Minha Querida Jane
3 Caroline
Ah, uma pessoa sempre pode pagar sua língua!
Caroline colocou os óculos escuros e saiu em busca de um táxi. Quem diria!
Aquela semana parecia tão normal...
Primeiro, visitara o irmão e o encontrara pior do que antes. E há muito Charles não aparentava estar feliz.
Quando o confrontou, a resposta de sempre: Jane.
- Jane, Charles? De novo? — A irmã o abraçou. — Nós erramos com ela, tenho de admitir, — ignorou o olhar espantado do irmão. — mas se 10 anos de redenção e dedicação não são suficientes...
- O problema sou eu, Carol. Jane não consegue confiar em mim.
Ela revirou os olhos. Estava bastante mudada, era verdade, mas algo se mantivera em seu ser: a praticidade.
- E o que você quer, irmão?
- Eu quero que ela me ame, quero me casar. Tirando este problema da confiança, Jane é perfeita. Nunca vi uma alma tão bondosa, tão brilhante como a dela! Somos tão parecidos. — Foi até uma gaveta e retirou um pequeno pacote. — Comprei o anel há alguns anos, mas não tive coragem. Ela certamente me rejeitaria e poderia nunca mais querer algo comigo. Tê-la ao meu lado era o que bastava, agora... Não mais.
Caroline o abraçou novamente.
- Vamos dar um jeito, Charles. — A irmã olhou em seus olhos.
- Como?
- Vamos organizar um jantar romântico e você a pedirá em casamento.
O irmão sorriu, mas seu semblante estava desconsolado.
- Não vai funcionar.
- Jane está chateada, eu sei, mas não será um simples, Charles. Você falará tudo o que sente, não deixará que nada fique pairando sem solução. — A moça balançou a cabeça. — Se Jane ainda não o quiser, terá de me prometer que seguirá em frente.
O semblante do irmão estava tenso, mas Charles anuiu.
____
- Darcy, preciso de sua ajuda.
O coração de Caroline se entristeceu ao vê-lo. Ela e Gigi não eram muito próximas, mas ficara sabendo o que houvera.
Ah, que situação!
E o que mais a deixava triste era ver a reserva com que seu amigo a tratava. Agora Caroline via a víbora que devia ter sido.
- Charles está sofrendo muito e esta situação é insustentável. Vamos ajudá-lo a conquistar de vez Jane ou, ao menos, seguir em frente.
O rapaz concordou.
- Charles é um grande amigo e parte deste sofrimento é culpa minha. Farei o que for possível.
Caroline agradeceu e se levantou, esquecendo a bolsa.
Quando ele a alcançou, a moça conversava com Elizabeth Bennet no Hall.
Surpreendera-se ao encontrá-la ali, mas sabia bem o motivo. Há alguns meses, aquilo a teria corroído de ciúmes. Os tempos eram outros...
___
Caroline chegou ao flat de Jane com o coração aos pulos. Quando planejara toda aquela grande operação, estava segura e confiante. Começava a tremer nas bases agora. O ressentimento de Jane deveria ser enorme.
Foi com curiosidade que a modelo a recebeu.
- Olá, Caroline — E pediu para que se sentasse. — Como vai?
A moça se acomodou.
- Sem rodeios, Jane. Venho em benefício de Charles. — O olhar surpreso da outra não lhe passou despercebido. — Tenho certeza de que sabe o quanto meu irmão a ama.
A outra anuiu lentamente.
- Charles está muitíssimo magoado. E confuso também. — Caroline apertou as próprias mãos. — Há 10 anos ele tenta remediar a situação, mas não tem sucesso algum.
- Não é bem assim e...
Caroline levantou a mão.
- Não precisa me explicar. Aliás, sou eu que devo fazer reparações. — Suspirou. — Jane, tente enxergar o outro lado da história. Charles era muito novo e posso garantir que muitas moças tentaram ganhá-lo com beleza e palavras bonitas, quando o que as atraía de verdade era o dinheiro. Meu irmão era facilmente enganado, então Darcy e eu formamos um escudo protetor em torno dele até que fosse plenamente capaz das próprias decisões.
Um brilho triste passou pelos olhos de Caroline.
- Não conseguimos perceber que este momento chegara quando a conheceu. Sei que é madura e dona de si agora, mas tente voltar 10 anos no tempo e se pergunte: se Lizzie, outra pessoa de sua família ou alguém em quem você confia muito lhe dissesse que tal pessoa não a ama, você escutaria?
Jane pensou por um momento e, chocada, assentiu.
Caroline sentiu-se feliz por dentro, mas não externalizou o sentimento.
- Percebe? Meu irmão é culpado de confiar demais em nós. Quando revelamos nossa intromissão, Charles logo tentou remediar a situação, porém já era tarde. — Tomou as mãos de Jane nas suas. — Não vou pedir que me perdoe, Jane, pois não mereço e, na verdade, não me importo muito com isso. O que realmente me preocupa é Charles. Não o vejo sorrir verdadeiramente há muitos anos e, sinceramente, isto me machuca demais. Faça um favor a todos: permita-se perdoar ou, se não for capaz, permita que ele prossiga com a vida. Não o deixe mais nesta situação.
Despediu-se com um meneio de cabeça e saiu.
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