Minha Luz
1 As duas partes.
Eu lembro como se fosse ontem. Eu estava com raiva. Extremamente furioso. E foi isso que me manteve são durante tudo aquilo. Ele segurava meus braços e tampava minha boca para eu não fazer barulho, enquanto que me penetrava com força. Seus olhar junto a seu sorriso malicioso demonstravam claramente o quanto se deliciava daquela situação, ao ver-me completamente submisso.
Aquele lugar esquisito no meio da rua, escuro e sem nenhum movimento era conhecido por ter casos de estupro seguidos de assassinato, e provavelmente não só pelo mesmo criminoso. E foi por esse exato motivo que eu fui para lá. Eu queria ser pego, pois haveria uma chance de encontrá-lo. De encontrar o homem que estuprara e matara alguém muito querido para mim, para, assim, poder me vingar.
Eu me senti horrível naquele momento. Enojado. Vulnerável. Porém, próximo ao final, fingi estar tendo certo prazer. “Você está gostando, não é?”, o homem perguntara, sorrindo enquanto apertava meu pescoço com uma de suas mãos, até ter seu orgasmo. Eu comecei a me masturbar em seguida, e ele me ajudou. Após eu ter meu orgasmo, ele colocou sua mão em seu bolso e eu pensei que a hora havia chegado: ele iria tentar me matar. Contudo o homem tirara um pequeno cartão com seu nome, Chris, e telefone, colocou-o sobre meu corpo nu, aproximara-se de mim e sussurrara em meu ouvido seu endereço, seguido pelas palavras “venha me ver qualquer dia”. Ele fora embora logo depois. E eu comecei a chorar, pois, mesmo depois de tudo aquilo, eu não tivera coragem suficiente para matá-lo.
Eu decidi que iria para onde ele morava. Depois de poucos dias, então, foi que eu fui para onde ele morava. Sua casa até que era bem bonita — do lado de fora. Do lado de dentro não havia muitas decorações nem nada que realmente realçasse qualquer tipo de beleza. A não ser aquele homem que, embora fosse repugnante pelo que fazia, era belo. Alto, magro, com o corpo levemente musculoso e definido, pele clara, cabelos lisos negros e penteados para cima, olhos azuis... E um sorriso encantador. Ah! E seu nariz. Sim, lembro-me de seu nariz levemente empinado... Era um charme. Até sua sobrancelha, sua voz...
Lembro-me da forma na qual ele atendera a porta. Quase que me puxara para dentro, com aquele seu sorriso malicioso à mostra, fechando a porta em seguida e começando a me dominar mais uma vez. E, mais uma vez, fez sexo comigo, embora eu só fizesse em prol de minha “missão”, mesmo que eu não soubesse se fora ele de fato quem matara aquela pessoa querida para mim.
De certa forma, Chris parecia não ter intenção de me matar. Mas claramente ainda tinha a intenção de ter-me submisso para si. Não só naquele dia, mas também nos outros que se seguiram, nos quais eu ia para sua casa e a mesma coisa acontecia. Até que um dia nós conversamos. Eu perguntara o porquê de ele não ter me matado, porém ele não dera uma resposta. Continuei com o assunto, e me lembro de que ele começou a falar sobre algumas de suas vítimas. Era evidente que aquilo o dava certo prazer. Ele era realmente... Sinistro.
Finalmente eu o disse que sentia vontade de matar. Que queria fazer o mesmo que ele, porém não sabia as melhores formas de realizar. Foi então que ele resolveu me ensinar. Ele tinha um lugar em sua casa com algumas ferramentas, onde me levava para mostrar algumas técnicas. Eu tinha medo, isso era verdade. E ao vê-lo manuseando aqueles equipamentos... Eu ficava arrepiado. Aquilo tudo era macabro demais, e eu não sabia se aguentaria continuar.
Embora tivéssemos passado a fazer outras coisas, como assistir a determinados filmes e conversar sobre determinados assuntos, Chris se empolgava toda vez que ia me “treinar”. Sei que ele passou a se empolgar toda vez que eu ia à sua casa, e eu não sabia se isso era bom ou não. Com o passar do tempo, porém, eu comecei a mudar. Não no sentido de que gostaria de matar realmente, porém no sentido de ter começado a me divertir com aquilo. Isso porque tudo na minha cabeça não passava de imaginação, embora, infelizmente, eu soubesse que, na de Chris, era tudo verdade, pois ele já havia matado.
Eu me lembro de sua forma sensual de falar. De seu andado. De seu rosto engraçado quando ele acordava pela manhã. Eu me lembro de seu sorriso. Já não era mais malicioso como anteriormente, com enorme teor de maldade. Era um sorriso normal. Humano. Quase que como se estivesse feliz. Foi quando eu comecei a reparar em cada aspecto dele. Não só seu sorriso estava diferente, mas sua forma de agir. Chris já não se forçava sobre mim. Ainda gostava de dominar durante o sexo, porém ele esperava eu querer. E, para ser sincero, eu queria. Eu fazia sexo com ele para não levantar suspeitas, sim, porém não importava o quanto eu dissesse para mim mesmo que era só aquilo, porque a verdade é que... Eu começara a me apegar a Chris.
Até que o dia chegou. O dia em que eu finalmente iria usar tudo que aprendera para completar minha “missão”. Para matar Chris. A claridade do sol estava bem mais forte do que nos outros dias. Porém, para mim, só havia escuridão.
De frente à sua cama, no escuro daquele quarto que tinha suas janelas cobertas por enormes cortinas, eu pairava com meu olhar repousando sobre os olhos fechados daquele belo homem. E, em minha mão, uma faca um pouco grande e perfeita para se matar alguém.
Eu a segurava com força. Havia treinado para isso, aprendido várias técnicas... Estava pronto! Mas minha mão tremia. Meu corpo tremia. Meu coração descompassado gritava, quase que em um pedido para que fosse arrancado.
Lembro-me de sentir meu rosto ficar molhado. É verdade... Eu estava chorando. Eu... Não queria perdê-lo. E, no meio de toda aquela hesitação, Chris abriu seus olhos. Bom, apenas um e de maneira espremida, enquanto que o outro permanecia fechado.
Ao se deparar com aquela cena à sua frente, ele esfregou seus olhos e logo conseguiu manter os dois abertos. Ficou a me olhar de maneira séria, porém não sinistra. Apenas séria e... Serena. Era como se... Ele já estivesse esperando. Como se já soubesse.
Meus dedos fraquejaram e se abriram, deixando a faca escorregar e cair ao chão. Eu ainda chorava, e olhava para ele com medo. Medo do que ele poderia fazer. Medo de tudo aquilo. Medo... De perdê-lo.
Chris se levantou da cama, o que fez meu temor aumentar. Eu, entretanto, não esperava aquilo que ele fez. Chris me abraçara. Um abraço forte, tenro. Diferente de qualquer outro que já tivera me dado.
“Você vai me matar?”, perguntei, com minha voz falha. “Não”, ele disse, calmamente, com seus braços ainda envoltos em meu corpo. “Eu não mato qualquer um”, voltou a falar.
“Mas você estupra...”, eu tentava repassar o que pensava, mas a verdade é que nem eu sabia o que queria dizer naquele momento. Chris, então, desvencilhou-se de mim e disse: “Eu só faço isso quando sei que a pessoa quer”. Quando viu meu olhar mudar, continuou a falar: “Isso não quer dizer que sou uma boa pessoa, Ryan. Isso não quer dizer nada mais que... Eu faço o que eu quero”.
Meu coração se apertou ainda mais. “Você... Sabia que eu iria...”, eu perguntei, sem ter sucesso em terminar a frase. “Sim”, ele disse, sereno, com seus olhos fixados nos meus. “Eu sempre soube que você queria me matar, Ryan. Desde o começo”, continuou.
Aquilo me surpreendeu. “Então... Por que me deixara viver? Por que me ensinara a matar? Por quê...”, eu estava desestruturado. Ele, então, respondeu, com um daqueles sorrisos que caracterizei como humanos, bem grande, e com um brilho em seus olhos:
“Porque eu realmente me diverti com você! Você... É minha ‘boa’ parte”.
Eu o abracei. E ele, mais uma vez, enlaçou seus braços em mim.
*
Havia se passado três dias. Três dias em que eu não o via. Lembro-me de que eu fui a casa dele todos os dias, porém ele não estava lá. Tentei ligá-lo, mas nada... Até que recebi uma carta. Literalmente. Era a letra dele, e, nela, havia escrito:
“Até a próxima!”
Meu peito apertou. Eu franzi minha testa. Fora a única reação plausível naquele momento. Além de tentar ligá-lo mais mil vezes para saber o que aconteceu e não ser atendido, restando apenas imaginar que ele havia me deixado e chorar.
Lembro-me de ter ido a casa dele mais algumas vezes e de não ter conseguido nada. Virei-me para minhas amigas, contanto tudo numa tentativa de apaziguar todos aqueles sentimentos dentro de mim, mas era, de certa forma, em vão. Elas não entendiam. Ninguém entenderia. Apenas eu... E Chris.
Eu recebi outra carta. Era dos avós dele, os quais eu nunca vira e não sabia como possuíam meu endereço. Nela, estava escrito:
“Nós queríamos te agradecer, Ryan. Nós não sabemos como era o relacionamento de vocês, porém, a verdade é que, desde que Chris te conheceu, ele passara a sorrir mais. E nós nunca víamos nosso neto sorrir muito. Então, obrigado. Você foi um anjo na vida dele”.
Naquele momento, a imagem de Chris sorrindo verdadeiramente aparecera em minha mente. Eu precisava vê-lo mais uma vez. Eu não podia deixar aquilo acabar. Então, peguei o endereço dos avós dele e fui até onde moravam.
“Onde ele está?!”, perguntei, com o comportamento irregular. “Onde está Chris?! Ele não pode simplesmente me deixar assim!”, eu falava extremamente alto, de frente aos dois velhinhos que abriram a porta de sua humilde residência.
“Você não soube?”, perguntaram, com um olhar de lamento em seus rostos. Eu começara a chorar e a ficar irritado, e, então, eles disseram:
“Chris... Faleceu”.
“O quê?!”, perguntei, após alguns segundos.
“Há pouco tempo ele descobriu que tinha um câncer muito avançado... Nós sentimos muito”.
O meu mundo desabou. Chris... estava morto. Nada mais fazia sentido. Eu pensei no meu fracasso de não ter completado minha “missão”. Porém, segundos depois, eu caí ao chão, em prantos, pensando no quão idiota eu era. A verdade é que... Eu já não me importava com essa estúpida missão há muito tempo. Tudo que me importava era Chris. E eu... Eu o perdera!
Tudo o que posso fazer, então, é seguir em frente. Sem ninguém que possa entender o que eu e ele fomos. Sem que eu possa compartilhar dessa dor. Sem... Ele. Apenas com minhas memórias onde Chris, minha ‘má’ parte, é, na verdade... Minha luz.
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