Minha Viagem Infernal
33 Encontrando a família
Notas iniciais
- Argh... Eu te odeio. – Falei enquanto limpava o meu rosto sujo de molho de tomate.
- Eu também te odeio, agora cala essa boca. – Resmungou ele em resposta. Nós dois estávamos ajoelhados perto de uma fonte em Paris, limpando os rostos com a água.
Olhei para ele morrendo de vontade de retribuir o resmungo, mas comecei a rir sem querer. Ares parou de limpar o rosto e franziu o cenho para mim sem entender. Foi aí que ele olhou para suas calças ainda sujas e molhadas de vinho e sopa.
- Há Há. Você me paga por isso. – Falou ele sem achar graça, mas eu ainda estava rindo. Isso o irritou um pouco – Ei, Kelly. Ainda está sujo aí.
- Onde? – Perguntei franzindo o cenho.
- Aqui. – Ares segurou o meu cabelo e afundou minha cabeça na água da fonte. Quando ele finalmente me soltou, eu tirei meu rosto da água voltando a respirar. Meu rosto estava completamente molhado, e minha franja estava grudado na frente dos meus olhos indo até o meu queixo – Há Há! Agora sim.
- Idio...! – Ele ergueu uma sobrancelha para mim, e eu engoli o resto da frase. Com um movimento simples, joguei mais água nas suas calças e me levantei – Ótimo. Quer dar mais um passeio romântico comigo? Aproveite enquanto o meu cabelo está com esse cheiro divino de tomate e alho.
Mesmo tentando limpar as calças de novo, Ares começou a rir de mim.
- Assim que não resisto. – Zombou ele rindo. Franzi o rosto para ele, e Ares parou de rir – O que? Está me olhando assim por quê?
- No... Seu cabelo. – Disse apontando. Ele olhou para cima e eu tive que rir – Você está fazendo o que? Tentando olhar?
- Cala a boca. O que tem no meu cabelo? – Perguntou ele sem entender.
Tive que ficar na ponta dos pés e esticar a mão para tocar no que queria em sua cabeça.
- Tomate. – Disse tirando o pedaço vermelho de seu cabelo. Joguei no chão longe de nós e acabei rindo de novo. Ares revirou os olhos.
- O nosso almoço romântico foi um desastre e a culpa é toda sua. – Falou ele.
- Isso nunca ia ser um almoço romântico. E também... Você que começou comendo como um animal. – Rebati e Ares fez uma careta para mim – É sério. Se Deméter estivesse lá, ela ia te dar um lindo puxão de orelha.
- Como se eu ligasse para as reclamações dela sobre etiqueta. Aquela mulher chata... Ai! – Ares estava reclamando de Deméter, quando (do nada) alguém puxou a sua orelha com toda a força possível. Arregalei os olhos e vi que era Deméter mesmo! – O que é isso?! Me solta! Ah!
- O que estava dizendo de mim, Ares?! Seu mal educado! Será que a sua mãe não te ensinou nada?! – Perguntou ela continuando a puxar. A Deusa da agricultura estava usando uma saia verde que ia até os joelhos, e uma camisa branca bem fresca. Ela estava usando um chapéu também – Peça desculpas agora mesmo! O que estava pensando?!
- Ai! Ai! – Exclamou ele enquanto ela o puxava cada vez mais – Tá bom! Desculpa! Pronto! Agora me solta!
- Peça desculpas para a sua namorada também! Onde já se viu?! Agir de um jeito tão rude em um restaurante chique?! E na frente de uma moça?! – Reclamou ela.
- Eu não vou pedir desculpas para essa pirralha...! Ai! Tá bom! Desculpa! – Exclamou ele rangendo os dentes de raiva.
E quanto a mim? Eu estava sorrindo para ele, na tentativa de prender o meu riso. Aquela era uma cena linda mesmo.
- Está desculpado, Ares. – Sorri para ele – Boa tarde, senhora Deméter. Como vai você? Dando um passeio por Paris?
- Boa tarde, Alice. – Sorriu ela de volta, soltando a orelha de Ares – Viu só?! Ao menos ela tem um pingo de educação, seu selvagem! Aprenda alguma coisa com ela, e deixe de ser desse jeito!
- Ninguém merece... – Resmungou ele com raiva, passando a mão pela orelha.
- Alice Kelly! – Exclamou uma voz masculina conhecida. Ela estava bem perto de mim, o que me assustou. Eu dei um leve pulo e olhei pra trás. Homem com pele branquíssima, cabelos pretos compridos, e olhos negros e penetrantes. Hades, Deus dos mortos. Ele abriu os braços em sinal de “seja bem vinda!” – Quanto tempo, hein?
— Hades. Olá. – Sorri me recuperando do pequeno susto. Olhei melhor para ele e vi que estava usando roupas diferentes. Estava com uma bermuda marrom, uma camisa preta, tênis, e tinha um ar de turista – Ahm... Vocês viajaram para Paris também?
O Deus dos mortos riu um pouco, mas assentiu.
- É que nós achamos que aqui teria um pouco de diversão, sabe? – Comentou ele olhando para Ares e depois para mim. Entendi.
- Vocês vieram porque eu vim com eles dois. – Comentei, e ele sorriu assentindo.
- Você não tem idéia de como é engraçado ver vocês três juntos. Espero que não se ofenda nem nada, mas essa vai ser a diversão das minhas férias. – Disse Hades rindo. Encolhei os ombros. O que eu poderia dizer?
- Ok... Acho que... Tudo bem. – Confirmei, mas então olhei para Deméter. Ela encarava Ares e Hades com um olhar repreendedor – Uhm... Mas você veio junto com ela? Vocês dois não se odeiam?
Hades revirou os olhos repentinamente incomodado, como se eu tivesse acabado de lembrá-lo de algo nada agradável. Deméter fez o mesmo.
- Não vim aqui por causa dele, é claro. – Respondeu ela. Ia perguntar porque ela veio então, mas minha resposta foi respondida.
- Amor, você não acha isso lindo? – Perguntou uma mulher morena simplesmente linda. Seu corpo era cheio de curvas, e seus cabelos negros a deixavam ainda mais bonita. Parei por alguns instantes, enquanto a mulher olhava para mim. Será que eu estava na frente da...?
- Alice Kelly. Finalmente tive o prazer de te conhecer. – Disse ela com um sorriso, enquanto me analisava.
- Perséfone, estávamos comentando com Alice o quanto engraçado vai ser ficar essa temporada em Paris. – Disse Hades olhando para ela. Sabia! Perséfone, a esposa de Hades. Filha de Deméter e Zeus que foi seqüestrada pelo senhor do Mundo Inferior, e obrigada a se casar com ele. Era o principal motivo de Deméter odiar Hades.
- Ah, sim. Isso vai ser muito divertido. – Concordou Perséfone, e depois olhou para Ares – Estamos atrapalhando alguma coisa?
- Vocês sempre estão atrapalhando alguma coisa. – Respondeu ele em um resmungo irritado.
- Deixa de ser chato. – Falei para ele – Eles só estão conversando.
- Tsc. Eu tenho cara de novela para entreter as férias de vocês por acaso, seus otários? – Resmungou ele com raiva – Arrumem outra diversão e nos deixem em paz.
- Sempre tão educado. – Murmurou Perséfone revirando os olhos – Francamente, eu não tenho idéia de como Alice consegue agüentar você.
- Perséfone, ela não agüenta. Ela é obrigada a agüentar pelo meu irmão mandão. – Corrigiu Hades e um raio caiu em algum lugar ao longe. Eu prendi a respiração por alguns segundos, com medo do próximo ser na minha cabeça.
- Mas... Os outros Deuses também estão por aí? – Perguntei pra Hades. Ele sorriu e assentiu.
- Mas é claro! Ninguém no Olimpo ia querer perder a chance de ficar perto de vocês três! São o assunto do momento. – Confirmou ele rindo.
- Fofoqueiro. – Resmungou Deméter revirando os olhos – Assunto do momento. Parece até Afrodite falando. Eu te disse que você podia ficar longe dele enquanto ele estava em Paris, filha, mas não! Tinha que vir com esse cara!
- Mamãe! – Exclamou Perséfone – Eu não podia deixar ele vir sozinho para Paris!
- Viu só?! Vê se para de pegar no meu pé, Deméter! – Reclamou Hades.
- Não venha me dando ordens, seu vadio! – Exclamou Deméter reclamando com ele. Hades cerrou os punhos e tentou discutir, mas Deméter lhe deu um lindo tapa no braço dele e o senhor dos mortos se encolheu – O que você ia fazer? Gritar comigo? Seu mal educado! Parece até que é irmão de Ares!
- Como é que é?! – Reclamou Ares, mas assim que Deméter virou-se para ele, o Deus da guerra recuou um passo discretamente – Ahm... Eu vou deixar essa passar. Vamos embora, Kelly. Não quero perder o meu dia com parentes irritantes.
Perséfone revirou os olhos, e estava mais do que escrito em sua testa “Família... Eu que o diga.”. Eu ri e dei tchau para eles. Ares saiu me puxando para o mais longe possível que conseguia deles, e nós caminhamos em uma direção aleatória.
- Isso quer dizer que os outros também estão aqui. Tipo... Poseidon, Atena, Hera... – Falei enquanto ele me puxava pelo braço, então Ares parou e arregalou os olhos.
- Não. – Murmurou ele chocado – Ah, não! Não pode ser! Não!
- O que? – Perguntei um pouco preocupada.
- Vem logo! – Exclamou ele, enquanto saiu me puxando pela rua. Nós conseguimos voltar para o hotel sem nos perdermos, o que era algo muito bom. Ares entrou no elevador e subiu os andares rapidamente. Assim que as portas se abriram, ele correu para a porta do quarto de Afrodite, mas antes que pudesse abrir a porta... Alguém abriu antes. E por dentro.
- Ah. É você. – Disse um homem conhecido. Ares rosnou para ele, mas o homem não ligou. Ele olhou para o lado e assim que me viu abriu um sorriso leve – Ah! Você... Alice. Isso. Olá, minha jovem.
- Boa tarde, Hefesto. – Respondi enquanto olhava Ares com raiva.
- O que você está fazendo aqui? – Perguntou com raiva. Hefesto riu um pouco.
- Pelo visto, estragando os seus planos noturnos, não é? – Falou ele rindo. Ares quis bater nele, mas por algum motivo que podia notar que ele escondia um certo medo de Hefesto. Talvez por ter sido humilhado tantas vezes – Bem... Na verdade você pode tentar, mas não tenho certeza se vai ser uma experiência agradável.
Os punhos de Ares estavam se fechando cada vez com mais força. Olhei para Hefesto. O Deus estava com calça jeans surrada, uma camisa simples e o cabelo completamente bagunçado e caótico. Seu rosto era marcado de algumas cicatrizes.
- Ok... O que você veio fazer aqui? – Perguntei tentando ser educada, já que Ares não facilitava em nada.
- Me incomodar, não está na cara? – Rugiu Ares fuzilando ele com o olhar – Você só veio para poder me irritar. Jogar na minha cara que eu não posso ficar com Afrodite aqui.
- Eu? Não sei da nada disso. – Sorriu ele inocente – E você devia ser mais gentil com a sua namorada. Até porque, ela é a única pessoa que te agüenta.
Hefesto passou por nós e foi andando pelo corredor até sumir. Afrodite saiu do quarto dela logo depois, e fechou a porta. Ares olhou-a com esperança, mas a Deusa do amor encolheu os ombros e seguiu Hefesto.
- Não acredito nisso... Fui passado para trás por aquele ferreiro irritante! – Exclamou Ares com raiva. Ele virou-se para trás sem nem mesmo pensar, e deu um soco no que ele pensava ser o ar. Mas... Acabou acertando alguma coisa.
Pude ver uma pilha de livros cair no chão violentamente, e alguns papéis voarem pelo ar. Franzi o cenho. De onde aquilo tinha vindo?
- Ótimo! Mas você é mesmo um estúpido. – Disse uma voz secamente. Parecia realmente irritada pelos livros terem sido jogados no chão. Eu cheguei para o lado, e vi que se tratava de Atena. Ela fuzilou Ares com um olhar de raiva, e ele fez o mesmo.
- Ah, quem mandou você se meter no meu caminho, traça de livros?! – Reclamou ele. Atena trincou os dentes, e esticou os braços como se ainda estivesse segurando os livros. Todos eles voltaram para seus braços por mágica, e eu arregalei os olhos, impressionada.
— A culpa não é minha se acabou de ser derrotado pelo seu rival. – Comentou ela. Atena fez os livros sumirem em um estalo de dedos, e eu pude ver melhor sua roupa. A Deusa da guerra e da inteligência usava uma bermuda jeans e uma camisa pólo. Era impressionante como Atena sempre tinha um ar superior e intelectual á sua volta – Se tivesse um pingo de inteligência, talvez conseguisse se dar bem pelo menos uma vez na sua vida imortal.
- Por que você não pega os seus conselhos tão bons e os dá para alguém que realmente queira? Vai encher a paciência de Poseidon. Ele sim merece você falando no ouvido o tempo todo. – Rebateu Ares.
- Nossa, não sei. Por que você não pega a sua grosseria e mostra para a Afrodite como você realmente é? Ah, é verdade. Você não pode, porque Hefesto está com ela nesse momento, não é? – Retrucou Atena.
Eu podia sentir o fogo nas palavras de cada uma deles. Os dois Deuses da guerra estavam se enfrentando no meio do corredor, e sem nenhuma calma. Acho que se tivessem facas, já estaria vendo um rio de sangue escorrer pelo chão.
- Você é patética, Atena. Quando vai aprender que eu sou o melhor Deus da guerra? – Perguntou Ares com um sorriso maldoso superior. Atena o esnobou.
- Você não é o melhor. É só um cabeça dura que acha que consegue qualquer coisa pela força bruta. – Respondeu ela. Foi aí que Atena notou a minha presença (o que era difícil, pois eu estava me encolhendo no cantinho para não ser esmagada por um deles) – Ah, Alice.
- Atena. – Sorri fazendo um movimento sutil com a cabeça. Ares olhou para mim, e depois sorriu para Atena. Ele me puxou pelo braço para perto dele, e encarou sua meia-irmã.
- Ela sabe muito bem quem é o melhor Deus da guerra. Pode dizer, Kelly. – Disse Ares cheio de certeza que eu o escolheria.
- Ahm... Eu realmente não quero me meter no meio da briga de vocês. – Disse tentando me livrar do seu braço, mas ele continuava segurando com força.
- Humpf. Esquece, Ares. Ela iria me escolher, porque sabe que a inteligência supera a força. – Disse Atena olhando para Ares.
- Ela sabe muito bem que com força, você quebra as pernas de qualquer inimigo que tentar te derrubar com um plano estratégico. – Rebateu ele.
- Ela sabe muito bem que a inteligência passou por cima de obstáculos muito maiores do que a força bruta. – Insistiu Atena.
- Ah, que nem aconteceu com os seus preciosos atenienses? – Implicou Ares.
- Como se os seus espartanos tivessem se dado melhor. – Rebateu Atena franzindo o nariz.
- Me diz então qual deles sobreviveu. – Pediu Ares com um sorriso triunfante – Hein? Acho que não foram os atenienses, mas quem sou eu para comentar isso?
- Isso não vem ao caso. – Rugiu Atena com raiva – Atena é muito mais desenvolvida do que Esparta, e você sabe muito bem disso!
- Perdedora! – Cantarolou Ares para irritá-la, mas Atena só revirou os olhos e olhou para mim.
- Ainda me pergunto como vocês dois acabaram presos juntos. Como isso tudo começou. – Disse ela trincando os dentes e cruzando os braços.
- Simples. Ele me infernizava ouvindo rock pesado... – No fim da frase Atena disse junto comigo – Ás 3 da manhã!
- Exatamente! Ao menos agora alguém entende o quanto ter um irmão desse tipo é terrível! – Exclamou ela feliz por ser compreendida, e Ares fez cara de “Eu?! Como assim eu sou terrível?!” – Desde que ele nasceu a vida de todo mundo é um inferno! Quando ele ficava o tempo todo no Olimpo, era impossível ler em paz! Sempre com música alta, sempre fazendo barulho, sempre arrumando confusão! Impossível!
- Mentira! Eu não sou tão ruim assim! – Exclamou ele com raiva.
- É sim! – Concordamos juntas. Atena olhou para mim e ergueu uma sobrancelha – Sabe... Estou começando a gostar um pouco mais de você, Alice Kelly. Vejo agora que você tem um pouco de noção.
- Obrigada. – Disse sem saber o que falar.
- Mas ainda não sei como você agüenta ele. Acho que é a única que tem esse dom. – Comentou Atena.
- É, é. Você é só a terceira ou quarta pessoa do dia que comenta isso, agora vamos embora. – Disse ele me puxando pelo corredor. Atena revirou os olhos e sumiu, mas eu sabia que ela ainda estava no mesmo hotel que nós.
Aquela viagem ia mesmo ser infernal...
Notas finais
Atena vs Ares... Hahahaha! Essa ia ser uma briga tensa.
Bem, espero pelos lindos reviews!
Beijos!
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