Mine
1 strange but mine
Notas iniciais
Havia se passado três semanas desde que a Sakura “sumira”, e desde daquele dia no castelo da Tomoyo nós estávamos em busca da mesma, ou do que restara dela. Dentro de todos nós havia uma esperança de que pudéssemos revê-la no futuro, de tê-la de volta, mesmo sabendo que ela não seria feliz, afinal aquele que ela amava havia partido.
Tínhamos conosco um Shaoran um pouco mais velho que o antigo, e mesmo esse não conhecendo a Sakura-cópia, não sei como chama-la, parecia mesmo que ele a amava. Era encantador a forma como ele buscava desesperadamente por ela, e era encantador também como o mesmo sendo tão novo era extremamente poderoso, influente, maduro. Encantador e assustador. Resumindo o jovem em poucas palavras ele era; líder, calado, maduro, decidido, um pouco infantil e poderoso, nada menos esperado de um descendente Clow, de acordo a princesa Tomoyo.
Mokona havia perdida a grande empolgação, não era como se agora ele estivesse deprimido, mas ele simplesmente não era tão saltitante quanto antes. Perder a Sakura o afetou mais que a todos, mais até que o Shaoran, que também foi atingido pela perda da mesma, mas o que me impressionou além de tudo fora o comportamento estranho do Fye.
Ele andava calado, embora “sorridente” como sempre, mas algo nele estava mudando, ele encontrava-se mais branco que o normal, mais lento, mais estressado. No começo eu achei que fosse simplesmente pela perda da Sakura também, mas se conheço o Fye como acho que conheço, ele não ficaria assim, nesse estado decadente, por tanto tempo, ou até mesmo por algo tão banal. Eu até mesmo me impressionei quando a Tomoyo me contou do estado em que o Fye se encontrava quando chegamos ao castelo dela pelo fato de eu ter perdido o braço*. Ela me disse que ele chorava desesperadamente, e implorava para que a mesma fizesse algo, afirmando que daria qualquer coisa por isso. Ele tinha medo por mim. Eu repeti aquelas palavras milhares de vezes em minha cabeça. A forma como eu o conhecia eu sabia que mesmo tentando arduamente todo dia não se importar, no fundo ele se importava, mas eu não podia imaginar que era tanto assim.
Estávamos andando em direção à cidade, em meio a escombros de prédios caídos. A nova dimensão que nos encontrávamos era deprimente, um cenário pós-apocalíptico, onde tudo havia sido destruído, era difícil andar no meio dessa estrada de escombros, e muitas vezes todos nós tropeçávamos.
O Shaoran andava na frente com o Mokona que indicava para ele onde sentia uma pena da Sakura, o Fye atrás deles, tropeçando, e eu um pouco mais atrás. Tudo estava silencioso como sempre, com a partida da Sakura foi-se também a alegria, os risos, as conversas. Tudo.
Eu observava o Fye atenciosamente como de costume, não podia ver a face dele pois o mesmo estava de costas, e com capuz na cabeça.
Olhei para o céu e notei o quanto ele estava cinza, parecia que iria chover, mas não havia nuvens. Passei algum tempo refletindo comigo mesmo o motivo da cor do céu, até de que um barulho tirou minha atenção, um baque. Baixei minha cabeça e percebi o Fye caído no chão. Não exatamente caído, ele tinha um joelho no chão, e estava tentando se levantar com o pé, apoiando as mãos no joelho semi-levantando. Eu corri até ele, peguei-o por um braço e o pus de pé.
- Fye, você está bem?
Perguntei num tom de raiva, mas receoso.
- Est- — Ele tentou falar, mas soltou um gemido de dor e pôs a mão no olho que fora arrancado.
Estava arfando, e pálido. Por um milésimo de segundo eu pude ver o olho livre do Fye tomar uma cor dourada, em forma de gato. Claro que era sua parte vampira gritando para sair. Ah, a parte vampira do Fye, eu lembro o quanto ele relutou para não ter que pôr minha vida em risco junto com a dele. Pareceu um garoto mimado, mas eu sabia o quanto ele realmente estava preocupado, assim como ele ficou quando eu perdi um dos meus braços.
Foi então nesse momento que eu matei a charada. Claro que o problema do Fye não era tristeza. Era fome. Há 3 semanas ele não comia, não comia nada. E eu, nem ninguém reparamos.
- Estou. – Ele completou ainda arfando. Eu bufei e o peguei no colo, coloquei seu corpo sobre meu ombro com seu rosto batendo nas minhas costas.
- Mokona, eu encontro vocês na cidade. – Eu gritei andando com o Fye nas costas em direção à uma casa destruída ao lado da estrada de escombros por onde andávamos.
- Kurogane? O que está fazendo?
Eu sinceramente fiquei surpreso quando o Fye me chamou de “Kurogane”, coisa que ele quase nunca faz, geralmente ele prefere me irritar com um de seus “carinhosos” apelidos. Não respondi a sua pergunta, e apenas continuei andando em direção à casa, ou o que sobrara dela. Ele também não me perguntou mais nada, apenas gemia em desgosto uma vez ou outra.
— o -
- Hum, então finalmente o Kurowanwan vai se resolver com o Fye. – Mokona dizia em cima da cabeça do Shaoran.
- O que você está dizendo Mokona?
- Ara, você não percebeu que eles dois escondem sentimentos? – disse o majuu saltitante como sempre.
- Eu não havia percebido. – Disse Shaoran numa feição pensativa.
- Hun, você tem algo contra dois garotos Shaoran-sama? – Mokona perguntou preocupado, se sim, isso traria problemas ao grupo. Mas para a surpresa do Manjuu o jovem sorriu e o pegou, tirando da cabeça e o pondo em frente ao rosto.
- Não, eu apenas me lembrei de quando eu me apaixonei por um menino.
- SÉRIO?
- Uh uhn.
E enquanto o Shaoran voltou a caminhar contando suas aventuras de menino para um Mookona curioso uma discussão ocorria mais atrás deles.
- o –
- Não, eu não vou te morder Kurogane. – Esbravejou o Fye irritado enquanto tentava se desprender do Kurogane que o mantinha prensado na parede.
- E você acha que eu vou te deixar morrer de fome? – Falou Kuro segurando os braços do mais magro com força.
- Eu nunca concordei em me tornar vampiro. E se eu acabar te matando?
O moreno estava realmente irritado com essa preocupação extrema do Fye em si, ele sabia que aguentaria, se não ele nunca haveria de concordar com isso. Ele realmente não se importava de ser mordido, e sugado, no sentido mais puro que a frase poderia causar. Por isso ele levantou Fye do chão com os dois braços. Colou seus corpos, escorando o Fye na parede, e quando teve a certeza de que podia soltá-lo o fez e pôs uma mão em sua cabeça a direcionando para a curva entre seu pescoço e ombro, incitando o menor a morde-lo. Fye apoiou um dos pés ao chão, mesmo este estando levemente levantado, enquanto a outra era segurada pela mão forte do Kurogane, que apertava sua coxa.
Fye ainda virou o rosto tentando resistir, mas infelizmente não tinha mais forças. Antes de perder os sentidos e abocanhar o pescoço de Kurogane ouviu um “Eu confio em você” sussurrado. Levantou suas mãos, um delas foi direcionada a nuca do Kurogane para que seus corpos ficassem mais próximos, permitindo assim o acesso mais fácil ao pescoço do mesmo, e a outra foi para a sua costas, onde ele agarrou com força a capa do Kurogane. O sangue era bom, quente, doce, salgado também, acolhedor, e cheio de sentimentos, afeto, carinho, paz... amor.
— o -
- Hn. – Soltei um involuntário gemido de dor ao sentir as presas do Fye entrando em mim. Mas foi o único som que se ouviu depois da mordida, além dos audíveis “goles” que o mesmo dava do meu sangue. Ele estava sedento, e todo esse tempo calado. Passamos quase três minutos assim, eu sentia o calor de sua mão na minha nuca, e o medo que ele parecia sentir ao apertar forte minha capa. Suas mãos tremiam, mas eu não via motivo para o mesmo.
Quando por um milésimo de segundo eu passei a me sentir um pouco sufocado o Fye pareceu levar um susto e me largou, me empurrando para trás subitamente. Seus olhos estavam assustados e logo depois ele começou a chorar, pondo as mãos nos olhos para esconder as lágrimas. De primeira eu admito que não entendi, mas o Fye é uma pessoa muito simples de se entender.
- Viu? Eu sufoquei você. – Ele falou com raiva em meio alguns soluços, ainda escondendo os olhos.
- Fye, eu estou bem. Veja?
Eu me aproximei, e o mesmo parou de chorar tirando as mãos dos olhos, eu enxuguei os restos de lágrimas que ainda tinham em seus olhos e notei que um filete de sangue descia de sua boca. Meu sangue. Sorri de canto, e ele me olhou um pouco confuso. Levantei um pouco seu rosto com o indicador de minha mão, lambi o filete de sangue da sua boca limpando-a.
Meu.
Ele sorriu, — tenho minhas sérias dúvidas sobre bipolaridade – e dessa vez não fora um sorriso falso. Eu o beijei, um leve selinho demorado, um sugar de lábios, o beijo do lábio superior*.
Meu.
Separamo-nos, o Fye sorrindo, e eu também. Mas não era um sorriso idiota como quem havia acabado de se apaixonar. Não, isso nunca. Era mais um sorriso, para ambos os casos, de quem acabara de resolver uma situação acadêmica, como a cura do câncer ou sei lá.
- Vamos, antes que o Mokona se afaste o suficiente e paremos de nos entender. — Sentenciei o pondo no chão com cuidado.
- Hai, Kuropin. Vamos logo. — Ele disse andando na frente. Era bom o ver “agitado” de novo. Mas a dúvida se era pelo beijo, ou pelo alimento se fixou na minha mente. Bom, por hora não importava.
Notas finais
Para quem esqueceu o Kurogane corta seu próprio braço fora para salvar a vida do Fye *-*
PS: eu não li o mangá, apenas vi o anime.
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