Mine

1 Prólogo.


Conheceram-se na fila para o chapéu seletor: James mantinha um sorriso zombeteiro e um ar de quem não ligava para a seleção que o chapéu faria, mas suas mãos suavam e seu coração palpitava à medida que a fila andava; Abigail não parara de falar um minuto sobre a sorte que tinha, como há meses nem sabia o que era Hogwarts e como rira quando viu que corujas podiam entregar cartas.

– Eu estava me preparando para me mudar de vez. Para entrar em uma escola chata de garotas e agora eu estou aqui... Porque eu sou uma bruxa! – Abigail sorriu largamente. – É bruxo mesmo não é? Não é ofensivo chamar alguém de bruxo aqui não, né?

– Srta. Jones, vou pedir para que faça silêncio mais uma vez. – Disse Leanne Macmillan, a professora de poções, vice-diretora de Hogwarts e uma mulher no mínimo excêntrica na escolha de suas vestes.

– Sim senhora! – Abigail disse animada. – E aí, para qual casa quer ir? – Abigail sussurrou para James que colocou a mão nos bolsos e fez uma careta. – Ah, esqueci que você não liga.

– Na verdade eu preciso ir para Grifinória, toda a minha família era de lá e... Eu preciso ir pra lá. – James confidenciou apreensivo. – E você?

– No expresso, vindo para cá, tirei apenas uma conclusão: não quero ir para Sonserina. – Abigail disse fazendo uma careta. – Gentinha metida, me chamaram até de sangue-ruim. Eu me senti ofendida é claro, mesmo sem saber o que significa, mas...

– Abigail Jones. – A mulher loira da capa preta forrada de amarelo ouro assim como suas vestes, chapéu pontudo e uma longa trança, a chamou formalmente.

Abigail, com um largo sorriso que James observou parecer nunca sair de seu rosto, sentou-se no banquinho de três pernas e colocou o chapéu. Os segundos pareceram se arrastar em minutos ou horas antes que o chapéu se decidisse.

– Tens um coração leal como os dos que pertencem à Lufa-lufa... E também inteligência e perspicácia como os pertencentes à Corvinal. – O velho Chapéu ponderou e o sorriso de Abigail se transformou em uma careta. – Hmm, ousada... Corajosa, inquieta... GRIFINÓRIA!

A menina baixinha de cabelos encaracolados suspirou aliviada. Antes de ir para Hogwarts procurou ler tudo sobre a escola. O livro, embora longo e com partes que julgava desnecessárias, era interessante, mas não falava nada sobre o que aconteceria se o chapéu não decidisse para qual casa a mandar.

A mesa de Grifinória se irrompeu em gritos e palmas enquanto Abigail saltitava animada em direção à mesa. Todos conversavam calorosamente e Abigail costumava ficar com vergonha das pessoas que não conhecia, mas estava tão feliz por estar ali que esqueceu a vergonha em Londres.

– James Potter. – E o salão que ria e brincava silenciou com a menção do nome dele.

James corou instantaneamente, tinha os cabelos negros e rebeldes, os olhos castanhos vívidos e poucas sardas na região do nariz. Na opinião dele, não se assemelhava nem um pouco ao pai, exceto talvez pelo cabelo... Se fosse ruivo, todos o associariam rapidamente a um Weasley. Entretanto, a menção do sobrenome Potter ainda tinha a propriedade de silenciar até o mais agitado dos lugares, assim como o Weasley, então pouco fazia diferença.

Sentou-se no banco e colocou o chapéu.

– Ah, mais um Potter! – o Chapéu disse e James sorriu amarelo balançando os ombros. – E vejo que tem sangue Weasley também. GRIFINÓRIA!

Com o fim da seleção, todos os calouros já estavam acolhidos em suas mesas. Os alunos ainda tinham dúvidas sobre falar ou não com James, e se falassem, o que diriam.

– E aí, você é algum tipo de celebridade ou coisa assim? – Abigail disse acertando os óculos no rosto, ignorando todos os olhares sobre ela e James. –Meu nome é Abigail, acho que eu não me apresentei, não é? Pode me chamar de Abbie. – Ela disse sem respirar. – Mas diz aí, você é famoso ou não é?

– Não... – James riu. – Meus pais sim.

– Ah é? Eles cantam, atuam... Ou o que? – Abigail perguntou interessada e James continuou rindo.

– Não, nenhum dos dois... É uma história muito longa, um dia te explico. –James sorriu para aquela que se tornaria sua primeira amiga em Hogwarts. E se sentiu aliviado por pelo menos uma pessoa naquele grande salão não perguntar por que ele não tinha um raio na cabeça ou se tinha pretensões de se tornar auror. Não que se incomodasse com o assédio, até gostava, mas queria ter alguém para conversar e encontrou em Abigail esse alguém. Está certo que ela era meio avoada, um tanto desastrada e animada até demais, mas essa combinação conseguia ser de certa forma encantadora.

– Bem vindos a mais um ano letivo! – O diretor Neville Longbottom levantou-se com sua taça dourada e todos silenciaram. – Antes do banquete, tenho alguns avisos e lembretes para dar, claro que nada muito longo já que escuto alguns estômagos daqui. – Neville sorriu e continuou. – Gostaria de lembrar aos nossos veteranos e avisar aos nossos calouros que o acesso à floresta proibida é proibido aos alunos, obviamente. Que alunos não devem e não podem atacar alunos ou praticar magia nos corredores e mais umas coisas que não me recordo.

Todos prenderam o riso para a maneira desajeitada que o diretor conduzia seus discursos; ele era tão amado quanto desastrado.

– No mais, estudem bastante e aproveitem o que Hogwarts oferece para vocês. – o professor Longbottom disse. – Façam amigos, pois mesmo que sigam rumos diferentes: decidam ser aurores ou professores, por exemplo, e mesmo que organizem suas vidas de maneiras diferentes; amigos sempre serão amigos, pessoas com as quais poderemos contar para sempre!

Durante anos, James e Abbie seguiram o conselho do Professor Longbottom e foram inseparáveis: entraram juntos no time de quadribol no terceiro ano, James como batedor e Abbie como artilheira; faziam juntos as atividades intermináveis que a professora Macmillan passava e Abbie sempre o ajudava nas aulas de transfiguração. Mas, à medida que o tempo passava, se afastavam. Agora James tinha um parceiro para aprontar em Sonserina, dois irmãos e dois primos em Grifinória – além dos outros primos espalhados pela escola, e mais que nunca, Abbie se sentiu deslocada.

Nos últimos anos se afastaram ainda mais, o contato era restrito aos treinos e jogos de quadribol e os acenos discretos que trocavam nos corredores. Voltaram a se falar, namoraram, terminaram e depois de se formarem, nunca mais se viram.