Notas iniciais
"Mas é impossível esquecer o que não sai de sua mente"

Enquanto o exército seguia pela mata de pinheiros debaixo da sol que ia nascendo no horizonte, Steve andava lentamente metros atrás sem tentar ser percebido. Tinha que admitir a si mesmo que estava com medo e nervoso. Agora ele estava sozinho, novamente, como sempre foi. Percebeu a burrada que cometeu em sair da aldeia. Agiu sem pensar, e agora tinha que continuar. Não havia volta, ou será que havia? Steve foi andando com a consciência pesada atrás de todos. Em um momento, uma matilha de lobos passou por ele. Assustado, Steve parou repentinamente. Todos os animais o observarm por um tempo. Alguns cheiraram-no. Durante esses poucos segundos, Steve sentiu medo. Apesar de já ter passado por coisas piores, uma matilha de lobo o rasgaria rapidamente. Só que eles não o fizeram nada, seguiram o caminho e foram embora. Um lobo ficou sentado observando Steve ainda.

–Que quê foi lobinho? -Perguntou Steve passando a mão na cabeça do animal.

O lobo apenas cheirou a bolsa dele.

–Hum, já sei. -Disse Steve. De dentro da bolsa, ele tirou um coxa de frango de seus mantimentos, e a deu para o lobo.

O lobo pegou e saiu correndo, desaparecendo no horizonte.

–Então é assim né engraçadinho?

Steve continuou caminhando, porém, a dúvida ainda o atingia, e sentia que devia voltar. O que ele ganharia se fosse com o exército? Nada. E por que se arriscaria sua vida de novo se já se livrou da morte muitas vezes por pouco? Steve parou repentinamente. Percebeu de uma vez por todas que estava fazendo algo errado, que não era isso que devia fazer. Olhou para o exército que ia ficando cada vez menor conforme se afastava dele, e nisso ficou durante alguns minutos. Pensamentos invadiam sua mente sem mesmo perceber, iam e voltavam, porém, sem acordá-lo daquele transe. Tudo o que ele já viveu passou por sua cabeça como um filme, desde que perdeu seus pais até aquele instante. Será que suas fugas inesperadas para dentro de cavernas, lutas, caças acabariam ali daquele jeito? Por causa de um simples ato que ele cometeu por impulso. Steve se sentou e se encostou em uma árvore. Sua cabeça doía, estava muito nervoso. O sol agora já estava bem mais alto no horizonte, e o exército sumiira de vista. Steve ficou ali sentado, até que um barulho o assustou, e uma pessoa com uma armadura veio correndo do lugar de onde ele viera. Carregava uma bolsa bem grande, e na correria, nem percebeu Steve, que continuou lá onde estava. Percebendo que não o restava mais nada para fazer, Steve fechou os olhos para dormir, e de repente um grande barulho de coisas se espatifando pelo chão o despertou. Se levantou lentamente e foi checar o que era, e o soldado que ele vira correndo recolhia coisas no chão murmurando algo para si. Steve ficou observando o pobre coitado do soldado que catava as coisas apressadamente. Ele enfiava tudo na bolsa, dentre suprimentos, curativos para machucados e pequenas adágas. Provavelmente deveria ser uma das pessoas do grupo que carregava o que eles iriam precisar. Mas o que estaria fazendo longe do grupo?

Steve foi se agachar para analisar melhor a situação, e sem querer esbarrou em uma moita, sacudindo sua folhas. O soldado se virou assustado.

–O-olá... T-t-tem alguém a-aqui? -Disse o soldado gaguejando, pegando uma adága e tentando parecer confiante.

Ele virava rapidamente de um lado para o outro procurando alguém. Steve não sabia o que fazer, não queria se revelar, mas por pouco poderia conseguir um infarto a aquele soldado. Porém, percebeu ( ou pelo menos achou melhor ) que deveria ficar escondido.

O soldado ficou alerta por um tempo, mas voltou a guardar as coisas na mochila que carregava. Ao término da tarefa, ele olhou em volta rapidamente e seguiu viagem, colocando uma adága em sua mão.


* * *

Steve soltou um leve suspiro ao ver o soldado indo embora, por pouco não fora descoberto, mas sabia agora que sua preocupação era outra, se deveria ou não voltar, e achou prudente voltar, em vez de ficar sozinho no meio da mata. Porém, a questão não era essa, tivera uma briga feia com Bruce, seria ele capaz de reconciliar com Bruce? Talvez. Mas caso não conseguisse poderia tentar falar com Robert, e ir morar junto com o pequeno Fred, que não tinha casa. Nesse instante muitas coisas se passaram pela mente dele, e começou a pensar nas grandes burradas que cometeu ao sair da aldeia. Deixou para trás a companhia de Bruce, uma boa vida que pode não conseguir de volta, pessoas que o apoiavam (ou mais ou menos), enfim, poderia ter uma vida normal que não tinha desde que saíra da fazenfa de John. De repente Steve caiu de joelhos, sua visão escurecera e um frio repentino o atingiu como uma bala ao vento. A imagem do que ele encontrou ao entrar na casa de John, Peter no celeiro, os monstros o atacando, tudo ocorreu tão rápido. Ele queria ter ajudado, mas não podia, viu em sua mente Peter com lágrimas correndo pelo rosto e seus altos xingamentos aos monstros que botaram fogo em tudo. Steve tentava ajudá-lo desesperado chorando também, porém simplesmente não podia.

–Vá e faça a justiça! -Gritou Peter caído entre as chamas.

Steve quase teve um infarto quando algo passou correndo ao seu lado, tirando-o do seu flash back. Atento, observou o que estava a sua volta, nada. Provavelmente uma animal passara por ali. Deitando-se no chão coberto pela fina camada de neve, enxugou poucas lágrimas que escorreram de seu rosto involuntariamente. Sempre evitava pensar naquilo, o causava calafrios e mau estar, mas é impossível esquecer o que não sai de sua mente. Peter e John caídos no chão sem poderem fazer nada, Steve assistindo tudo muito pior que eles, suando frio apesar do calor, rios de lágrimas caindo pelo seu rosto, tochas em chamas voando. Fora tudo tão rápido, e ele não pudera fazer nada.

Novamente, um barulho o tirou de seu devaneio, e dessa vez Steve teve a certeza de que não era um animal, pois uma adága veio voando e quase cortou seu pescoço fora. E aquilo, ele sabia o que era, o soldado voltara.

–Q-quem é você? -Perguntou o soldado trêmulo apontando uma lança afiada para Steve.

Steve pegou a adága fincada no chão e foi se erguendo lentamente com ela armada.

–Eu só não quero lhe fazer mal. -Respondeu agora já de pé.

O soldado não convencido continuou firmemente com a lança apontada para Steve.

–O que está fazendo aqui? -Perguntou. -É um espião?

Steve franziu a testa.

–Espião? Mas como assim?

–O que estava fazendo aqui no meio da mata me seguindo?

Steve tentou escolher bem as palavras antes de responder.

–Eu estava... apenas... Afinal, por que você acha que eu seria um espião? O que quê eu ganharia te espionando?

Essa foi a hora do soldado ficar confuso, e baixou a guarda, um grande erro. Nesse instante, Steve cortou o ar como uma águia atrás de sua presa, e tomou da mão do soldado o arco, partindo-o em dois. E o soldado soltou um grito invonluntariamente.

–Eu não quero gerar confusão. -Garantiu Steve.

O soldado rapidamente tirou de sua bolsa uma única arma realmente boa que possuía, uma espada. E partiu para cima de Steve.

–É melhor você contar por que estava seguindo o exército. -Falou o soldado agora com a voz firme.

Vários golpes precisos foram desferidos contra Steve, que por pouco não virou picadinho. Para se livrar dos ataques, ele se jogava no chão e rolava, era sua principal tática, pois enquanto a espada ficava fincada na terra, ele tinha tempo de se levantar e planejar como escaparia daquela situação.

O que mais impressionou Steve foi o fato de que o soldado se revelera extremamente hábil com a espada, pela aparência de fraco e amendrontado que tinha. Um rápido golpe foi desferido na direção das pernas de Steve, que saltou rapidamente e caiu pisando em cima da espada. Aproveitando a situação, deu um forte empurrão no soldado, que caiu cambaleando para trás. Pegando a espada, Steve sumiu no meio da mata correndo. Essa fora por pouco.

Não sabia em que direção ia, o que importava era manter distância para que não fosse atacado novamente. Poucos minutinhos depois, ele parou de rencostando em uma árvore para pegar ar e recuperar as forças. Como aquele soldado lutava tão bem? Pensou Steve. Ele parecia tão desesperado e atrapalhado correndo pela mata. Mas ele não teve tempo para pensar direito na situação, pois uma flecha saiu de algum lugar entre as árvores e quase o atingiu. Seria possível que o soldado já tivesse se recuperado e o achado? Ele não ficou lá para descobrir, e correu se adentrando mais no meio da mata. Sabia que estava em vantagem, entre uma pessoa com um arco e uma com uma espada, mas não poderia matar uma pessoa que estava trabalhando para o exército da aldeia, ainda mais da aldeia que o tinha aceitado.

Flechas cortavam o ar atrás dele. Isso o lembrou da vez em que estava correndo de um esqueleto poucos dias atrás. E isso o ajudou, já que sabia direito o que saber. Fazendo uma virada brusca, ele se virou e se escondeu atrás de uma árvore esperando o inimigo passar. Ouviu passos. Seu coração apertou. Teria que ser preciso para não matar o soldado, porém não poderia deixar que ele o encontrasse novamente. Os passos foram ficando mais altos, lentamente. Steve se preparou e com a espada virada ao contrário, deu um golpe certeiro... No ar. Então de repente algo aconteceu em poucos segundos. Steve avistou o soldado vir correndo do meio da mata em sua direção com o arco partido em dois. Porém, fora atingido por uma flecha que surgira do meio da mata e acertara seu peito, derrubando-o. No mesmo instante, outra veio e atingiu Steve no joelho, fazendo-o cair sobre eles. Então se dera conta de que o que quê ele estava enfrentando não era o soldado, e sim monstros.