Minha Natureza
2 Naturalmente
NATURALMENTE
Faz um tempo desde que a Nice Nature se aposentou das corridas. Acho que uns três meses. Ela ainda visita a Tracen regularmente, para ver algumas novas corredoras, dar alguns conselhos e, claro, me encontrar. Desde que ela saiu, eu senti que algo havia mudado. Eu ainda amo o meu trabalho, mas... Algo estava faltando. Talvez eu só não queira admitir.
Enquanto eu estava no pátio, segurando uma quantidade absurda de papéis , enquanto anotava algumas coisas no telefone, acabei esbarrando em alguém. Eu acabei caindo, enquanto papéis choviam sobre mim. Eu acho que, como treinador, eu deveria ser o mais atrapalhado de todos. Apesar disso, ouvi uma pequena risadinha, seguida de uma voz extremamente familiar.
— Francamente, ainda não olha por onde anda. Como que você ainda está inteiro, treinador?
Quando a vergonha me permitiu abrir os olhos, tive a melhor visão em muito tempo. Nature estava bem na minha frente, com um vestido branco e um chapéu de palha, daqueles de praia. Minha reação foi ficar parado, olhando para ela, sem falar nada. Eu senti meus olhos arderem um pouco, enquanto um mini filme passava na minha mente.
Acho que ela se assustou com isso, já que ela se agachou e segurou no meu ombro, perguntando se estava tudo bem. Eu só consegui acenar com a cabeça, sem responder. Não fazia muito sentido eu estar assim. Não fazia tanto tempo que a vi pela última vez, então minha reação foi confusa para mim. De toda forma, ela me ajudou a levantar e a recolher meus papéis.
— Obrigado, Nature! — consegui dizer.
— Oh! Ele ainda fala. Que bom! — ela deu uma risadinha, que fez alguma parte de mim se arrepiar.
Eu peguei os papéis e ela me acompanhou. Mostrei para ela o plano de treino da minha nova aluna: Amazing World. Ela achou incrível o desempenho e o porte físico dela. Até eu me impressionava e me questionava se realmente era bom o suficiente para treiná-la. Acho que meu rosto deve ter falado isso em meu lugar.
— Treinador — ela segurou meu braço, me fazendo parar. Eu a encarei, mas ela não disse nada por um tempo. Então, suavemente, ela olhou para a pista de corrida, onde haviam algumas garotas treinando — Lembra da minha última corrida? Eu cheguei numa colocação péssima. Eu estava exausta e, sem dúvida, não conseguiria correr de novo. O turf estava me dando "adeus".
Eu me lembrava disso. Dia e noite, eu queria muito acreditar que era apenas um sonho, mas todos os dias eu acordava e não era ela que eu ia treinar.
— Sabe... — ela continuou — Eu senti falta disso nas primeiras semanas. Senti falta de correr, de rir com as minhas amigas e... Senti sua falta.
Ouvir aquilo foi quase que um soco em câmera lenta. Meus olhos acompanharam os dela, olhando para a grama. Nós nos aproximamos um pouco mais. Duas garotas estavam emparelhadas, até que uma delas avançou e cruzou a linha. Ambas pararam, cansadas e caíram no chão rindo.
— Eu senti falta disso, mas hoje consigo olhar para trás sem sentir muita dor. Acho que um ciclo se fechou, sabe?
Eu sabia, sim. Mas eu não queria. Aos poucos, tudo começou a fazer sentido. Eu não estava desanimado e cansado do meu trabalho, mas...
— Eu acho que, talvez... Opa!
Eu não consegui me conter. Contra todas as regras que eu tinha formado na minha cabeça, me lancei nos braços da Nature e a abracei. Eu a apertei, como se fosse a última vez que eu a fosse ver. Meu coração batia forte, enquanto meus olhos liberaram a tensão que eu sentia. Eu me senti uma criança grande, necessitando de um colo.
De início, Nature se assustou, mas logo seu corpo relaxou e seus braços me envolveram. Eu tremia, mas ela apenas acariciava minhas costas. Depois de um tempo, eu consegui me acalmar e me afastar. Ela me levou para beber água e me sentou num banquinho. Eu já estava melhor, mas ela fez questão disso.
— Como está?
— Bem!
— Bem, quanto?
— Acho que só bem.
— Acho que é o bastante.
Ela se sentou do meu lado. Minha ex aluna, como sempre, cuidando de mim. Por um breve momento, senti como se nada tivesse mudado. No fundo, talvez as coisas não fossem como eu imaginava. Quando meu rosto desinchou e eu pareci um pouco mais animado, ela se levantou e me puxou pela mão. Os papéis ficaram abandonados.
Minha aluna, por sorte, disse que tiraria o dia de folga, o que me poupou de algumas explicações para a Tazuna. Ainda assim, estava preocupado em dar uma explicação para ela no fim. Mas isso acabou ficando para trás, junto com meus planos.
Quando me dei conta, estávamos sentados num café, com uma música suave, numa mesa rente a janela, onde víamos os carros passando, com seus faróis nos iluminando. Mas, sem dúvida, a melhor visão era a dela. Seu rosto, com aquele sorriso gentil, levemente corada, com suas orelhinhas se mexendo, livres das antigas capinhas vermelhas. Era uma visão que eu não achava que teria.
— Treinador... — ela chamou minha atenção, sem olhar para mim, encarando a janela — O que acha de tornarmos isso um hábito? Nós dias de folga, podemos vir aqui, ou ir na praia, ou ir num parque ou naquele karaokê. Sinto falta de te ver passando vergonha com suas músicas de velho.
— Eu não sou velho! — eu era apenas cinco anos mais velho do que a Nature.
— Só nisso que você prestou atenção? — ela fez aquela cara de decepção.
Rapidamente eu tentei me consertar, explicando que eu havia entendido tudo, mas isso só a fez rir de mim. No fim, até eu ri. Eu estava tenso demais, que nem percebi que ela adorava me ver sem jeito. Eu vi suas vulnerabilidades, então ela gostava de ver as minhas.
— Tudo bem, mas a proposta é séria. O que me diz?
As mãos dela seguravam as minhas, enquanto seus olhos pareciam procurar a resposta no meu rosto. Eu não sei quanto tempo eu fiquei parado, mas ela não me apressou. No fim, eu sorri, sentindo uma pequena lágrima ficar entre meus olhos e minha bochecha.
— Com toda certeza!
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