Minha Gotinha de Amor

15 A felicidade e seu cruel oposto


Notas iniciais
Oi, oi, oi... oi. Acho que depois de tanto tempo nem vale a pena me estender nas desculpas, né? Afinal vocês já perderam a fé em mim mesmo... ;-; Ok, enough with the drama. Por um lado, trago boas notícias (por outro são notícias não tão boas). Essa enrolação em breve vai acabar. Esse é o penúltimo capítulo, minha gente. Sim. Não dá mais pra alongar, em julho a fic vai fazer um fucking ano e eu acho isso um absurdo. Não sei como nem por que fui demorando cada vez mais pra atualizar. Eu sei o quão chato é esperar por capítulo novo, e é meio que um desrespeito com quem lê. Vou sentir uma puta falta dessa fic mas pelo menos vou acabar de vez com a tortura de quem se mostrou tão leal a mim e à história nesse tempo todo. Agradeço pakas a quem leu até aqui, amo vocês ♥

Quando já estavam todas prestes a se despedir, Spencer sugeriu às meninas que matassem o tempo em alguma cafeteria. Seria um jeito de compensar pelos vários dias que ela e Aria passaram longe do grupo. Emily grunhiu em frustração.

— Eu tenho treino de natação daqui a meia hora...

— Em... – Spencer suplicou.

— Mas eu posso simplesmente não aparecer já que esse é um dia tão especial – ela abraçou a amiga pelos ombros.

— Sim – Alison concordou –, até porque precisamos nos acostumar a vocês duas se agarrando.

Spencer revirou os olhos.

— Pois é, mas eu nunca me acostumei a ver você e Noel agarrados – Aria rebateu. – Sério, era nojento.

Emily e Spencer riram juntas.

— É uma pena mas eu acho que não tenho Turn Down for What no meu celular – a de pele mais clara pescou o aparelho do bolso e fingiu procurar por entre suas músicas.

Hanna, que ainda não havia dito nada a respeito de se podia ou não sair depois da aula, puxou Aria mais para perto de si.

— Eu... – ela começou baixinho, limpando a garganta – meio que já tenho planos para hoje a tarde.

Aria olhou uma vez para a fachada de Rosewood High e depois pousou seus olhos nos de Hanna, observando-os com cuidado. Por alguma razão, a loira parecia inocentemente insegura. Ela segurava a mão de Aria como se esperando que a moreninha fosse entender.

— Você quer esperar pela Mona? – Aria supôs no mesmo tom de voz.

Hanna assentiu, deixando que um sorrisinho tímido curvasse seus lábios. A conversa entre Ali, Spencer e Emily continuava atrás das duas.

— Escute, porque você não pergunta a ela se ela gostaria de vir conosco? – Aria propôs, internamente animada com o próprio convite.

Hanna hesitou, olhando rapidamente por cima do ombro de Aria, e esta soube que o alvo do olhar da loira era Alison.

— Eu não sei se seria a melhor das ideias.

Aria suspirou. Doía ver alguém de personalidade tão destemida como Hanna com um olhar tão cabisbaixo de repente.

— Por que você acha isso?

— Você sabe por quê.

Sim, Aria sabia. Não era como se Hanna tivesse vergonha de Mona ou da relação que as duas mantinham – Aria tinha quase certeza de que tal era do tipo “livre e gay” também –, a loira apenas temia pelo bem estar de Mona, temia que houvesse algum desconforto por parte da morena em relação a Alison e ao passado delas – que fora praticamente um caso de plebeia e princesa impiedosa.

— Ali esteve certa agora há pouco, sabe? – Aria sorriu, ainda segurando a mão de Hanna. – Eu e Spencer... é algo novo, e talvez leve algum tempo até que estejamos todas acostumadas a isso. E como encurtamos esse tempo? Com a convivência. A convivência leva ao costume, entende?

— Eu sei, mas...

— Han, por favor – Aria acariciou as costas da mão de Hanna. – Você e Mona foram de uma vital importância para que eu e Spencer nos sentíssemos verdadeiramente incluídas. E eu quero que de agora em diante vocês duas também se sintam assim, seja lá o que vocês forem ou quiserem ser uma da outra. Essa segregação tem que acabar, está bem?

Hanna sorriu, e Aria notou que seus olhinhos azuis estavam minimamente úmidos.

— Eu adoro quando você usa palavras bonitas.

Aquela larga mesa nos fundos da cafeteria conhecida por seus sorvetes de iogurte natural parecia mesmo estar tomada por simpatizantes do movimento LGBT. Seis pessoas, divididas em pares, ocupavam o estofado em forma de U e em frente a cada uma delas havia um smoothie de cor diferente; um verdadeiro arco-íris.

Alison havia sugerido o lugar; segundo ela, era a segunda melhor opção depois de qualquer outro estabelecimento que vendesse bebidas alcoólicas. Mas qual era a graça de beber às quatro da tarde, afinal? Sendo que um sol implacável reinava do lado de fora? Aria certamente não via graça.

De qualquer jeito, a cada gole daquelas bebidas feitas para vegetariano nenhum botar defeito, as risadas aumentavam, assim como a cumplicidade nas conversas – não importava se fossem as mais bobas possíveis. Talvez o açúcar estivesse funcionando como o estimulante ali, deixando-as mais soltas, mais à vontade, ou talvez fosse apenas o momento mesmo.

— E aí? – Ali inclinou-se para frente, apoiando-se nos cotovelos e encarando Spencer e Aria – quando é que vamos ver um beijo?

As duas, estando sob a mira de expectadora da garota, internamente perguntaram-se se aquele tom malicioso merecia de fato uma resposta.

— Você já viu um – Spencer replicou simplesmente.

— Quer dizer aquele selinho mixuruca? – Alison agitou uma mão em falso desdém – Não, não. Eu falo de um beijo de verdade.

Spencer cuidadosamente estreitou as sobrancelhas, fazendo com que sua expressão se endurecesse.

— Fazendo esse tipo de comentário você me soa como aqueles moleques que veem duas lésbicas na rua e perguntam “posso participar?”, e que, quando elas respondem que não, pedem uma “prova” de que elas são realmente lésbicas. Você não faz ideia do quanto isso é repugnante.

Os olhos azuis de Alison arregalaram-se minimamente e ela inclinou-se para trás em seu assento ao lado de Emily assim que Spencer concluiu, como se dissesse “Wow, ok, vá com calma”. Tensão se instaurou naquela mesa, deixando o ar ao redor das seis sensivelmente pesado; Emily, Hanna e Mona, as imparciais, se entreolhavam, desconfortáveis. Aria sentiu-se no dever de abrandar a situação.

— Ei, relaxe – ela sussurrou quase que somente para Spencer, acariciando o joelho da garota por debaixo da mesa. – Não acho que Ali tenha falado por mal.

Spencer de fato relaxou, em seguida parecendo estar suficientemente envergonhada por ter tido uma reação um tanto exagerada às palavras de Alison.

— Aliás – Aria prosseguiu, ainda como se apenas Spencer estivesse ali com ela –, você não vai perder sua dignidade se ceder a um beijo.

Um sorrisinho tímido curvou os lábios da morena, porém ela balançou levemente a cabeça, estando com o rosto praticamente colado ao de Aria.

— Nós não precisamos provar nada a elas.

— Sei que não precisamos – a mão de Aria que antes acariciava o joelho de Spencer começou a brincar com alguns fios de cabelo da morena. – Mas e se eu quiser que provemos algo?

Spencer não replicou, apenas deixou-se ser beijada. E Aria sentiu-se corajosa. Aquele era o tratamento de choque pelo qual ela procurava. Era como dar a cara à tapa e certificar aquele pequeno círculo social do quão real ela e Spencer eram juntas.

O “aaw” que Aria ouviu assim que ela e Spencer partiram o beijo foi doce e coletivo.

— Eu odeio você – a morena murmurou com o mesmo sorrisinho tímido, ainda com os lábios rente aos seus.

— Obrigada – Aria respondeu, satisfeita, sabendo que a afirmação significava o exato contrário.

Ali parecia satisfeita também, e puramente amigável outra vez.

— Tenho que admitir que esse negócio de encontro triplo é bem divertido – alegou, ainda que para ninguém em particular.

Aliviada por já não estar mais no centro das atenções, Aria notou Emily erguer uma sobrancelha para a loira a seu lado.

— Encontro triplo?

— Bem, sim. Quer dizer, é meio óbvio que essas duas também trocam germes quando ninguém está olhando – Ali apontou para Hanna e Mona, acomodadas ao centro do sofá.

Aquela pseudo afirmação foi dita de uma maneira tão casual e inofensiva que foi impossível até mesmo para Mona esconder um sorriso encabulado, ainda que suas bochechas estivessem tão vermelhas quanto tomates em época de colheita e que ela aparentasse querer esconder o rosto atrás do cardápio. A única que pareceu não achar tanta graça daquilo foi Hanna, que passou um braço ao redor dos ombros de Mona, protetoramente.

— Cale a boca, Ali.

— Mesmo assim – Emily decidiu abrandar a situação desta vez –, nós não estamos em um encontro.

— Ora, querida, isso certamente é questão de ponto de vista.

O breve olhar quarenta e três que Alison lançou à Emily fez a morena corar também, na mesma fração de segundo. Pobre Em, Aria pensou enquanto ria internamente. Era claro que as borboletas que a garota costumava ter em seu estômago por causa de Ali ainda continuavam ali, porém adormeciam de vez em quando. E Ali adorava cutucá-las com a vara curta metafórica que eram seus flertes implícitos.

O sol estava começando a se pôr quando as meninas finalmente começaram a fazer menções de levantaram-se dali. O treino de Emily havia terminado há uma hora e meia e ela raramente chegava tarde em casa sem avisar, portanto ela foi a primeira a se despedir do grupo. Hanna e Mona espelharam a ação da morena em seguida; Hanna ia acompanhar Mona até em casa ou vice-versa, talvez.

Estando, até então, entre Alison e Spencer, Aria sentiu um inexplicável impulso de correr até o meio-fio e envolver Mona em um abraço. Ela quis muito dizer algo como “seja bem-vinda”, mas por algum motivo se conteve. Tantas outras frases caberiam àquele momento, aliás, que por fim Aria viu-se permanecendo calada e apenas reproduzindo o sorriso tímido da garota que tinha praticamente a sua estatura.

— Até mais, Aria – Hanna também sorriu antes de as duas começarem a se afastar, de braços enganchados. Gratidão estampava o rosto da loira.

Aria permaneceu imóvel até que Alison e Spencer a alcançaram.

— Então... – a mais alta começou, ao lado direito de Aria – posso eu ser a sua acompanhante até em casa?

— Não – Ali intrometeu-se, passando um braço ao redor os ombros de Aria. – Quem vai acompanhá-la até em casa sou eu, para que possamos fofocar a seu respeito.

Spencer trocou um olhar com Aria, que aparentemente estava encurralada. Está tudo bem, disse a moreninha de forma subliminar.

— Eu te ligo quando chegar – completou.

Spencer concordou e abraçou Aria antes de também se afastar, não sem antes revirar os olhos e tentar conter um sorriso.

Lado a lado, Aria e Alison andaram por um considerável tempo lentamente e em silêncio.

— Você quer fofocar sobre o quê? – a mais baixa arriscou.

Alison suspirou.

— Não sei. Acho que só usei essa palavra por força de hábito.

Aria assentiu, e as duas passaram mais alguns segundos sem dizer coisa alguma.

— O que achou de hoje? – a moreninha fisgou o olhar de Ali – Honestamente.

A loira pereceu refletir por um momento.

— Sabe, parte de mim acha engraçado a versão teen de um episódio de The L Word que foi essa tarde, mas em compensação... a parte maior está tipo “e onde diabos está o problema?”.

Aria riu. E você se considera parte do núcleo lésbico?, ela queria perguntar a Ali, porém mordeu a língua. Se havia alguém completamente irrotulável no planeta, esse alguém era Ali.

— E se você continua querendo saber minha honesta opinião – ela continuou –, eu acho que Spencer é um ótimo partido.

Aria fisgou de canto o olhar de Ali outra vez. A piscadela que a garota lançou-a indicava descontração, mas ainda assim havia uma veracidade sem tamanho naquele comentário, que derreteu o coração da moreninha a ponto de fazê-la enganchar-se ao lado direito de Ali deliberadamente.

— Apesar de tudo, eu te amo muito, sabia?

Alison grunhiu.

— Certo, mas não vamos nos grudar demais. Se Spencer resolver correr de volta para cá, com os cabelos ao vento e tudo o mais, para te dar um último beijo, ela pode ficar com ciúme.

Aria riu novamente mas não obedeceu, ficando colada à loira por mais algumas silenciosas passadas.

— Você está feliz, não está – Ali baixou o olhar para encará-la, ainda com a palma da mão direita encaixada em seu ombro –, pequena grande Aria?

A moreninha soube que seus olhos brilharam ao ouvir tal apelido; era como Alison costumava chamá-la quando eram pequenas, mais precisamente nos primeiros meses de amizade, época em que Aria gostava de vestir preto e carregava um bloco de desenho para todo o canto que fosse.

— Eu nunca estive tão feliz – ela respondeu, orgulhando-se do quão soava convicta.

Ali pareceu satisfazer-se com a resposta também, e calou-se, como se sentisse que nada mais precisava ser dito.

Era como se Aria caminhasse nas nuvens; seu coração batia confortavelmente dentro de seu peito, numa calma absoluta, tanto que foi quase como um solavanco quando Alison parou abruptamente de caminhar. A loira tinha agora o pescoço voltado para a esquerda e estava de olho no fim de uma viela sem saída.

— O que foi? – Aria parou também.

Alison sacudiu levemente a cabeça um segundo depois, como se tivesse acordado de um transe momentâneo.

— Nada – e puxou Aria para longe dali.

— Não me pareceu um nada – a moreninha desconfiou do tom vacilante de Ali e desenganchou-se dela, dando para trás.

Foi então que seus olhos foram de encontro à traseira de um Nissan azul-escuro, estacionado perto da casa no fim da ruazinha.

— Aria, esqueça isso e vamos embora!

Ali parecia impaciente para tirá-la dali, porém sua voz não soou para Aria como nada além de distantes protestos enquanto ela fazia uma dolorosa associação. Era o carro de Byron, insuficientemente escondido pelas míseras folhas de uma pequena árvore. Havia uma moça no banco do carona; uma loira, a quem seu pai estava... beijando.

Aria não saberia dizer por quanto tempo ficou ali parada, imóvel, observando aquilo com os lábios partidos em incredulidade; tudo que ela sabia era que a felicidade imensurável que ela sentia até então colidiu com um oposto cruel dentro de si, fazendo com que seu interior se estilhaçasse como vidro quebrado. Se não fosse Alison vindo para ampará-la e mais uma vez tentar tirá-la dali, suas pernas talvez tivessem cedido.

— Ali... – Aria engoliu em seco enquanto desvencilhava-se da garota, tendo a certeza de que suava frio – você se importa se eu... voltar sozinha daqui?

A loira deu um passo a frente, tentando segurar os pulsos da mais baixa.

— Não, Aria, eu não vou deixar você nesse estado.

Preocupação estampava o rosto de Ali, porém Aria se sentia puramente sufocada.

— Eu preciso, Ali... – ela gaguejou, dando um par de passos para trás – não posso falar sobre isso. Te ligo depois, tudo bem?

E começou a correr o mais rápido que conseguia para longe da amiga, que gritava seu nome em vão. Após dobrar uma esquina, algumas dezenas de metros depois, Aria parou e agarrou-se à cerca baixa de uma casa. A descomunal falta de ar que a dominava começou a assustá-la tanto quanto as imagens de seu pai beijando uma mulher que claramente não era sua mãe, que pipocavam agora em sua mente, como flashes.

Era uma sensação de desespero vagamente familiar; há anos aquilo não a assombrava, e ela continuou a rumar para sua casa, agora caminhando devagar, pois tinha medo que fosse cair devido a seus pés que pareciam ter sido feitos de massa de modelar.

Ao fechar a porta atrás de si, já em sua sala de estar, Aria sentia-se completamente gelada. Ela tremia por inteiro e não se lembrava do caminho que havia percorrido até ali, porém só começou de fato a chorar quando ouviu a voz do irmão.

— Aria? – Mike afastou o celular do rosto e a olhou, desconfiado, por cima do encosto do sofá. Ela não respondeu e ele por fim levantou-se. – O que foi?

— Agora não, Mike – foi tudo o que ela conseguiu dizer antes de disparar escada acima.

O garoto não obedeceu e seguiu a irmã até o quarto dela, antes murmurando um palavrão por causa de seu celular que caiu assim que ele ficou de pé.

A insistência de Mike em saber o que havia de errado com Aria só fazia a pressão no peito da garota aumentar mais. Ela desmoronou no chão antes que pudesse de fato aterrissar seguramente em sua cama.

— Ei, me conte o que você tem – Mike acariciou um dos pulsos de Aria, que já estava encolhida, com a cabeça entre os joelhos. – Quem fez o que com você?

Ouvir tal pergunta foi o suficiente para fazer Aria romper em soluços. Que ele pensasse que ela chorava por algum menino, não importava. Afinal, como diabos ela poderia dizer a ele, seu irmãozinho, que “o papai está traindo a mamãe”?

— Por favor – Mike suplicou. – Eu quero te ajudar. Do que você precisa?

Aria levantou o olhar devagarinho, depois de já ter parado de chorar, e encarou os olhos gentis do irmão. Ela respirou o mais fundo que conseguiu, sabendo exatamente do que precisava.

— Spencer.

Notas finais
— O "pequena grande Aria" foi em homenagem à Katreem, que além de uma miga ótima, é também uma autora fabulosa ♥ — Sim, eu fiz com que nenhuma das seis fosse completamente hetero aqui. And I'm not even sorry :3