Minha doce fera
12 Capítulo 12.
Notas iniciais
A neve caia lentamente no exterior do castelo cobrindo levemente as árvores retorcidas cujas folhas haviam caído devido à temperatura mais amena, o enorme lago que se encontrava próximo ao castelo possuía agora uma grossa crosta de gelo, o cobrindo, eu me encontrava agora na enorme biblioteca do castelo, nos braços de Adam, que dormia tranquilamente após a leitura de um livro, eu ainda me encontrava confusa com o seu recente pedido, ele queria dar uma festa? Ele queria que eu o acompanhasse, mas como ele queria convidar outras pessoas para seu castelo se ele ao mesmo tempo, fugia das mesmas, isolando-se?
Ele se remexeu docemente e eu voltei minha atenção para o mesmo, que possuía uma expressão serena, parecia estar sonhando, agora mesmo com suas marcas ele não parecia o monstro que afirmava ser, toquei sua face cuidadosamente tentando não acorda-lo porem minha tática foi falha e ele abriu seus olhos, porém logo os fechou devido à claridade.
–Bela...? – ele falou meu nome com sua voz seca devido ao sono.
–Sim. – falei abrindo um sorriso que ele logo retribuiu – Eu estive pensando...
–Sobre o que? – ele perguntou ainda de olhos fechados.
–Sobre aquele seu convite de hoje mais cedo. – senti seus braços a minha volta ficarem tensos, com toda certeza ele esperava ansiosamente pela minha resposta.
–Eu adoraria lhe acompanhar. – Ele abriu os olhos e beijou o topo de minha cabeça.
Continuamos por alguns minutos sentados, desfrutando da companhia um do outro, eu ouvia atentamente as batidas de seu coração, até que bateram na enorme porta de madeira branca da biblioteca, chamando a minha atenção e a de Adam. Logo Burnier adentrava o local calmamente, porém com sua expressão rigorosa de sempre.
–Vossa alteza... – ele pronunciou e Adam se colocou de pé, Burnier nos observou por um breve momento, como se tentasse entender a cena – Sua presença esta sendo requisitada agora.
Adam me ajudou a ficar de pé e beijou lentamente minha face.
–Eu preciso... – Eu apenas assenti e sorri para ele, mesmo que estivesse decepcionada, eu queria ficar ali, ouvindo seu coração bater, aproveitando do calor e do conforto de seus braços.
Adam saiu com Burnier a seu encalço, deixando-me sozinha na biblioteca, eu não queria ficar sozinha, pois sempre que isso acontecia, as lembranças de minha antiga vida pareciam renascer, os comentários, os julgamentos maldosos, meu casamento arranjado, as feridas em minha costa causada pelo chicote de coro da mãe de Gastón, meu pai, apesar de tudo eu ainda sentia sua falta, eu o amava tanto, tanto quanto amava Adam. Sai do cômodo, passando pelos corredores, o castelo era bastante decorado, em tons claros juntamente com dourado, as paredes eram decoradas com pinturas dos antigos parentes de Adam e em toda a extensão do corredor encontravam-se vasos de flores, rosas, que deixavam o corredor com um doce perfume, a presença das flores me fez recordar da historia de Adam e por um momento as lágrimas teimaram em cair, eu nunca o tinha visto tão frágil.
Caminhava distraída pelo corredor, notei uma movimentação diferente pelo castelo, os empregados subiam e desciam as escadas com jarros e tapetes em mãos, aquilo de fato chamou minha atenção, eu nunca vira o castelo tão movimentado, Adam parecia estar preparando uma grande festa, aproximei-me da cozinha buscando por alguém que me fizesse companhia, quando alcancei a mesma um cheiro delicioso emanou da mesma, provavelmente o jantar do baile, a cozinha encontrava-se tão movimentada quanto o restante do castelo, o cozinheiro Bourbon, dava ordem para que os demais preparassem o jantar de maneira correta, quando me viu ele abriu um sorriso, porém logo voltou a comandar os demais empregados, Madame Marta estava polindo a prataria com o auxilio de Adeline, ambas conversavam animadamente como se toda aquela agitação as animasse, Madame Marta estava com sua habitual xícara de chá em mãos, aproximei-me delas e as cumprimentei, Madame Marta levantou-se e me abraçou, eu me ofereci para ajuda-las, porém Madame Marta não permitiu, conversamos por alguns minutos:
–Se Adam voltar pode informar a ele que eu estarei no jardim.
–Não! – Madame Marta gritou e logo colocou sua mão sobre a boca.
–E por que não? – eu a indaguei confusa, ela apenas inventou desculpas esfarrapadas sobre como o clima ameno poderia prejudicar minha saúde, depois pegou minhas mãos e me conduziu para o quarto, disse que eu deveria me aprontar para o baile.
–Meu bem... O que gostaria de vestir essa noite? – ela me perguntou e eu nem ao menos sabia o que responder, eu nunca fora a um baile, apenas a algumas festas da vila, mas nada de muito extravagante, usava sempre um simples vestido, assim como todas as demais damas, e passávamos toda a noite dançando, enquanto os homens tomavam sua cerveja barata.
–Eu não sei... Nunca fui a um baile. – pronunciei em voz baixa e ela me olhou com carinho.
–Não se preocupe meu bem, eu irei ajudá-la. – dizendo isso ela seguiu para o guarda-roupa, em busca de um vestido ideal, todos eram de fato muito belos, varias cores e tons diferentes, modelos bastante variados, eu nunca tive um guarda-roupa tão belo quanto aquele. Eu nem ao menos sabia o que dizer.
Ela então pegou um vestido em tons perolados, sem mangas, ela separou belas joias e um par de sapatos em tons semelhantes. Eu fiquei deslumbrada com tudo aquilo, ela me conduziu para o banheiro que ficava em meu quarto e me auxiliou no banho, lavando meus cabelos. Depois ela me entregou algo para que eu me secasse e me conduziu de volta para o quarto, sentei-me em frente à penteadeira e ela começou a pentear meus cabelos enquanto os prendia, quando meu cabelo finalmente estava pronto ela me auxiliou com o espartilho e em seguida a calcar os sapatos, então finalmente veio o vestido e as luvas que ela me entregou em seguida, eu estava pronta e mal me reconhecia em frente ao espelho, estava espantada, como uma simples camponesa agora aparentava ser uma dama, não apenas uma dama, mas uma princesa. Ela então se retirou por um momento e depois entrou com uma caixa em mãos, fitei o objeto curiosa e ela o colocou sobre a penteadeira, depois abriu a caixa e retirou de lá uma linda coroa de brilhantes, em seguida a depositou em minha cabeça, eu a fitei admirada, nunca em minha vida pensei que usaria uma.
–Era da mãe de Adam... Eu nunca mais vira ninguém usá-la, ela é tão linda... – disse enquanto lágrimas escorriam de seus olhos.
–Eu não posso... – disse mais ela negou.
–Adam insiste que a use.
Então não protestei, mas a mesma era bastante pesada, eu segui para janela ao notar que a escuridão já tomava conta do local, porém ela não permitiu que eu o fizesse, tocando em meu braço ela pediu que eu permanecesse parada para evitar que o vestido amarrotasse, mesmo que a contragosto eu a atendi.
Na hora indicada ela pediu para que eu seguisse para fora do quarto e encontrasse Adam no salão principal, levei algum tempo para me equilibrar sobre os sapatos e seguiu nervosa pelos corredores, minha respiração estava acelerada e meu coração praticamente zumbia. Respirei fundo e comecei a descer as escadas, porém algo me surpreendeu, não havia ninguém, apenas Adam que me esperava no final da escada com sua mão estendida para que eu a pegasse, logo eu o atendi, e segurei seu braço com forca, mesmo não havendo ninguém ali eu ainda me encontrava bastante nervosa.
Ele me conduziu para mesa onde desfrutamos de um maravilhoso jantar, nós não dissemos nada durante o mesmo, apenas trocávamos olhares, em seguida ele novamente pegou minha mão e fomos para o salão principal, seguiríamos para o jardim, mas eu o impedi ao avistar um piano no canto do salão.
–Eu nunca tinha visto esse piano. – ele me fitou.
–Eu toco... – o olhei maravilhada e pedi que ele tocasse para mim, de inicio ele não aceitou, mas depois ele se sentou em um banco em frente ao piano e começou a tocar, eu me sentei ao seu lado e o observei, as vezes durante as notas da música ele lançava para mim, alguns olhares e isso me fazia ficar corada.
Quando acabou a música ele voltou-se para mim e me beijou. Eu sorri envergonhada enquanto ele me conduzia para o jardim, enquanto passávamos pelas rosas, notei a presença de velas iluminando o local, chegamos ao refugiu de Adam que agora não era mais o antigo jardim sem flores, mas um belo local repleto de rosas brancas e vermelhas. As luzes quase imperceptíveis das varias velas tornavam o lugar agradável, o chafariz agora possuía água, lancei a Adam um olhar indagador, eu não conseguia entender o que significava tudo aquilo.
Adam tinha um sorriso bobo em seus lábios, como se lutasse para saber o que eu estava pensando, se admirava sua atitude, a luz da lua deixava seu sorriso bem mais bonito e chamativo e suas cicatrizes, as quais ele tanto odiava quase não eram notadas a meia luz, ele estendeu sua mão para que eu me sentasse a seu lado no chafariz que agora possuía água gorgolejando causando um som bastante agradável e relaxante.
–Então...? – ele me perguntou com um sorriso torto nos lábios vermelhos.
–Então era por isso que eu estava absolutamente proibida de deixar a biblioteca... – perguntei com um sorriso e deixando a ironia transparecer em minha fala. – Ou por que talvez o clima pudesse fazer mal a minha saúde.
–Madame Marta nunca soube mentir muito bem, nem mesmo esconder um segredo, mas é uma boa pessoa. – ele disse pegando minha mão. – Mas não respondeu a minha pergunta.
Levantei do chafariz e ainda de mãos dadas o conduzi a um pequeno passeio pelo seu refugio.
–Ninguém nunca havia feito nada assim para mim, você é tão diferente dos demais rapazes. – ele tocou suas cicatrizes rapidamente, levei minhas mãos a seu rosto também. – Não digo aqui... – Levei minhas mãos juntamente com as suas ao seu coração. – Mas aqui, você é especial, é verdadeiro, e eu o amo, o amo de uma maneira inimaginável. E isso... Isso é perfeito.
Eu ia beijá-lo, mas ele me interrompeu, segurou minhas mãos, e uma nova expressão tomou conta de seu rosto. Eu o fitei confusa então ele disse:
–Não totalmente verdadeiro...
–Mas o que?
Ele me conduziu novamente para o chafariz e apertou fortemente minha mão.
–Eu não lhe contei tudo...
–Adam eu sei que seu passado foi bastante difícil e que você acha que essas marcas definem quem você é, mas...
–Não é sobre isso que eu quero falar...
–Então...? – o estimulei a prosseguir.
–Lembrasse-se de quando eu a salvei, na floresta? – eu balancei positivamente a cabeça e ele prosseguiu. – Eu estava caminhando aquela noite, não conseguia conviver com meus monstros e também pensava em abandonar tudo assim como você, mas eu não tinha coragem, eu a vi correndo e a acompanhei, você estava tão assustada tão frágil...
Eu fechei os olhos tentando reprimir as lágrimas e ao mesmo tempo o medo que teimava em voltar. Ele apertou fortemente minha mão e prosseguiu:
–Vi quando você caiu, quando bateu sua cabeça... Você desmaiou, eu sabia que se a deixasse ali você morreria, eu não podia deixa-la, precisava proteger você...
–Sei disso Adam, você me trouxe para cá...
–Mas eu nunca lhe contei o porquê... – eu o fitei confusa. – Eu já estava com você em meus braços, quando vi seu pai, ele havia entrado na mata, para ajuda-la, mas não a voltar, mas a fugir do casamento arranjado, quando ele me viu, pediu para que eu a escondesse, a levasse em segurança para qualquer outro lugar longe, onde seu marido não a encontrasse, e assim eu o fiz não lhe contei nada e deixei que seu pai permanecesse como o vilão de tudo, quando na verdade ele a salvou.
Eu levantei bruscamente, as informações me atingiam de maneira descontrolada, as lágrimas banhavam meu rosto e eu tinha vontade de gritar.
–Por que você não...? – ele tentou se aproximar, mas eu recuei.
–Bela eu sinto...
–Você sente? – falei com a voz embargada pelo choro – Como sente?
Ele não disse nada apenas me fitou por um momento.
–Eu passei dias sofrendo, chorando todas as noites, culpando meu pai, por tudo que estava acontecendo, quando na verdade ele me salvou.
Ele tentou me abraçar, eu não permiti que ele me tocasse, eu tinha tanta raiva tanta magoa.
–Não me toque! – eu gritei – Fique longe de mim.
Virei-me e corri por entre os jardins, eu nem ao menos conseguia encara-lo, meu cabelo se desfazia e meu vestido engatava nas plantas, eu não ligava, chorava descontroladamente. Entrei no castelo e logo todos os empregados vieram em minha direção.
–Bela? – madame Marta tentou argumentar, mas eu apenas tirei a coroa que estava sob minha cabeça e entreguei a ela. – Mas bela...?
–Tome, por favor... Tome.
Corri para fora do palácio, em direção à floresta, eu precisava ver meu pai, sei que havia prometido nunca mais voltar, sabia que se o fizesse seria morta, torturada, um destino terrível me aguardava, mas eu precisava de meu pai, tinha que encontra-lo.
O vento tornou-se mais forte e a chuva começou a cair levemente, a terra provocava manchas na barra de meu vestido e os galhos secos provocavam pequenos cortes em minha pele, eu não me importava, eu queria fugir, queria procurar conforto em algum lugar, Adam havia me traído, eu confiava nele eu o amava. Ouvi ruídos incessantes e imaginei tratasse de lobos ou até mesmo de um caçador que havia me encontrado. Senti algo tocando meu braço, me impedindo de continuar a fugir.
–Não me solte... Solte-me. – Eu me debatia e batia em quem me segurava.
–Bela... – a voz de Adam era doce, calma aconchegante, eu não pude suportar e me lancei em seus braços, como uma criança, pequena, frágil.
–Por que Adam? – enterrei minha cabeça em seu peito, e ele tocou levemente meus cabelos.
–bela eu sinto...
–Adam... – eu continuava a chorar descontroladamente.
–Para onde pretendia ir?
–Para casa...
–Lá não é a sua casa...
–E onde seria com você – me desvencilhei de seus braços, mesmo que sob seus protestos. – Eu preciso encontra-lo, agora.
Ele fechou os olhos e eu voltei a correr, mas dessa vez ele não me impediu, permitiu que eu continuasse a correr, descontroladamente, sem rumo. E eu o fiz, até avistar minha antiga casa, de pedras, simples, de acordo com os padrões de um inventor, passei um momento assim, admirando o local, quando algo veio a minha mente, meu pai havia me salvado, mas ele causara tudo aquilo, ele me vendera, para continuar com suas invenções, isso não fazia dele um herói. Levei minhas mãos ao peito, eu precisava encontrar Adam, tentei voltar para o castelo e chamei seu nome para que ele me ajudasse, mas já era tarde demais.
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