Minha beldade.

1 Minha beldade ( único)


Notas iniciais
Oi, gente! Tudo bem? 💚 Esses dias eu não andava escrevendo nada novo, até que minha amiga linda e maravilhosa, entrou em ação. Ela me mandou um meme e... acho que nunca ri tanto na vida! 😂 Foi assim que nasceu esta one-shot. Como eu já tinha escrito um Hyoga agricultor, agora chegou a vez do nosso Hyoga do sertão. Um homem que, tenho certeza, muita gente gostaria de encontrar pela vida. Daqueles que sabem que o amor não se mede pelo tamanho do presente, mas pelos pequenos gestos do dia a dia. Que cuida da sua beldade como quem cuida da flor mais bonita do jardim. E a flor dele, claro, é o nosso Shun. 🌻 Agora, chega de conversa... Boa leitura! 🤎

Era uma conversa sem pressa, daquelas que só criavam corpo onde o tempo parecia cochilar à sombra de um juazeiro.

No sertão, o passatempo mais valioso não custava um centavo. Bastava puxar um tamborete para a frente da casa, servir um café amargo num copo de requeijão ou naquele velho copo de extrato de tomate e ficar ali, vendo a tarde escorrer devagar.

O sol, que passara o dia sapecando o couro de cristão, finalmente começava a amansar. Ainda tingia o horizonte de vermelho queimado, mas já ia se escondendo atrás dos morros, cansado de judiar do povo.

Um ventinho tímido resolveu dar as caras, balançando o telhado de palha da pequena casa de taipa e levantando redemoinhos de poeira na estrada de terra.

Hyoga se ajeitava no tamborete de madeira, balançando o copo em círculos pra tentar misturar o resto da borra nos últimos goles de café morno.

Seiya estava no chão, sobre os próprios chinelos havaianas que tinha tirado dos pés para não melar a bunda de poeira.

Já Jabu permanecia escorado na porta de duas bandas da casa, os cotovelos apoiados na metade de baixo, observando a rua com a atenção de quem esperava que alguma novidade resolvesse passar por ali.

E passou.

Uma moça bonita surgiu caminhando pela estrada de barro, equilibrando-se num salto alto que claramente nunca tinha pisado naquele chão.

Os cabelos violetas desciam lisos pelas costas, balançando no vento com aquele brilho bonito de quem acabou de lavar.

Jabu ajeitou o corpo no portal, esticou o pescoço e quase soltou um assobio, de queixo caído com a boniteza.

Hyoga fingiu que nem tinha visto. Continuou balançando o copo, concentrado em olhar fixamente para a borra do café.

Seiya seguiu a moça com o olhar até ela sumir na curva da cerca de arame farpado. Suspirou fundo, ajeitou o chinelo debaixo do bumbum e soltou:

— Ei, doido... me diga uma coisa: por que é que as mulher da gente não é bonita que nem essas que passam na rua?

Hyoga nem levantou os olhos do copo.

― Ô, compadre... deixe de falar besteira. As beldades da gente é bonita sim, você é que é cego....

​Jabu arqueou uma sobrancelha, já sentindo que aquela conversa ainda ia render. ​

Seiya fez uma careta de desdém, torcendo o nariz:

​― É, mas não são bonitas desse tanto.

​Hyoga deu mais uma girada no copo e respondeu:

— A diferença é que essa aí só passou. A sua acorda do seu lado todo dia. Experimente olhar pra ela com os mesmos olhos de curioso que cê olha pras que passam na estrada... É assim que eu trato o meu Shun: feito uma joia rara que caiu nesse sertão.

Seiya abanou a mão no ar, bufando:

​— Oxente... O teu não conta!

​— E por que não conta? — Hyoga ergueu uma sobrancelha, encarando o outro.

​— Você trata aquele menino como se ele fosse feito de ouro! É um dengo, um nhenhenhém que só vendo. Se até espinho fica bonito quando você cobre de pétala de rosa, imagina o Shun!

Hyoga engoliu o resto da borra do café e mandou de volta, sem pestanejar:

​— E tu queria que eu tratasse o amor da minha vida como, criatura? ? Feito bode véi na beira do curral?? Aquele cabra é o maior presente que Deus botou na minha porta!

​Jabu, que até então só observava debruçado na metade da porta, soltou uma risada debochada e meteu a colher na conversa;

​— É fácil falar assim quando a beldade do cabra tem o temperamento do Shun! Ele te acolhe com amor, chazinho quente e cafuné. Já quando eu chego em casa, Shina falta é voar na minha jugular com um facão de cortar carne!

— E tu queria o quê, homem? — disparou Hyoga, sem dó.

​Jabu piscou, meio perdido:

​— Ué... Como assim, "queria o quê"?

​— Tu deixa Shina sozinha descascando macaxeira, carregando água, varrendo terreiro, dando comida às galinha... A coitada passa o dia todinho se acabando no serviço pesado enquanto tu vive escorado na porta conversando fiado!

​— Ô Hyoga, num exagere que num é assim também não, viu... — tentou se defender Jabu, ajeitando o corpo no portal.

​— É assim sim! Enquanto tu tá aqui coçando o espinhaço na sombra dos outros, Shina tá lá no abafado, acendendo o fogão a lenha com a fumaça no olho, estragando as unhas e derretendo a cola dos cílios no calor da chama!

​— Eita... Mas não é desse jeito não, sô...

​Hyoga deu de ombros, virando os últimos pingos do copo de café:

— Depois tu ainda quer chegar em casa sendo recebido com beijo na boca. Se dê por satisfeito dela usar o facão só pra te dar uma carreira!

​Seiya coçou a cabeça, pensativo, e mandou na inocência:

​— Ô Hyoga... Mas fala aí: como é que tu faz pro Shun te tratar sempre com comida posta no prato e cafuné no cangote? Porque a Marin... Nossa senhora. Quando eu pisei em casa ontem, ela implicou até com a poeirada do meu chinelo e com a camisa suja que eu joguei no sofá!

​— Claro, abestado! — Hyoga rindo da cara dele. — Tu entra com os chinelos cheios de barro num chão que ela acabou de varrer. Joga a camisa em cima do sofá que ela acabou de arrumar. Se bobear, ainda pergunta o que tem pra comer antes de dar boa-noite.

​Jabu caiu na gargalhada e tirou um cigarro de palha do bolso, riscando o fósforo no portal:

​— Pior que é desse jeitinho mesmo!

​— Ei! Num fique do lado dele não, seu desmilinguido! — Seiya deu um pulo do chão, apontando o dedo zangado pra Jabu. Em seguida, virou pra Hyoga com a cara amarrada.

​— Mas é uma injustiça do cão comparar o Shun com as nossas! — reclamou Seiya. — O Shun te recebe com bolo de fubá quentinho, não faz uma cara feia e não olha pra tu como se quisesse te jogar no fundo do poço!

​— Shun não nasceu diferente das beldades de vocês, não — Hyoga respondeu, calmo. — A única diferença é o jeito que eu trato ele..

​— Como assim, homem? — Os dois franziram a testa na mesma hora.

​Hyoga apoiou o copo no joelho, olhando pros dois com aquela paciência de quem tá ensinando a tabuada pra dois asno:

— Como é que vocês querem que a beldade de vocês fique bonita e carinhosa, se vocês deixam a coitada o dia todinho queimando a barriga no fogão a lenha.

​— Oxente! Agora o cabra é culpado até do fogo. — retrucou Seiya, bufando.

​— É sim senhor! Enquanto tu tá aqui esticado na calçada, ela tá lá soprando brasa, mexendo panela, lavando prato, espantando galinha de dentro de casa.

​Jabu coçou o queixo, pensativo:

​— Rapaz... Pior que é verdade.

​Hyoga continuou, ignorando a interrupção e mantendo o olho em Seiya:

​— Deixe de ser sem-vergonha! Compra uma airfryer pra tua mulher!

Seiya arregalou os olhos na hora, fazendo a conta de cabeça das parcelas no Magazine Luiza:

​— Airfryer?! Tá doido, Hyoga? Aquilo é o olho da cara!

— Mais barato do que um divórcio — o loiro soltou, endireitando o corpo no tamborete enquanto tirava um cigarro do bolso do calção.

​Jabu rachou o bico de rir. Hyoga nem piscou, riscando o fósforo:

​— Ajude com as coisas de casa, homem. Se tu pegar numa vassoura pra varrer a sala ou lavar uma louça no giral, tua pica não vai cair não!

​— Ei! Olhe o respeito, compadre! — Seiya resmungou, vermelho de vergonha.

​— Tô mentindo por acaso? — Hyoga soltou a fumaça pro alto, num sopro só.

​Os dois ficaram calados, sem ter pra onde correr.

​Hyoga apontou o braço na direção da estrada por onde a moça bonita tinha sumido:

​— Vocês tão olhando demais pra flor do quintal dos outros. — Fez uma pausa e concluiu: — Vão cuidar da flor que Deus plantou no quintal de vocês, em vez de ficar cobiçando a alheia.

​Seiya cruzou os braços e soltou um resmungo derrotado:

​— Mas é impossível não olhar, Hyoga, quando a flor do vizinho parece bem mais bonita e viçosa que a nossa...

​Hyoga olhou bem no fundo dos olhos dele e disse;

​— E como é que a tua vai ser bonita se tu não cuida dela, criatura?

​Seiya franziu a testa, sem entender a lógica. Hyoga suspirou e explicou:

​— Flor precisa de água, de cuidado e de uma sombra quando o sol tá quente demais. Se tu só pisa no canteiro e nunca rega a terra, depois não venha chorar dizendo que a planta murchou.

Os dois ficaram em silêncio, digerindo a lição de moral. ​Até que Jabu quebrou o clima:

​— Se for desse jeito, acho que a minha Shina tá é precisando de um açude inteiro!

​— Pois então vá e ofereça esse açude pra ela, homem! — mandou Hyoga. — Arrumou mulher pra quê, se não é pra zelar da bicha? Tu tem é que mimar ela todinha, rapaz!

​Jabu murchou os ombros, dando um risinho sem graça:

​— Tu sabe que as coisas tão devagar pro meu lado. Tô sem um tostão furado no bolso, compadre. Como é que zela de alguém sem um tico de dinheiro?

​— E quem foi que disse que carinho se compra em bodega, criatura?

​— Ué... — Jabu ergueu os olhos, curioso.

— Zelar é dar atenção, é fazer um chamego, é dar amor de verdade! Experimenta dar um afeto sincero... Um abraço apertado, um beijo sem tá querendo nada em troca, um "vai descansar que hoje eu resolvo oalmoço". Às vezes isso vale muito mais do que vidro de perfume importado.

​— Mas eu dou chamego! — protestou Jabu.— Outro dia mesmo eu fui dar um cheiro no pescoço dela e a bicha quase rachou minha cabeça no meio com uma colher de pau!

​— E ela tá mais do que certa! — pontuou Hyoga. — A pobre passa o dia todinho cuidando dos meninos. É um pendurado no colo, outro agarrado na barra da saia, o fogão a lenha pelando no juízo e um monte de roupa pra lavar no varal... Aí tu chega da rua, sapecado de sol, fedendo a suor de três roçados e quer chegar dando cheiro no cangote da mulher? Ela devia era ter te dado de cabo de vassoura!

​— Oxi... Mas eu só tava tentando ser romântico! — reclamou Jabu, coçando o pescoço, contrariado.

​— Pois então comece tomando um banho de sabão no açude primeiro, criatura! Romance não precisa feder a inhaca de cabo de enxada.

​Seiya gargalhou alto. Jabu bufou, de cara feia:

​— E o que é que eu faço, então, sabichão?

​Hyoga respondeu com a tranquilidade de quem ensinava a receita de um bolo de rolo:

​— Seja romântico tirando os teus filhos do juízo dela pra coitada descansar um bocadinho...

​— Descansar como?

​— Dá um dia de spa day pra tua mulher.

​— Que peste é esse tal de spa day? — Jabu franziu o cenho.

― Manda ela pro salão de beleza! Aparar as pontas do cabelo, fazer as unhas, tirar a cutícula, passar um creme cheiroso... Mesmo se ela botar aqueles cílios postiços que parecem duas vassourinhas de piaçava nos olhos, tu elogia!

​Jabu olhou pro céu, cruzando os braços e cheio de razão:

​— Ô Hyoga, tu fala como se dinheiro nascesse em pé de macaxeira. A colheita da cana nem começou e a safra do milho esse ano foi uma miséria! De onde é que eu vou tirar trocado pra salão de beleza?

— Mas pra comprar Pitú no bar de Seu Zé e apostar no dominó no fim de semana tu arruma dinheiro na hora, né? Pois economize a cachaça! E se tu não tem trocado pra pagar salão, vá tu mesmo e faça o serviço! Esquente uma água no fogão, bota numa bacia e vá lavar o pé da tua mulher. Passa um sabonete cheiroso, faz uma massagem nas costas dela quando ela deitar... Isso não custa um tostão furado e garanto que tu não leva colherada de pau na cabeça nunca mais!

​Jabu abriu a boca pra retrucar, indignado:

​— Tá bom, tá bom... já entendi. Tu quer é me ver virar empregado de mulher, um pau mandado...

​— Chame do que tu quiser, cabra — Hyoga interrompeu, encarando-o no fundo dos olhos. — Só lembre de uma coisa: o que tu não valoriza por preguiça, tem outro na fila doido pra valorizar. O sertão tá cheio de homem de olho em mulher trabalhadora!

​Seiya até encolheu os ombros, assustado com a resposta. E Jabu ficou sem jeito. Hyoga completou:

​— Cuidar de flor não é gastar água de caminhão-pipa de uma vez só. Às vezes basta molhar a terra um pouquinho todo santo dia.

​Seiya fez um muxoxo, torcendo o nariz:

― Também é fácil tu falar. Quero ver tu viver com uma criatura que muda de fase toda semana! Uma hora tá na tal da fase folicular, depois ovulação, depois vem a fase lútea... Quando termina uma, já começa a outra desgraça. O cabra tem que andar com um calendário de folhinha na mão até pra saber se pode respirar do lado dela!

​Jabu concordou na hora, balançando a cabeça — afinal, o namorado de Hyoga era homem e não tinha essas complicações de hormônio:

​— É desse jeitinho mesmo! O cabra nunca sabe quando tá fazendo algo errado. A Shina reclama até do jeito que eu como e da forma que eu bebo água!

​— Mas é claro! Tu come parecendo um jumento solto no pasto! — disparou Hyoga. — Onde tu come, tu larga o prato sujo... Onde tu bebe, tu deixa o copo pra virar criadouro de mosca!

​Jabu tentou rebater, abrindo a boca, mas Hyoga cortou de primeira;

​— Vocês dois tão é reclamando de barriga cheia, isso sim!

​Os dois olharam pra ele na hora, sem entender nada.

​— Shun é muito pior... — Hyoga disse, com cara de quem já tinha visto o cão na quaresma.

​— Pior?! — Seiya arregalou os olhos. — Como assim, homem? Aquela alma é mais mansa que água de pote!

​Hyoga apontou o dedo pro próprio peito, sério:

​— Se eu vacilar com ele, não existe essa história de fase folicular, ovulação nem fase lútea, não.

​Fez uma pausa, olhando bem no fundo dos olhos dos dois:

​— Ele não precisa nem ser mulher pra virar a mula sem cabeça os trinta dias do mês!

​— Oxe! Mas ele é daquele jeitinho todo amoroso, carinhoso... — protestou Seiya.

​— Pois justamente! O perigo é quando ele deixa de ser.

​Jabu riu de canto de boca;

​— E o que é que acontece, afinal? Ele vira lobisomem e te arranha na calada da noite?

​— Ele não grita... — soltou Hyoga.

​— Ué, melhor ainda! — disse Jabu, dando de ombros.

​— É aí que mora o perigo, seu besta!

​Os dois se entreolharam, sem entender o mistério. Hyoga deu um suspiro pesado:

​— Ele só olha bem no fundo da tua alma, com aquele olhar calmo, e diz: "Tá bom".

​Seiya franziu a testa, sem captar a gravidade:

​— E daí, homem? São só duas palavras!

​Hyoga ajeitou o copo vazio no peitoril da janela e se levantou devagar do tamborete:

​— Se um dia o amor da tua vida responder "tá bom" olhando no fundo dos teus olhos... Pode ir arrumando tuas trouxas pra dormir no curral. Porque tu nunca sabe quando vai acordar com uma panela de água fervendo no pé do ouvido.

​Seiya levou a mão ao peito, espantado:

​— Misericórdia!

​Hyoga deu um sorriso fraco, encarando o horizonte do sertão que já ia escurecendo:

​— O facão da Shina corta uma vez só, Jabu. Mas o silêncio de quem a gente ama... Esse corta todo santo dia quando a gente lembra.

Hyoga deu o último gole, virou o copo de extrato de tomate de cabeça pra baixo e deixou a última gota melar a terra seca do terreiro.

​O sol já tinha sumido de vez atrás dos morros, deixando no céu só um rastro de laranja queimado. Era hora de pegar o rumo de casa. E ele sabia que, lá do outro lado da estrada, tinha um rapaz de cabelos verdes esperando por ele — com certeza com um café recém-passado e um bocado de prosa guardada desde a manhã.

​Antes de dar o primeiro passo, olhou bem firme pros dois compadres:

​— Vou dar um último conselho pra vocês...

​Seiya e Jabu ergueram a cabeça, atentos.

​— Valorizem as beldades de vocês. Eu dou uma vida de príncipe pro meu Shun... e, em troca, ele me trata feito rei. Se vocês tratarem suas esposas como princesas, elas tratam vocês do mesmo jeito.

​Seiya coçou a testa e deu uma risadinha sem graça:

​— Mas Hyoga... Pra dar vida de princesa, o cabra precisa ter muito recurso, num é não?

​Hyoga fez uma careta de reprovação:

​— Pequenas coisas já fazem toda a diferença, Seiya. O valor tá em como tu enxerga quem tá do teu lado... — Fez uma pausa e continuou: — Presente não é só em data comemorativa, e carinho não é só pra quando você tá querendo "coisa" de noite, não! Tem cabra que só vira dengoso quando quer agrado na cama... Mas às vezes, uma simples palavra, um "eu te amo" dito no meio do nada, já muda o dia da pessoa por completo.

​Os dois ouviram em silêncio, sem ter o que rebater. Jabu baixou a cabeça, meio envergonhado:

​— É... Nisso tu tá certo. Faz tempo que eu num dou um dengo pra Shina...

​— Pois dê, homem! — incentivou Hyoga. — Abrace sem querer nada em troca. Beije a testa dela. Pergunta como foi o dia. Diz que ela tá bonita mesmo quando tá com o cabelo preso de qualquer jeito com pena de galinha. Tu vai ver a cara dela mudar na mesma hora! Além disso compre uma caixa de bombom pra tua mulher! Deixe de ser pirangueiro e para de largar a bicha quebrando os dentes comendo rapadura e lasca de cana!

​Jabu coçou a nuca, desajeitado:

​— Mas eu num sei fazer essas coisas de dengo não, compadre...

​— Aprenda! Ninguém nasce sabendo ser gente, não!

​Seiya ainda tentou dar uma última desculpa, manhoso:

​— Mas eu num tenho dinheiro pra comprar perfume importado, restaurante chique...

​Hyoga estalou a língua, indignado:

​— Mas tu não precisa de luxo, peste ruim! Dá o que tu tem de melhor: o teu amor! Disso que a gente carrega no peito, a fartura é grande!

​Apontou o dedo pra Seiya, semicerrando os olhos:

​— E se for comprar um cheirinho pra ela... Pelo amor de Deus, não me apareça com aquele desodorante Alma de Flores, que tem cara e cheiro de vó, não!

​Seiya caiu na gargalhada na hora. Hyoga acabou rindo junto, balançando a cabeça:

​— Leve ela pra jantar fora, pra comer o que ela quiser... Não faça tua mulher comer feijão com farinha em cima do prato todo santo dia. Leva pra comer um pastel frito na feira, um cuscuz caprichado, um espetinho na praça... O importante é olhar pra ela e dizer: "Hoje tu não vai pra beira do fogão. Hoje sou eu que quero cuidar de tu."

​Jabu abaixou a cabeça, pensativo, e Hyoga abriu um sorriso sincero:

​— Cuidem das muié de vocês como se elas fossem o bem mais precioso que vocês têm. Porque, muito provavelmente... elas são.

​O vento da noite passou de leve, levantando um tico de poeira da estrada. Seiya respirou fundo, parecendo finalmente ter caído na real:

​— Rapaz... Acho que eu tô devendo um bocado de desculpas pra Marin.

​Jabu concordou com a cabeça, convencido:

​— E eu acho que vou chegar em casa é lavando a louça do giral.

​Hyoga deu uma risadinha de canto:

​— Façam isso mesmo.

​Já ia dando o primeiro passo na estrada quando parou. Virou só o rosto de lado, olhando de rabo de olho pros dois:

​— E outra coisa...

​Seiya e Jabu congelaram, esperando o toque final de sabedoria.

​— Vocês mereciam era tomar um par de chifre bem grande.

― Ôxente, compadre! Que conversa é essa? Tá rogando praga na gente? — Seiya arregalou os olhos, escandalizado.

Jabu fez logo o sinal da cruz e mandou no reflexo:

— Ai dentro! Vira essa boca pra lá, homem!

Hyoga balançou a cabeça.

― Num tô rogando praga nenhuma, não. Só tô dizendo a verdade: vocês passam o dia todinho babando pelas manga do pé dos outros... — Hyoga balançou a cabeça.― Mulher dos outros é igualzinha a manga em pé alheio: a gente acha bonita porque não é a gente que precisa juntar as folha seca que ela derruba, nem varrer o terreiro depois de uma ventania!

​Hyoga ajeitou o chapéu de palha na cabeça e arrematou:

​— Antes de procurar beleza na poeira da estrada... aprendam a enxergar a que tá esperando por vocês dentro de casa.

​E, dessa vez, virou as costas e foi embora de verdade.

​Seguiu passos pela estrada de terra, com as mãos nos bolsos do calção e um sorriso nos lábios. Sabia que, do outro lado daquela porteira, Shun já devia estar na varanda da casa de taipa, olhando pro caminho e esperando o seu homem chegar. Para o mundo, podiam até achar que Hyoga era o príncipe daquela história; mas, para Hyoga, era Shun quem fazia daquele pedaço de sertão o lugar mais bonito da vida dele.

Naquela noite, Hyoga empurrou a velha cancela de madeira e entrou no terreiro de casa.

​O céu já vestia seu manto de estrelas, enquanto a lua clareava de mansinho o caminho de terra batida. No ar, misturavam-se o cheiro gostoso de comida fresca, da lenha queimando no fogão e da terra ainda morna depois de um dia inteiro de sol.

​O cachorro da família já dormia enroscado perto da sua casinha. As galinhas tinham subido pro poleiro fazia tempo, e, lá do chiqueiro, vinha o ronco preguiçoso dos porcos, parecendo até disputa pra ver quem roncava mais alto.

​Hyoga sorriu. Era bom demais voltar pra casa.

​Atravessou o terreiro apressando o passo, doido pra rever sua flor.

​Na porta, esfregou bem as botas no batente pra tirar a poeira agarrada na sola. Em seguida, tirou os calçados e deixou do lado de fora. Como diz o povo do Maranhão: "Barro da estrada fica na estrada; dentro de casa entra só quem traz paz."

​Empurrou a porta de duas bandas. A casinha de taipa o recebeu com aquele frescor gostoso que só parede de barro bem feita sabe guardar. O chão de piso queimado brilhava de tão limpo. Num canto da cozinha, dois potes de barro cobertos com paninho de crochê mantinham a água sempre geladinha. O fogão a lenha ainda crepitava baixinho, com uma panela soltando aquele vapor cheiroso. Sobre a prateleira de madeira, as latas de mantimento dividiam espaço com a lamparina e o bule esmaltado. Perto da janela, a mesa simples coberta por toalha de chita esperava a janta, enquanto uma rede colorida balançava mansinho com o vento da noite.

​Não demorou nada pra ele encontrá-lo.

​Shun apareceu na cozinha com um pano de prato no ombro. E assim que os olhos verdes dele cruzaram com os de Hyoga, abriu um sorriso tão radiante que fez todo o cansaço do dia evaporar na hora.

Hyoga sempre dizia que cuidar de uma flor dava um bocado de trabalho. Mas bastava aquele sorriso pra ele ter a certeza de que cada gota de suor valia a pena.

Diferente das esposas dos amigos — que costumavam esperar os maridos no portal prontas pra encurralá-los na vassourada ou na pancada do pau de pilar arroz—, Shun fez o oposto. Correu direto ao seu encontro e pulou nos braços dele. Enlaçou o pescoço de Hyoga, beijando sua bochecha ainda quente do roçado e, em seguida, seus lábios — que sabiam a café forte e fumo de rolo.

— Tu demorou, Hyoga... — disse Shun, manhoso, sem se soltar do abraço.

Hyoga sorriu, ajeitando a cintura do parceiro pra segurá-lo melhor.

— Tive que parar no meio do caminho pra desembarcar dois jumentos.

Shun deu uma risada, adivinhando de primeira:

— Seiya e Jabu de novo?

— Quem mais?

Shun pegou na mão dele e foi o puxando pra cozinha, cheio de prosa pra contar:

​— Pois enquanto tu tava lá ensinando aqueles dois teimosos, a Judite virou mãe de novo. Tirou oito pintinhos de uma vez só!

​— Eita guria trabalhadeira...

​— E a vaca Maria deu tanto leite hoje que encheu dois baldes até a boca.

​Hyoga arqueou as sobrancelhas, impressionado:

​— Tá ficando metida essa vaca.

​Shun continuou, achando graça:

​— E o Rodolfo passou a tarde todinha arrumando confusão com os outros porcos. Não queria dividir a lavagem de jeito nenhum!

​Hyoga fez uma cara pensativa, coçando o queixo:

​— Bom saber... Pelo menos a gente já sabe qual porquinho vai virar assado na ceia de Natal.

​Shun arregalou os olhos e deu um empurrãozinho brincalhão no peito dele:

​— Deixe de ser ruim, Hyoga!

​Hyoga só fez rir, puxando-o de volta pra colar os corpos. Depositou um beijo demorado na bochecha de Shun, puxando pelo nariz aquele cheirinho gostoso e adocicado do hidratante Monange de frutas vermelhas que ele adorava passar.

​— Tu tá cheiroso demais, meu bem...

​Shun sorriu, corando de leve com o dengo:

​— E tu tá fedendo a sol, café e a fumo de rolo.

​— Um perfume de homem de respeito — Hyoga piscou.

​— Um banho resolve facinho — provocou Shun, arrumando o pano de prato no ombro.

​Hyoga deu um sorriso de lado, apertando a cintura dele um pouquinho mais forte:

​— Tu vai comigo?

​Shun mordeu o lábio inferior, dando aquele olhar safado.

— Depois do jantar a gente pensa nesse teu banho...

Hyoga deu uma risada maliciosa, e os dois se abraçaram rindo, embalados pelo calor daquela cozinha.

Enquanto Shun terminava de mexer a panela no fogão a lenha, Hyoga arregaçou as mangas da camisa, foi até o giral ao lado da cozinha e começou a lavar a louça que tinha sido usada no preparo da janta.

Shun olhou de soslaio para ele e sorriu outra vez.

Era por essas pequenas coisas — pelo respeito, pelo dengo e pelo cuidado diário — que o amor deles florescia bonito e forte todos os dias.

​Fim.


Notas finais
E chegamos ao fim! 🌻 Agora me digam... onde é que vende um Hyoga do sertão? Porque eu também quero encomendar um. 😂 A mensagem dessa história é bem simples: tem muita gente procurando a flor mais bonita no jardim dos outros, enquanto esquece de regar a que Deus plantou no próprio quintal. Não adianta reclamar que a flor murchou se faltaram água, carinho, atenção e cuidado. E, homens... lavar um prato nunca fez cair o documento de ninguém, viu? Pelo contrário! Às vezes, é justamente nos pequenos gestos que o amor cria raízes e continua florescendo por muitos e muitos anos. Desejo uma ótima semana a todos. Muito obrigada por lerem e acompanharem mais uma das minhas maluquices. 💚 Um beijo enorme! Fiquem com Deus e até a próxima história!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!