Já sei! Já que está aqui sozinha e se mudou pra cá a pouco tempo... Suponho que não sai muito. Oque acha de irmos ao shopping? A gente vê algumas roupas, conhecemos pessoas novas, compramos alguns livros... Enfim, oque acha? — disse Ana, mostrando uma empolgação só vista no primeiro dia que falei com ela.

– Ah, vamos sim. Vou ver se minha mãe deixou dinheiro de novo pra eu comprar um lanche. Ou dois, talvez. — ri.

Então me arrumei, peguei o dinheiro e fomos até o shopping que fica no centro da cidade, uns 40 minutos de ônibus.

Ana estava linda como sempre, ela disse que só ia arrumar o cabelo e passar um batom, mas ao invés disso, colocou uma calça jeans dessas skinny que fica bem apertada e que nunca caberia em mim. Uma regata preta bem colada ao corpo, contornando sua cintura. Seu cabelo loiro dourado que ia até a bunda, estava com um brilho incrível. Nunca vi cabelo mais bonito.

E eu? bom, eu coloquei um moletom que já estava apertado em mim, e uma calça jeans bem surrada e tênis. Sempre tênis.

Chegamos no shopping e andamos um pouco pelos pátios, reparei que muitas pessoas olhavam pra Ana, grupos de meninos paravam de conversar pra mexer com ela. Conforme ela andava, bem despreocupada, todos ao redor olhavam pra ela, mas parecia que isso não a atingia, parecia que ela realmente nem percebia. Isso começou a me incomodar, minha autoestima que já não é alta, estava caindo ainda mais quando via os garotos dando cantadas nela e parecia que eu nem estava ali. :

– Vamos naquela loja de vestidos? sempre ia nela lá na minha cidade. Tem uns vestidos incríveis que deixam o corpo lindos. — propus.

– Vestidos? vamooos, adoro. Preciso comprar vários.

Entramos na loja e pra mim, os olhares de todos lá dentro em direção a Ana já era esperado.

Comecei a reparar bem nela, tentando entender porque todos olhavam tanto... Foi então que percebi; Ana era a garota mais linda que já vi em minha vida, e quando digo isso, incluo as garotas de revistas e novelas. Seu nariz é empinado, seus olhos são grandes e azuis, os traços do seu rosto parecia ter sido desenhado por um design de bonecas.

Nós entramos e já começamos a escolher os vestidos. Peguei vários de manga média a longa porque não gosto de regatas e nunca fui muito fã de deixar os braços a mostra. A "boneca" já foi pegando vários de alça, de manga, tomara que caia... Ela nem precisava ver o tamanho, só pegava. Simples.

– Os provadores daqui são enormes! Vamos usar o mesmo, assim eu posso ver como os vestidos ficaram em você e você vê como ficaram em mim. — propôs a Ana.

– Ah, vamos. Sem problemas.

Entramos no provador, eu e ela já penduramos nossos vestidos e começamos a tirar a roupa. Ela tirou o sapato e seguido tirou o jeans.

"Olha que pernas lindas! Tem um vão enorme entre elas quando ela se abaixa." — pensei.

Tirei minha calça também e logo minhas coxas enormes pularam pra fora como um pudim branco ou uma geléia ou qualquer coisa que seja mole. Ela tira a regata.

"Oh God! A cintura dela é ainda mais fina. A costela ta amostra?!!"

Eu estava quase suando de nervosismo e vergonha quando tirei minha blusa. As banhas pareciam ainda maiores, era como se a alguns minutos atrás elas não fossem tão grande assim, mas agora elas aumentaram quase 20 vezes mais o tamanho. Sei que sou gorda, sei que não tenho o corpo da Ana, mas isso nunca havia me incomodado tanto.

Ela experimentou todos os vestidos e todos eles ficaram espetaculares nela. Ana sempre vestia e reclamava de estar gorda, falava que seus braços estavam enormes e eu só conseguia me perguntar se ela estava de zoação com a minha cara.

Vesti o primeiro : era azul marinho de mangas longas com um grampeado na cintura.

– Nossa, ta muito apertado. Será que eu peguei o número errado? — disse eu, rezando pra ter pegado um numero bem menor que o meu.

– Deixa eu ver... Este aqui é o 42. Seu número é qual? — perguntou Ana.

– Ahh... ata, é esse mesmo. Deve ser o modelo que é apertado. — disse eu tentando disfarçar que na verdade meu número era 40 e além de eu ter pegado um número maior, ele ainda estava apertado.

"Caramba, eu to muito gorda!"

– Não gostei do vestido. Estou parecendo uma baleia orca. Ainda mais de azul marinho. — Reparo pelo espelho a Ana dando um sorriso.

– Ah Isa, experimenta esse rosa, vai ficar lindo em você.

Olho o tamanho e vejo que é 40. Então invento uma desculpa e digo que não quero experimentar mais. Se o 42 ficou apertado, imagino se eu tentar colocar o 40... Vai ser maior mico.

– Vamos passar em uma casa de shakes que tem aqui no shopping? Dizem que tem muitas coisas gostosas e não calóricas lá.

Digo que sim e então ela não pega nenhum vestido, diz que todos deixaram ela gorda. Então vamos para a casa de shakes.

Chego lá e logo de cara já reparo que todas as atendentes são super magras. Elas me encaram e olham feio quando entro. Uma delas se esforça para segurar o riso.

– Boa tarde, quer ajuda pra escolher? Temos barras de cereais, chocolates, shakes, ervas naturais...

Ana se dirige a prateleira de shakes e eu vou junto.

– É pra você? — diz a vendedora apontando pra mim. — Pra emagrecer, nós temos esse Dark Horse que é sem carboidratos, sulfatos e é termogênico. Melhor, é 0 açúcar. Pra pessoas que estão acima do peso igual você, esse é bem recomendado.

A amiga dela então cai na gargalhada. Então eu entendo! Elas estão rindo de mim, a vendedora esta rindo de mim, ela veio só fazer uma piadinha. Uma vontade incontrolável de chorar brota de dentro de mim. Lembro de quando me faziam chorar na escola, de quando eu me trancava no banheiro na hora do intervalo de tanta raiva que aqueles muleques me faziam. Mas aquilo passava, eu só me irritava mas aquilo não doía. Não como doeu agora. Eu to gorda. Eu realmente to gorda.

– Eu só estou dando uma olhada, minha amiga que veio comprar algumas coisas. — digo tentando esconder a cara de choro.

Ana pega seus shakes e vai até o caixa. Ela está seria, seu rosto está frio, Então ela vem em minha direção e abre a porta da loja. :

– Vamos Isa, já deu por hoje.

Notas finais
Gente, perdoem-me de mudar algumas características da Ana. Mudei para homenagear uma amiga minha. Espero a compreensão, xoxo.