Minha esquisita
1 Capítulo 1 — Esquisitamente usado
Notas iniciais
Fixo meu olhar impaciente no relógio de parede pela enésima vez. Suspiro cansado, entrelaçando meus dedos sobre o colo ao constatar que já vão passar dos vinte minutos em que permaneço com a bunda colada naquela cadeira dura, esperando a boa vontade do diretor de resolver dar o ar da graça.
Ao correr os olhos pela sala, me deparo com um par de óculos de aros quadrados se pondo a me encarar; quase posso ver minha imagem nua refletida nos seus olhos pervertidos. Ao perceber que notei que era o foco de sua atenção, o rosto da secretária do diretor adquire uma tonalidade vermelho-pimentão. Constrangida, a senhorita Zavarte — como diz a plaquinha sobre a mesa dela — desvia o olhar para a tela do computador em sua frente, fingindo digitar um amontoado de palavras desconexas, onde mais parece que está submetendo as pobres teclas a um castigo.
Inclino a cabeça na direção da sala do diretor, à esquerda. Abruptamente, a porta é aberta com um baque surdo e violento.
— VOCÊ NÃO PODE ME DIZER O QUE FAZER! — meus olhos se arregalam quando aquelas palavras ditas em um tom tão exaltado e agudo penetram meus ouvidos.
Só quando elevo meu olhar e me deparo com aquela figura baixa e sua postura defensiva é que entendo o motivo de todo aquele escândalo: Skye Shoulder.
Seus pequenos punhos estão cerrados e ela respira ofegante, como se estivesse pronta para socar o primeiro que aparecesse na sua frente. Usa uma camiseta do The Pretty Reckless e uma calça boca de sino, ambas gigantes, que a deixam parecendo uma bonequinha num embrulho grande demais.
Não apenas Skye Shoulder. A Skye Shoulder.
A garotinha sardenta que estudava na minha turma desde a primeira série. Aquela que bebia cola, puxava as alças dos sutiãs das outras garotas com força e passava boa parte da aula desenhando delicadas — e obscenas — caricaturas da professora, cercadas por lindas dedicatórias — também obscenas. A maluca que tinha uma marca perfeita das botas na porta do seu armário. Foi ela quem chutou as bolas do Alex Thompson na oitava série e ameaçou o professor Gregório com um lápis dizendo que ia enfiar você-sabe-onde.
Aquela de quem ninguém queria ficar perto.
— Escute aqui, mocinha: você não pode falar desse jeito comigo, não na minha escola — o diretor exige, assumindo uma postura fracassada de autoridade, já que pelo visto ela não se deixa abalar nem um pouco.
— Eu tô me cagando para vossa excelentíssima pessoa e essa escola maldita! É por causa de pessoas como você que essa sociedade é uma merda! — grita encolerizada, e na boa, juro ter visto seu rosto ter ficado meio verde. Apostaria dez pratas em como logo ela gritaria ''Hulk esmaga!''.
Skye dá as costas, caminhando com passos furiosos em direção a porta.
— Senhorita Shoulder, sugiro que abaixe esse tom — adverte, dando alguns passos na sua direção.
Ela se vira automaticamente e o encara com um olhar assassino amedrontador, como se agradecesse por não ter visão de calor.
É uma cena engraçada de ser ver, uma garotinha que pareceria tão vulnerável e fraca como aquela tendo a petulância de desafiar o diretor, que olha aturdido para a mesma, tentando se conter e impor uma figura de respeito. Que na verdade está mais para garnisé.
— E eu sugiro que você procure uma transa, mas vai precisar achar alguém que te aguente primeiro — exclama, sem deixar o mínimo de insegurança transparecer na sua voz.
O senhor Knight fica perplexo — assim como eu — e com a boca entreaberta diante de toda a hostilidade que ela destila. Dá um pequeno passo para trás enquanto a garota se vira, caminhando até a porta com passos truculentos e firmes. Está prestes a girar a maçaneta, quando se vira na minha direção e me encara. Seus olhos amendoados com longos cílios batendo feito leques me dão calafrios; conseguem me queimar por dentro — sem abusar do drama, claro.
— Tá olhando o quê? Perdeu alguma coisa? — olho embasbacado para ela, como se me faltasse o ar.
Desde quando uma anã de jardim como aquela podia parecer tão ameaçadora?
Sem esperar que eu responda, bate a porta da secretaria do colégio com força e observo pelo vidro sua pequena silhueta sumir à medida que ela se afasta.
Permaneço com o olhar fixo no corredor, me esforçando para digerir tudo que acaba de acontecer. Alguém acabou de dizer ao diretor que ele precisa transar mais. Bom, é isso que eu entendi, a não ser que tenha cera nos meus ouvidos.
Me viro e observo em silêncio o senhor Christopher, que está sentado na cadeira de frente para a escrivaninha da mamãe Noel pedófila, com o queixo apoiado nos dedos. Ele permanece calado encarando o chão, com um olhar perdido que transmite frustração.
— Ram, ram... — pigarreio, tentando chamar sua atenção para minha existência, e claro, para o fato de foi ele quem me chamou.
— Ah, senhor Mitchell, queira me desculpar, não notei que estava aqui — ele pede, elevando seu olhar para mim e esboçando o sorriso mais amarelo e sem graça de todos.
Com certeza não é muito agradável ter um adolescente presenciando o momento em que alguém duvida da sua atividade sexual.
— É... Imagina — respondo meio sem jeito.
Então nós dois ficamos sentados em silêncio, um de frente para o outro, nos secando, da maneira mais constrangedora possível.
— Por favor, me acompanhe até minha sala, precisamos conversar — diz se levantando e dando leves batidinhas na calça.
Engulo em seco, quando me recordo da razão de eu ter ficado tão nervoso antes.
— Claro — o imito, me levantando e o seguindo até sua sala.
Olho de relance para a vovózinha, imaginando que se ela tivesse uns cem anos a menos, eu poderia dar uma piscadela agora.
• • •
— Você parece nervoso.
— Nervoso? Eu? Claro que não — digo quando os bicos do meu tênis começam a bater involuntariamente contra o chão da diretoria.
— Se eu não te conhecesse tão bem acharia que já tem ciência do porquê de eu tê-lo chamado — novamente, ele dá mais um de seus sorrisos amarelos, exalando certa compassividade comigo.
Mordo meu lábio inferior enquanto torço as mãos nervosamente sobre o colo.
— Se o senhor me chamou para discutir a minha nota vermelha em biologia e álgebra, eu juro que posso explicar — despejo sobre ele por impulso, minha boca se mexe involuntariamente.
— Então explique — ele pede tranquilamente, tamborilando os dedos sobre o tampo da mesa.
Gabe Mitchell, você é definitivamente um grande mané.
— Bom, é que... Na verdade... — pense cérebro, pense, por favor, não te obrigo a fazer isso com frequência. — Sabe... O campeonato é mês que vem, os treinos estão cada vez mais puxados e eu tenho estado um pouco cansado.
Ou talvez porque passei a noite toda fazendo entregas e ajudando a Lia a fazer a lição de casa, por isso estava esgotado demais até mesmo para pensar em estudar.
Olho para ele de forma suplicante, e sim, eu estava suplicando compaixão. Seus olhos azuis inteligentes se focam em mim e ele parece pensativo.
— Isso não é por mim, tenho consciência do seu esforço e do quanto é importante para que o nosso time de basquete tenha sido o campeão regional por três anos seguidos. Mas alguns professores — chamados Ada. — têm estado um pouco preocupados com seu desempenho e acreditam que você não esteja se esforçando o suficiente.
Um amontoado de palavras cruza minha mente de relance.
Suspensão. Bolsa. Stanford. Mãe. Lia. Futuro.
— Ma-mas eu me esforço, me esforço muito.
— Eu sei disso. Você só precisa provar para os outros a sua determinação — diz com a voz no tom mais condescendente de todos.
— Eu faço o que for preciso.
— Ótimo! — exclama com um sorriso amplo. — Sabia que você compreenderia.
Relaxo os músculos do meu ombro e solto um suspiro de alívio. Parece que consegui me safar desta vez.
— O que preciso fazer?
— Consegui convencer o conselho a te aplicar um segundo teste, mas há uma condição.
— Qualquer uma — afirmo prontamente. Eu exalava desespero, mas qualquer coisa seria melhor do que correr o risco de ser convidado a me retirar, e no mais grosso modo, expulso.
— A professora Tara fez as audições para a peça de primavera e infelizmente não encontrou nenhum aluno, digamos... com um certo perfil.
— E onde é que eu entro nisso?
— A questão é que ela chegou à conclusão de que você se enquadra perfeitamente nos requisitos do que procura.
Traduzindo, diferentemente do bando de nerds do clube de teatro, eu tenho uma aparência razoável, e claro, ela acha que se eu me apresentar, o auditório vai encher mais que um show da Demi Lovato.
— Não seria nada muito importante, certo?
— Não, claro que não, sua participação seria muito simples.
Traduzindo, eu vou ser uma árvore ou no máximo um figurante.
Finjo estar pensando e analisando a proposta antes de abrir a boca.
— Se é assim, tudo bem.
Traduzindo, eu estava sem saída alguma e toparia até se ele me mandasse usar uma meia calça de lycra e dançar o Lago dos Cisnes na frente de todo mundo.
— Excelente! Tenho certeza de que vai se sair muito bem
Traduzindo, eu iria me sair muito bem como árvore, era só ficar parado e ensinar o caminho de volta para casa à menininha perdida.
— Muito obrigado por me dar essa chance — murmuro.
— Agradeça dando o máximo de você da próxima vez, também dê uma forcinha na hora de carregar a taça do campeonato — completa, dando uma ligeira piscadela.
Xeque-mate! Tudo está explicado em três palavrinhas: Campeonato Interestadual de Basquete. Ou seja, o único motivo pelo qual ainda não me chutaram de vez é porque sou ligeiramente alto e consigo acertar uma bola laranja em uma cesta.
— Claro — concordo soltando um riso nervoso.
Talvez a ideia de ser usado pudesse parecer um absurdo para algumas pessoas, mas para mim, era completamente viável, afinal, ser usado era a única coisa na qual eu realmente sempre fui bom.
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