momento, o rubor tomando conta de meu rosto. E eu não notei que meu tio me observava atento, julgando erradamente o motivo da cor em minhas faces.
– Ciel, responde! – Alois disse um tanto chateado.
– Oh? Desculpa! Eu me distraí por um momento. – respondi prontamente voltando a mim.
– O seu tio troglodita está aí com você não é? Cara, o que deu nele pra sair puxando você da festa ontem? Minha mãe disse que ele não se sentia bem mas ele não me pareceu uma pessoa doente naquela hora.
Com certeza aquilo seria bem difícil de explicar. Ainda mais para o meu amigo.
– Ele estava se sentindo mal sim. Mas eu não entendi o que ele me falava por causa da música então ele... me puxou para fora para me explicar que precisávamos ir embora.
– Sei. A verdade é que ninguém pode chegar perto de você sem que ele queira morder. Pensei que seu cão de guarda fosse o Sky!
Acabei rindo ao ouvir aquilo e meu tio limpou a garganta bem alto para me lembrar de que ele estava ali.
– Alois, eu preciso desligar. Falo com você na escola amanhã, está bem?
– Espera, eu posso passar na sua casa hoje?
– Hoje? Por quê?
– Eu queria falar com você. É importante.
Imaginei se havia acontecido algo com Alois para ele não conseguir esperar até o dia seguinte.
– Está bem, mas estamos jantando fora e devemos voltar dentro de uma hora aproximadamente. A sra. Coburgo está em casa caso você chegue antes de nós.
– Tudo bem. Até mais tarde então.
– Até. – desliguei o telefone e me preparei para contar ao meu tio que Alois decidira vir à nossa casa de repente.
– Até que enfim! — ele falou afastando o prato vazio. – Já não basta a ele ficar o dia todo com você na escola?
– Ele estava preocupado comigo. Por isso ele ligou. – respondi um tanto chateado pela má vontade de meu tio com o meu amigo.
– Preocupado por quê? – ele cruzou os braços.
Suspirei longamente e também coloquei o meu prato de lado.
– Talvez por ter testemunhado você praticamente me arrastar pra fora da casa dele no dia de uma festa onde você era um dos homenageados? – perguntei fingindo que falava de algo trivial.
Ele ficou em silêncio e eu sei que agora, já de cabeça fria, ele sabia o quanto a cena que ele fizera fora inconveniente. Ele chamara para nós uma atenção que até então não havia. E como saber o que as pessoas estariam comentando agora? Parecera uma cena de ciúme.
E realmente era.
– E ele vai nos fazer uma visita ainda hoje. – falei devagar.
– O quê? Hoje? A mãe dele não ensinou a ele que não se deve incomodar as pessoas?
Ele falara um tanto alto e algumas pessoas olhara para nós.
– Psiiiu! Não fale alto. – sussurrei e sorvi um gole do meu copo tentando parecer despreocupado – Tio Sebastian, você tem de controlar este seu ciúme. Ele não vai arrancar um pedaço de mim!
– Aposto que ele gostaria. Não sabe tirar as mãos de você.
– Agora está ficando ridículo! – respondi impaciente – Ele é meu amigo desde que éramos pequenos. Ele tem namorada. E mesmo que não tivesse! Todo esse seu ciúme idiota mostra que você não confia é em mim!
– Isso não é verdade. – ele respondeu sério.
– Mas você faz parecer. – respondi tentando me acalmar – Amigo ou amiga, não importa. Parece que você acha que vou fugir com a primeira pessoa que me estender a mão. Isso me magoa.
Desviei o olhar dele me sentindo frustrado. Eu o amava mais que tudo e sempre o demonstrava. Chegava doer o quanto eu o amava mas eu tinha a sensação de que ele não confiava mesmo em mim algumas vezes.
Ele suspirou e estendeu a mão para segurar a minha. E então percebeu onde estava e não o fez. Mas sua voz estava cheia de amor quando ele falou.
– Me desculpe. Eu vou aprender a controlar isso também. Mas eu tenho tanto medo de te perder que às vezes ajo irracionalmente. Me desculpe por te magoar.
Eu olhei para ele, para aqueles olhos lindos castanho-avermelhados e acabei por sorrir-lhe. Eu sabia que ele falava sinceramente.
– Está bem. Eu não quero que você se sinta assim, tio Sebastian. Eu jamais olhei ou me interessei por outra pessoa até encontrá-lo. E isso não vai mudar. — estendi a mão, sem me importar onde estávamos, e a pousei sobre a dele.
Ele sorriu e acariciou meus dedos com o polegar.
– Eu jamais mentiria para você, tio Sebastian. Assim como sei que você não mente para mim.
Seu sorriso morreu e eu achei estranho.
Mas antes que eu pudesse perguntar porque ele reagira assim um homem desconhecido se aproximou de nossa mesa e falou alto, nos tirando de nosso mundinho.
– Sebastian!! Que surpresa encontrar com você aqui hoje.
Vi toda a cor fugir do rosto de meu tio e então olhei para o homem que chegara.
Ele era alto, menor que meu tio mas bem mais alto que eu. Usava óculos, tinha olhos verdes e uma longa cabeleira vermelha.
– Ora, Sebastian, parece que o gato comeu a sua língua. – ele disse rindo e então voltou-se para mim – você deve ser o sobrinho, não é? Ciel?
– Sim, eu sou Ciel. — respondi com um pequeno sorriso. Ele se abaixou até seu rosto ficar na altura do meu e me olhou como se me analisasse e eu não soube bem como reagir a isso.
– Eu fazia alguma idéia sobre a sua beleza, pequeno, só não imaginava que esta fosse quase irreal! Uma pele de porcelana, uma boquinha carnuda e esses lindos olhos de cores diferentes! — o ruivo de aparência duvidosa e atitudes ligeiramente exageradas disse, se apoiando com o braço, displicentemente, no ombro de meu tio.
–Não seja obtuso! — meu tio rosnou entre dentes, afastando com a mão o braço dele e eu coloquei minha melhor máscara de desentendido. Piscando meus olhos vezes seguidas.
– Oh, Sebby! — o homem disse dando um tapa fraco no peito de meu tio, o que fez com que ele revirasse os olhos. — Eu sou Grell, um amigo de seu tio e ouvi falar muito de você. — disse ele a mim.
– Engraçado, eu nunca ouvi falar de você. — falei sincero e curioso olhando para o tio Sebastian e vi ele engolir em seco.
– Oh, mas quanta desconsideração. – ele colocou a mão no peito de forma teatral e foi minha vez de revirar os olhos. -Não seja por isso, eu mesmo posso vir a falar sobre mim.
E ele piscou para mim, o que me deixou um tanto desconcertado.
– Não será necessário! — tio Sebastian cortou brusco.
Ele parecia que explodiria e eu queria ver isso acontecer. Talvez, assim eu entendesse quem era o ruivo e porque meu tio parecia tão desconfortável na presença dele.
– O que é isso, Sebby? Eu não mordo. Ainda mais um garotinho... mas escute, meu bem, daqui a alguns anos você pode me procurar, viu? O tio Grell pode te ensinar uma coisa ou duas. — e ele gargalhou alto me deixando intrigado.
– Querido, nossa mesa está pronta. — outro homem desconhecido se aproximou de nossa mesa, um loiro com um queixo anguloso e de aparência máscula, parecia ser americano pelo sotaque.
–Ah! — o ruivo bateu palmas alegremente. – Sebby, este é meu namorado Bard.
Tio Sebastian ensaiou um sorriso muito falso enquanto apertava a mão do homem.
– Este é Sebastian, um amigo meu, Bard querido. E este... — ele apontou para mim. — é o pequenino anjo de Sebastian, Ciel.
– Olá. — Eu disse timidamente acenando a cabeça para o homem loiro.
– É um prazer conhecer vocês. — ele disse sorrindo amigavelmente. -Mas agora, se nos derem licença, vamos amor? -se dirigiu ao ruivo que acenou positivamente com a cabeça.
– O prazer foi nosso, fiquem à vontade. — tio Sebastian respondeu sem vontade e então os dois se afastaram indo para outra mesa.
–Interessante esse seu amigo. — eu falei enquanto remexia a comida que sobrara em meu prato com o garfo.
– Ele não é meu amigo! — tio Sebastian, que suava, bufou. Eu o conhecia muito bem, ele estava louco de raiva.
– Hum. — dei de ombros. -Ele disse que era e quer saber?
Pausei minha fala pegando a faca para cortar parte do alimento antes de continuar.
– Seria interessante convidar ele e o namorado para irem jantar em nossa casa qualquer dia desses, eu adoraria saber o que ele poderia me contar sobre você.
Nesse exato momento meu tio bebia de seu copo e a água que entrava na boca dele foi expelida para fora com a velocidade de um raio, molhando a toalha de mesa bordada e eu ri levemente do desespero dele.
Meu pai me ensinou a sempre ter os amigos pertos e os inimigos mais perto ainda. Eu gostaria de ter explicações ao chegar em casa. Acho que a sobremesa vai ser indigesta. Se tio Sebastian tem ciúmes de mim eu devo dizer que possuo seu sangue e portanto também possuo uma boa dose de seu sentimento de ciúme também.
Sebastian
– Com licença, Ciel. Eu vou ao toalete. – falei e me levantei antes que meu sobrinho respondesse.
Caminhei até o toalete, eu queria era poder bater em alguém tamanha era a minha raiva daquele infeliz. Como ele ousou ficar insinuando o quanto meu menino era belo? Ora é claro que ele é lindo, e é meu!
E ainda teve a audácia de ficar insinuando coisas que, tenho certeza, me renderiam uma dor de cabeça mais tarde. Certamente que Ciel vai querer explicações e eu não sei se estou preparado para mentir a ele sobre quem é Grell.
Mentir mais do que eu já mentira.
Entrei no recinto e tive a confirmação de que o destino estava contra mim...
Lá estava o ruivo, lavando calmamente as mãos na pia.
Eu até tentei, mas o fato é que eu estava cego de raiva. Agarrei seu braço o jogando contra a parede, o ruivo gemeu baixinho de dor. O olhar desentendido até visualizar a minha pessoa.
Então ele sorriu, cínico, e eu juro que se eu não estive em um jantar com Ciel para comemorarmos nossa noite eu arrancaria cada fio vermelho daquela cabeça.
–Você enlouqueceu?! — perguntei tentando controlar o volume de minha voz. — Por que foi até nossa mesa?! Por que foi falar conosco?!
– Eu só queria cumprimentar o lindo casal.
Eu rosnei e raiva e o garoto de programa abriu mais ainda o sorriso.
– Não tem mais o que fazer não?! Como entreter o seu cliente, ou algo assim? — apertei o braço dele.
Só de pensar nas coisas que ele poderia falar ao meu menino meu sangue parecia querer ferver, meu rosto vermelho de raiva o coração angustiado de puro medo.
– Ele não é meu cliente, é meu namorado.
Ele se soltou do meu aperto e ajeitou os fios na frente do grande espelho.
–Aliás, saberia disso se tivesse tentando entrar em contato comigo. Se o tivesse feito descobriria que meu numero está desativado. Não estou mais atendendo clientes.
Ele focou o olhar em mim e eu encarei seu reflexo sorridente pelo espelho.
– Mas é compreensível que não tenha tempo para os amigos com aquele belo jovenzinho como companhia.
– Não diga asneiras, seu imbecil. – respondi brusco e passei pelo ruivo. Havia desistido de usar o toalete.
Ciel que me perdoe mas eu precisava nos tirar daquele lugar.
– Sebastian! — ele me chamou enquanto segurava meu braço, me impedindo de continuar meu caminho – Relaxa, está bem? Não farei nada para destruir sua felicidade.
Eu arregalei os olhos em puro choque.
– É evidente em seu olhar, seu bobo! É claro que você está feliz e é claro que eu estou feliz por você. Fique calmo, eu só estava implicando. Não farei nada para separar vocês. Como você é ciumento! Meu Deus!
Suspirei e abaixei o olhar. Agora me sentia envergonhado.
– Me desculpe. – disse e cocei a nuca. — E eu também estou feliz por você. – eu disse por fim.
– Ah, então está ótimo! Devíamos combinar um encontro de casais, o que me diz?
Revirei meus olhos horrorizado mas sorri. Aquele cara era muito sem noção.
– Nem pensar! Adeus, Grell, até nunca mais.
– Assim espero, Sebastian. — ele sorriu e seus olhos, assim como os meus, também transmitiam um brilho de pura alegria. -Até nunca mais.
Ao voltar para a minha mesa eu já me sentia mais leve. Não sei como eu pude pensar que o ruivo fosse fazer algo para me prejudicar. Eu deveria ser mais pacífico, mais otimista em relação ás pessoas.
As coisas talvez nunca fossem tão ruins quanto pareciam ser.
Voltei para minha mesa me sentindo calmo, mas a vontade de ir embora voltou e com ela um ódio descomunal crescendo vertiginosamente.
Ao lado de Ciel, meu Ciel, estava um homem.
Um pouco mais baixo que eu, visivelmente acima do peso e com um bigode horroroso. Ele dava em meu menino um abraço terno e apertado. E eu me aproximei como uma ave de rapina.
Uma raiva avassaladora e um ciúme incontrolável. Me aproximei e ouvi ele sussurrando para o meu pequeno.
– Você está se tornando um belo rapaz. Eu senti tanto a sua falta. Eu sinto muito pelo que aconteceu...
– Quem é você? — rosnei já próximo, agarrando Ciel pelo braço e o puxando para perto de mim.
–Tio!! — Ciel ralhou comigo, envergonhado.
O homem sorriu e eu pensei que aquele sorriso não me era estranho.
– Por favor, desculpe o meu tio! Tio, este é o tio Diedrich, um grande amigo do meu pai.- Ciel falou e meu corpo inteiro se retesou. Hoje definitivamente não era meu dia de sorte.
– Nós já nos conhecemos, Ciel. Não é mesmo, Sebastian? — sua mão veio em minha direção para um cumprimento que eu aceitei com a cara mais abobalhada que eu tinha. — Como você está? Faz uns dez anos que não nos vemos.
O sorriso meigo que era direcionado a Ciel se tornou malicioso e dirigido a mim.
Meu corpo sofreu um pequeno espasmo. Eu não conseguia acreditar que aquele realmente era Diedrich! O amigo de Vincent com que eu perdera a minha virgindade. Será que todo mundo com quem eu já dormi ia aparecer aqui hoje?! Eu precisava levar Ciel embora.
–Você não mudou nada. – ele falou rindo e segurando ainda minha mão.
Eu por outro lado não conseguia nem respirar. Meu Deus! Por vossa majestade, o que eu tinha feito para merecer aquilo?
– Já você... – eu disse por fim, meio fora do ar. Ele riu colocando a mão, que já soltara a minha, na barriga.
– Sim, sim! É a idade.
A expressão em seu rosto era de quem achava a situação cômica. Oras, o que tinha de engraçado?
– Eu não fui abençoado com os genes maravilhosos dos Phantomhives. Vocês só melhoram com o tempo. Vincent também tinha uma aparência bem jovial.
E ele piscou para mim. Piscou! Eu queria morrer! Ensaiei um sorriso. Vi que a conta já havia chegado, peguei o dinheiro, coloquei no pequeno livreto e me voltei para meu sobrinho que sorria feliz para o homem.
–Vamos, Ciel, já está tarde. – eu disse empurrando o menino pelos ombros. — Adeus, Diedrich.
E já me afastava do homem antes mesmo dele responder a minha despedida.
Então, Ciel se desvencilhou de mim, correu a curta distância até o homem, o melhor amigo de Vincent, e o abraçou com carinho e Diedrich retribuiu acariciando os fios de meu pequeno e beijando o topo da cabeça do menino.
–Promete que irá me visitar? — Ciel pediu e eu senti vontade de arrancar meu coração do peito e atirar nos dois o órgão ensanguentado.
– Eu prometo , Kleine*. Me deixe anotar o seu número.
Ciel voltou para perto de mim depois de passar o número de seu celular, acenando para o homem e eu segurei fortemente sua mão voltando a me dirigir para a saída do restaurante.
– Sebastian? — Diedrich me chamou. E eu o olhei só por educação.
– Vamos manter contato? — eu arregalei meus olhos abrindo a boca sem saber o que dizer. Não! Eu não queria manter contato com Diedrich! Percebendo meu espanto ele riu e voltou a falar.
– Não, é pelo menino. Kleine, digo, Ciel é como se fosse um filho para mim.
Sua voz estava cheia de carinho, então não havia como o negar. Acenei positivamente e o homem sorriu. Enfim conseguimos sair do local.
Diedrich era o melhor amigo de Vincent, desde o primário e, com toda a certeza, fizera papel de tio para o menino.
Usurpando o meu lugar, na vida da criança que fora Ciel.
Mas, sim... Com toda certeza ele deveria ter um enorme carinho pelo meu pequeno e Ciel por ele. Eu não tinha o direito de os afastar.
Mesmo que eu assim quisesse.
*Nota: Kleine pode ser traduzido como “o pequenino” em alemão. É o apelido que Diederich deu ao Ciel.
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