Minha Gotinha de Amor

12 Puxadas para fora do armário


Notas iniciais
Oi :) Eu diria que a fic está na reta final, mas minha matemática anda ruim então não sei quantos capítulos mais ela vai ter, exatamente.

Aria sentiu o gostoso sol de primavera em seus olhos fechados; raios estreitos, sutis, convidando-a cordialmente a despertar. Ela piscou algumas vezes e espreguiçou-se minimamente, fazendo uma única e forte prece: para que aquele corpo abaixo de si, ao que ela passara a noite abraçando, não fosse apenas mais um de seus travesseiros. Não era, a menos que aquele travesseiro em particular tivesse recebido um sopro de vida durante a noite.

De barriga para cima, Spencer também moveu-se, preguiçosa, como um gatinho que ainda precisasse se acostumar à claridade do dia. Aria sorriu, contemplando o rosto sonolento da garota e o corpo dela, envolvido ainda por seus braços. Ela usava uma confortável regata branca de algodão que ajustava-se perfeitamente à sua cintura e calças de pijama também brancas e cobertas por estrelinhas.

Elas haviam passado na casa de Spencer ainda no entardecer anterior, antes do jantar, e pegado um conjuntinho de dormir para a garota, assim como a escova de dentes dela e uma muda de roupas para a manhã seguinte. Melissa estava lá, como a sra. Hastings havia especulado mais cedo no hospital. A jovem estava à mesa da cozinha tomando chá com a mãe, de pernas cruzadas, como sempre parecendo muito sofisticada. Seus lábios se curvaram num sorriso doce e compreensivo assim que ela avistara Spencer. E as duas abraçaram-se, primeiramente sem dizer coisa alguma. Aria e Veronica trocaram outro olhar cúmplice.

— Não queria que você se preocupasse, mas que bom que veio – Spencer dissera baixinho, ainda em meio ao abraço.

O sorriso de Melissa alargara-se e ela afagara as costas da irmã, cortando o abraço em seguida.

— Está bem mesmo?

— Estou, estou, prometo – Spencer assentira, numa expressão tranquila.

Aria derretia-se observando aquilo. Ela conseguia sentir que aquele abraço havia acalmado Spencer ainda mais. Melissa agia mesmo como se fosse sua guardiã. Aqueles braços não pareciam querer nada além de proteger Spencer, como se soubessem exatamente o que a estava atormentando. Era tudo tão casto e tão bonito, assim como a imagem de Spencer parcialmente acordada agora, nos braços de Aria.

— Bom dia – a moreninha saudou, na lentidão que ela sabia que a mente da garota devia estar àquela hora.

— É sim, um ótimo dia – Spencer murmurou, passando as costas de uma mão sobre um dos olhos e abraçando Aria pelos ombros com o outro braço.

Aria aconchegou-se nela, feliz, porém sem saber o que mais dizer.

— Posso te fazer uma pergunta cretina? – Spencer arriscou.

— Pode.

— Você dormiu comigo voluntariamente ou só se sentiu obrigada a me fazer companhia por causa de tudo o que eu disse ontem no hospital?

Aria olhou-a, franzindo as sobrancelhas.

— Não se lembra de nada?

— Ah, lembro. – ela começou a brincar com os dedos de Aria casualmente – Mas por um lado, foram tantas as vezes que eu sonhei com algo assim, que fica difícil distinguir. Por outro... sabe, as memórias recentes custam a dar as caras depois de uma boa noite de sono. E sinceramente? Eu não me lembro da última vez que dormi bem assim. Por isso preciso que me faça um relatório.

Aria demorou um pouco para responder. Seu coração palpitava novamente. Fazia apenas alguns segundos que a garota havia aberto os olhos e Aria já tinha que conter a vontade de beijá-la outra vez, porque sabe-se lá do quanto ela lembrava.

— Nós jantamos com meus pais e Mike – Aria começou, calmamente –, depois de termos voltado da sua casa, e acabamos por voltar para cá e assistir Cinderela em Paris. Você não terminou de ver, aliás. Caiu no sono antes de mim.

Nos meus ombros, ela queria acrescentar. Na verdade, Spencer parecera aquelas crianças que não aguentam assistir um filme por completo no cinema e precisam ser carregadas no colo para casa depois. Era justificável. Ela devia estar tentando recuperar todo o sono que perdera devido às malditas anfetaminas, e ao maldito Ian.

— Que pena – Spencer lamuriou, soando um tanto vaga – Audrey não merece ser desassistida.

Aria riu. Audrey Hepburn era a atriz favorita de Spencer. A mulher havia sido fluente em francês e talvez por isso a garota a idolatrasse tanto. Na verdade, Spencer ela louca por tudo que pudesse ter a mais leve ligação com a França. Às vezes ela adquiria um jeito inegável de europeia, tanto fosse por uma postura ou uma inflexão de voz diferenciada na hora de treinar o próprio francês. Spencer era praticamente fluente na língua também e, para Aria, ouvi-la falar era surreal. O jeito preciso como a garota entrelaçava as palavras difíceis uma na outra sempre causara arrepios em Aria, e ela só percebera tal coisa de uns tempos para cá.

— Se lembra do que aconteceu antes disso? – a moreninha insistiu num tom bastante baixo, sentindo-se subitamente envergonhada.

Spencer encarou-a, séria por alguns segundos, e assentiu. Aria tocou a lateral de sua cintura assim que a garota resolveu se aproximar para dar-lhe um longo e delicado selinho. Ao partir o singelo beijo, Spencer fez com que as pontas de seus narizes se tocassem e o simples gesto pareceu à Aria casto e sexy ao mesmo tempo.

— Algo assim? – Spencer sussurrou, numa voz levemente rouca, como se soubesse exatamente o que aquilo provocava em Aria. Ora, que se dane, ela era Spencer Hastings. Ela simplesmente sabia.

Aria concordou, mordendo sutilmente o próprio lábio.

— É.

Spencer sorriu, satisfeita, com seu rosto a milímetros do de Aria, e pareceu que ela ia avançar para os lábios da moreninha outra vez, mas acabou por acariciar a cintura dela, apenas.

— Vamos descer? Estou com fome de novo.

Aria riu novamente. Gostou do jeito descontraído que a garota fizera o pedido e guiou-a escadas abaixo, depressa. Esperava que o responsável pelo súbito apetite de Spencer fosse algo precioso que atendia pelo nome de felicidade.

Aria ouvia passarinhos piando acima das copas das árvores centenárias de Rosewood. Bem, isso e o som das próprias passadas junto das de Spencer pelas calçadas largas era tudo o que ela ouvia. Não que ela estivesse reclamando; novamente, o silêncio dizia muita coisa entre as duas. Não era como se elas precisassem realmente falar alguma coisa para tornar a ida até a escola confortável. Estar ao lado de Spencer era confortável por si só para Aria, mas algo a deixava inquieta mesmo assim.

Devo ou não devo?, ela perguntava-se repetidamente enquanto mexia com a mão direita no chaveiro preto de caveirinha que havia pendurado no fecho da bolsa que levava à tiracolo com seus cadernos. Talvez ela estivesse fazendo tal coisa distraidamente, apenas para dar alguma ocupação aos dedos. Não, ela definitivamente estava fazendo aquilo de propósito, tudo porque sentia que Spencer às vezes olhava para sua mão com o canto do olho esquerdo.

E, caramba, quem diria que o meticuloso planozinho iria funcionar? Certamente não Aria. Mas na metade do caminho para Rosewood High, Spencer a surpreendeu, tomando seus dedos trêmulos para junto dos dela, um por um, até que as duas mãos se entrelaçaram.

Aria enrubesceu – era como se Spencer lesse seus pensamentos! –, e foi a vez dela de olhar para a garota como se perguntasse “tem certeza?”. Spencer apenas sorriu, apertando sua palma contra a de Aria. As ruas estavam desertas, enxergava-se apenas os carros estacionados em frente às casas, a perder de vista. Mas ainda assim elas estavam pela primeira vez de mãos dadas em público, de certa forma, e Aria percebeu que não se importaria se alguém as visse, tanto fosse esse alguém um conhecido ou um desconhecido que pudesse eventualmente fazer aquela notícia chegar aos ouvidos do pai de Spencer.

Assim como quando se beijaram pela primeira vez, na tarde anterior, Aria sentia que era certo caminhar de mãos dadas com Spencer. Ela simplesmente não se importava se aquilo soava clichê ou não – provavelmente soava, e muito –, mas parecia que aquelas palmas haviam sido moldadas para encaixaram-se. Aria tinha um sorriso bobo nos lábios enquanto olhava para o chão. Ah, Deus, como era clichê! Mas, droga, ela não se lembrava de já ter tido tamanha certeza de algo antes, nem mesmo com Ezra.

Ao se aproximarem do pátio frontal da escola, as duas foram soltando gradual e inconscientemente as mãos e agora, outra vez, tinham apenas um mindinhos enganchados um no outro.

Estava calor, era uma manhã ensolarada e abafada de terça-feira, e isso fazia os jovens saírem dos porões de suas casas e sorrirem mais. Alguns fumavam por ali – não passava das nove da manhã, como assim? –, outros apenas rodeavam os fumantes, como se quisessem camuflá-los de alguém que pudesse dedurá-los ao diretor. Aria reconheceu uma cabeleira loira em meio ao bando de adolescentes, cuja dona estava à uma das mesinhas de madeira perto das escadas que davam para o saguão do prédio da escola.

Era fácil dizer quem era Hanna Marin em uma multidão. Deixando o ícone “moda” de lado – ela sempre se destacava por isso, de qualquer jeito –, Hanna, de uns tempos para cá, passara a ter uma morena frequentemente em seu encalço: Mona Vanderwaal. E agora, Mona tinha o braço esquerdo ao redor dos ombros de Hanna. Aria arregalou um tanto os olhos, surpresa, ao ver que a garota aproximava o rosto da orelha direita de Hanna, como se fosse mordiscá-la ou algo do tipo, mas não foi o que ela fez. Mona apenas cochichou algo no ouvido da loira, com o olho direito fitando Aria – e Spencer – discretamente. Aria congelou. Não era um olhar reprovador, mas sim quase malicioso. Hanna seguiu o olhar de Mona e pousou seus olhos azuis nos mindinhos enganchados de Aria e Spencer, jogando a cabeça para trás numa gargalhada em seguida.

— Você tem toda a razão! – ela virou-se para Mona novamente.

— Olá, meninas – saudou Spencer num tom cordial, parando em pé diante delas – O que é tão engraçado?

Mona limpou a garganta e endireitou a postura, como se a garota mais alta à sua frente a intimidasse um pouco.

— Spencer, oi. – ela sorriu, também cordialmente – Aria.

Aria acenou timidamente. Ela nunca havia conversado realmente com Mona. Para falar a verdade, ela nunca nem mesmo notara que Hanna e Mona eram tão próximas antes da conversa reveladora que tivera com a loira. Ela se sentia mal por nunca ter percebido. E se sentia mal por Mona ser praticamente uma estranha para ela, enquanto para Hanna a garota era... bem, Aria ainda não sabia o que Mona era para Hanna.

Spencer devolveu o oi de Mona e voltou a fitar a loira.

— Hanna, ela tem razão no que, exatamente?

Hanna e Mona se entreolharam.

— Sentem-se, vocês duas – Hanna intimou, e as duas que estavam em pé obedeceram – Primeiramente, bom dia. Segundamente – ela inclinou-se sobre a mesa e baixou o tom de voz enquanto um sorriso alargava-se em seu rosto –, vocês se beijaram!

Ninguém disse coisa alguma pelos segundos que se seguiram. Aria manteve os olhos pregados em Hanna, sentindo-se atônita. A conclusão precipitada da loira soava ainda mais como uma bomba agora que havia sido dita em voz alta. Aria ficou sem saber o que fazer. Tinha medo de olhar para Spencer. Por via das dúvidas, lançou a Hanna o melhor olhar fuzilador dentro de sua capacidade no momento.

— Hanna... – ela murmurou, comprimindo os lábios, na esperança de que Spencer não ouvisse.

— Certo, vamos começar pelo começo – Spencer interviu, sem largar de sua calma habitual – Hanna, o termo “segundamente” não existe. Na verdade, não deveria existir nem mesmo o termo “primeiramente”, mas virou vício linguístico.

— Okay, Spence, eu não dou a mínima – Hanna disparou, e Mona conteve um risinho ao seu lado – E não tente mudar de assunto, por favor.

Spencer finalmente trocou um olhar com Aria, um olhar divertidamente confuso que parecia perguntá-la e agora?, e sabe-se lá por que, Aria também sentiu vontade de rir.

— Que argumentos você tem para afirmar tal coisa? – Spencer falava como uma senadora, mas não negava nada, o que era praticamente a mesma coisa que confirmar a suspeita da loira.

— O argumento de que você acabou de trocar uma piada com ela usando o olhar! – apontou Hanna, eufórica – Acredite, disso eu entendo.

Ao lado dela, outra vez, Mona segurava uma risada, encolhendo-se e, por um momento, Aria pôde vê-la corar.

— O que ela quer dizer é que acha que tem um ótimo gaydar – disse Mona, ainda tímida.

Hanna virou-se para ela, com um indicador levantado.

— Ei, eu tenho um ótimo gaydar. E eu acabei de puxar vocês duas para fora do armário, sinto muito. Espere aí, não sinto, não – ela concluiu com um sorriso travesso.

Mais um certo tempo de silêncio se fez. Aria continuou de cabeça baixa. Agora olhava para o colo. Gaydar? Hanna havia mesmo unido gay e radar numa única palavra? Uau. Certamente que o termo não havia sido inventado por ela, mas ainda assim era como se seu tom de voz fizesse da palavra algo inédito. Bem, Aria certamente nunca imaginaria ouvir tal coisa escorregar dos lábios de Hanna.

Depois de fazer as pazes em definitivo com Alison e de reinventar-se com a ajuda dela junto de Mona, Hanna havia tido alguns casinhos com alguns badboys, nada muito sério, nada muito duradouro. Aria arriscava dizer nunca ter visto a amiga se apaixonar, mas também arriscava dizer que era estranho pensar na possibilidade de ela gostar de garotas. Ora, mas então o que diabos estava acontecendo com ela própria? Quer dizer, Aria também nunca imaginou-se estar vivendo o que estava vivendo com Spencer. A vida é cheia de imprevistos, não?

Suspirando, Aria alcançou a mão de Spencer por debaixo da mesinha, torcendo para que a garota não a odiasse pelo que ela diria a seguir.

— O que você quer ouvir da gente, Hanna?

A loira então sorriu, seus olhos azuis esbanjavam gentileza. Ela havia deixado as piadas momentaneamente de lado.

— Nada específico. Quer dizer, pela primeira vez na vida eu acho que posso ensinar uma lição a vocês. Não há nada de errado em amar uma melhor amiga.

Dito isso, Hanna enlaçou seu braço ao de Mona – que lançou às duas outro sorriso tímido – e puxou-a delicadamente para longe dali. O sinal que indicava o início das aulas havia acabado de soar.

— O que você acha disso? – perguntou Aria, ainda impressionada, não se dando o trabalho de mover-se dali.

O grande grupo de jovens se amontoava para subir as escadas frontais do prédio agora, cabisbaixos como se estivessem à caminho do abatedouro. Elas estavam ficando sozinhas novamente.

— Eu acho... – Spencer começou suavemente, encaixando seus dedos entre os de Aria outra vez – que a garota é muito esperta.

Aria mordeu o lábio, sorrindo, ao ver que Spencer se aproximava para beijá-la. Desceu a mão direita do lado esquerdo do rosto dela até até seu pescoço, fazendo questão de manter os olhos fechados até depois de terem partido o beijo.

— Se essa é a sensação de se assumir para os amigos – ela murmurou, ainda maravilhosamente atordoada –, eu adorei. E quero passar por isso mais vezes.