Minha Professora do Amor — ShortFic
9 Step Final
Notas iniciais
Final Step
VIVIAN
Sentei-me no enorme banco e pousei minhas mãos sobre o piano. Dedilhei lentamente, ouvindo as notas soarem, um sorriso de puro contentamento surgiu em meus lábios. O rosto de Thomas veio com força na minha mente, seus olhos esverdeados, sua boca carnuda, seu queixo quadrado com aquela mínima barba por fazer, seus cabelos de cobre espetados para todas as direções. Aquele ar de britânico safado. Tudo nele mexia comigo de uma forma que nem consigo explicar. O conheci numa viagem á Veneza, a passeio com meus pais.
Estava de frente para o Rio Pó, observando alguns homens em vaporettos, eu estava louca para experimentar a sensação de ficar sobre a água. Então ele passou ao meu lado, me analisando e eu arqueei as sobrancelhas. Cumprimentei-o educadamente, ele olhou para meus pais que estavam distraídos tirando uma foto. Respondeu ao meu cumprimento e depositou um cartão no bolso do meu sobretudo, é claro que me afastei confusa e até amedrontada; ele apenas sorriu e se afastou, deixando seu perfume me inebriar.
Não lembro como decidi encontrá-lo, seu nome Thomas McCullen, seu número e sua profissão, pintor profissional. Pensei, oras eu tinha vinte anos, era dona do meu nariz, estava viajando para me divertir, que mal faria visitar esse pintor? Liguei e sua secretária pessoal me passou o endereço, era uma espécie de ateliê embutida numa pequena casa, ele estava lá. Lindo como me lembrei, extremamente sexy sem camisa, com o peitoral e os braços sujos de tinta á óleo, gotas de suor deslizando pelas costas largas com algumas pintas, ele colocou a ponta do pincel na boca e analisou sua pintura na parede, deslizou uma mão pelos cabelos e suspirou. Mesmo estando na Itália, aquele ar italiano misterioso pungente eu sentia a aura inglesa, afinal nasci lá na terra da Rainha.
Arfei de surpresa ao ver meu rosto estampado naquela parede, os traços acentuando a beleza que eu nem sabia que tinha. Meus olhos castanhos esverdeados estavam incríveis, minha boca com o lábio inferior mais cheio, meus cabelos pretos nos lados do pescoço. Simplesmente caminhei em direção aquele homem que tanto me intrigou, ele petrificou ao me ver, olhou para sua obra e então voltou a mim, ficou nessa brincadeira até que tirou o pincel da boca e o colocou em cima da aquarela com as cores temperadas mais lindas que vi, seus olhos não deixaram os meus em nenhum momento. Antes mesmo de falarmos alguma coisa, eu sabia que estava encrencada para o resto da minha vida.
As últimas notas soaram, sorri para mim mesma e ouvi sons de palmas. Me virei no banco e dei de cara com meu avô Richard, sorrindo de orelha a orelha. Notei uma caixa pequena em suas mãos. Saltei do banco e me joguei em seus braços, há quanto tempo não nos víamos?
— Vôzinho! — sorri, lhe beijando as bochechas. Ele riu baixo, me olhando e afagou meu rosto. — Quanto tempo!
— Pois é, neta desnaturada. — ele fez bico. — Quer conhecer o mundo e deixa o velhinho de lado.
— Posso saber que bons ventos lhe trazem? — perguntei, lhe puxando para o banco. Sentou-se ao meu lado e estendeu a caixa. — Mas...
— Amanhã é seu aniversário de vinte e três anos, e essa idade é sempre comemorada com uma especialidade a mais em nossa família há séculos, não recuse. — ele me cortou, colocando minhas mãos sobre a caixa.
Decidi não contestar, desfiz o pequeno laço sobre a caixa e tirei a tampa, havia papeis amarelados e um tipo de medalhão fechado. Tentei o abrir primeiro mas estava emperrado, Vô Richard balançou a cabeça em negativa e apontou para os papeis.
— Isto são cartas de família, trocamos a caixa de ano em ano. Como é uma Swan prestes a fazer vinte e três, são suas até passar para sua filha ou sobrinha quando elas fizerem a mesma idade. Entendeu? — Vô Richard explicou, atento.
— Cartas de família, legal! — fingi entusiasmo, embora estava curiosa sobre o conteúdo. — E isto é um medalhão? — perguntei, estendendo-o pela corrente de ouro.
— Sim, todas as Swan usaram, sua mãe usou antes... — ele limpou a garganta antes de prosseguir, perdemos mamãe no ano passado. Contudo não me recordo de vê-la usando esse colar. — Leve-as para casa, e se tiver sorte conseguirá abrir o medalhão, mas só o abra após ler as cartas e se ainda assim tiver dúvidas, não hesite em ir lá em casa. — ele recomendou, me beijou na testa e saiu em passos lentos. Levantei do banco do piano da loja de antiguidades do meu irmão, e saí segurando minha nova caixa e minha bolsa.
* * *
— Que porra é essa? — perguntei novamente, após ler e reler aqueles papeis velhos. As cartas de família contavam a história de um casal que se amaram mas não tiveram um final feliz, me senti a Giulietta Tolomei ao se sentir sendo a própria Julieta de Shakespeare no livro Julieta de Anne Fortier. Eu nunca acreditei nesse lance de outras vidas, piorou agora que segundo as cartas, as Swan estão ligadas aos Cullen.
Sem mencionar que isto é uma loucura total, minha mãe foi uma Swan e meu pai não era um Cullen, minha avô era Swan e meu avô Richard não era um Cullen, isso estava totalmente errado. Mesmo que eu tenha passado minha infância e adolescência sonhando com um anjo com as mesma feições de Thomas...
Thomas McCullen.
Posso confessar que dei uma baita gargalhada?
Onde estavam as câmeras? Aquele filho da mãe deveria ter convencido Vô Rich a participar dessa palhaçada, peguei uma lixa de unha em cima da mesa do meu computador e enfiei ao redor da fenda do medalhão, enfiei até sentir um clique. Abri o medalhão e como esperava, havia uma foto minha com Thomas, de perfil um olhando para o outro, ri novamente. Ele me presenteou da melhor forma que poderia, aquele inglês metido á italiano.
Peguei o celular imediatamente, disquei seu número e esperei. Chamou as dez vezes antes de ir pra caixa postal. Mordi a almofada do polegar ao ligar novamente.
— Thomas! — berrei, quando a linha ficou audível. — Seu filho da mãe!
— Alô? — congelei ao ouvir uma voz feminina do outro lado. — Quem está falando?
— Como assim quem está falando, sou Vivian, a esposa de Thomas — me empertiguei toda ao sentir uma fúria vir do centro do meu peito. — Quem que está com o celular dele?
— Desculpe, senhora McCullen, sou eu Evelyne. — ah, que alívio. Evelyne Evans, a secretária de Thomas. — Senhor Thomas está dormindo no momento, quer que deixe recado?
— Não, ligo depois. Obrigada — encerrei a chamada, com aquela pulga maldita caminhando pela minha orelha. Evelyne atendeu o telefone de meu marido e ainda disse que ele estava dormindo, desde quando eles tinham tanta intimidade? Disquei o número da casa de Vô Richard. — Vô?
— Olá princesa Viv, já leu todas as cartas? — perguntou o velho bem humorado. Me sentei na ponta da cama. — Gostou?
— Quanto ou o quê, Thomas lhe deu para participar disso? — perguntei diretamente. — Amei a nossa foto no medalhão, só não me lembro quando a tiramos...
— Oras, Thomas não sabe das cartas nem do medalhão.
— Como não? — continuei, agora confusa. — Isso é uma brincadeira por causa do meu aniversário, ele quem armou isso e você está atuando perfeitamente.
— Vivian, não se faça de tola. Eu estou dizendo a verdade, sua bisavó Antonieta me designou a tarefa de passar as cartas e o medalhão para você quando sua mãe morreu. Estou seguindo a linhagem.
— Isso não faz sentido, vô. Você não é um Cullen, nem o pai do meu pai.
— Sempre pula duas gerações.
— Ainda assim não acredito, isso é rídiculo.
— Assim ofende e manchas o nome de nossos antepassados. Vai me dizer que nunca sonhou com um rapaz com o rosto de Thomas, de cadeiras de rodas ou um exímio corredor?
Hesitei. Durante minha vida toda sonhei com Thomas de variadas formas, eu podia jurar que nasci pra ser dele, mas essa história bizarra de vidas passadas e reencarnação não colava para mim.
— Eu sonhei com Thomas várias vezes antes de enfim conhecê-lo — admiti.
— E nunca se perguntou o porquê disso?
— Dizem que é normal, afinal ele é o homem da minha vida.
— Tudo isso por causa de Bella Swan, ela quem começou a escrever essas cartas, ela fez jus as últimas palavras escritas de seu amado Edward Cullen. “Se algum dia achar que meu amor por você acabou, volte aos primeiros passos, eu sei que me encontrará lá, pois prometo-lhe o mesmo. Eu não sei onde será minha próxima jornada, mas eu nunca vou deixar de te amar. Hoje em dia é difícil de encontrar algo assim, algo tão forte, puro e verdadeiro como foi nosso amor. Porém é mais do que verdadeiro, é intenso, é único e é eterno. ” E de alguma forma isso se concretizou, não me tomes como louco, Viv, mas eu acredito nisso piamente.
Há informações que não bate, amo Thomas por ele ser quem é, não porquê uma antepassada maluca decretou.
— E então, agora descubro minha verdadeira identidade e Thomas morre? — ironizei querendo rir, mas não iria desrespeitar as crenças de meu velho avô.
— Isso não é um conto de fadas, entenda como quiser. — ele estava visivelmente magoado. — Reparou a foto do medalhão, não é você e Thomas, é Bella e Edward.
* * *
O som do despertador me assusta, o desligo rapidamente antes de saltar da cama. Vou até o banheiro, lavo meu rosto e suspiro pesado. Escovo os dentes e calço minhas sandálias. Caminho em direção a escada, pulo de dois em dois, os degraus da minha escada até o andar de baixo, que dá direto na minha sala/cozinha. Minha casa é tipo duplex em miniatura, é bem minúsculo mas confortável e perfeito para quem mora sozinho.
No meu sofá maior, cutuco Ben nas costelas, ele resmunga e vira para o outro lado. Rolando os olhos, vou para atrás do balcão que divide a sala da cozinha, pego um copo no armário, abro a geladeira e pego a garrafa de leite. Logo tomo um copo, reabasteço e me sento na poltrona de frente o sofá.
Deixo minhas sandálias no chão, e volto a cutucar Ben agora com meus dedos gelados. Ele xinga, resmunga mas não abre os olhos. Benjamin, meu colega de faculdade que não tem onde morar por esses tempos, está hospedado na minha casa e temos um tipo, de amizade com benefícios. Tem vinte e sete anos, e é meio norte americano e meio sul americano, pai dos EUA e mãe do Brasil.
— Ahh, Bee, pára. — Ben continua resmusgando, sua voz rouca pelo sono e meio irritada por minha causa, me deixa animada. Bee é claro, é abelha. É meu apelido que ele me dera, porque não vivo sem mel e ele diz que minha voz ao acordar parece um zumbido chato de abelha.
— Beeeeeeeen... — O chamo, gemendo e contendo o riso. Ele adora que o eu chame pelo sobrenome na hora do vamô vê. No mesmo instante, ele abre os olhos e agarra o meu pé me puxando. Leite derrama-se sobre mim e eu grito. Ele se esgueira do sofá, ainda segurando minha perna e se debruça sobre mim, se molhando de leite. — Sai, Ben!
— Você provocou, agora aguenta. O alazão acordou, minha abelha rainha. — Ele me diz, rindo e esfregando seu nariz no meu pescoço. Minhas pernas se fecharam a sua volta, quase automaticamente. — E eu quero mamar.
— Beeeeen, sai. — Grunhi, virando o rosto. Sua boca estava no meu seio direito, onde o leite tinha derramado. Ele parou o rosto a centímetros do meu, me olhando com aqueles lindos olhos cinzentos profundos. Seu cabelo liso e repicado, caía na altura dos olhos. — Tá com bafinho matinal, querido...
— Isso é amor, querida. Um beijo ao acordar, com os olhos remelados, boca fedida e saliva passada, é como nas novelas, baby. — Ele fala devagar, seu sotaque abrasileirado, me deixa quente.
— Aqui não é cena de novela, levanta e vamos tomar uma boa ducha. — Me remexo embaixo do seu delicioso corpo. Ele geme roucamente no meu ouvido, me arrepiando.
— Que tal banho de banheira? — Ele sugere, me dando seu melhor sorriso. E é claro, que eu cedo.
A água antes límpida, assume um tom esbranquiçado, enquanto estou deitada na banheira, com minhas costas coladas na barriga de Ben. Ele beija meus ombros, afagando meus cabelos, o colocando de um lado só do meu pescoço. A água está morna, e é relaxante.
— Você está tensa, Viv — Aponta Ben, me fazendo uma massagem nos ombros, beijando-os e os apertando. Eu concordo, assentindo.
— Tive um sonho esquisito, e é tudo culpa de Vô Richard — Conto, me lembrando do trecho que ele ditou pra mim no sonho. Juro que já li aquilo em algum lugar.
— Seu Richard não morreu há alguns meses?
— Sim, é verdade. Mas ele tem me visitado em sonhos.
— Vamos explanar isso aí, estou confuso.
— Tipo, venho conversando com ele sobre cartas de família, algo sobre um romance entre uma tataravó minha aí com um rapaz bem parecido com... Thomas. — Espero um momento, quis checar a reação de Ben mas ele não diz nada. — Então, nesse último sonho eu era casada com ele, e vovô me contou essa história de novo, me dizendo que sou a reencarnação de Bella.
— E você crê nisso?
— Claro que não, isso é um absurdo. Nem tenho mais contato com Thomas — brinco, e ele me aperta na cintura. — O romance entre Thomas e eu durou apenas um verão, ele quis continuar lá na Itália, eu tinha uma vida aqui e se eu não tivesse feito o certo, não teria lhe conhecido.
Ben me beija brevemente, mas logo se afasta saindo da banheira. Enrola uma toalha ao redor da cintura e cruza os braços.
— Se eu lhe disser que encontrei com Thomas há dois dias aqui em NY?
* * *
Dizer que Thomas é um fantasma do meu passado é mais do que força de expressão. Ele me persegue em qualquer canto do mundo. Ele montou um ateliê de pintura aqui em New York, á poucos metros de onde moro atualmente. Me sento na cadeira do melhor café do bairro, peço meu cappuccino e espero que Roxanne não me dê um bolo. Ela trabalha numa editora que está decidindo se comprará meu livro. Sinto um perfume almiscarado e lembro dos momentos com Thomas, éramos tão perfeitos juntos.
— Bom dia, Vivian — a voz de Roxanne quebra toda a magia das lembranças. Sorrio e a cumprimento com um beijo no rosto. Ela coloca um livro em cima da mesa e não posso conter a curiosidade, me esgueiro na cadeira e arregalo os olhos.
— Posso saber de quem é esse livro? — pergunto. Roxanne dá de ombros e empurra o livro na minha direção enquanto chama o garçom. Pego o livro em mãos e vejo a capa, posso jurar que é a pintura que Thomas fez de mim, a mesma pintura de quando o visitei a primeira vez. Viro para checar a capa traseira e sinto um misto de confusão e alívio ao ver o nome do autor.
Edward Cullen.
— Edward Cullen? — pergunto num fio de voz.
— Já o conhece? — Roxanne pergunta, sorrindo. — Ele é o máximo, esse mês ficou tudo numa disputa acirrada entre seu livro e este aí, os dois fala do mesmo tema recorrente, amores passados que transcendem as barreiras do tempo. Coincidência não?
— Mas... Quem é este Edward Cullen?
— Pseudônimo de Thomas McCullen, ele contou numa coletiva que sonhou essa história em mínimos detalhes. — Roxanne ri em deboche. — E querida, quase tive uma taquicardia quando vi a capa, parece com você.
Thomas, eu não sabia que ele era escritor. Sonhou com essa história? Checo a sinopse e mais uma surpresa, o livro conta a história de amor de Bella e Edward. Esses nomes, a pintura, os sonhos... Ao virar as páginas, algo em negrito me chama a atenção.
“Esta jornada ainda não acabou, sei que vamos nos encontrar. De novo, de novo e de novo...”
Meu celular vibra me assustando. Roxanne me olha confusa, sorrio para disfarçar e olho que há uma mensagem de um número desconhecido. Abro-a.
“Me encontre no jardim próximo ao The House, não diga que não conhece aquele lugar pois já lhe vi lá inúmeras vezes desde que cheguei a NY, nós precisamos conversar... Seriamente sobre uns sonhos que venho tendo. Um beijo ansioso de seu Thomas. ”
— E então, o que você acha que de começarmos uma campanha de divulgação dupla, posso jurar que algo está entrelaçado em ambas as histórias — Roxanne comenta, me encarando.
— Tem mais coisas entrelaçadas nisso tudo do que eu gostaria.
Sei que ainda nos encontraremos, nossa jornada ainda não acabou. Não mesmo.
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