Minha Criança

1 Minha Criança


Notas iniciais
Fic de Dia dos Pais

A noite estava alta e os escravos do Templo de Escorpião já tinham se recolhido em sua maioria. Scorpio, passou pela sala onde costumava passar as lições teóricas de sua pequena aprendiz e a encontrou ali, o que o fez parar e olha-la.

Sua hora de ir dormir já tinha se passado há muito.

Uma lamparina de azeite ardia em uma distância segura, derramando sua luz alaranjada sobre o recinto. Estava debruçada sobre um monte de folhas de pergaminho de baixa qualidade, as quais ele tinha lhe arranjado para aprender a escrever. A cabeça com os cabelos curtos estava apoiada sobre os bracinhos magros. As mãos frágeis estavam sujas de tinta escura, e ainda segurava a pena de escrever, embora esta pendesse quase completamente sobre a mesa. Ressonava calmamente, algo do qual ele ainda estava se acostumando a ver.

Quando Antares chegou ali, há quase um ano, era apenas pele, osso e medo. Assustava-se com a própria sombra e se escondia ao menor ruído, parecendo ser tão sensível ao som quanto o escorpiano era. Para ele, aquilo não lhe seria surpresa alguma, uma vez que tinha uma ideia de quem ela realmente era.

Em silêncio, o Escorpião Dourado se aproximou da criança, enquanto ainda se decidia a respeito de castiga-la ou não por não ter cumprido o horário estabelecido. Com cuidado, puxou as folhas feitas com pele de carneiro, onde ela estava apoiada, e viu o que a pequenina estava fazendo. Os garranchos eram terríveis, fazendo com que o Cavaleiro tivesse algum trabalho em decifrar o que estava riscado ali. Não tinha mais que um mês desde que ela tinha começado a aprender as letras. O medo de errar a paralisou diversas vezes, até que conseguisse escrever sua primeira linha, contendo apenas quatro palavras, as quais o perturbavam até aquele momento.

Era algo do qual ele mesmo só havia aceitado há pouco tempo.

Scorpio levou os olhos rubros à menina adormecida e respirou fundo, com um sorriso conformado no rosto. Não iria castiga-la, mas teria uma conversa com ela mais tarde sobre a importância de manter uma rotina. Outra vez a mesma conversa.

— Você não tem jeito mesmo, filhote. – Ele murmurou, colocando o pergaminho de volta à mesa.

Delicadamente a tomou pelos pulsos o suficiente até que erguesse o corpinho, para que o escorpiano a suspendesse pelos braços e a apoiasse contra seu próprio corpo. Um estranho calor tomou o seu peito ao senti-la encostar a cabeça em seu ombro e uma das mãozinhas abraçar seu pescoço, pousando sobre o ombro oposto.

Levou-a dali para o quarto a ela reservado, e adjacente ao seu, onde dormia com a escrava favorita do Escorpião Dourado. E a mulher, que já estava a aguardar pela criança, se surpreendeu ao ver o seu mestre chegar com ela nos braços. Tudo foi feito em silêncio e com uma cumplicidade sem igual.

Ágape erguera os lençóis da cama e puxou uma almofada cilíndrica, permitindo que o Cavaleiro colocasse a menina ali, devidamente acomodada. Retornaram o estofado ao leito, formando uma pequena barreira para evitar acidentes como quedas de cama, cobriram aquele corpinho com uma afeição incomum.

— Ela está se recuperando bem, não está? – A escrava perguntou aos sussurros, checando se estava tudo no lugar. Tomou a jarra e água que estava sobre uma mesinha não muito distante e encheu um copo, o qual deixou sobre a cabeceira que tinham em comum. – Tenho notado que seu espírito já não se quebra mais tão facilmente.

— Ela ficará bem. – O escorpiano respondeu tão baixo quanto, observando-a. – Só precisa de seu tempo.

— Eu irei arrumar a mesa onde ela estava e deixa-la pronta para o uso de amanhã. – A mulher falou, curvando-se levemente, mas foi detida por ele.

— Fique aqui. Queime algumas flores de yasamin (01), para garantir que a pequenina tenha um sono tranquilo. Eu irei arrumar a mesa. – Ele replicou, já se retirando. – Fique com ela hoje à noite.

— Não deseja a minha presença hoje? – A jovem mulher questionou sem compreender muito bem suas razões.

Scorpio se deteve momentaneamente, na porta, pensativo. O que iria dizer para ela? Como diria aquilo? Queria a sua companhia, ouvi-la cantar enquanto ele degustava um pouco de vinho, antes de se deliciar com o corpo de sua favorita, a quem só permitiria sair de sua cama depois que estivesse completamente satisfeito.

— É melhor que permaneça com a pequena. Não quero que ela acorde e se veja sozinha hoje. Muito menos que suspeite que você esteja... – O Cavaleiro dizia, encontrando um meio de começar a se justificar. Por um momento, parou, olhando para a criança e receando continuar aquela conversa ali.

— Quer... que eu mande... algum escravo para seus aposentos? – Ágape questionou, segurando a respiração por um momento.

— Não morrerei por conta de uma noite fria. – Foi a resposta dele, sem qualquer resquício de reflexão prévia.

— Compreendo, mestre. – Ela sorriu ao perceber sua preocupação. – Então, deixarei algo lá, para que não se sinta descuidado.

Novamente ele fez menção de sair, porém deteve-se e voltou-se para a sua escrava favorita, com um ar pensativo.

— Ágape... Acha que os Deuses queriam que eu estivesse lá, quando a encontrei? – O escorpiano perguntou, entre o curioso e o incrédulo. – Eu não era o único a fazer aquela rota durante as inspeções, mas... porque apenas eu a notei? Ela não se parece com humanos normais... não haveria como...

A mulher o olhou, surpresa com aquele questionamento. Geralmente era ela quem o fazia, por não ter o estudo necessário sobre as Divindades e seus desejos. Levou uma mão aos lábios, ganhando um semblante pensativo, enquanto imaginava o que poderia responder a ele.

Seus olhos azuis pousaram na pequena adormecida, que depois de tantos meses, finalmente dormia em um sono tranquilo. Livre dos pesadelos que a acordavam ao longo de toda a noite, enquanto gritava sobre... sobre o que sofria antes de chegar ali. Coisas que faziam a escrava dormir chorando pela dor que ela sabia que a criança sentia.

— Mestre... eu não sei dizer o porquê... – Falava a jovem mulher, sentando-se na beira da cama, levando uma mão aos cabelos escuros da menina. – O que eu sei é que o senhor fez a diferença na vida dela, tirando-a daquele... daquela... vida... se é que posso chamar aquilo de vida. Tudo o que sei, é que o senhor deu à nos... essa pequenina... uma nova chance. – E mordeu os lábios ao perceber o que iria dizer.

Não que aquilo fosse um segredo, pois o próprio escorpiano havia levantado a hipótese em outro momento. Ele sabia. Apenas não queria afirmar nada naquele momento. Mesmo que não precisasse de qualquer confirmação. Ágape sentiu os lábios tremerem.

— Foi você, Scorpio, quem a salvou. Se isso era ou não a vontade dos Deuses, não importa mais. – Ela disse, tentando sorrir, deixando de lado toda e qualquer submissão que sua casta exigia para com ele. – E Antares sempre foi grata por isso, mesmo quando tinha medo de se aproximar de você, ainda assombrada com o próprio passado. Ela nunca lhe disse, mas você a inspira. Quer se tornar forte graças a você e por causa disso, tem se dedicado aos seus ensinamentos. – E levou uma mão ao rosto, sentindo uma lágrima descer por sua bochecha.

Ele piscava enquanto a ouvia, refletindo sobre suas palavras. Fazia tanto tempo que não se sentia tão relevante quanto daquele modo descrito, que estava a se perguntar qual seria seu próximo passo para com Antares? O quão estável sua mente estava, para poder progredir nos exercícios que realizava com ela?

Com um aceno, o Guardião se retirou do quarto, tendo aqueles pensamentos a dominarem sua cabeça.

Se encaminhou à sala de estudo com poucos passos, analisando no quanto aquela menina o lembrava seus últimos aprendizes antes de ir para o Santuário. Empilhou os papéis, tampou o frasco de tinta e limpou a pena, deixando tudo guardado em seus devidos lugares. Especialmente a tinta, que era algo complicado de se arrumar.

No mínimo, precisaria procurar pelas plantas certas, onde teria de colher uma boa quantidade para moer e filtrar diversas vezes, até adquirir uma ínfima quantidade de pigmento, para só então misturá-la com resina de uma determinada planta. Um procedimento que levaria, pelo menos, alguns dias afastados. Ou algumas muitas moedas de prata, caso fosse procurar um mercador.

Seus olhos vermelhos voltaram para a mesa, onde a lamparina acesa e o papel eram as únicas peças que ali estavam. Scorpio não conteve o sorriso e se aproximou, apagando a chama do pavio com os dedos. Apanhou o papel e se guiou pela escuridão caminhando até seus aposentos privados.

Uma lamparina acesa na cabeceira o esperava, junto com um copo cheio de água e um generoso cacho de uvas grandes e vermelhas como joias. As suas favoritas, como a sua escrava favorita bem sabia.

Deitou-se na larga cama sem se despir, como era o usual, e tornou a olhar para o pedaço de pele rabiscado com aquelas letras de alguém que ainda estava aprendendo a segurar a pena corretamente. Aquelas poucas palavras pesavam em sua alma, principalmente porque a criança adicionou outras quatro à mensagem, que já era contundente.

Ele respirou fundo, colocando a folha junto de seu copo e apagou a lamparina. Virou-se na cama e fechou os olhos, ainda que aquelas palavras já estivessem marcadas em brasa na sua mente.

“Agora tenho um lar. Hoje tenho uma família.”

Notas finais
01 ??“ Yasamin é o nome árabe para o jasmin. Queimado como incenso, atribui a ele o efeito calmante.
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