Minha Luz é Você
3 Capítulo 3
Desde que deixou a sua antiga vida para trás, Helise se sentia estranha. Não ousou trocar uma única palavra durante toda a viagem realizada. Foram horas intermináveis num inferno de trânsito, sem uma única parada para esticar as pernas. Os fones de ouvido deveriam funcionar como uma válvula de escape, mas nem mesmo isso resolvia. Não poderia retirar o caderno azul, pois provavelmente seria interrogada sobre o que estava fazendo. Ser metralhada com inúmeras perguntas vindas de sua mãe não era algo agradável. Estava cansada de ficar sentada numa posição desconfortável. Sua mãe lhe disse que faltavam apenas dez minutos para chegarem ao bairro. As casas pareciam todas iguais, mas de um jeito simples. Helise achou engraçado, pois a igreja ficava bem perto da área residencial. Não conseguia entende o motivo de ser tão perto. Chegava a ser curioso. Agradecia mentalmente quando o carro parou.
Começar a vida em outro lugar poderia ser maravilhoso. Talvez para outras pessoas, mas não para Helise. Antes mesmo que ela pudesse sair do carro notou o quanto a vizinhança já estava curiosa sobre os novos moradores. O vento frio da tarde era maravilhoso, pois ela conseguia se esconder cada vez mais dentro de seu moletom largo. O capuz servia como um perfeito escudo de proteção.
— Estou ansiosa para começarmos a nova vida por aqui. Vai ser maravilhoso! — exclamou Geórgia animada.
Helise bufou nervosa.
— Até parece que somos carne num rodízio de churrasco. As pessoas não param de olhar. — resmungou Helise.
Geórgia se controlou para não rir. Sabia que a filha ficaria muito nervosa diante de tal situação.
— É normal que isso aconteça. — explicou a mulher — Depois falaremos com eles quando tivermos uma oportunidade.
— Dispenso qualquer tipo de confraternização com essas pessoas. Odeio aglomerações e sorriso falsos.
Geórgia não conseguia entender a frieza que vinha daquela garota. Ela deveria querer conhecer um pouco mais sobre os seus novos vizinhos. Tinha que ter esperança de que ela mudaria com o tempo.
— Você é sem graça. Agora vamos sair desse carro.
Geórgia saiu rapidamente sem dar tempo para que sua filha lhe dissesse algo a mais. As pessoas agiam de um jeito engraçado. Quanto mais o tempo passava mais curiosa ficava a respeito de tudo o que acontecia ao redor. Helise decidiu sair do carro antes que a situação piorasse. Até parecia que ela estava participando de um filme de terror e que talvez ela fosse a próxima vítima. Uma senhora acenava toda alegre em direção a Helise. Sem saber como reagir ela acenou de volta e correu para dentro de casa.
Geórgia estranhou ao ver a filha apoiada na porta recuperando o ar.
— Algum problema?
— Todos. Essas pessoas são loucas. — foi então que ela percebeu o tamanho do hall de entrada — É grande demais. Maior do que a nossa antiga casa.
Geórgia sorria.
— Dei uma olhada em cada um dos cômodos e devo dizer que o seu quarto é grande também. Ele fica no final do corredor lá em cima.
Sem pensar duas vezes Helise saiu em direção aos degraus da casa. Queria saber como seria o seu novo refúgio para as noites tristes, frias e solitárias. A porta era totalmente branca com pequenos detalhes em dourado na maçaneta. Ao abrir completamente a porta do quarto ela sorriu satisfeita por ser semelhante ao seu antigo quarto. Pelo menos ali ela conseguiria se reencontrar. Caminhou dentre as várias caixas que estavam espalhadas e foi abrir a janela que estava fechada. O ar precisava se fazer ainda mais presente naquele ambiente. Ali mesmo ela prestou atenção a tudo o que acontecia com mais atenção.
Logo de frente havia um quarto com as janelas abertas. Pelo pouco que conseguia observar era minimalista e parecia que pertencia a algum homem ou adolescente. Tinha que se lembrar de nunca se trocar com a janela aberta ou acabaria causando confusão das grandes. Abandonou a janela e foi cuidar da arrumação para ter logo o seu local de descanso. Obviamente que não poderia organizar tudo num único dia, mas faria o necessário. Começou abrindo as caixas para encontrar a roupa de cama e seu edredom. Fez a sua cama e continuou a remexer na caixa com os seus livros. Para a sua sorte era que a estante era embutida na parede e não ocupava tanto espaço como imaginava. Aos poucos o lugar vazio foi ganhando características de Helise. Eram os mínimos detalhes que fariam a diferença.
Era estranho estar em um ambiente que não lhe trazia nenhum tipo de conforto e estabilidade. Desde que chegou à nova casa, Helise não parou de arrumar o quarto do jeito que achava necessário. Obviamente que Geórgia estaria fazendo o mesmo pelos outros cômodos. Em quesito sobre organização, Geórgia conseguia ser bem exigente. O único lugar em que a opinião dela nunca tinha poder algum era o quarto da filha. Cada uma tinha um jeito e uma identidade a ser preservada de todas as formas possíveis.
As horas avançavam de um jeito que Helise não havia se dado conta. Seu quarto estava praticamente pronto para se viver dignamente por algum tempo. Precisava de um banho para relaxar por completo. Tudo o que ela mais desejava era uma noite tranquila de sono. Encontrou o seu pijama favorito e foi para o banheiro. Para seu espanto ela não esperava que fosse ter uma banheira. Nunca que havia passado pela sua cabeça que poderia desfrutar de um banho mais que relaxante.
Depois do banho, Helise foi direto para o seu quarto. Não sentia fome e o seu corpo clamava pelo merecido descanso. Enquanto secava cuidadosamente seus cabelos longos ela deixou se levar pela melodia que a atraia cada vez mais. Caminhou lentamente até a janela e ali permaneceu imóvel. Absorvia cada uma das notas musicais. Ela ficou surpresa ao ver que a luz do quarto a frente do seu estava acesa. Uma música instrumental deixava o ambiente mais leve. Era uma pena ela não poder saber quem era o dono de uma seleção maravilhosa. Ficou olhando na direção do quarto, mas assustou-se ao ver vestígios de um cabelo preto se mexendo. Helise nunca foi de observar as pessoas em suas atividades particulares, mas foi apenas a doce melodia que a havia atraído como nunca antes.
Agradecia mentalmente por ter conseguido se esconder enquanto teve tempo. Como é que ela explicaria à sua mãe que estava espionando os novos vizinhos caso eles batessem na sua porta para reclamar da invasão de privacidade. Deixou a toalha pendurada em cima de uma cadeira e foi para a cama. O dia seguinte seria cheio de novidades.
Helise virava de um lado para o outro. Não conseguia dormir com a mesma facilidade de antes. Por mais que o seu corpo clamasse pelo tão temido descanso nada a ajudava a encontrar o sono. Pensava nas suas séries favoritas, nos livros que já havia lido, mas nada funcionava. Pegou o celular que estava no criado mudo e o desbloqueou. Talvez se assistisse a última gravação feita antes de realizar toda a mudança lhe servisse como uma grande ajuda. Foi a única vez em que ela havia se sentido livre, em paz consigo mesma. Rever aqueles vídeos era como se pudesse estar novamente dentro do centro cultural, tudo era muito vivo, a energia das pessoas diante de cada coreografia apresentada. Era maravilhoso de se ver e ouvir.
Naquele mesmo vídeo ela notou algo que lhe chamou a atenção. A semelhança entre o rapaz que estava dançando e o que a derrubou fora do centro cultural. Pareciam ser a mesma pessoa. De alguma forma algo a estava deixando fascinada. Ele parecia flutuar, todo o seu corpo era sincronizado com a música. Teria sido maravilhoso se pudesse continuar no mesmo lugar de antes. Aos poucos seus olhos foram ficando pesados e uma única pergunta continuava a martelar sua mente.
Será que o rapaz da moto havia tomado todo o cuidado necessário até chegar ao seu destino final?
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