Notas iniciais
Peço desculpas pela demora. Espero que possam apreciar o capítulo. Eu estava meio ocupada, por isso não postei antes.

Era incrível o fato do cheiro de sangue se espalhar por toda a montanha com tanta intensidade. Nana e eu subíamos uma escadinha muito íngreme e mal construída, bem no fim do corredor. Olhei, nervosa, as paredes quase juntas; pareciam úmidas e cheias de poeira. Não falávamos nada, já que não havia o que dizer. Simplesmente, só podíamos torcer para conseguir sair dali.

Mas, quem, em tais condições, acreditaria que sairia com vida?

Eu compreendera o plano. Basicamente, montar nas costas de minha melhor amiga, enquanto descíamos uma montanha enormemente acidentada. Parecia estúpido – e não estou dizendo que não era- mas que escolha tínhamos, exatamente?

Esperar e ser devorada por vampiros sedentos? Não, obrigada. Prefiro a ideia estúpida.

Quanto mais subíamos, mais parecia que tudo desabaria sobre nós. Eu não conseguia olhá-la, porque ela ia logo atrás de mim, caso alguém aparecesse e tivéssemos que correr. Enfim, com tantas perguntas que tinha, mesmo com o tremor pelo meu corpo, perguntei:

“O que eles fazem?”

Ela me olhou por alguns segundos. Então, falou:

“Se está querendo saber o que estão planejando para mim, eles querem que eu seja a ‘senhora’ deles, digamos. Sabem que eu não estou pronta, por isso me mantêm naquele negócio, lá embaixo. P-para que eu não fuja.” Pude ouvir a falha em sua voz.

Refleti por alguns segundos, antes de fazer outra pergunta.

“ E, por que não fez...? Lá embaixo. Só porque não consegue matar de novo?” falei, sentindo meu estômago revirar-se. Eu estava com medo dela, de suas reações.

“Misty, eu não sei exatamente o que você pensa, mas deve saber que é muito difícil, tudo isso. Eu também tenho um acordo com eles.” Ela respirou fundo “Não te machucam e eu não os machuco.”

Engoli em seco. Aquele era seu sacrifício. Mas, por que realmente Nana fazia tudo aquilo? Será que todas suas esperanças estavam extintas mesmo? Era tudo por mim, agora? Eu deveria me sentir culpada por tudo? Ou o quê?

Mordi meu lábio inferior e enrijeci meus músculos.

“Por quê, Nana? O que tudo isso significa, no fim?” minha voz estava fraca. O medo que eu sentia – de tudo – era devastador e insaciável.

Ela deu risinho.

“Como você espera que eu saiba?” indagou, incrédula “Misty, não acho que é justo dizer que sou vítima, mas não sou a causadora de tudo isso. Ninguém sabe o que fizemos para merecer. Talvez... Nada.”

Ela hesitou por alguns segundos, então, continuou:

“E, se é o que você quer saber, minha única esperança de ir em paz é você.”

Franzi o cenho, sentindo um choque em meu peito.

“O que quer dizer?” agonizei.

“Você mão achou que tudo fosse dar certo, não é? Não está tão iludida a este ponto, eu sei que não!” ela parecia preocupada de verdade comigo “Miss, e-eu não sei o que você imaginava, de verdade. E não quero vê-la sofrer! Você tem provas suficientes disso!”

Na verdade, eu tinha em mente que tudo desse certo, sim. Para mim, quando tudo passasse, estaríamos no meu quarto com o gato laranja, vendo um filme, abraçadas. Sem torturas, sem vampiros, sem tragédia... Ou seja, sem realidade.

Todavia, no fundo de meu peito, toda essa esperança era queimada e jogada no lixo. Eu tinha certeza de que tudo daria errado. Não que fosse justo – nem que eu soubesse o que é a justiça – mas daria errado.

“Ariana, você n-não pode! Está tudo fora do lugar!” exasperei-me, surtando novamente; talvez todos estivessem certos, eu realmente precisava de um psiquiatra “Por quê?” esperneei.

“Já disse que não sei, Miss” sua voz parecia piedosa “Você não pode me fazer este tipo de pergunta! E...” ela suspirou e senti como aquilo doía nela “Não poderemos ficar juntas, em hipótese alguma.” ela não falava alto.

Virei-me e olhei em seus olhos... As pupilas dilatadas, as íris tão belas, verdes...

Então, parei de respirar e vi uma sombra.

“L-lá!” apontei, com a voz bem fraca.

Ela girou o corpo e viu a sombra aproximando-se, bem no comecinho da escada. Estávamos na primeira curva, muito íngreme, Era difícil subir aquilo, mas estávamos indo, aos poucos.

Nana olhou-me e disse uma única palavra, que me fez quase desmaiar:

“Corra!”

E eu corri como nunca fizera antes. Não sei se por sorte ou algo assim, não tropecei nos degraus maltratados. Apenas corri e, quando já ofegava muito, vi o final da escada. As curvas haviam aparecido de repente, mas eu ia bem. Por nenhum momento, consegui olhar para trás, pois já tinha feito muita estupidez com Nana. Não podia fazer nenhuma outra.

Enfim, tropecei no último degrau da escada, caindo numa salinha. Do outro lado, a uns quatro metros de distância, estavam um portão de grades e um poço, que imaginei ser de elevador.

Minha reação foi seguir naquela direção, quase me arrastando pelo chão fedorento, levantando sem parar de me locomover. Soquei um botão vermelho ao lado, que devia chamar a cabine. Só então, consegui olhar para trás, e não encontrei Nana. Meu coração parecia dar saltos mortais em meu peito, minha visão começava a ficar turva, mas não, eu não desmaiaria ali, naquele exato momento. Continuei socando aquele maldito botão. Continuei encarando aquela entrada da salinha.

Então, ouvi um grito agudo ecoando por todo o lugar. Era como alguém sendo esfaqueado numa importante artéria e sentindo que sua morte será sofrida e rápida. O pior foi que, na verdade, além de serem dois e, não um só: esses gritos eram de Nana. Minha Nana, e ninguém podia a fazer sofrer dessa maneira.

Como sou uma das pessoas mais estúpidas que conheço, tive que correr na direção do grito de morte. E eu encontrei a dona do tal grito ensurdecedor. Porém, algo me impressionou, e muito.

Esperava ver Louis – ou Gardenn muito danificado – carregando minha garota nos braços ensanguentados; esperava vê-la dum jeito horrível e inconsciente, como se fosse ser queimada em poucos minutos. Mas a cena era diferente.

Tinha Nana. Mas não tinha Louis.

Ela veio em minha direção, a pele muito mais pálida – como leite – e a expressão demoníaca. Nana caminhava lentamente, até calmamente, pode-se dizer. Mas eu preciso descrevê-la nos mínimos detalhes, porque nunca presenciei algo tão horrível em toda a minha vida, depois daquele episódio.

O rosto dela possuía uma expressão feroz, como um lobo em plena caça. Todavia, seus dentes eram mais pontiagudos e mais compridos... E estavam completamente ensanguentados. Para ser bem franca, o sangue escorria de sua boca, como se fosse saliva em excesso. Aquela camisola fina que cobria seu corpo estava, então, empoeirada e cheia do líquido vermelho. Seus cabelos desgrenhados caíam pelos ombros, também manchados com aquele sangue podre. Seus olhos... Que já haviam me passado tanta segurança, me davam medo, ali. O verde parecia mais intenso e sua pupila parecia mais dilatada. Como um gato quando vê um ratinho.

Seus ombros estavam caídos, e sua cabeça, levemente inclinada, como se me avaliasse.

Cambaleei para trás, sem saber o que mais poderia fazer. Não conseguia emitir nenhum ruído, portanto apenas caí e bati o bumbum ao chão.

Ouvi um barulho de engrenagens atrás de mim; devia ser o elevador enferrujado chegando. Mas não olhei para confirmar, porque não conseguia tirar os olhos daquilo que um dia fora minha melhor amiga. Eu sabia que minha expressão era aterrorizada e que minha aparência era horrenda e que, só de estar ali, já parecia uma débil-mental... Mas Nana... Ela parecia... Bem...

Uma assassina.

E eu sabia que aquilo era a única coisa que ela nunca se tornaria um dia, porque não combinava com ela... Porque sua pureza era infinita... Porque ela era a minha Ariana! E, quem conseguiria fazê-la se transformar naquilo?

Então, o barulho vindo do elevador me assustou e eu me obriguei a sair dos devaneios.

Nana tirou seus olhos de mim e encarou o elevador, virando a posição da cabeça, como um cachorrinho confuso. Só sei que consegui me virar para olhar para dentro da cabine e, quando me dei conta:

Eu olhava para Brad Smith, o menino ruivo que dizia gostar do meu jeito misterioso. Brad Smith, aquele antigo coleguinha. Brad Smith, o da mesma sala que eu. Brad... Smith...? Não fazia sentido. Eu estava delirando e, como acontecem muitas vezes, pessoas que deliram desmaiam.

E eu desmaiei com uma imagem na mente: Brad completamente ensanguentado, no canto do elevador de metal enferrujado, com um gancho esquisito na mão. E ele chorava, como uma criancinha precisando de colo.

E eu caí, pois estava na mesma que ele. Digo, que o “Babaca Indiferente”.

Notas finais
Por favor, quero opiniões. Não me matem se acharem que algo está muito horrível, só me avisem pelos comentários. Muito obrigada a todos os leitores :) Beijos e até o próximo capítulo!