MinarFic

16 Não foi revisado, culpa do Donnie


Trinta de dezembro, quase uma semana após a última invasão dos Black Wings, no Natal. O fórum continuava fechado e, se é que era possível, ainda mais deserto do que antes.

Os únicos presentes ali eram como sempre Nuck, Davien e os tutores. Estavam de volta à Sala de Reuniões, em mais uma discussão sobre o que iriam fazer em seguida.

-Não vamos aguentar desse jeito — Nick comentou, ansioso — Quase não deu pra Guarda defender aquele último ataque. E se nós continuarmos assim...

-Eles são um bando covardes — Davien o interrompeu — Os Black Wings, não a Guarda — acrescentou ao ver as caras dos outros — Eles nos atacaram enquanto estávamos distraídos, sem poder nos defender.

Thugles o olhou com ironia.

-Não foi isso que você fez quando atacou as tropas daquela base Black Wing na praia de Edelstein à noite, quando eles estavam distraídos?

Davien estreitou os olhos.

-Sim, mas foi num navio que você estava comandando...

-Sim, mas foram ordens do Nuck. E quem te transportou não tem nada a...

-Não interessa — Nuck os cortou, ríspido — Mas o Davien está certo, eles nos atacaram em um momento de descuido, e que não vai acontecer de novo...

Alguns deles deram suspiros desanimados. Não se descuidar significava "nada de festas onde podem se divertir sem se preocupar com nada". Nuck continuou.

-... e eu tenho certeza de que, se estivéssemos todos nós na luta, conseguiríamos dar conta disso perfeitamente. Mas a situação é outra, segundo aquele relatório do Vampy, eles vão nos invadir ainda esse mês.

-E vão trazer humanos, também — o rapaz avisou, assentindo brevemente. Davien riu.

-E o que tem de mais nisso? Monstros como os Tauromacis são muito mais fortes e perigosos! Como tropas humanas podem ser piores?

Sheddeer cruzou os braços sobre a mesa.

-Pessoas possuem a racionalidade, a capacidade para tentar coisas inesperadas que confundem o inimigo, por exemplo — o arqueiro explicou com calma — Não é que nem a maioria dos monstros, que apenas seguem ordens à risca. Nossa capacidade de pensar muitas vezes nos fez vencer monstros muito mais fortes do que nós.

-Infelizmente, esse parece que não é um dom que todos têm — Thugles alfinetou com um olhar nada conveniente para o ex-tutor. Ele iria responder, mas Nuck interveio.

-Resumindo, a grande invasão vai ser pior do que todas que já enfrentamos — ele disse — E portanto, precisamos de idéias. O que acham que podemos usar para nos defender deles?

Como sempre, todos teriam as mais mirabolantes idéias e planejamentos, mas Arroiz foi o primeiro a falar.

-Bom, primeiro, precisamos de mais tropas — ele disse, por fim — Acho que é o que mais está faltando aqui no fórum.

-Seria muito bom se tivéssemos mais magos — Nick sugeriu — Quer dizer, se eu tivesse mais magias pra combinar...

-Espera aí... Por falar em magos, cadê o Donnie?

Agora que Arroiz havia mencionado, todos estavam se perguntando a mesma coisa. Ele não tinha aparecido na reunião, mas acharam que ele apenas tivesse se atrasado. O que, contudo, não era algo comum dele.

-Ele está na seção Fanfic organizando vários documentos — Nuck explicou brevemente — Não acho uma boa idéia perturbá-lo, ele está muito ocupado.

Ninguém discutiu com ele. A seção Fanfic era muito mais do que a parte dedicada a histórias e poemas: era lá onde ficavam registrados todos os documentos do MinarForest. Com todos os acontecimentos, Donnie estava muito cheio de trabalho para fazer.

Davien suspirou.

-Depois alguém vai lá e avisa ele — ele disse, erguendo a mão com displicência — Precisamos planejar a defesa, e o Donnie nunca faz nada, ele não precisa estar aqui, não vai fazer diferença.

-Vou dizer ao Donnie que você falou isso.

Thugles soltou a frase como quem não quer nada, mas o guerreiro franziu as sombrancelhas, tenso.

-Não foi isso que eu quis dizer — ele se apressou a corrigir — Ele sempre luta sozinho, quer dizer, separado da gente, por isso nem adianta ele estar a par da estratégia.

Aquilo era verdade. O rapaz era um clérigo e portanto deveria tender mais às magias de suporte, mas não era assim que ocorria. Ele sempre ajudava quem precisasse com suas magias de cura, claro, mas no geral, preferia lutar à sua própria maneira. Na maioria das vezes, Donnie era mais destrutivo do que "curativo".

-Apesar de que seria uma boa tê-lo aqui — Nick ajuntou — Ele é um dos nossos melhores estrategistas.

-O Sheddeer também é — Thugles lembrou, acenando para o arqueiro — Por favor, Sheddeer.

Sheddeer se inclinou um pouco mais na cadeira, curvando a cabeça levemente.

-Como o Arroiz disse, nós precisamos de tropas. Poderíamos recrutar alguns dos melhores alunos das nossas seções, os maiores de idade e que quiserem lutar.

-Mas tipo, será que eles vão querer? — Thugles interpôs, preocupado — Quer dizer, é muito perigoso e arriscado, e podemos até morrer...

Davien deu uma risada seca.

-Os seus piratas podem ser assim, mas os guerreiros não — ele disse cheio de orgulho — Se tivermos oitenta pessoas capazes de lutar contra eles na seção Warrior, podem contar com oitenta guerreiros. Nenhum Warrior de verdade foge da luta.

-Por isso que o Arroiz é o novo tutor?

Davien se levantou.

-Olha aqui, seu...

-Thugles — Arroiz interrompeu, evitando o conflito que sabia que viria — Sério cara, acho que você está sendo meio injusto com o Davien — ele suspirou ao ver o olhar de indagação no rosto do pirata — Olha, você vive dizendo que o Davien "desiste de tudo", que ele "arrega" e essas coisas. Mas se você visse ele na seção Warrior, pensaria duas vezes antes de julgá-lo.

Nick, Vampiritico e até Sheddeer deram gostosas risadas. O próprio Thugles não conseguiu se conter, ao lembrar.

-Não, eu sei que o Davien é bom e tudo — o pirata se desculpou, ainda sorrindo — Isso é só uma brincadeira que eu faço com ele... por causa daquela vez que ele ameaçou sair do fórum.

Arroiz olhou para o antecessor com desconfiança.

-Você ameaçou sair do fórum?

-Quando ele descobriu que perdeu o cargo de tutor, sim — Thugles continuou — Tentamos de tudo pra convencê-lo, mas nada fez mossa na cabeça dura dele.

-Mas aí o Donnie chegou e deu um jeito no orgulho dele — Nick contou enquanto Davien fingia não estar escutando — E aí ele desistiu de desistir e voltou.

-Mas o Thugles nunca perdoou ele por isso — Sheddeer completou — Por isso ele chama ele de Davien Arregão.

-Mas é só uma brincadeira, todos sabemos o quanto o Davien é importante pro fórum, né Arregão? — ele sorriu. Davien o ignorou.

Arroiz assentiu, agora menos desconfiado.

-Bom, agora que já resolveram isso — Nuck se manifestou. — Não temos tempo pra ficar aqui discutindo, precisamos agir logo. Isso me deu uma idéia: vocês vão para Victoria recrutar novos combatentes — ele disse, sobressaltando a todos — Sim, vamos precisar de toda ajuda que tivermos, inclusive fora do fórum. Vou mandar uma mensagem aos instrutores e pedir que liberem alguns alunos interessados a ajudar.

Thugles riu.

-Não precisa se preocupar com a Kyrin, eu resolvo com ela...

-Nem com a Athena — Sheddeer ajuntou — Eu conheço ela há muito tempo, posso falar com ela.

Arroiz assentiu.

-Sim, e eu sempre tive uma relação muito boa com o chefe Balrog, acho que poderia...

-Tá, vocês vão lá e se virem com eles então — Nuck o interrompeu — Me desculpem — acrescentou, ao ver as expressões tensas dos outros — É que eu estou muito cansado desses problemas com os Black Wings. Eu só queria poder administrar meu fórum em paz, sem ter que me preocupar em ser atacado por touros a qualquer momento.

-E quem não queria — Vampiritico respondeu, revirando os olhos. A expressão de Davien era de quem não via problema em matar quantos monstros fosse preciso.

-E não é o seu fórum — Thugles o corrigiu — Mas nosso fórum. Não se preocupe, Nuck, estamos todos juntos nessa.

Nuck sorriu para ele, e Vampiritico abraçou-o pelos ombros.

-Aaaaaaaaaah, que fooofo! — ele debochou com um beicinho — Não vai dizer que enfrentaremos o que for preciso mesmo que isso signifique nossa morte?

O pirata negou com a cabeça.

-Claro que não. Por exemplo, o Dave desistiria da luta muita antes disso.

-Ah seu moleque, eu vou te mostrar quem que vai desistir de...

-Davien — Arroiz o chamou, firme — Pare de discutir com as crianças. Você vem comigo discutir as estratégias com o pessoal.

Aquilo foi mais do que o suficiente pra fazer o guerreiro esquecer-se de Thugles completamente.

-Como assim, quem você pensa que...

-Ele é o Tutor Warrior, chefe da seção de guerreiros que você está inscrito — Nuck lembrou com rapidez — E neste fórum, os alunos devem respeitar e seguir as ordens dos professores, isso é, se forem aprovadas pelo administrador. E ele aprova.

Davien sentou-se com um resmungo nada discreto. Quase todos riram, mas Sheddeer, como sempre, ainda estava pensando no plano. E, como sempre, havia encontrado um problema.

-Nós vamos precisar de tempo — ele contou — Não vai ser só pegar os bons e colocá-los pra lutar. Vai levar dias, quem sabe semanas, pra montar uma boa estratégia com tanta gente desconhecida.

-Obviamente que eles também — Arroiz rebateu inclinando-se na cadeira — Mas mesmo assim, seria bom se pudéssemos ganhar mais algum tempo. E se atacássemos eles de surpresa, quer dizer, pequenos ataques para deixá-los desconfiados?

Thugles olhou pra ele muito animado.

-Sim, eu vi isso num livro. Eles chegavam por navios, atacavam nos lugares onde eles estavam mais espalhados, e então quando os inimigos chegaram na cidade congelada...

-Ah, podemos fazer igualzinho — Vampiritico o interrompeu com sarcasmo — Só que você se esqueceu da passagem estreita com o mar e a montanha, e também dos mil e quinhentos guerreiros durões que nós não temos.

-Não temos porque o Thugles leva todos pro quarto dele — Davien resmungou. Os outros riram.

-Parem com isso — Nuck pediu — Realmente, tempo é o que não temos. Estou quase encerrando essa reunião e despachando logo as tarefas de vocês. Se alguém tiver alguma idéia pra gente ganhar tempo...

-Sabe, Nuck — Vampiritico disse de repente — Eu tenho uma idéia.

Todos se viraram para encará-lo. Ele sorriu.

-Falando em despachar tarefas, isso me lembro que ainda tenho que enviar meu relatório sobre nossas tropas aqui, então pensei... — ele fez uma pausa, fazendo os outros se inclinarem para a frente, como ele previra — E se eu mentisse um pouquinho nas informações?

Ele olhou para os outros com expectativa, mas ninguém havia compreendido.

-Quer dizer... não é o que você faz sempre? — Arroiz disse. Vampiritico concordou.

-Sim, mas eu pensei em exagerar de verdade, por exemplo... e se eu dissesse que aquelas tropas da Guarda Oficial que seguraram aquele último ataque são, na verdade, um décimo da quantidade real?

Os outros arregalaram os olhos. Arroiz balançou a cabeça.

-Você está querendo dizer a eles que temos 350 guerreiros treinados lutando com a gente? — ele quis saber, incrédulo.

-É exatamente o que pretendo fazer — ele disse apenas — E não apenas com a Guarda. Vou colocar que temos um número bem grande de magos e arqueiros. Eles já estão desfalcados de tropas. Com isso, vai levar algum tempo para eles reunirem mais, e teremos tempo para nos preparar... agora Nuck, podemos ir embora?

Ele tinha um olhar cansado de quem não estava nem aí para o que estava acontecendo, o que não era bem verdade. Estava apenas provocando, mas o líder não deu atenção.

-É uma boa idéia — ele disse coçando o queixo — Eles vão precisar de mais monstros, e isso pode nos dar o tempo que precisamos.

-Mas tem um problema — Nick interveio — Aquele espião. Ele vai perceber que não temos tudo isso, quer dizer, vai demorar até a gente conseguir reunir gente lá em Victoria.

-O Donnie pode dar um jeito — Thugles sugeriu, animado — Ele cria uns bonqeuinhos aí que vão enganar direitinho... o problema é ver decidir quem vai lá perturbar ele.

-Você vai, naturalmente — Nuck disse como se a resposta fosse óbvia — Então, enquanto vocês estiverem recrutando mais gente, o Vampy vai dizer aos Black Wings que estamos com uma defesa bem preparada e que não seria seguro tentarem nada agora... e Donnie deixa umas ilusões pra confundir aquele espião, enquanto as tropas não estão aqui.

-É um bom plano — Arroiz elogiou — Embora seja arriscado se descobrirem que você mentiu...

-Não se preocupe — o rapaz se apressou a tranquilizá-lo — Vou enviar umas imagens das ilusões do Donnie, por garantia. E por favor, não duvide de mim — acrescentou, sorrindo abertamente — Eu minto pra eles há vários meses, sei o que estou fazendo. Hoje mesmo eles vão acreditar plenamente que temos quatrocentos guerreiros, cem magos e alguns milhares de minas piratas protegendo o mar.

-Mas isso também pode ser um problema — Sheddeer ajuntou e todos olharam pra ele — Se pensarem que temos tudo isso, vão enviar muito mais tropas do que o planejado. E podemos não dar conta com o que temos aqui. Se não conseguirmos reunir gente o bastante a tempo..

-Ah, a gente consegue — Thugles garantiu, otimista — Aqui é o MinarForest. Não é que nem aquele forunzinho tosco que nem sei o nome. Dessa vez, vai ser definitivo. Vamos dar uma lição a eles, com tudo o que nós temos. E depois, quem sabe, podemos voltar a ter pizza no final das reuniões.

-Pizza é sempre bom — Vampiritico concordou um tanto triste, enquanto todos se levantavam com aquele clima de "acabou a aula".

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Como não queriam perder tempo com mais conversa, Davien e Arroiz foram logo ao trabalho.

Uma das regras mais básicas do combate é nunca dividir as tropas, buscando sempre concentrá-las em um único exército com o menos número de separações possíveis. Mas quando Arroiz sugeriu integrar a Guarda Oficial do MinarForest ao seu exército de alunos(e de pessoas que ele buscaria em Perion), Ronan e Amaco — que haviam se intitulado os generais provisórios do grupo — simplesmente se recusaram a treinar com os demais, e não era por simples arrogância.

A situação era um pouco mais objetiva. A Guarda Oficial foi criada há apenas poucos dias, mas durante esse tempo, eles haviam treinado e lutado sozinhos, e já tinham desenvolvido um forte companheirismo entre si. Já tinham até sua própria formação de batalha. Todos eles eram muito disciplinados e conseguiriam lutar em praticamente qualquer exército, mas aquela formação de trinta e cinco homens era algo que eles conheciam e compreendiam perfeitamente. Se tivessem que lutar fazendo parte de outra tropa, não teriam o mesmo desempenho que teriam na Guarda.

Assim, ficou decidido que todos lutariam lado a lado, sendo que a Guarda Oficial constituiria um exército à parte e comandado apenas por eles próprios. O que não agradou muito a Davien, que não gostava de tropas independentes — mas ele consentiu ao ser lembrado mais uma vez de quem era o novo Tutor Warrior.

Com isso, ele e Arroiz ficaram com alguns dos aprendizes da seção Warrior: os maiores de idade que haviam se comprometido a lutar pelo fórum. Não era muito diferente de um exército normal, além de que os combatentes ganhavam uma espécie de "acesso premium" a qualquer área do fórum que quisessem. Preferência em filas, descontos, essas coisas.

Eles estavam treinando um número de quase duzentas pessoas, entre elas, cerca de cinquenta mulheres. Além dos alunos da seção Warrior, estavam ali os interessados que vieram de Perio 0 — Arroiz nem havia precisado ir escolhê-los. O próprio chefe Balrog havia selecionado os mais capazes dentro dos interessados, por isso o tutor e Davien nem precisaram verificar se eram realmente bons. Qualquer um escolhido pelo chefe Balrog seria mais do que capaz de lidar com o que quer que tivessem escolhido.

A formação de batalha inicial era simples: os espadachins, juntamente com os guerreiros que usavam machados de uma mão e armas de menor alcance, ficariam diretamente na linha de frente, intercalando um guerreiro de arma curta com um lanceiro. Eles não tinham muitos escudeiros para formações clássicas como falange ou tartaruga, então o reduzido número deles protegeria os flancos.

Entretanto, estratégia de combate era algo muito inexato. Por exemplo: duas tropas distintas, cada uma com vinte escudeiros, cem espadachins e cinquenta lanceiros, não obteriam os mesmos resultados em uma batalha. O desempenho varia muito de pessoa para pessoa, dependendo de fatores como experiência em combate, disciplina para seguir ordens, predisposição para lutar em grupo, energia física, emoções, instintos. Nunca se trabalhava com números e estatísticas, pelo menos não em um bom exército. Era preciso avaliar cada um dos combatentes para depois descobrir qual a melhor forma de organizá-los juntos, e então montar a estratégia. Por isso, os treinos na seção Warrior começavam desde manhã e iam quase sempreaté o anoitecer, com poucas pausas para descanso — mas isso era algo que todos aqueles guerreiros estavam acostumados.

Mesmo tendo ficado provavelmente com a parte mais dura, Davien e Arroiz não eram os únicos a trabalhar, muito pelo contrário. Nuck nunca deixava seus funcionários sem trabalho. Thugles estava fora desde que partira no dia seguinte ao Natal, buscando equipamentos, peças de armadilhas e até pessoas pra lutar. Vampiritico havia decidido dar um tempo nas armas fixas: cuidou de deixar cem delas funcionando, e decidiu tentar armadilhas e defesas novas para o fórum. A idéia era criar mais mecanismos de defesa — mas todos sabiam que aquela era uma questão muito mais pessoal. Ele queria fazer defesas que o espião misterioso não conseguiria, por esse motivo ninguém sabia o que ele estava planejando.

Mas para enfrentar um possível número de centenas de milhares de monstros, seria necessário muito mais que cento e quinze guerreiros e armadilhas. Por isso, eles incrementariam o exército com a unidade mais imprevisível e frequentemente a mais poderosa de todas: magos. Como grande parte dos alunos da seção Magician eram adolescentes ou crianças, Nick havia ido até Ellinia com seus dois companheiros sempre presentes: Milena(que dizia que ia lutar não importava o que dissessem) e Iskander.

Os três haviam sido os finalistas na seleção para Tutor Magician, e é claro que dois precisaram ser derrotados para que o outro pudesse ganhar, mas não parecia haver ressentimentos entre eles, e logo ficou evidente que os três tinham aptidão para o cargo. Nick era o oficial, é claro, mas ele era especialista em magia de gelo, e os outros dois sabiam algumas das magias que lhe faltavam e o ajudavam em todas as aulas. Por isso, ele não poderia ir até Ellinia recrutar novos magos sem levar os dois — mesmo porque ambos o acompanhariam não importa o que dissessem.

Quando chegaram em Ellinia, foram logo na biblioteca para ver Grendel. Todos eles tinham um respeito muito grande pelo experiente mago, e até um pouco de receio. Ele era muito velho e incrivelmente poderoso, mas ele não era o instrutor de magos apenas pelo seu poder. Ele era uma pessoa que acreditava no potencial de cada um, tanto que dizia que o único requerimento para ser seu aprendiz era a vontade de seguir a carreia da magia. Se a pessoa quiser realmente ser um mago, não importa quem fosse, Grendel insistiria até a pessoa conseguir aprender. Porque além disso, a amgia costuma nascer junto com a vontade de possuí-la.

Sendo assim, o homem tinha recebido-os com o máximo de cordialidade possível, inclusive havia feito uma lista dos bruxos maiores de idade mais capazes que ele tinha em sua escola, e logo ficou provado que, mesmo velha, a mente de Grendel não falhava. Quando Nick e os outros solicitaram recrutas para o exército de magos, todos aqueles da lista do velho homem se adiantaram.

Claro que havia muitos mais interessados, mas esses ou eram crianças, ou ainda não tinham muito controle sobre os próprios poderes. Mas, se os guerreiros não trabalham com estatísticas, os magos menos ainda. Dois magos especialistas em magia de gelo não são "dois magos de gelo", por exemplo. Cada mago aprende vários tipos de magia, mas quase sempre acaba se especializando na favorita. E o poder de cada um também varia. É preciso analisar os tipos de magia que cada um deles conhece, ver qual o nível das habilidades, até que ponto a pessoa consegue usar determinada magia sem se esgotar, aprimorar os pontos fracos e trabalhar nos fortes. Seriam mais horas intensas de trabalho e organização.

E falando em organização, todas aqueles ataques Black Wings, problemas com tutoria e suspensão do fórum havia gerado várias pilhas de documentos e relatórios, além dos horários de treinamento que precisavam ser friamente analisados, somados com todas as cartas de reclamações sobre a suspensão do fórum e outros papéis.

A seção Fanfic nem de longe era a mais agitada de todo o fórum, mas essa era exatamente a palavra que os outros tutores usariam para descrever a mente de Donnie Nirvana naquele momento. Desde que voltou para a seção e os papéis e documentos começaram a aparecer sem parar, ele passava o dia sozinho lá dentro, organizando histórias criadas pelos membros, ficheiros e toda a interminável papelada que aparecia todos os dias.

Sozinho, exceto por um jovem pintor, desenhando seu mundo dentro de uma esfera de vidro gigante. Pizza estava se recuperando, mas ainda estava longe de estar em seu estado normal.

No fim das contas, quem parecia estar menos carregado era Sheddeer. O Tutor Archer havia ido para Henesys e cumprimentado sua velha amiga Athena, e tinha apenas lhe pedido para que separasse os melhores alunos(dentre os interessados em lutar pelo MinarForest) para que ele pudesse avaliar.

Com isso, ele havia conseguido cerca de sessenta interessados, entre arqueiros e balestreiros. Sem mais delongas, ele levou todos eles para os campos perto de Henesys, e o primeiro treinamento foi o mais óbvio: tiro ao alvo. O experiente arqueiro havia instalado alvos a distâncias de trinta, cinquenta, cem e até cento e vinte metros(duzentos e trezentos para os balestreiros, cujas setas tinham alcance maior), e pediu para que eles os atingissem um de cada vez, em intervalos de tempo determinado por ele. Em menos de meia hora, Sheddeer descartou vinte deles.

O teste seguinte foi o do planejamento. Ele entregou uma folha de papel e um lápis a cada um deles, e pediu para escreverem como invadiriam um castelo altamente fortificado, tendo como recurso dois arqueiros e cerca de trinta homens montados. Sheddeer deu detalhes sobre as fundações do castelo, a colina onde ele se localizava e até a média de ventos que ocorriam na região. Em suma, todos os dados que um estrategista precisaria para criar um plano de ataque. Quem não terminasse em uma hora seria eliminado.

Planejar numa estratégia é algo que leva tempo — talvez a razão de uma hora não fosse justa. Mas Sheddeer estava bem acima dos estrategistas comuns. Ele procurava em seus recrutas a calma e a tranquilidade necessárias para agir sob pressão, a capacidade de manter a presença de espírito sem se descontrolar nas situações mais tensas. Como os atiradores geralmente ficavam a uma distância segura do inimigo, eles tendiam a "se acovardar" se chegassem perto demais, e o rapaz sabia que isso podia atrapalhar o pensamento rápido.

Ele sabia que haveria momentos em que a pessoa teria poucos minutos para bolar um plano, e pra isso, precisava das pessoas com o maior controle possível. Uma hora para completar a estratégia do castelo era mais do que suficiente para um bom pensador.

Depois disso, os selecionados passaram por várias provas, como corridas, rastreamentos e a técnica de se mover sem serem vistos. No MinarForest, a seção Archer tinha um pouco da seção Thief, porque, para Sheddeer, ser um atirador não se tratava de se esconder e atirar à longa distância.

Para ele, significava o reconhecimento externo da região. Se a seção Thief é responsável por descobrir o que acontece dentro da base inimiga, os Archers são responsáveis por manter a equipe informada do que acontece ao redor dela. Eles não funcionavam apenas como soldados long-range. Eles eram os responsáveis por manter as tropas informadas do andamento da batalha e, por exemplo, ficar em um terreno elevado comunicando-se com um Thief que tenta invadir uma base inimiga. Os Archers vão "guiando" os espiões pelo caminho.

Mas também havia um outro fator comum aos arqueiros, que era indispensável para Sheddeer.

Em uma situação onde se precisava negociar com o líder de outro país, por exemplo, a pessoa precisa saber escolher exatamente as palavras que vai usar. Os Archers são aqueles treinados para lidar com qualquer situação que exiga um excessivo controle dos sentimentos, que iam desde resolução de enigmas e desafios até coisas mais práticas como desarmar bombas. Se fossem capturados, deveriam manter o sangue-frio, e nunca deixavam a cabeça ser dominada pelo coração. Eles eram capazes de desviar emoções como ansiedade, medo e pânico, para conseguir se concentrar no problema.

Pessoas assim sempre transmitiam aos companheiros uma sensação de segurança — não importava onde estivesse ou quem fosse, as pessoas sempre se sentiriam seguras ao saber que o Archer resolve tudo. Porque ele era a pessoa treinada para lidar com a mais delicada das situações. E Sheddeer era um dos que sabiam identificar os aptos a ocuparem essa função.

O Tutor Archer era um jovem muito novo, mas já tinha uma experiência que superava a de muitos outros mais velhos que ele. E essa pouca idade não foi motivo para nenhum dos alunos de Athena o tratarem como inferior — como todos eram maiores de idade, eram todos mais velhos que ele. Quem seguia a carreira de arqueiro ou balestreiro sempre sabia que não se deve subestimar ninguém pelas aparências. Aqueles alunos foram avisados — pela própria Athena — de que Sheddeer era um arqueiro muito capaz, e isso era motivo suficiente para acreditarem.

Não que eles não tenham ficado impressionados com o que viram. Quando o calmo arqueiro fez uma demonstração de tiros em sequência, muitos quase abriram a boca de susto.

Ele estava virado para cada um dos alvos que havia colocado nas árvores. Num instante, ele estava com o arco e a aljava pendurados nas costas, olhando para os alvos a vários metros de distância dele. De repente, o arco estava na mão dele, e Sheddeer já puxava a corda pela terceira vez.

Foi como em um filme. Cada puxão da corda significava uma flecha no ar, que logo se seguia do baque surdo que indicava que ele havia acertado o alvo. Uma das flechas passou de raspão, errando o alvo por pouco — mas ficou cravada na árvore.

Para algum iniciante, aquile era um feito que um bom mestre conseguiria fazer. Mas para alguém com um pouco mais de experiência, aquilo era resultado de anos de treino e prática — coisa que alguém da idade de Sheddeer simplesmente não poderia ter, mas ele tinha. Porque os alvos estavam colocados em distâncias diferentes uns dos outros. Os que haviam tido pelo menos duas aulas com Athena sabiam muito bem que, para cada distância que o alvo está da pessoa, é necessário mudar o ângulo do arco, e também considerar que a influência do vento aumenta quanto maior a distância. E Sheddeer havia acertado alvos dispostos a distâncias diferentes, medindo todas essas variações em milésimos de segundos.

Ele sempre explicava que era algo instintivo — nenhum atirador sabia explicar exatamente como conseguia saber a que ângulo deveria segurar o arco, ou o quanto deveria puxar a corda. Era um instinto que era desenvolvido ao longo do treinamento. E Sheddeer estava descobrindo quantos deles teriam esse instinto. Depois de cerca de cinco horas, ele havia separado os doze mais capazes do grupo, agradecido a Athena e foi embora.

Ele levaria seus aprendizes, juntamente com um seleto grupos de atiradores que tinham aulas com ele no MinarForest, por Victoria para treinarem as habilidades. Depois os levaria ao MinarForest junto com os alunos que ele havia escolhido da própria seção Archer. Somando-os, eles teriam uma força notável de atiradores que poderiam muito bem fazer a diferença numa batalha.

Enquanto isso, um homem mascarado ensinava a seção Thief. Ele era o melhor espião que Nuck poderia querer, mas a situação era delicada e chegava a ser até mesmo arriscada.

Um tempo atrás, antes de existir o MinarForest, havia um outro fórum: o PokeStory. Nuck, Kleber e Davien eram os líderes. Antes mesmo de crescer, porém, ele faliu.

E Davien ainda culpava Kleber pelo ocorrido. Não apenas isso, houve uma série de outros fatores que deixaram tensa a situação entre eles, e além disso... Kleber não era o tipo de pessoa que poderia ser vista em público sem causar alarde, mas Nuck confiava nele. Eram amigos havia muito tempo. Por isso, o alto rapaz de bandagens brancas ns braços ensinava sempre mascarado — o que não era tão estranho, considerando que era a seção de disfarce e camuflagem.

Nuck e os tutores estavam cheios de trabalho naqueles dias, e praticamente não paravam para descansar. Mas nem todos no MinarForest estavam assim. Na seção central, em um mundo próximo mas estupidamente distante dali, um homem estava sentado da grama, entediado, esperando...

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Gui a sentiu antes que ela chegasse.

Estava sentado na planície do Mercado Livre que, àquela hora, estava vazio. Ele nunca ficava vazio, na verdade, já que era um lugar conectado a todas as grandes cidades do mundo. Mas a entrada dele pelo MinarForest estava deserta exceto pelo homem com a venda vermelha.

E agora, pela mulher recém-chegada. Gui ficava o tempo todo vendado, mas conseguia vê-la com clareza, como se ela estivesse à frente dele. Linda, cabelos longos, o corpo emitindo uma aura dourada que a fazia parecer deslumbrantemente irreal, o que também não era mentira. Ela estava muito longe dali, confinada à forma de estátua.

E ao mesmo tempo, estava falando um dos membros mais antigos do MinarForest.

-Senhora — ele cumprimentou, curvando-se delicado. A deusa não sorriu.

-Eles estão vindo, Gui. Ou melhor, indo. Sempre me esqueço que estou em outro lugar...

Gui ergueu a cabeça para encará-la. Sabia exatamente quem eram eles.

-E eu vou ficar aqui sem fazer nada, suponho? — ele quis saber.

Dessa vez, Minerva mostrou o leve esboço de um sorriso. Gui era um homem muito fiel a ela, e a deusa sabia disso. Ele faria o que ela pedisse. Entretanto, a idéia de ficar parado sem fazer nada enquanto o fórum era atacado era muito delicada para ele. Mas a deusa havia insistido para que ele continuasse onde estava.

-Você pode ajudar, sabe disso — a mulher disse por fim — E também sabe o que vai acontecer se ficar muito tempo longe daqui.

-Sim, eu sei — Gui assentiu, meio impaciente — Mas a senhora não pode aguentar por algumas horas? Eu poderia vir até aqui vez ou outra...

-Eu poderia, Gui — a deusa disse, com tristeza — Mas seria muito arriscado. Quanto mais tempo durasse, mais fraca seria a magia. E se você me perdesse... não sei se conseguiria reunir forças para encontrá-lo de novo.

-Conseguiria — o homem disse, sério. A deusa quase riu.

-Sim, mas me custaria muito tempo e muita magia, e a minha já é limitada. Minha estátua poderia se quebrar, se eu tentasse. Não, Gui, você precisa ficar — ela completou em um tom mais severo — No fundo do seu coração, você sabe disso.

Ele sabia. Mas isso não aliviava a culpa que ele sentiria por não participar da guerra que estava por vir, e que provavelmente seria a última. "Não", ele balançou a cabeça. Nuck e os outros precisavam aguentar. Ele não queria ter pensamentos negativos.

-Você tem um coração muito bom — Minerva disse, sabendo o que ele sentia — Mas é justamente por isso que precisa ser forte. Se você lutar ao lado deles e perder a conexão comigo, talvez eu nunca mais seja libertada. E com isso o caos dominará o mundo, assim como...

-A magia vai dominar o Donnie — Gui terminou, e a mulher assentiu — Sim, também sei disso. É só que... é difícil — ele confessou, abalado — Não é só por acharem que eu estou sendo um inútil, mas porque eu poderia mesmo ajudar.

-Você os está ajudando da melhor forma que pode — Minerva garantiu, com seu sorriso encantador — Acredite, no futuro, eu me revelarei e todos verão o quanto você se esforçou para isso. Mas ainda é muito arriscado. Mas eu também tenho fé em você.

-Assim como eu tenho na senhora — Gui suspirou. Minerva sorriu novamente.

-Eu preciso ir — anunciou, olhando para o céu embora soubesse que não podia exatamente vê-lo — Mas por favor, Gui — ela baixou a cabeça, e havia um quê de súplica em seus olhos — Não tente ficar muito tempo fora daqui. Se você se descuidar por um segundo a mais...

-Não vou fazer isso — ele a interrompeu sem se preocupar se isso a ofendia — Vou ficar aqui como uma âncora enquanto todos se esforçam para conter o mal lá fora. Não se preocupe.

Aquela tinha sido a coisa mais ousada que ele já dissera à deusa. Havia alguns que não acreditavam, mas para aqueles que o faziam, Minerva era a maior superioridade divina que existia. Mas Gui não conseguiu se controlar. Quando os Black Wings chegassem, ele teria que ficar parado sem fazer mais nada.

Entretanto, ela apenas suspirou. No fundo, ela também não gostava do que estava pedindo. Mas ainda assim, era necessário.

-Um dia, todos vão compreender. E você será um dos que mais contribuíram para minha chegada, além, é claro, do Donnie.

-Mas eu não quero fama — Gui insistiu — Quero ajudar meus amigos se protegerem! E se eles acabarem perdendo...

-Ah não, eles vão ganhar — Minerva garantiu — Vai ser uma batalha dura e cheia de sofrimento, mas o MinarForest vai vencer.

Gui continuou refletindo por mais alguns momentos enquanto ela desaparecia. Prever o futuro não era exatamente um dos poderes da deusa, mas ela tinha muita fé nas pessoas. Acreditava neles, de todo o coração.

O problema era que os Black Wings, por mais cruéis que fossem, também eram pessoas.