Mind Games (interativa)
2 Capítulo 2 - Mutações
Notas iniciais
Duas semanas depois...
– Tchau mamãe. — Margaret dá-lhe um beijo na testa.
– Hoje não poderei te buscar, tenho coisas a resolver na loja e devo voltar para casa mais tarde. — Ela passa a mão pelos cabelos da filha. — Volte para casa assim que a aula terminar...
– Sim, mamãe. — Carrie sai do carro. Sua primeira aula era Literatura, vendo Jonathan assim que entrou na sala. Depois de duas semanas de convivência, as pessoas começaram a importuná-lo também, com os apelidos de "estranho" e "esquisito". Era de se notar que os falantes não possuíssem muita criatividade, mas como ele e Carrie sempre andavam juntos eram chamados de rei e rainha dos esquisitos, casal bizarro, dentre outros.
Na realidade, nem todos os importunavam, pelo contrário, pararam de perturbar Carrie por causa dele. Sue Snell é um exemplo, a garota não possuía más intenções, apenas más influências. "Diga-me com quem tu andas e direi quem tu és." Na prática, ela seria tachada de mimada, manipuladora, egoísta e por vários outros nomes de baixo calão, sendo a maioria dessas agradáveis características oriundas de Chris. E Chris? Ah... Essa pareceu ter renovado suas motivações para tornar a vida de Carrie um inferno.
– Tudo bem, Carrie? — Perguntou John, quando ela se sentou.
– Depende do que você considera bem. — Ela havia perdido boa parte da sua timidez inicial, ao menos com ele.
– Sua mãe? – Ela assente com a cabeça.
– O que foi dessa vez?
– O de sempre... Cantarolei uma de suas músicas, ela disse que era do demônio e me trancou no maldito armário.
– Você não devia deixá-la fazer isso com você.
– Eu sei. – Ela fica em silêncio por alguns segundos. — E vou ter que ir para casa a pé hoje... Ela vai trabalhar até tarde.
– Eu te dou uma carona no meu carro.
– Sério? – Ele sorri e confirma com a cabeça. — Muito obrigada.
– Você tem ideia de quanto tempo sua mãe vai demorar?
– Por quê?
– Estava pensando em ir ver aquele novo filme e poderia levar você comigo, depois da aula. Afinal, nunca ter ido ao cinema é um crime.
– Não sei... Se minha mãe chegar antes de mim eu estarei morta.
– Hey, não quero que você vá por minha causa, se não quiser, eu simplesmente te deixo em casa. Sem problemas...
– Vou ter que pensar nisso. O cinema parece tentador...
– Você tem até o fim do dia, sem pressa.
***
Só conseguiram realmente se falar de novo durante o intervalo.
– E então... Tem uma resposta? — Pergunta John, enquanto Carrie se serve de uma fatia de pizza na fila do refeitório.
– Sim.
– Sim de "eu vou", ou sim de "já tenho minha resposta"? — John também pega um pedaço de pizza.
– Os dois. — Diz ela, quase como um suspiro, fazendo John abrir um sorriso.
– A garotinha vai sair do casulo?
– Não faça eu me sentir culpada.
– Ok, desculpe, ficarei quieto antes que mude de ideia. — Eles se sentam em uma das mesas vazias. — Você conseguiu fazer a questão...
Mal sabiam eles que alguém os observara e escutara sua conversa e com a cabeça a mil, Chris Hangersen saiu do refeitório. Tanta humilhação a ser feita, tão pouco tempo para realizá-la...
***
Na aula de educação física, a professora Miss Desjardin havia passado o que era para ser um simples jogo de queimado. Como sempre, Carrie havia sido escolhida por último, e o pior: do outro lado da quadra estava Chris. Sua estratégia era simples, consistia em um plano muito elaborado de ficar no fundo da quadra e evitar ser atingida. Miss Desjardin apita e as bolas começam a serem lançadas. Carrie estava indo muito bem, ainda não havia sido atingida mesmo com as incessantes tentativas de Chris.
Até o momento em que restaram somente as duas na quadra...
– O que foi Carrie? Não quer que sua pele fique marcada justo no dia em que você vai se encontrar com seu amiguinho esquisito? — E ela joga a bola. Por uma fração de segundo, Carrie sentiu raiva, mas essa fração de segundo foi suficiente para que um poder fosse despertado. A bola parou no ar a centímetros do seu rosto, e ela agarrou-a. Todos estavam em silêncio, boquiabertos, até que Miss Desjardin tocou o apito indicando o fim do jogo. Carrie ganhara de Chris... As garotas começaram a se dirigir aos vestiários. Chris estava extremamente furiosa. Carrie recebeu comentários positivos de suas companheiras de time, que passavam por ela, e da treinadora.
– Muito bem Carrie! — Disse ela. — Você teve um excelente progresso desde o último jogo.
– Obrigada. — Agradeceu. — Miss Desjardin...
– Sim, Carrie.
– Tem algum jeito de eu usar o vestiário depois das outras saírem? — Miss Desjardin sabia da timidez de Carrie e tentava ajudá-la da melhor maneira que podia. Ela suspira.
– Como esta é a última aula, tem sim. — Ela sorri. — Você pode esperar na minha sala, eu dou uma desculpa para você.
– Muito obrigada. — Carrie e Miss Desjardin já haviam feito esse mesmo esquema tantas vezes, que o caminho para a sala da treinadora era algo automático para Carrie. Ela se sentava e esperava até Miss Desjardin bater na porta, então ela saía e tomava seu banho sem se preocupar com as outras garotas. Dessa vez não foi diferente.
***
Ela arrumou os cabelos da melhor maneira que pôde e foi para frente da escola, onde John a esperava. Ele abre a porta de sua caminhonete para Carrie, que entra um pouco relutante. Depois ele entra e põe o cinto, Carrie faz o mesmo e ela não se demora a contar o ocorrido na aula de educação física.
– Então a bola simplesmente parou no ar e você a agarrou? — Pergunta John, depois de seu relato.
– Foi. — Ele a encara com um olhar inquisidor, ela dá de ombros. — Olha, eu sei o que eu vi.
– Não, tudo bem. Se você diz... — Ele olhou de relance para ela, como se soubesse de algo. — Vamos fazer o seguinte... — Ele aproveita o sinal fechado para pegar um livro na sua mochila. Ele o abre e o estende a Carrie, que o pega. — Folheie o livro sem tocar nele.
– Ok... — Ela segura o livro aberto na palma de sua mão, e faz um movimento suave com a outra. As folhas começam a virar, uma por uma. Carrie sorri. — Viu?
– Não vale, o ar condicionado está ligado. — O sinal abre, e ele volta a focar no trânsito. Carrie puxa delicadamente o seu braço e aponta para o livro, que agora flutuava dentro da caminhonete. Ele olha, chocado.
– Não se assuste. — Pede ela, olhando para ele, e agarrando o livro no ar. — E pelo amor de Deus, olhe para a rua.
– Me assustar? — Ele ri. — Eu estou encantado!
– Por quê?
– Digamos que você não é a única com uma habilidade especial.
– Sério? — Pergunta, curiosa.
– Anh... Deixe-me ver... — Ele olha ao redor, e aponta para seu copo de café, que repousava no porta-copo. — Olhe para o café. Ele para o carro no estacionamento do cinema e ergue a mão. O café quente se ergue do copo. Quando John cerra o punho, ele congela. — Surpresa! — Ele sorri. — Eu sabia que tinha algo especial em você, mas não imaginei que seria você uma mutante também.
– Uma o quê? — Carrie franze o cenho, confusa.
– Oh Deus... — Ele passa a mão pelos cabelos. — Vai ser um longo dia... Quer pular o cinema e ir para uma lanchonete? Poderemos conversar melhor lá.
– Ok. — Ela respira fundo. — Você tem muito que falar...
– E você tem muito que ouvir. — Ele liga o carro novamente. — É melhor eu desfazer isso... Com um estalar de dedos, o café volta para o copo.
***
– Pode começar. — Diz ela, se sentando à mesa da lanchonete.
– O que vão querer, queridos? — A garçonete era uma mulher de meia idade, seu cabelo ruivo desgrenhado estava preso em um coque. Ela segurava um bloco de notas e uma caneta e batia o pé no chão repetidas vezes, enquanto esperava os pedidos.
– Vamos ver... Dois milk-shakes de morango e uma batata grande. — Ele olha para Carrie, que certamente não estava tão interessada na comida. — Por minha conta.
Carrie espera a garçonete sair para encará-lo.
– Tudo bem... Primeiramente, esse poder que você tem se chama telecinese, você provavelmente vai desenvolver telepatia futuramente. Esses poderes geralmente andam juntos.
– Traduza, por favor.
– Telecinese é a habilidade de mover objetivos com a mente, já telepatia é ter a capacidade de ler, controlar e persuadir mentes. — Ele aponta para si mesmo. — Eu sou um telepata.
– E aquele negócio da água foi o quê? — Pergunta ela.
– Hidrocinese e criocinese, respectivamente. Controlar a água e o gelo... A telepatia é apenas uma mutação secundária a qual herdei da minha mãe.
– Sua mãe também é uma mutante?
– Sim, uma das melhores telepatas já existentes. — Eles param a conversa por um segundo quando a comida chega. — Obrigado.
– De nada, querido. — A garçonete sorri. — Mais alguma coisa?
– Por enquanto não, obrigado. — Ela se retira, e John continua. — Bem, como sua mãe não é mutante, você deve ter herdado o gene do seu pai.
– Então meu pai também era mutante?
– É quase certo que sim. O gene mutante é dominante, transmitido pelo cromossomo X positivo. Toda mulher mutante tem que ter ao menos um dos pais mutantes e todo homem mutante tem que ter obrigatoriamente a mãe mutante.
– E ele possuía a mesma habilidade que eu?
– Não necessariamente. — John toma um gole do milk-shake.
– Mas sua mãe é telepata e você também é...
– Mas isso não justifica... Por exemplo, anh... — Ele para e pensa um pouco, enquanto franze o cenho. — Um dos meus antigos professores tinha poderes de magnetismo, mas seus filhos nasceram com poderes completamente diferentes: velocidade supersônica e manipulação do caos.
– Ok... Então seu pai também era mutante, certo? — Pergunta ela, tomando um gole do seu milk-shake.
– Sim, mas o poder dele não tinha muito a ver com o meu... — Ele se serve de uma batata. — Invisibilidade.
– Espera... Acabei perceber uma coisa. — Ela pisca, confusa. — De que escola você veio?
– Instituto Charles Xavier para jovens superdotados, uma academia de mutantes. — Ele faz uma pausa para beber. — Minha mãe lecionou lá.
– E o que ela faz agora?
– Psicologia. — Ele ri. — Um bom disfarce.
– Disfarce de quê? — Ele toma o milk-shake, mesmo que este esteja vazio, e muda o rumo da conversa.
– Longa história, que talvez eu te conte depois.
– Deus, é muita informação. — Ela leva uma das mãos à cabeça e estende a outra sobre a mesa. — E pensar que eu achava que o ponto alto do meu dia seria o cinema.
– Ainda podemos ir...
– Não! Já estou me arriscando demais vindo aqui, eu deveria estar em casa.
– Mas você veio porque quis. — Ele suspira. — Eu provavelmente não deveria te oferecer isso, mas eu posso modificar os pensamentos dela para ela achar que você chegou cedo.
– Poderia fazer isso? — Carrie se encheu de receio e tentação pela oferta. — Poderia mudar qualquer coisa?
– Sim. — Ele respira fundo. — Poderia.
– Pode fazer minha mãe ser mais liberal comigo e até mesmo deixar ela menos fanática religiosa?
– Sim, mas veja... A mente humana é algo complicado. Não é só entrar e puf! — Ele pega mais uma batata. — Posso até fazer, mas não tenho controle sobre as consequências.
Os olhos de Carrie se iluminaram. Ela amava a mãe, mas também queria sua liberdade e essa poderia ser a única maneira de ela ter os dois.
– Faça, por favor. — Ela segura em sua mão e o olha nos olhos.
– Tudo bem, tudo bem... Deus, você tem certeza que você não é uma empata? — Ele se levanta da mesa. — Não esqueça seu milk-shake. — Ele se dirige à garçonete e lhe entrega uma nota de vinte. — Fique com o troco.
– Obrigada, tenham um bom dia. — Ela sorri e acena para os dois, que saem e entram na caminhonete.
– Ei, já que eu vou apagar algumas memórias da sua mãe, que tal aquele filme?
– Parece uma ótima ideia. — Diz ela. — E o que é um empata mesmo?
– Céus...
***
– Isso foi incrível! — Diz Carrie ao sair do cinema. — Eu nunca vi nada parecido.
– Que bom que valeu a pena. — Eles entram na caminhonete. — Que parte você mais gostou?
– O final... Foi hilário.
– Sabia que seria essa.
– Como? Você leu minha mente? — Perguntou ironicamente.
– Não costumo ler a mente de garotas em um primeiro encontro. — Carrie gelou, sem reação. Um encontro? Aquilo foi um encontro?
– Você está prestes a invadir a mente da minha mãe, então acho que já passou dessa fase. — Ele ri.
– Há! Boa... Nós estamos perto? — Pergunta.
– Mais três quarteirões e entao você vira para a esquerda.
– Ok, mais alguma coisa que queira saber antes de chegarmos lá?
– Você pode me ajudar a controlar meus poderes?
– Não sou o Professor X, mas posso tentar. — Ele vê a cara de confusa dela e continua. — Ele ensinava na academia onde estudei.
– Ensinava?
– Longa história.
– Um dia vamos você vai me contar todas essas longas histórias. — Diz ela. — Vire aqui.
– Dê-me uma semana e podemos começar. — Carrie olha para sua casa, onde carro de sua mãe já se encontrava. Se não soubesse o que ia acontecer teria enlouquecido. — É aqui?
– Sim. — Carrie sentiu o pulso acelerar e John percebendo sua inquietação, apoiou a mão em seu ombro.
– Hey, tudo bem, estarei do seu lado... É só sua mãe, certo? O que ela poderia fazer?
– Você não faz ideia... — Sussurrou. — Eu vou à frente.
Ela abre a porta e de início não vê sua mãe, seguida de John, que logo entra. Carrie olha para a sala, onde sua mãe se encontrava recostada em uma poltrona, de braços cruzados. Margaret se levanta...
– Onde é que você esteve?! — Ela finalmente percebe a presença de John. — E quem é esse garoto?! O que você fez?
Ela ergue a mão para dar um tapa em Carrie, que se encolhe, mas sua mão para no ar. Ela reseta, e Carrie observa enquanto os olhos verdes de John assumiam uma cor branca. Depois de alguns segundos, Margaret desaba no chão, inconsciente.
– Mãe? — Carrie se agacha e tenta reanimá-lá, então dirige seu olhar a John. — O que você fez?
– Ela ficará bem... — Ele leva a mão à cabeça. — Quando acordar não vai se lembrar de nada.
– Então ela não está...
– Céus, não! — Ele franze o cenho. — Ela só apagou.
– Oh... Bem, me ajuda a levar ela para cima?
– Por que você não faz isso? — Pergunta. — Considere um treino de suas novas habilidades.
– Mas... Não seria mais simples levarmos ela para cima?
– Vamos lá, você consegue. – Ele lança o olhar mais motivador e irônico que conseguiu. — Eu acredito em você.
– Não vai acontecer. Não vai... — Ele a encara com um olhar desafiador. Ela suspira. — Está bem, uma única tentativa.
Com um suave aceno de mãos, Margaret é erguida no ar em posição vertical. Ela flutua sobre a escada e é colocada delicadamente em sua cama.
– Viu, não é tão... — Ele é interrompido por um forte abraço vindo de Carrie.
– Obrigada por tudo o que fez hoje.
– Não há de quê. — Ele retribui o abraço. — Te vejo amanhã, White.
– Te vejo amanhã, Crane. — Ele atravessa a porta, e Carrie a fecha com um aceno de mão. Sua vida agora ia mudar e ela não sabia o quanto.
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