Minha melhor amiga
12 XI
Notas iniciais
Acordei e, mais uma vez, contemplei aqueles cabelos loiros caídos até metade das costas da minha melhor amiga, que estava ali sentada no parapeito da janela.
“Bom dia, Nana...” bocejei.
“Bom dia, flor...” ela respondeu, virando-se com um sorrisinho nos lábios.
Comecei a levantar-me, mas a mordida no meu pescoço parecia estar doendo ainda mais que na noite anterior. Fiquei sentada na cama e olhei novamente as duas marcas de dentes no meu pescoço com o espelhinho do criado-mudo.
“Miss...” Nana começou “Acho que vai nevar daqui a alguns dias...”, mas parou ao ver-me observar a ferida em meu pescoço “Isso está doendo pra caramba, não é?” não precisei responder, ela pareceu lembrar-se de algo subitamente “Como posso ser tão irresponsável?”
Ela aproximou-se da minha cama, subiu nela e chegou bem perto da mordida em meu pescoço; parou e observou.
“Miss, desculpe-me por isso e... Tente não gritar... Tanto...” Nana tinha uma expressão dolorosa.
E logo descobri por quê... Ela fincou seus dois caninos no meu pescoço; no mesmo lugar que Garden. Gritos secos e agudos saíram de minha garganta, não muito altos, e, mais uma vez, senti meu corpo contorcendo-se de dor. Por que Nana estava fazendo aquilo comigo?
Mas, depois de poucos segundos, ela tirou seus dentes dali; vi que não estavam sujos de sangue, mas estavam molhados com algo. Eu ofegava.
“Miss, eu estava tirando o veneno que ele colocou dentro de você... Perdoe-me por ter-te feito sentir essa dor novamente. Se eu não o fizesse, você viraria vampira em algumas horas...” Nana falava desembestada, mas eu escutava tudo, apesar de ofegar muito e sentir muita dor.
Ela foi até meu banheiro e voltou com um pano molhado, que depositou na minha testa. Era água quente. Então, voltou ao banheiro e trouxe outro pano, esse estava molhado com água gelada e ela passou-o na mordida para que limpasse o pouco sangue que escorria. Depois de um tempo com o pano molhado na testa e com Nana passando mil coisas – como: água oxigenada e sabão – na mordida no meu pescoço, comecei a sentir-me um pouco melhor.
“Teremos que dar um jeito de esconder isso da sua família.” Nana lembrou.
“Hm... Verdade...” eu disse, pensativa.
Ficamos ali pensando em alguma coisa, até que tive uma ideia.
“Nana!” exclamei “Como você sabe que vai nevar?”
“É que está entrando um frio danado pela janela, e lá fora tem muito vento...”
“Já sei! Como está muito frio, eu posso usar cachecol!” sorri “O que acha da ideia?”
“É uma ideia muito banal! Qualquer poderia tê-la!”
Mostrei a língua pra ela. Ela riu.
“Brincadeira! É uma ótima ideia!” falou e começou a rir.
“Acha que vai dar até sarar?” perguntei.
“Bom, a minha mordida sarou depois de uns quatro dias.” Nana deu de ombros.
De repente, ouvi batidas na porta. Era mamãe mais uma vez, mas desta vez, eu podia atender. Nana correu e foi pegar um cachecol no lugar onde eu indicara no guarda-roupa. Depois, ela foi ao banheiro, apesar de poder usar aquela coisa de ficar invisível pra algumas pessoas ou sei lá...
“Bom dia!” mamãe falou depois que eu abri a porta “Ontem eu vim aqui lhe dar boa noite e perguntar se havia usado o carro, porque o medidor da gasolina continuava a mesma coisa de quando eu saí...”
“Ahn...” Hesitei por um momento pensando numa história qualquer “É que eu acabei ficando de TPM e estava com muita dor... Resolvi ficar em casa...” menti.
“Ah.” Mamãe fez ar de quem entendia do assunto “Por que não me telefonou? Tem um remédio ótimo na minha gaveta do criado-mudo...” ela dizia, mas eu interrompi.
“Não queria atrapalhar seu dia de beleza no SPA, mamãe.” Fingi “Mas, agora, eu estou um pouquinho melhor...”
“Que ótimo! Vou descer pra terminar de arrumar o café-da-manhã com seu pai!” ela falou.
“Desço em cinco minutos!” garanti.
Ufa! Ela nem reparara no cachecol!
Nana saiu do banheiro quando ouviu-me bater a porta do quarto. Sentei-me em minha cama.
“Ela nem falou nada do cachecol...” Nana observou.
“Pois é!” sorri e depois continuei “Mas agora eu preciso descer pro café-da-manhã... Não quer que eu te traga nada?” perguntei em vão.
“Não...” ela respondeu e uma sombra, instantaneamente aterrissou em seu rosto.
“Tudo bem...” falei, enquanto pegava uma calça, uma camiseta e um casaco pra substituir o roupão que eu estava usando.
Desci as escadas calmamente, ainda sentindo dor embaixo do cachecol. Cheguei à cozinha e todos estavam sentados à mesa. Sentei-me no único lugar vazio e comecei a passar requeijão numa torrada.
“Nossa! Que frio todo é esse, Misty? Você acha que está no Polo Norte ou o quê?” Luck começou a tentar me irritar.
“Luck, para de encher a sua irmã!” mamãe defendeu-me.
E aí está a vantagem de contar a sua mãe que você está com TPM... E, mesmo que eu não estivesse, a carapuça serviu.
***
Depois do café-da-manhã, encontrei Nana no parapeito mais uma vez. Tranquei a porta do quarto, ao entrar e ela desceu do parapeito. Eu ainda tinha muitas dúvidas na minha cabeça e resolvi tentar esclarece-las.
“Nana, eu posso te perguntar algumas coisas?”
“Achei que você estava até demorando a pedir isso...” ela sorriu de eleve “Claro que pode.”
“Bom, uma das coisas que mais está me atordoando é... Bem, como você está sobrevivendo?” perguntei.
“Ah, isso...” ela não olhava meus olhos “Eu... Bom, o meu primeiro alimento fornecido por Louis e Garden foi... O motorista que me atropelou. Eles tentaram me persuadir a mata-lo como vingança e alimento. Eu estava muito cega com tudo e... Estava muito amedrontada também. Eu fiz... Matei aquele homem e tomei todo o sangue dele...” ela tinha uma expressão de dor.
Acho que se naquele momento eu já não estivesse sentada na minha cama, eu teria caído. Nana já havia mesmo tomado sangue humano.
“Mas eu creio ter-me arrependido disso...” agora ela olhava para fora da janela, sua expressão era vazia “Não quis mais matar e, quando queriam obrigar-me a casar com Louis, fugi sem rumo. Mas eles me encontraram novamente... Eles começaram a me examinar...” à essa altura, ela já respondia mais que uma pergunta minha “Me torturaram perguntando-me do que eu mais gostava quando era viva, mas, por incrível que parecesse, eles sabiam todas as respostas... Então, confessaram: Espiavam-nos. A nós duas, Miss...” suas sobrancelhas se contraíam em aflição e ódio e ela continuava a olhar para fora da janela “Mas eu fui escolhida como alvo. Quando um deles apareceu na estrada naquele dia, tudo estava planejado... Menos o carro que veio me atropelou-me... Aquilo foi mesmo um acidente, mas facilitou o trabalho dos dois... Eles me contaram muitas coisas, Mis...”
Comecei a notar como ela estava ficando atordoada com tudo aquilo e a fiz parar de falar.
“Chega! Vem! Vamos fazer outra coisa! Vamos ver TV ou ler uma história em quadrinhos... Mas vamos esquecer isso por um tempinho!” eu comecei a falar.
Peguei a mão dela e a puxei para fora do parapeito. Sentei-a em minha cama, enquanto eu abria o sofá-cama para que ficássemos deitadas confortavelmente em frente à TV. Liguei o aparelho e puxei-a para deitar-se ao meu lado no sofá-cama. Ela pareceu aprovar meu programa. Sorriu.
“Certo, Miss... Definitivamente, você é a melhor!”
“Fica quieta, sua feia!” brinquei.
“Eu sou feia? Tudo bem!” ela falou, pegando uma almofada e jogando na minha cara.
Comecei a rir e devolvi a almofada na cara dela, preparando-me pra receber de volta, e recebi. Peguei um travesseiro e ela pegou outro e fizemos uma guerra de travesseiros rindo muito. Então, eu lembrei-me sobre não fazer muito barulho pra esconder Nana.
“Nana” ofeguei “menos barulho, sua feiosa!”
Ela riu.
“Você que precisa diminuir o barulho!”
Caímos ofegantes e risonhas no sofá-cama e viramos nossos rostos uma para a outra para nos olharmos melhor.
“Certo.” Nana sussurrou “Temos que nos lembrar sempre de não fazer barulho!” ela parecia uma criancinha ditando as regras.
“Eu sei, mãezinha!” brinquei, mostrando a língua.
Ela começou a fazer-me cócegas.
“Sem barulho!” protestei entre risos.
Ela parou com as cócegas e jogou-se ao meu lado novamente. Ficamos rindo baixo.
“Faz tanto tempo que eu não me divertia assim...” Nana falou.
“É claro, não podemos ficar tão tranquilas...” comecei a lembrar isso a mim mesma “Existem vampiros lá fora... Mas tomara que não voltem!”
“Acho que Louis não voltará mesmo, mas Garden...”
“Falando nisso, o que você fez com Louis?”
“Quer mesmo saber?”
Assenti.
“Bom, eu tentei sugar o sangue dele. Suguei uma boa parte, mas é muito sujo e não aguentei... Como ele estava imobilizado, fui te procurar...”
Fiquei sem palavras. Apenas abracei-a e falei:
“Obrigada...”
“Eu achei que não conseguisse viver sem você... Nós temos um laço muito forte...”
“Eu sei...” sorri.
Estávamos deitadas de lado, uma de frente pra outra.
“Eu tenho vontade de experimentar uma coisa...”
“O quê?” eu quis saber.
“Bom, eu sempre tive vontade de beijar uma garota...” ela enrubesceu um pouco.
“Posso te confessar uma coisa?” perguntei.
Ela assentiu.
“Eu sempre tive vontade de beijar você...” eu também enrubesci.
Ela sorriu e se aproximou, depositando um longo beijo nos meus lábios. Eu retribuí aquele gesto. Nós não nos tocávamos exceto pelos nossos lábios e línguas se entrelaçando.
O dia estava sendo realmente promíscuo e, talvez estivéssemos muito tranquilas para nossa situação... Mas o que mais nos importava era que estávamos ali e juntas... As tragédias que se seguiriam ainda não nos atingiam e ficar ali num beijo cheio de carinho era a melhor coisa que podíamos fazer naquele momento...
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