Vale das Cinzas. Cidade pequena, daquelas que só existem em filme de terror indie ou em anúncio de plano de saúde para idosos. Um shopping center que é 80% praça de alimentação, uma igreja metodista, uma fábrica de laticínios falida que cheira a queijo curado no desespero. E, claro, sinal 5G perfeito em cada esquina. Porque terror sem internet hoje em dia é terror capenga; se a vítima não puder fazer um Story chorando antes de morrer, a morte nem engaja.

Freddy escolheu o lugar exatamente por isso.

Após décadas dormindo o sono dos justos na caldeira coletiva dos pesadelos americanos, o cara acorda numa era bizarra. Ninguém mais tem medo do escuro, de facas ou do bicho-papão. O pavor moderno é ver o ícone da bateria piscar em 1% ou mandar um print no grupo errado.

O trevoso olhou pro mundo novo através da tela de um iPhone trincado de uma vítima recente, ajeitou o chapéu fedora e decidiu: Tá bom. Se é assim, então agora é live.

...

Tiffany — sim, aquela Tiffany, a influenciadora que cobrava R$ 250,00 por um e-book de três páginas ensinando "o segredo quântico da pele perfeita" — estava ao vivo às 22h, o horário nobre da destruição da autoestima alheia.

— Gente, juro, hoje eu vou fazer minha rotina de skincare noturna só pra vocês verem que pele boa é disciplina de milhões, e não sorte, tá? — A voz dela tinha aquele tom anasalado de quem mora em condomínio fechado.

O filtro embelezador do aplicativo, subitamente hackeado por garras oníricas que definitivamente não deveriam ter acesso a código-fonte nenhum, começou a falhar.

Uma pintinha surgiu no queixo perfeitamente esculpido.

— Ai, deve ser bug do Insta. Terça é dia de update da Meta, né, meninas? — Ela mexeu no rosto, um tanto desesperada, esfregando a tela, tentando manter o sorriso de porcelana.

A pintinha virou uma espinha amarela. A espinha estufou para um caroço. O caroço ganhou um pelo grosso e encravado.

@Larissa_oficial: amiga sua câmera tá bugada kkkkkk @joaosemgraça: aumenta o zoom SOCORRO @vc_naosabequemsou: isso é uma VERRUGA??? mds q nojo

Tiffany tentou aplicar corretivo. O corretivo escorregou, porque aquela superfície palpitante já não era mais feita de pele humana.

— Gente, relaxa, deve ser reação alérgica àquele sérum de vitamina C novo. Aliás, clica no link da bio e usa o cupom TIFFANY15 que ele resolve...

A coisa no queixo dela cresceu. Ganhou contorno, textura cartilaginosa e, bizarramente, um sorriso próprio. Torto, cheio de dentinhos pontiagudos e amarelos, quase escondido sob a luz estourada do ringlight.

@resenha_diaria: isso já tem CNPJ pra cobrar imposto? @fominha_do_mal: ELA CRIOU VIDA NO PRÓPRIO ROSTO KKKK @querotudoevernada: Black Mirror tá diferente, melhor que Netflix

Tiffany deu uma risadinha nervosa, achando que a audiência estava usando algum filtro colaborativo de Halloween. Foi então que a "coisa" abriu um segundo olho, avermelhado e purulento, e olhou diretamente para a lente da câmera.

E explodiu.

Não no sentido "explodiu de fama". Explodiu mesmo. Gosma vermelho-arroxeada, pedaços de cartilagem e pus espirraram na lente da câmera, no microfone condensador de mil reais e no post-it rosa de "METAS DA SEMANA: SER LUZ".

A live ficou no ar por mais quarenta agonizantes segundos. Estática, gosma escorrendo pela tela, e uma risada rouca e metálica ecoando no fundo do quarto vazio. Depois cortou.

Último comentário antes da tela preta:

@escrota_receitas: sinceramente, melhor conteúdo que ela já postou esse ano. Entregou tudo.

...

Christofer — com "PH" mudo, que ele fazia questão de corrigir em toda santa frase, "É Christo-FER, bro" — malhava todo dia de frente pra câmera. Microfone de lapela grudado no peitoral suado, tripé posicionado no ângulo perfeito para valorizar o bíceps. Ele era o terror das feministas e o guru dos machos alfa de apartamento.

— Cê tem que entender a red pill, parceiro. Mulher de alto valor pesa até 50 quilos. Sem estria, sem celulite, sem passado. Cabelo longo, cintura fina, bumbum na nuca. E outra: eu não banco ninguém no date. Se quiser sair comigo, cada um paga seu chopp, porque meu shape já é um evento.

@nao_aguento_mais: mano isso é discurso motivacional ou humilhação pública gratuita? @treino_de_verdade: solteiro até quando, Christofer? a mão direita já cansou? @la_vem_ele: essa live é meu terapeuta grátis de ódio, eu amo odiar esse cara.

Naquela mesma noite, após o sucesso da live, ele levou para casa uma garota que conheceu na balada. Padrão completo. Loira, cabelo na cintura, sorriso branco de lente de contato dental, calada do jeito que ele gostava.

Ele a jogou na cama do seu quarto, que fedia a whey protein e desodorante em spray. A webcam do computador de mesa, aquela configurada "só para segurança", continuava com a luzinha verde acesa. Como sempre.

No escuro parcial do quarto iluminado apenas pelo neon RGB do PC, ele apalpou a perna dela. Sentiu um relevo estranho sob os dedos.

— Peraí... Isso aqui é uma estria? — ele perguntou, o tom de voz mudando de galanteador barato para inspetor de qualidade da vigilância sanitária.

— Ah, é alergia. Eu cocei na festa — a voz dela soou oca, levemente arrastada.

Ele bufou, incomodado, mas continuou. Tateou mais acima. Outra estria. Depois outra. Só que elas não eram linhas brancas. Eram sulcos vermelhos, grossos, latejantes, subindo pela pele da garota feito raízes de uma árvore maldita.

Ele acendeu a luz do abajur.

— Puta merda, isso... isso tá crescendo?

A pele dela inchou na frente dos olhos dele. Uma onda de celulite viva começou a ondular pelas pernas dela, como um mar agitado. A garota sentou na cama. O pescoço dela estalou num ângulo de 180 graus. Quando ela falou, a voz era grave, múltipla, como três demônios brigando por espaço na mesma garganta.

— Você disse que gostava de muita carne, Christofer...

— EU FALEI CINTURA FINA, SUA LOUCA!

Ele tentou correr para a porta do quarto. A maçaneta derreteu em suas mãos, e a porta de madeira maciça virou uma parede de carne viva. As estrias vermelhas se soltaram do corpo da garota feito cobras famintas, chicoteando o ar e agarrando os tornozelos de Christofer.

— Então come, machão. Come tudo.

Ele foi puxado para o centro da cama. E ele comeu. Literalmente.

Foi quando, nos seus últimos segundos de sobriedade antes de ser engolido pela própria mobília, ele viu a luzinha verde da webcam.

Transmitindo para a Twitch.

— NÃO! GENTE, ISSO NÃO É O QUE PARECE, O ÂNGULO TÁ RUIM, DESLIGA ISSO! — ele engasgou, sendo sugado pelo colchão.

A audiência daquela madrugada era composta por 97% de mulheres que o odiavam. 100% delas estavam chorando de rir.

@paguei_minha_conta_sempre: poético. o verdadeiro shape inexplicável. @nem_50_quilo_te_salva_agr: e aí, quem tá pagando a conta do enterro agora? @empinado_e_o_carma: irônico que ele foi engolido por um colchão ortopédico. @relacionamento_saudavel: ISSO SIM É JUSTIÇA POÉTICA, arrasou lenda urbana!

A criatura arrotou, um som úmido e profundo. A live foi interrompida abruptamente, substituída por um aviso na tela: [MODERAÇÃO]: Conteúdo removido por violar as diretrizes de violência gráfica e nudez não consensual.

Mas não importava. O clipe já estava no Twitter com 2 milhões de views.

...

Depois de viralizar duas mortes seguidas e parar nos Trending Topics, Freddy já estava se achando o Ghostface do século 21. O ego do cara, que já era do tamanho de uma sala de caldeira, não cabia mais no mundo dos sonhos.

Ele escolheu o próximo alvo com requintes de crueldade clássica. Minerva. 29 anos. Escritora que assina como "M. Sombria", autora de e-books independentes no nicho de monster romance. Casa isolada no meio do mato. Dormindo sozinha, abraçada a um travesseiro de corpo inteiro. Nem um crucifixo na parede. Alvo fácil, presa previsível, pensou Freddy, lambendo os beiços queimados.

Ele não fazia a menor, a mínima ideia, do buraco negro de perversão literária em que estava prestes a se enfiar.

Freddy materializou o cenário de sempre: um corredor escuro de hospital abandonado, luzes piscando, névoa seca no chão. Ele surgiu devagar. O chapéu inclinado, escondendo metade do rosto deformado. O suéter listrado sujo de sangue velho. Ele ergueu a mão direita e arrastou devagar as lâminas de aço contra a parede de azulejo, fazendo chover faíscas e gerando aquele guincho estridente de metal. O suprassumo do terror.

— Eu vou rasgar a sua alma, vadia... — ele sussurrou, a voz ecoando assustadora.

Minerva abriu os olhos. Ela estava deitada em uma maca fria. Em vez de gritar ou chorar, ela sentou, cruzou as pernas, apoiou o queixo nas mãos e deu um sorriso de orelha a orelha. Os olhos dela brilharam de pura lascívia.

— Nossa... Você tem essa voz rouca de fumante o tempo todo, ou ensaiou pra mim? Porque, olha... me arrepiou lugares que eu nem sabia que podiam arrepiar.

Freddy parou o movimento da mão. As faíscas cessaram. Ele piscou, confuso.

— ...O quê?

— A maquiagem de queimadura grau três. Tá perfeita. É látex? — Ela inclinou a cabeça, os olhos descendo descaradamente pelo corpo dele. — E essa postura de "bad boy torturado que odeia o mundo mas vai ser submisso a mim no capítulo 4"? Amei. Muito Daddy issues.

Freddy simplesmente travou. O cérebro carbonizado dele deu tela azul. Era como se alguém tivesse trocado o roteiro brutal de A Hora do Pesadelo por uma fanfic de conteúdo maduro no AO3. Ele tentou recuperar o controle da cena, afinal, ele era a p*rra do Freddy Krueger. Cerrou os dentes e fez o teto do corredor começar a sangrar. Um rio de sangue grosso e escuro despencou, lavando o chão. Clássico, testado e aprovado por gerações de adolescentes histéricas.

Minerva observou o teto, depois olhou para as roupas dela, agora manchadas de vermelho, e mordeu o lábio inferior.

— Ui. Fetiche em fluídos e sujeira. Bloodplay. Gosto do seu estilo. A gente vai direto pro chão molhado ou você prefere me amarrar na maca primeiro com esse seu suéterzinho vintage?

Alguma coisa falhou. E não foi no tecido da realidade do sonho. Foi no estômago de Freddy.

— ERA PRA VOCÊ GRITAR, SUA DOENTE! — ele berrou, apontando as garras pra ela.

— Ah, desculpa! Meu Deus, que grosseria a minha, você tá trabalhando. Peraí. — Ela encheu o peito, teatralmente. — AAAAAAAH! Oh não, um monstro alto e misterioso com mãos enormes está prestes a me dominar! O que será de mim, uma pobre donzela indefesa e carente?

Freddy sorriu aliviado por um microssegundo, sentindo o poder do medo voltar um triz.

— Isso mesmo. Sinta o pavor, sinta o...

— Pronto, já gritei o suficiente pra amaciar seu ego masculino — ela cortou o barato dele, pulando da maca e caminhando na direção dele balançando os quadris. — Agora, me tira uma dúvida. — Ela apontou para a luva de navalhas com os olhos semicerrados de pura safadeza. — Essas lâminas... Você usa só pra matar, ou tem coordenação motora pra fazer outras coisas com isso? Porque, se você for cuidadoso, eu adoro uns arranhões nas costas.

Freddy deu um passo para trás. Involuntariamente. As pernas dele tremeram. Ele resolveu apelar para a arma nuclear do terror. Aranhas. Centenas, milhares de caranguejeiras peludas, escorrendo das paredes e do teto direto para cima dela.

Minerva deu um gritinho agudo. Freddy vibrou. Finalmente!

— Aranhas?! Ai meu Deus! Isso é literalmente a dinâmica de monster f#cker do meu próximo livro! Você tá lendo meus rascunhos no Google Docs, seu stalker safado?! — Ela riu, chegando ainda mais perto dele, os olhos fixos na luva. — A luva é aço cirúrgico ou liga de titânio? Porque se a gente for pro abate, não quero pegar tétano antes do orgasmo.

Freddy deu mais um passo para trás. O coração apodrecido dele começou a bater no ritmo de um ataque de pânico. Depois, outro passo. Respirou fundo. Não. Aquilo ainda tinha conserto. O pesadelo tinha regras, e essas regras sempre terminavam com a vítima implorando pela própria vida.

Estalou os dedos. O corredor desapareceu.

No lugar, surgiu uma floresta negra, iluminada apenas por uma lua vermelha enorme. Árvores retorcidas pareciam dedos tentando agarrar o céu. Galhos se moviam como braços vivos, e o chão respirava lentamente sob uma camada espessa de folhas secas.

Minerva girou o corpo devagar, admirando a paisagem.

— Nossa... floresta amaldiçoada. Clássico. Você realmente estudou estética gótica. Tem Pinterest?

Freddy ignorou. Das árvores começaram a surgir dezenas de corpos pendurados por correntes enferrujadas. Todos sem rosto. Todos balançando ao vento enquanto sussurravam o nome dela em uníssono.

— Miiiinerrrrva...

Ela levou a mão ao peito. Freddy sorriu. Finalmente.

— Meu Deus... — ela suspirou. Ele ergueu a cabeça, saboreando a vitória. — ...isso daria uma capa maravilhosa.

O sorriso dele morreu.

— Como assim "capa"?

— Monster romance folk horror. Eu compraria na pré-venda.

Freddy fechou os olhos por dois segundos, como quem fazia uma oração silenciosa para qualquer entidade que ainda tivesse misericórdia dele.

— Tá. Tudo bem. Vamos aumentar.

As correntes estouraram ao mesmo tempo. Os cadáveres despencaram do alto das árvores, mas não atingiram o chão. Ficaram suspensos no ar, contorcendo os próprios membros ao contrário, até começarem a rastejar na direção dela como aranhas humanas.

Minerva deu alguns passos para a frente. Freddy arregalou os olhos.

— Você... está indo na direção deles?

— Claro. Quero ver os detalhes. São efeitos práticos ou CGI?

— É UM SONHO!

— Ah, então é orçamento ilimitado. Arrasou.

Freddy respirou fundo de novo. Ainda existia um último recurso. O céu inteiro rachou. Milhares de mãos carbonizadas surgiram das fendas e começaram a puxar Minerva para cima.

Ela abriu um sorriso enorme.

— Ah, pegada possessiva. Você é do tipo ciumento.

— NÃO! ELAS VÃO TE ARRASTAR PARA O INFERNO!

— Nossa, já quer apresentar a família?

As mãos desapareceram imediatamente. Freddy simplesmente desistiu daquele ataque. Ele passou a mão que não tinha lâminas pelo rosto queimado.

— Isso não está acontecendo.

— Está, sim. E você é muito intenso emocionalmente. Eu gosto disso.

— EU NÃO SOU INTENSO!

— Você literalmente criou um céu inteiro só para chamar minha atenção.

Freddy abriu a boca para responder, mas percebeu, horrorizado, que ela tinha um ponto.

— Não foi por isso.

— Foi um gesto bonito.

— MEU OVO!!

— Ai, ele até nega os sentimentos. Slow burn. Meu trope favorito.

Alguma coisa estalou dentro da cabeça carbonizada de Freddy. Ele arrancou o chapéu, jogou no chão e começou a andar de um lado para o outro.

— Não existe slow burn! Não existe enemies to lovers! Eu sou um assassino sobrenatural! Eu mato adolescentes desde antes de você nascer!

— Então você é experiente. Eu não sou adolescente, se abriu exceção para mim é porque quer outra coisa.

— ISSO NEM FAZ SENTIDO!

— Achei fofo você compartilhar vulnerabilidades.

Freddy ficou completamente imóvel. As lâminas da luva começaram a tremer. Não de ameaça. De puro estresse. Ele respirava pesado. Inspirava. Expirava. Inspirava. Expirava.

Então tomou uma decisão desesperada. Saiu correndo. Não para persegui-la. Para fugir dela.

Os corredores do sonho voltaram e começaram a se dobrar. Escadas apareciam do nada, portas surgiam onde antes havia paredes e elevadores despencavam para lugar nenhum. Freddy atravessava tudo em disparada, recriando o cenário a cada esquina na esperança de despistar aquela mulher. Atrás dele vinha Minerva, correndo como quem participa de uma prova beneficente de cinco quilômetros.

— ESPERA! VOCÊ ESQUECEU O CHAPÉU! — Ela apareceu na curva seguinte segurando o fedora nas duas mãos. — TOMA! ELE COMPLETA O VISUAL!

Freddy soltou um grito que provavelmente foi ouvido por todos os adormecidos da cidade.

— FICA COM ESSA PORCARIA!

— Posso usar? Vai ficar um charme nas fotos.

— LEVA! LEVA TUDO!

Ela colocou o chapéu na cabeça, fez uma pose e sorriu.

— Casal que compartilha acessórios permanece unido.

— NÓS NÃO SOMOS UM CASAL!

— Ainda.

Foi nesse instante que Freddy compreendeu uma verdade aterradora e fundamental sobre a física do mundo dos sonhos: os seus poderes eram um motor movido exclusivamente a pavor. Ele moldava a realidade, transformava sangue em oceano e carne em arquitetura usando o terror das vítimas como combustível. Sem medo, o motor engasgava. Sem pânico, a caldeira esfriava. E Minerva não exalava uma única gota de adrenalina assustada; ela exalava um tesão puro, denso e predatório que começou a sufocar a própria malha daquele pesadelo.

O coração apodrecido de Freddy começou a bater no ritmo de um ataque de pânico, e foi aí que o desastre se concretizou. À medida que o pavor tomava conta do próprio assassino, o controle da dimensão onírica escorregou pelos seus dedos queimados. O sonho sempre obedece a quem domina a emoção do ambiente e, como Freddy estava apavorado e Minerva estava no auge da sua dominância luxuriosa, os poderes simplesmente mudaram de mãos.

A paisagem macabra parou de responder a ele e passou a orbitar a libido caótica dela.

Se existisse uma câmera filmando aquele sonho do lado de fora, com certeza a trilha de perseguição cômica de Scooby-Doo estaria tocando no fundo, mas com um toque perturbadoramente para maiores de dezoito anos. O que se seguiu foi, pelas rigorosas regras do Sindicato dos Assassinos Sobrenaturais, a maior humilhação do século: uma perseguição invertida onde o monstro lutava pela própria virtude.

Freddy, o outrora lorde demônio dos sonhos, corria desesperado por corredores que agora se contorciam em tons de rosa choque e vermelho bordô, chutando portas, criando becos sem saída e tentando acordar a si mesmo daquele pesadelo romântico. E logo atrás dele vinha Minerva, com o rosto vermelho de empolgação, completamente ensandecida e sedenta.

— FUGIR DE MIM FAZ PARTE DO JOGO DE CAÇADOR E PRESA?! AI, QUE ATENCIOSO, ADORO ESSE TROPE! — ela gritava, a voz ecoando pelos corredores que agora cheiravam a cereja e couro. — VEM CÁ, SEU CARBONIZADO GOSTOSO! DEIXA A MAMÃE SENTIR A TEXTURA DESSA PELE BEM PASSADA!

— NÃO É UM TROPE, SUA PIRANHA PSICOPATA, É FUGA! ME DEIXA EM PAZ! — Freddy berrou, derrapando numa poça de sangue e quase caindo, ofegando como um fumante idoso.

— QUE LÍNGUA VENENOSA... QUERO VER O EFEITO DELA QUANDO EU REBOLAR NA SUA CARA! — ela retrucou, acelerando o passo.

Sem o medo dela para alimentá-lo, Freddy estava completamente sem poderes. Ele era apenas um cara com queimaduras graves vestindo um suéter fedorento, correndo por um labirinto que agora obedecia aos caprichos de uma mulher no cio. Ele estava totalmente indefeso. E, para seu completo e absoluto azar, os sapatos sociais desgastados o traíram. Ele escorregou feio e desabou de costas no chão úmido.

Minerva não perdeu a chance. Ela era relativamente forte, daquelas gordinhas gostosas meio góticas, com a pele incrivelmente branquinha que contrastava com o cabelo liso e preto de franjinha reta. Era toda tatuada, vestia-se com uma estética de pinup alternativa e tinha exatamente a energia de quem tira fotos sensuais e provocativas para o SuicideGirls. Em suma, ela era pesada, forte e decidida o bastante para alcançá-lo e subjugá-lo sem o menor esforço.

— VOCÊ GOSTA DE ENEMIES TO LOVERS, NÉ? EU SABIA! — ela vibrou, pairando sobre ele como um anjo da perdição erótica.

— FICA LONGE DE MIM, SUA PUT—

Não deu tempo de terminar o xingamento. Minerva cumpriu a promessa.

O assassino se debateu, abafado, balançando a luva de navalhas inutilmente no ar, percebendo que não havia absolutamente nada que a entidade do medo pudesse fazer contra uma autora louca de romance adulto duvidoso que acabara de hackear a própria realidade.

Até que o despertar dela o salvasse.

O problema do terror moderno nunca foi a cruz. Nunca foi a água benta, ou a regra de não olhar para trás. O verdadeiro, o absoluto e intransponível inimigo de qualquer serial killer sobrenatural macho sempre foi a mulher esquisita de trinta anos que consome dark romance no TikTok.

Pergunta pro Jason. O cara não sai do fundo do lago Crystal de vergonha desde 2018.

...

Na manhã seguinte, os passarinhos cantavam no Vale das Cinzas. Minerva acordou radiante. Esticou os braços, respirou fundo e deu um sorriso bobo de quem teve a melhor e mais suada noite de sono da década.

Pegou o celular na mesa de cabeceira e mandou um áudio no grupo de WhatsApp ESCRITORAS SURTADAS & CAFÉ: — Meninas, vocês não vão acreditar. Tive uma inspiração ABSURDA pra uma fanfic. Personagem novo. Pensa assim: cicatriz de queimadura, estética grunge, uma luva com navalhas gigante, ele tenta ser durão e atormentar sonhos, mas é super desajeitado emocionalmente quando você flerta com ele. Fica até vermelhinho debaixo da carne viva. Um verdadeiro "himbo assombrado". Juro, tô indo pro notebook escrever agora. O nome dele vai ser Frederico.

...

Do outro lado do véu da realidade, no mais profundo abismo do reino dos pesadelos, Freddy Krueger estava sentado no canto de uma sala de caldeira, abraçado aos próprios joelhos. Ele tremia levemente. Evitava olhar para qualquer sombra que curvasse num formato parecido com o sorriso de Minerva.

Ele puxou do bolso do suéter o pergaminho com a lista de próximas vítimas da cidade. Procurou a linha onde estava escrito "Minerva — Agendada para terça-feira".

Pegou uma caneta vermelha. Riscou o nome com tanta força que rasgou o papel.

— Não. Essa louca não. Nem fodendo — murmurou para si mesmo, a voz falhando. — Prefiro enfrentar o John Constantine com ressaca. Prefiro o Doom Slayer. Qualquer coisa menos garotas que usam o termo Daddy de forma não irônica.

E, ao fundo, ecoando pelos corredores úmidos e escuros do inconsciente coletivo do Vale das Cinzas, ouviu-se algo perigosamente parecido com... vergonha profissional.

FIM.

Cena Pós-créditos

Anos depois, Tiffany reaparece sorridente num sonho alheio, agora com dois rostos, o original e o monstruoso da bochecha, perfeitamente maquiados.) Gente, passando rapidinho pra dizer que esse é o MEU lado B, a minha versão não filtrada, segue lá na rede vizinha que tem conteúdo exclusivo! (Porque, aparentemente, no capitalismo tardio, nem a morte violenta consegue cancelar uma conta verificada com engajamento.)


Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.