Minha Luz E Minha Esperança

1 Minha Luz e Minha Esperança - Capítulo Único


Notas iniciais
Boa noite, meus caros leitores! Como vocês estão? Espero que todos estejam bem! É com muita alegria que eu dou as boas-vindas a todos em "Minha Luz E Minha Esperança", uma fanfic de Digimon sobre o meu casal favorito dessa franquia. Quando eu era garoto, eu me lembro de ter assistido alguns episódios de Digimon Adventures na extinta TV Globinho, porém, por alguma razão que eu desconheço, o desenho nunca foi exibido completamente. Anos mais tarde, com a chegada dos sites de anime, eu pude assistir todas as temporadas de Digimon, incluindo as duas séries de Adventures, além de Tamers, Frotier e Savers. Porém, de todas as temporadas, o meu casal favorito dessa franquia sempre esteve na segunda temporada, Digimon Adventure 02, pois desde o primeiro episódio, eu não pude deixar de shippar "Hikari x Takeru". Esse casal era meu OTP de Digimon e eu tinha que, algum dia, escrever uma história desses dois. Se você não é tão familiar com o universo de Digimon, é importante saber que a franquia em si é composta por vários elementos diferentes, já que cada mídia de Digimon trabalha seus elementos de maneira diferente, porém, não é necessário conhecer a franquia para ler a história. A única coisa que talvez seja necessário saber é que essa história é pautada em cima dos acontecimentos do episódio 13 da série "Digimon Adventure 02", portanto, para o caso de alguém quiser complementar a experiência, eu recomendo assistir a esse episódio antes de ler essa história. "Digimon Adventure" e "Di

A noite estava quase escura devido ao brilho fraco da lua minguante, apenas o brilho das luzes da cidade era o que salientava o fraco raio do luar a banhá-la. Os sons de veículos em movimento e buzinas incessantes eram os únicos ruídos a ecoar por toda a cidade, ainda que soassem distantes.

Hikari repousava na cama em seu quarto, com o fraco brilho da lua sendo a única fonte de luz a penetrar o lugar por entre as cortinas trêmulas ao vento da janela aberta. Tailmon dormia ao seu lado na cama, porém, enquanto a Digimon gata repousava serenamente, o corpo inconsciente da jovem morena se remexia por baixo do cobertor, enquanto um suor frio escorria por sua testa e uma expressão consternada preenchia sua face. Era evidente que, em seu sono, Hikari estava tomada por um grande pesadelo.

Em seu sonho, Hikari se imaginava novamente na velha e abandonada cidade caída próxima ao oceano de águas negras daquele mundo sombrio que havia visitado dias anteriores. Ela andava atordoada por entre as ruas decrépitas, limitadas por cercas estragadas com placas de madeiras destruídas e apodrecidas. O único som a se ouvir por ali, além do turbilhão das ondas do mar se quebrando na praia, era os sussurros e gemidos de lamentação de criaturas grotescas que andavam à espreita, cercando-a.

Hikari olhava de um lado para o outro, e observa cada canto da rua e o interior das casas destruídas a procura de um sinal das criaturas que entoavam aqueles sons perturbadores. E foi ao alcançar os limites da praia e olhar para trás que ela notou os olhos vermelhos brilhantes ao longe. Uma multidão de seres de manto sombrio a seguiam e corriam em sua direção.

A visão macabra de criaturas tão repugnantes a perseguindo foi um choque tremendo para Hikari, que mesmo paralisada pelo medo, forçou suas pernas a se mexerem e saiu correndo. Porém, ao virar para a direita no que pensou ser uma saída, ela percebeu que agora estava no interior de uma caverna escura e estreita, e ao longe, na saída, as criaturas já haviam a alcançado.

— Não... Não! Se afastem de mim! — berrou a garota apavorada.

Mas as criaturas continuaram a andar em sua direção, e quando uma delas ergueu o membro flácido que seria seu braço e sua mão, Hikari gritou de pavor com o toque frio e nojento da criatura em sua pele.

— Não! — gritou ela histericamente, finalmente acordando de seu pesadelo ao se levantar abruptamente em sua cama.

O gesto brusco de Hikari e seu grito de pavor acabaram por acordar Tailmon ao seu lado, que, ainda acometida pela sonolência, esfregou os olhos com as costas das mãos, enquanto encarava sua parceira com uma preocupação sincera.

— Hikari, você está bem?

— Estou, não é nada. Foi só um pesadelo bobo. — Hikari forçou um sorriso ao respondê-la, mas Tailmon franziu o rosto ao encará-la. Ela sabia que a garota estava mentindo.

— Era o Oceano Negro outra vez, não era? Teve outro sonho? — A Digimon não poupou sua parceira de sua expressão reprovadora.

— Não... — Hikari desviou o olhar ao falar, um sinal claro de sua mentira. — Não se preocupe, não vai acontecer de novo — respondeu ao se deitar novamente, virando para o lado para evitar o olhar crítico de sua Digimon.

Tailmon olhou para Hikari, agora tomada pela preocupação. Ela pegou o cobertor para cobri-la e, em seguida, a acariciou no alto da cabeça em um gesto de carinho e conforto, balançando a cabeça em negação ao sentir a tristeza por sua parceira se negar a compartilhar seus temores. Ela esperou pacientemente até que Hikari adormecesse outra vez e aguardou ainda mais um tempo, até ter certeza de que ela não teria mais outro pesadelo.


« * * * »


As horas se passaram e o sol começou a raiar, e logo trouxe a luz e o calor tão aguardado pela terra fria do breu da escuridão da noite. Ainda que tivesse sido vigiada por sua parceira Digimon, nem mesmo a segurança de ter Tailmon por perto pôde afastar plenamente os pesadelos e temores que assolavam a mente de Hikari. Ela mal conseguiu dormir devido às várias vezes que reviveu o mesmo sonho ao longo da noite, sendo forçada a interromper seu sono a cada vez que seu corpo solicitava fôlego para se recuperar das sensações de pavor que a consumiam.

Hikari desligou o despertador muito antes de ele tocar e correu para o banheiro para tomar um breve banho de água quente, na tentativa de espantar o sono que ainda sentia ao lavar bem o rosto. Colocou suas vestes habituais que trajava para ir à escola e tomou o café da manhã com sua família, disfarçando o máximo que podia para que ninguém percebesse o quão péssima ela se sentia. Assim que terminou de alimentar Tailmon, ela pegou sua mochila e se despachou para a escola.

Enquanto caminhava tranquilamente pelas ruas de sua cidade, Hikari era seguida por Tailmon que, se escondendo e saltando entre as árvores e prédios a caminho da escola, ia acompanhando sua parceira durante sua caminhada. A Digimon gata observava cada passo que sua parceira humana dava, atenta a qualquer sinal de problemas que pudesse surgir, porém, devido ao cansaço extremo que sentia, Hikari andava muito devagar e chegou a cambalear algumas vezes ao andar pela calçada. Felizmente, ela logo se aproximou do prédio da escola.

Porém, as sensações das imagens tenebrosas que ainda insistiam em tomar a sua mente persistiam em seu íntimo e Hikari já não aguentava mais aquilo, o que era evidente em sua expressão perturbada. Contudo, quando a sensação de um toque quente e caloroso em seu ombro se deu, o coração dela se acelerou a um ritmo inimaginável, mas, para seu alívio, era apenas seu querido amigo Takeru que havia lhe tocado para chamar sua atenção.

— Bom dia, Hikari! — O sorriso acolhedor e o brilho nos olhos azuis do garoto loiro eram extremamente simpáticos, e isso ajudou a acalmar o espírito dela.

— Ah, bom dia, Takeru! Como vai? — Hikari tentou soar o mais simpática possível ao falar, mas ela não conseguiu evitar de expressar o alívio em seu rosto e o garoto percebeu sua estranha reação.

— Está tudo bem com você? — perguntou preocupado.

— Está sim. É que você me pegou distraída.

— Ah! — Mas ele não havia se convencido. — Hikari, por acaso você... — Infelizmente, para Takeru, o soar dos sinos da escola o interromperam, anunciando que as aulas já estavam para começar.

— Nossa, nós vamos nos atrasar! — comentou ela ao forçar um sorriso. — Vamos, Takeru! — E começou a correr rumo ao prédio da escola, mas o jovem a encarou por alguns segundos antes de se mexer, a preocupação evidente em seu semblante.

Takeru acompanhou Hikari em sua corrida até a sala. Durante todo o dia na escola, ele, que se sentava apenas a algumas cadeiras atrás e duas filas de distância dela, manteve-se atento a cada movimento que ela fazia, sempre se certificando de que não havia nada de errado com ela. Embora não percebesse que estava sendo fortemente vigiada, Hikari ainda se manteve firme na tarefa de não transparecer para ninguém seus sentimentos perturbadores que a atormentavam. Ao final do dia, Hikari se aprontou para correr o mais rápido possível para casa, agora já rendida a exaustão, mas quando já estava virando a esquina da rua da escola, ela ouviu:

— Hikari, espera! — E ao se virar para ver quem era, percebeu Takeru correndo em sua direção.

— O que foi, Takeru? Alguma coisa errada?

— Não, eu... — Fez uma pausa para tomar fôlego. — Você ficou sabendo que tem um parque de diversões novo na cidade?

— É, eu fiquei sabendo, sim.

— Quer ir comigo lá hoje?

— Eu... Olha, Takeru, me desculpe, mas eu não estou muito bem para ir. Quem sabe outro dia?

— Mas e amanhã? Amanhã é sábado.

— Eu não sei.

— Ah, por favor, Hikari! Eu quero muito ir, mas não estou muito a fim de ir sozinho. Vamos!

Hikari suspirou um pouco enquanto olhou para Takeru, que a encarava com uma expressão animada. Ela sorriu timidamente para ele antes de respondê-lo.

— Está bem, vamos amanhã.

— Isso. — Comemorou ele ao cerrar o punho. — Podemos nos encontrar lá amanhã?

— Claro. Que horas?

— Às 14hrs está bom para você?

— Para mim está.

— Então, ótimo! Te vejo lá amanhã! Até mais, Hikari! — Ele acenou a mão antes de se afastar para o outro lado da rua.

— Até, Takeru! — Ela acenou de volta em resposta e, logo, ele já havia sumido de vista e ela se voltou para o caminho de casa.


« * * * »


O sol já raiava em seu ponto máximo, indicando um horário próximo ao meio-dia. A cidade estava agitada, mesmo para um fim de semana. E, por mera coincidência, Hikari também se encontrava agitada em seu quarto, vasculhando seu guarda-roupa em busca de uma peça de roupa para usar em seu encontro mais tarde com Takeru. Tailmon observava Hikari atentamente, vendo-a se frustrar a cada vez que colocava um cabide a frente do corpo para se imaginar usando aquela peça que ele segurava.

— O que está havendo, Hikari? Algum problema? — perguntou a Digimon preocupada.

— Não, não. O Takeru me convidou para sair com ele hoje à tarde.

— É por isso que está nervosa? Quer se vestir bem para sair com o Takeru? — perguntou Tailmon com uma voz docemente maliciosa, um tom que fez Hikari se avermelhar ao entender o teor da pergunta dela.

— Tailmon, pare com isso! O Takeru é só o meu amigo. É que eu não quero ir de qualquer jeito. Eu sei o que o Takeru está querendo com esse passeio. Ele quer me obrigar a falar sobre... — Ela hesitou por uns instantes, percebendo que estava para revelar tudo a Tailmon.

— Te obrigar a falar sobre o que? — Tailmon perguntou rapidamente, assim que percebeu a hesitação dela.

— Sobre o Oceano Negro, se ainda está me perturbando.

— É isso que vem causando seus pesadelos, não é?

— Sim. — Admitiu ela envergonhada.

— Olha, Hikari, não pense assim. O Takeru só está preocupado com você. Eu sei o quanto ele se esforçou para te encontrar naquele mundo paralelo quando todos os outros achavam que você estava perdida no Digimundo. O carinho que o Takeru tem por você foi capaz de nos permitir chegar até você naquele mundo sombrio. Nunca duvide disso. Ele realmente se preocupa com você.

— Eu sei, Tailmon.

— Quer saber? Não vá nesse passeio pensando besteiras. Vá para se divertir com o Takeru. Me dá um minuto!

Tailmon correu até o guarda-roupa, se enfiando dentro dele uma vez que seu tamanho lhe permitia isso, e depois de alguns segundos o revirando, saltou de dentro dele com um cabide que exibia um belo vestido com um claro tom de rosa bebê.

— Aqui! Experimente esse! Você o usou poucas vezes.

— Eu não sei. Esse vestido é um tanto aberto.

— Você pode combiná-lo com uma blusa simples de manga cumprida, que tal aquela de cor verde hortelã?

Hikari vasculha as pilhas de roupa sobre sua cama até encontrar a blusa.

— Essa aqui?

— Essa mesma.

— Está bem. Vou seguir seu conselho, Tailmon. E vou procurar me divertir sem me preocupar muito.

— Faça isso mesmo. E tenha um bom passeio!

— Obrigada!


« * * * »


Já era quase duas da tarde quando Hikari chegou na entrada do parque de diversões, construído não muito longe do litoral de Odaiba. Ela andou por alguns metros dentro do parque à procura de Takeru, mas ainda não havia o encontrado. Pegou seu celular e ligou para ele, mas antes mesmo do primeiro toque do celular se dar, sentiu algo tocando seu ombro; um toque caloroso que ela reconheceu de imediato.

E quando se virou para ver quem era, lá estava ele. Takeru a encarava com um largo sorriso animado que contagiou a garota. Hikari o encarou melhor e percebeu o quão bem arrumado ele estava. Takeru havia vestido uma camiseta branca com um colete preto, jeans escuro, mas mantinha seu chapéu bucket usual de cor clara. Ele também estava bastante perfumado com uma fragrância doce e terrosa, algo que não passou despercebido por ela. Por mais que quisesse, Hikari não pôde evitar os pensamentos abruptos que a diziam como seu amigo estava “apetitoso” para ela.

— Puxa, Takeru, você está... Ótimo! — admitiu ela um tanto tímida e envergonhada.

— Obrigado! — respondeu ele com um sorriso ainda mais acalorado. — Você também está muito bonita.

— Obri... Obrigada! — respondeu ela, ficando um pouco corada.

Estendendo o braço para ela, Takeru conduziu Hikari até a bilheteria e, surpreendentemente, comprou vários bilhetes para eles aproveitarem o dia. Ele perguntou onde ela gostaria de ir primeiro e, olhando ao redor, ela viu o brinquedo das xícaras giratórias e decidiu ir nele. Hikari e Takeru correram para o brinquedo, mas, por sorte, havia poucas pessoas na fila e logo eles se divertiram nele.

Após duas rodadas nas xícaras giratórias, eles saíram a procura de outro brinquedo, mas Hikari permitiu que Takeru escolhesse dessa vez. Ele optou pelos carrinhos de bate-bate, mas a fila desse era imensa. Depois de uma longa espera, eles finalmente se divertiram nesse brinquedo, com ambos rindo e se divertindo muito, a ponto de Hikari nem perceber o quanto aqueles pensamentos preocupantes já não a atormentavam mais.

Depois dos brinquedos, eles decidiram fazer uma pequena pausa para experimentar os jogos nas barracas ao redor do parque. Takeru arriscou a sorte numa barraca onde devia acertar dardos em balões. Com muita habilidade, ele acertou uma boa quantidade de balões e, como prêmio, ganhou um tigre de pelúcia, que logo entregou à Hikari assim que o pegou.

— Pra você! — disse ele, estendendo o brinquedo para ela.

— Obrigada! — respondeu ela envergonhada. Mas quando foi pegar o bichinho de pelúcia, o encontro de suas mãos com as mãos dele provocou um arrepio gostoso por seu corpo, que a deixou vermelha no mesmo instante.

— O que foi? — perguntou Takeru preocupado.

— Nada — disse ela rapidamente para disfarçar.

Eles continuaram a explorar as barracas de jogos por mais algum tempo, mas depois de algumas horas de diversão, a fome começou a apertar e eles decidiram fazer uma pausa. Eles foram até uma lanchonete montada no interior do parque e lá pediram por seus lanches. Hikari optou por tomar um sundae especial e Takeru por um hamburguer simples com batatas fritas. Eles se sentaram numa mesa próxima a janela e comiam com tranquilidade, mas Takeru não parava de sondar Hikari com o olhar, algo que a intrigava um pouco. Decidida, ela resolveu afrontá-lo:

— Por que está me olhando tanto, Takeru?

— Eu... — Ele hesitou ao responder. Era nítido que ele não esperava por isso. — Eu admito, Hikari. Eu estava preocupado com você.

— Preocupado comigo? Por quê?

— Desde que... Você sabe... Desde o mundo sombrio do oceano negro, você está um pouco diferente. Parece estar sempre atormentada, cansada. Patamon conversou com Tailmon, que também expressou preocupação por você. Ela disse a ele que você tem tido muitos pesadelos ultimamente.

— Não, Takeru, eu...

— Por favor, Hikari, não minta para mim! Me diz a verdade! — Suplicou ele, olhando-a profundamente.

E sentindo uma onda de ternura emanar dele, Hikari suspirou, finalmente se rendendo.

— Tá lega, eu confesso. Desde... Desde aquele episódio, eu me sinto atormentada. Eu sinto que, a qualquer instante, aquele mundo vai me puxar de volta para ele e isso me deixa completamente apavorada.

— Quando você foi para aquele mundo pela primeira vez, o que estava sentindo?

— Eu não me lembro exatamente. Angústia, medo, ansiedade talvez.

— Será que não são esses sentimentos que permitiram você ser puxada para aquele mundo?

— Você acha isso? — perguntou ela preocupada.

— Eu quase tenho certeza. Era nítido que você não estava bem naquele dia. Eu confesso que fiquei preocupado demais com você quando a vi quase desaparecer no meio da sala de aula. Ninguém mais pareceu perceber.

— Se os meus sentimentos... Como faço para não deixá-los me dominarem, Takeru?

— Eu não sei a resposta, Hikari. Mas uma coisa eu sei, você precisa enfrentá-los. Mas não se preocupe! — Ele disse essa última frase lançando um sorriso para ela. — Enquanto eu estiver aqui, eu vou protegê-la e cuidar de você.

— Você fala sério? — Ela perguntou otimista.

— Claro! — Acenou a cabeça. Então, ele esticou o braço sobre a mesa e segurou a mão dela em um gesto de conforto. — Você é minha amiga, Hikari, e eu não vou deixar nenhum mal acontecer com você.

— Obrigada, Takeru! — Ela sorriu em resposta.

— Aqui, um presentinho para vocês! — disse uma garçonete que surgiu do nada. Ela trouxe consigo uma bandeja com dois cupcakes e os colocou sobre a mesa.

Takeru e Hikari se afastaram, assustados com a aparição abrupta da mulher.

— Mas nós não pedimos cupcake! — respondeu Takeru rapidamente.

— Não se preocupe, fofinho. É uma cortesia da casa. Para você e sua namorada. — Com esse comentário, os rostos de ambos se tornaram vermelhos imediatamente.

— Ela... Ela é só minha amiga! — Ele respondeu timidamente e só então a garçonete se deu conta da gafe que cometeu.

— Oh, mil perdões! Eu não quis constrangê-los. Mas aproveitem assim mesmo! — E, finalmente, ela se retira.

Os dois se olharam ainda envergonhados, com as maçãs dos rostos ainda marcadas pela vermelhidão do sangue feroz em suas faces. Com um pouco de jeito, Takeru apanhou seu cupcake e afastou o envelope para mordiscar um pedaço, se deliciando com o recheio de chocolate.

— Hum, delicioso! — Ele devolveu o cupcake à mesa. — Me desculpa... Pelo comentário dela.

— Não se preocupe, Takeru. Ela não teve culpa, não nos conhecia para saber... Tudo bem.

— Prove o seu. Está gostoso.

— Eu... Eu vou. Vou terminar de comer meu sundae primeiro.

Ainda embaraçados, eles terminaram de comer seus lanches e a sobremesa que ganharam da lanchonete. Depois de comerem, eles voltaram ao passeio pelo parque, indo se divertir em outras barracas de jogos, além de outros brinquedos como o carrossel e a roda gigante. Como Hikari havia escolhido boa parte das barracas e brinquedos, ela permitiu que Takeru escolhesse os últimos brinquedos do passeio. Ele perguntou se ela aceitava ir com ele na montanha-russa, porém, como a fila era imensa, Hikari disse para ele que gostaria de ir ao banheiro antes, sugestão essa aceita por ele.


« * * * »


Hikari estava terminando de enxaguar suas mãos na pia do banheiro, agindo tranquilamente enquanto Takeru a esperava do lado de fora. Contudo, o som de um gemido de lamento começou a ecoar pelo banheiro, algo que paralisou Hikari de medo. Ela levantou os olhos e se encarou diante do espelho à sua frente, e, no reflexo, percebeu uma névoa negra emanando de dentro da cabine sanitária atrás dela.

A porta da cabine se abriu sozinha, mas ao invés de mostrar o assento sanitário, o espaço da cabine era pura escuridão, que começou a se espalhar pelo ambiente como um nevoeiro negro. Hikari se virou assustada e encarou o vácuo sombrio que tomou a cabine e, então, pôde enxergar vários pares de olhos vermelhos que a encaravam de forma horripilante. Daquela escuridão etérea, longos braços negros se esticaram em direção à Hikari, que ainda era tomada pelo medo.

— Venha! Venha conosco! — murmurou as vozes que vinham da escuridão.

— Não... Não... — gemia Hikari de puro pavor.

— Venha conosco, portadora da luz! Seja nossa rainha! — As vozes continuavam a falar.

— Me deixem em paz! — gritou ela apavorada. E tomada pelo medo, Hikari correu para fora do banheiro.

Hikari saiu tão desesperada de dentro do banheiro que mal prestou atenção em seus próprios passos e, ao sair, acabou se esbarrando em Takeru, que logo percebeu o estado de aflição da garota.

— Hikari, você está bem? — perguntou ele preocupado.

— Eles estão aqui! Eles estavam ali dentro!

— Eles quem?

— Aquelas criaturas daquele mundo. Eles queriam me levar com eles.

— Não se preocupe, Hikari, eu estou aqui agora. Vai ficar tudo bem. — E com essa deixa, Takeru a puxou para um abraço caloroso, ao qual Hikari não hesitou em responder, se agarrando ao corpo e o calor terno de Takeru.

O gesto do abraço dele era carregado de carinho e foi o suficiente para abrandar as sensações ruins que atormentavam Hikari. Algumas lágrimas inoportunas se acumularam em seus olhos e escorreram por seu rosto, molhando as roupas dele, mas ele não se importou. Takeru apenas passou a mão na cabeça dela em um gesto de conforto e murmurou algumas palavras para aliviá-la. O abraço deles perdurou por um longo tempo, até que ela finalmente se sentiu tranquila outra vez.

— Obrigada!

— Sem problema!

— Takeru, eu quero ir. Eu quero ir embora! — disse ela enquanto se desvencilhava dele.

— Tem certeza? — Ele perguntou aflito.

— Tenho.

— Então, está bem. Vamos!

Takeru passou um dos braços em torno dos ombros dela e, calmamente, foi conduzido Hikari em direção à saída do parque. Hikari não se importou com isso e apenas encostou a cabeça no peito de Takeru enquanto ele a conduzia. Eles já estavam alcançando a saída quando Takeru parou por um instante. Hikari levantou o rosto para encará-lo, mas percebeu que ele estava com os olhos fixos em algo. Ela acompanhou seu olhar e percebeu que ele encarava o único brinquedo que eles não ousaram ir ainda: a casa de terror.

— O que foi, Takeru? — perguntou ela.

— Hikari, que tal se a gente for na casa de terror?

— O que?! — Exclamou ela, nervosa.

— Eu sei que é confuso, mas eu pensei... — Ele hesitou por um momento antes de continuar.

— Pensou o que? — Havia uma leve curiosidade nela.

— Eu pensei... Eu ainda acho que são os seus sentimentos... Seu medo, para ser mais preciso, que está alimentando esse mundo e dando a ele forças para te puxar. Eu acho que é isso que a está puxando para ele.

— Você acredita que é isso que aquelas criaturas estão fazendo comigo? Me vencendo pelo meu medo?

— É a única explicação que eu vejo. Principalmente porque sei que você não gosta de ficar sozinha, que é quando você mais se torna vulnerável aos seus medos.

— Eu acho... Acho que você tem razão. O que você sugere, Takeru?

— Vamos juntos na casa do terror, Hikari. Você precisa aprender a ser mais forte que os seus medos.

— Mas, Takeru, e se eu não conseguir?

— Você vai conseguir! Você é mais forte do que pensa, só não se dá conta disso. E você não estará sozinha. Eu ficarei do seu lado o tempo todo.

— Você promete?

— Eu prometo! — Ele lançou um olhar terno para ela e sorriu com confiança. O jeito determinado dele inspirou confiança em seu íntimo e Hikari se sentiu mais corajosa.

— Está bem. Vamos! — E os dois começaram a andar em direção a entrada da casa do terror.

Tal como esperado, quando entraram na casa de terror do parque, a primeira coisa que perceberam era um longo corredor mal iluminado e com poucos focos de luz, algo proposital para construir a atmosfera do lugar. Havia pequenas portas ou janelas em torno das paredes, de onde os animatrônicos e bonecos medonhos saltariam.

Hikari foi andando devagar ao longo do corredor, mas seus passos eram acompanhados de perto por Takeru, que não desgrudava do lado dela em nenhum momento. Os primeiros brinquedos saltaram e conseguiram assustá-los momentaneamente, mas não passavam de fantasmas e zumbis. Após os sustos levados, Hikari e Takeru riram de suas próprias expressões apavoradas.

O corredor passava por cômodos de uma casa comum, como a sala e a cozinha. Alguns tipos de personagens eram fixos em cada cômodo, como os fantasmas presentes em maioria na sala e os zumbis na cozinha. Alguns cômodos de quarto tinham como atrações vampiros e monstros como o bicho-papão saindo do armário. Apesar de inicialmente relutante, Hikari foi enfrentando cada assombração uma a uma, sentindo-se cada vez mais fortalecida, especialmente com a presença de Takeru sempre ao seu lado. Mas tudo mudou quando chegaram ao cômodo que lembrava um banheiro.

Ao chegar nesse cômodo, Hikari e Takeru ouviram o som de água. Havia uma espécie de torneira e privada com plásticos especiais que simulavam o vazamento de água, com a presença de caixas de som escondidas que soavam o som de água corrente. Um pequeno nevoeiro tomava conta do cômodo graças à uma máquina de fumaça presente ali. Porém, a maior surpresa saltou de dentro da banheira e da privada.

Brinquedos em forma de monstros anfíbios saltaram da banheira e privada, mas foram o suficiente para causar um forte pânico em Hikari. As criaturas tinham um design quase semelhante à silhueta das criaturas do outro mundo, porém, os olhos eram vermelhos e vibrantes, os mesmos olhos que estavam perseguindo Hikari nesse tempo. Um dos brinquedos apareceu de uma porta escondida na parede e quase encostou nela, mas a proximidade com ele foi o suficiente para fazer com que Hikari explodisse de medo e saísse correndo dali o mais rápido que podia.

— Volte aqui, Hikari! — gritou Takeru ao notar a fuga tempestiva dela.

Correndo o mais rápido que podia com as próprias pernas, Hikari conseguiu retornar para a entrada da casa do terror e logo se dirigiu para a saída do parque. Não muito atrás dela, Takeru também apareceu e após procurar por ela, percebeu sua silhueta deixando o parque, correndo atrás dela. Como o parque ficava próximo ao litoral de Odaiba, Hikari não percebeu que ela estava correndo em direção à uma pequena praia e ao oceano, algo que só percebeu quando olhou para sua frente e notou a presença do mar.

Ela olhou para os lados e logo percebeu que a névoa escura que a perseguia estava se formando a sua volta. O vulto das criaturas sombrias ganhava forma e elas esticavam seus longos braços em direção a Hikari.

— Me deixem em paz! — gritou ela apavorada.

Mas ao olhar para si mesma, Hikari percebeu que névoa negra estava consumindo seu corpo, removendo a sua cor natural e tornando-a uma figura de tons branco e preto. Seu corpo começou a se tornar cada vez mais transparente e, como se estivesse em um estado de alucinação, o ambiente a sua volta começou a se distorcer, embaralhando-se numa espécie de ambiente de vácuo negro, enquanto as imagens daquele mundo distorcido começavam a se sobrepor sobre o mundo real.

— Não, eu não quero ir! — berrou ela. Mas por mais que gritasse, ela se sentia cada vez mais puxada para aquele mundo de trevas.

A sua visão do ambiente a sua volta já estava completamente distorcida e tudo não passava de borrões pretos, brancos e acinzentados, com a luz diminuindo a cada instante. O som característico daquele oceano negro já se tornava cada vez mais nítido e as formas daquelas criaturas ficava cada vez mais sólida a sua volta. Tudo parecia perdido e Hikari estava cada vez mais próxima de ser puxada para aquele mundo sombrio quando, de repente, um clarão de luz dourada surgiu ao longe. Ela se virou na direção da luz e percebeu uma espécie de criatura humanoide feita de luz vindo em sua direção.

— Hikari! — gritou a tal criatura, mas o som da voz dela era familiar para ela e, logo, Hikari a reconheceu como sendo a voz de Takeru.

— Takeru! — Ela gritou e logo a criatura de luz dourada assumiu a forma de Takeru, mas o corpo dele ainda brilhava e emanava luz a sua volta.

Takeru logo alcançou Hikari e a segurou pelos braços. O toque das mãos dele era quente e Hikari pôde sentir seu corpo inundado pelo brilho da luz dele. O seu corpo, que já estava semitransparente, pareceu voltar aos poucos e as imagens distorcidas à sua volta pareceram estar voltando ao normal, porém, isso ainda não afastou a presença das trevas que ainda insistia em puxá-la para o outro mundo.

— Hikari, você tem que lutar contra isso! — berrou Takeru desesperado para ela.

— Como, Takeru? Como eu faço isso?

— Pense no seu irmão, na sua família. Pense em todos aqueles que você sabe que te amam e se importam com você. Pense em mim.

— Eu penso, mas eu não consigo. Eu sinto o medo cada vez mais forte em mim e sei que é isso que está me puxando para aquele mundo.

— Então, concentre-se no som da minha voz! Siga a minha voz, Hikari. Fique aqui comigo! Eu quero você aqui comigo! — Ele suplicava a ela e havia muita ternura no timbre de sua voz.

— Takeru, por quê? Por que você luta tanto por mim?

— Porque eu... — Os olhos dele balançaram momentaneamente e Hikari percebeu isso, ficando um pouco confusa. O rosto dele ficou levemente ruborizado, mas um sorriso tímido se formou em sua boca. — Porque eu... Eu gosto de você, Hikari. Eu te amo!

Os olhos de Hikari estremeceram diante das palavras dele. Seu coração palpitou mais forte, mas, agora, não por medo, e sim pela surpresa dessa confissão. Sem mais temer nada, Takeru repousou as mãos nos lados da face de Hikari e, lentamente, aproximou seu rosto ao dela, depositando um beijo meigo em seus lábios. A sensação do beijo de Takeru irradiou um forte calor pelo corpo de Hikari, que logo percebeu uma luz rosa irradiando de dentro dela, tornando-se cada vez mais forte junto da luz dourada que emanava do corpo de Takeru. Os corpos de ambos brilhavam cada vez mais forte e a luz começou a machucar as criaturas sombrias que estavam a cercando e que, agora, começavam a desaparecer. A névoa sombria que a circundava foi se dissipando e, então, tudo a sua volta começou a voltar ao normal.

Quando Takeru se desprendeu de Hikari, ela encarou a sua volta e pôde perceber que tudo voltou ao normal. Agora, eles estavam na praia, perto do oceano, e banhados pela luz do sol que se punha no horizonte. Hikari encarou os olhos de Takeru, que a olhavam com extremo carinho. O sorriso dele ainda era tímido, mas genuíno. Hikari se forçou a sorrir para ele, mas não conseguia esconder a vergonha e o constrangimento depois de um beijo tão longo e terno que haviam se dado.

— O que foi? — perguntou ele preocupado, notando a vermelhidão no rosto dela.

— Eu... É que eu ainda estou absorvendo tudo isso. Eu... Eu não esperava que você gostasse tanto assim de mim.

— Mas nunca pareceu óbvio? — brincou ele, pegando uma mecha do cabelo curto dela e colocando-a atrás da orelha dela.

Hikari levantou o olhar para ele e Takeru aproveitou para lhe dar outro beijo, o qual Hikari fez questão de corresponder. Foi um beijo mais longo e apaixonado, mas o toque dos lábios dele trouxeram novas sensações a ela, sensações boas, que afastaram todo o medo que ela sentia.

— Eu não havia percebido — respondeu ela quando ele se afastou.

— Eu sempre gostei de você, Hikari, desde o dia em que nos conhecemos, quando descobrimos que você era uma de nós, uma digiescolhida. E depois de tantas aventuras juntos, como eu não podia gostar de você? Nós enfrentamos tantos perigos juntos quando éramos os mais novos do grupo. E depois de três anos, nos encontramos de novo para continuar lutando juntos. Eu só podia me apaixonar cada vez mais.

— Takeru, muito obrigada!

— Obrigada pelo que?

— Por ter me salvado daquele mundo. Naquela vez e agora de novo.

— Você não tem que agradecer, Hikari. Eu fiz de todo o meu coração, mas eu não fiz tudo isso sozinho. Você também se salvou quando percebeu que tinha que lutar contra o seu medo.

— Tem razão, mas eu só consegui isso quando senti seu amor por mim. Ele me deu forças.

— É isso que os bons sentimentos fazem. Nos dão forças para lutar contra as nossas trevas, Hikari.

— Takeru, você foi a minha luz e a minha esperança contra isso. Eu não tenho como te agradecer por tudo o que você fez por mim.

— Como eu disse, não precisa me agradecer, Hikari. Eu fiz tudo isso porque te amo e nada mais.

— Hum, Takeru? Posso te perguntar só uma coisa?

— Claro!

— Hoje... Tudo isso... Era para hoje ser um encontro? — perguntou ela timidamente.

— É sim, Hikari. Hoje foi um encontro. Nosso primeiro encontro — respondeu ele sorrindo, finalmente obtendo um sorriso genuíno por parte dela.

— Obrigada! — E, então, Hikari se aproximou e beijou Takeru com ternura, gesto que o rapaz não hesitou em responder.

E enquanto se beijavam, a luz do sol poente os iluminava, fazendo com os corpos deles se iluminassem enquanto consagravam seu amor com um beijo carregado de ternura.


FIM!

Notas finais
E aí, o que acharam da história? Gostaram? Não gostaram? Por favor, deixem seus comentários com críticas e sugestões. A opinião de vocês é muito importante para eu saber onde estou acertando e errando como escritor. Muito obrigado a todos que leram até aqui. Fico grato pela oportunidade que me deram ao ler essa história. Espero que tenham gostado tanto quanto eu gostei de escrever. Espero vê-los em breve, quem sabe nas minhas ou nas histórias de vocês. Obrigado a todos e até a próxima! Atenciosamente, João V. Guimarães!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!