MinarFic

18 Davien, the Dragonheart Scale Killer


Mesmo com o fato de que a "pizzaria" do MinarForest era ainda menos saborosa quando fechada, ainda era um bom lugar para Davien e Thugles colocarem o papo em dia com sua companheira que há muito não viam. A primeira meia hora de conversa ainda envolvia o inesperado fato de que Walita era prima de Tecc, o líder do clã onde se conheceram.

-Vocês nunca perguntaram! — tornou a garota, em um tom que indicava que sabia muito bem que estava usando uma frase clichê — Além disso, não se sai por aí dizendo "Ei, sou prima daquele cara... legal né?"

-Mas ele era o líder da Atomic! — Thugles protestou, animado — Sei lá, você podia ter contado pra gente, íamos gostar de saber. Mesmo porque o Dave adora o Tecc, né, Dave?

Davien resmungou e balançou a cabeça. A menina riu.

Na época em que clãs ainda eram comuns no mundo, havia um chamado Atomic. Os clãs são grupos de pessoas que se reúnem para realizar missões, caçar monstros ou realizar tarefas especiais. Basicamente, era um clube de guerreiros e exploradores. Para se criar um, era preciso ir até o centro de criação em Orbis, pagar algumas taxas e esperar vários processos burocráticos, realizar alguns tipos de missões com um número mínimo de dez pessoas para, somente então, o clã ser considerado oficial.

Não muito tempo atrás, havia centenas deles espalhados pelo mundo. A Atomic não era um dos mais famosos, mas era forte e bastante conhecido em algumas regiões, e tinha uma reputação bastante agradável. Dos três amigos, Thugles foi o último a chegar, e logo ficou muito amigo de Davien, que lhe apresentou a garota. E os três ficaram muito próximos desde então.

Como era de se esperar, Davien eventualmente saiu do clã. Thugles não durou muito tempo mais — sendo capitão de um navio que atrapalhava bastante a balança comercial da Nexon, não seria saudável que ele ficasse em uma guilda oficial, por isso, foi se distanciando até sair oficialmente. Ele não queria isso. Thugles é uma pessoa muito fiel à sua causa e a seu grupo, e tinha feito vários amigos por lá.

Walita foi um dos últimos membros restantes, e só saiu quando o primo finalmente decidiu dissolver o clã. Ela contou que foi muito difícil pra ele, mas os membros estavam ficando cada vez menos participativos, principalmente depois da decisão da Nexon de acabar com o sistema de clãs.

Até hoje o motivo era assunto de muitas discussões. Muitos diziam que a decisão havia sido pelo fato de que um clã dava um imenso sentimento de "patriotismo", e brigas entre eles eram frequentes, chegando ao ponto de se parecerem com gangues. Como todos os clãs eram oficiais e, portanto, aprovados pela Nexon, as pessoas chegavam a culpar o governo por ataques e insultos de qualquer clã.

Mas algumas pessoas diziam que isso se devia ao fato de que clãs "malignos" estavam subornando ou mesmo assassinando líderes de clãs mais famosos. Essa era a teoria com menos fundamento, visto que ainda hoje vários líderes e membros de alto cargo de clãs famosos continuam rodando o mundo. E havia quem acreditasse que certos clãs haviam se juntado e feito negócio com membros corruptos da Nexon. Mas a teoria mais aceita e popular era o simples fato de que o governo não aguentava mais as brigas, disputas e revoltas entre eles.

Não tinha sido uma decisão oficial, na verdade. Eles não poderiam simplesmente anunciar a dissolução repentina de todos eles, portanto, começaram a desencorajar a formação de novos clãs. As taxas para criação de um oficial subiram absurdamente, sem falar nos impostos que surgiam timidamente até chegarem a números quase impossíveis de manter. No início, parecia que estavam apenas tentando lucrar com o aumento das taxas, mas logo ficou claro que o objetivo era desmantelar o sistema de clãs.

Mesmo assim, ainda havia um número bastante grande de guildas influentes e poderosas. Quando, porém, a Nexon apresentou um plano onde os membros que saíssem de seus clãs ganhariam uma indenização bastante tentadora, as guildas foram se esvaziando até que os líderes se viram forçados a dissolvê-los. Por fim, quase todos eles se foram e, finalmente, e Nexon anunciou que "devido à baixa quantidade de clãs, decidimos realizar a dissolução de todos".

Mas o espírito patriota não havia morrido com o fim dos clãs. Apesar de não haver mais as disputas e campeonatos oficiais realizados pela Nexon, ainda havia clãs independentes, grupos de pessoas que se uniam como uma família. Mas a maioria das pessoas estava interessada apenas na fama e no dinheiro que clãs oficiais ganhavam com missões e torneios, portantos, esses clãs eram poucos.

Walita contou que, com o fim da Atomic, ela não teve muito mais o que fazer da vida. Não queria entrar para o exército de Perion, e nem tinha vontade de procurar outra guilda. Ela sempre fora bem tratada por ser prima do líder, e além disso, queria combater junto com ele. Mas acabou voltando para Perion, e foi lá que ela conheceu o MinarForest.

Semanas atrás, Tecc viajava à procura de alguma aventura, como um monstro para matar ou vilarejo aterrorizado — embora fossem raros — para salvar. Foi quando ele ouviu rumores sobre um fórum na floresta Minar e foi averiguar. Lá ele encontrou uma estrutura imensa, cheia de construções, funcionários e pessoas. Parecia algo bem estável, e imediatamente perguntou onde um guerreiro poderia ir. Acabou caindo na seção Warrior, e escalado para a Guarda Oficial devido à sua velocidade com a Pinaka. Enquanto isso, Walita havia ficado em Perion treinando com o chefe Balrog.

Ela contou que o primo estava querendo chamá-la assim que foi escalado, mas estava esperando ganhar a confiança dos líderes antes disso. A oportunidade surgiu quando metade da Guarda combateu sozinha aquela invasão Black Wing. A princípio, Ronan e Amaco ficaram relutantes em aceitar uma menina nova como ela, mas ela logo demonstrou ser igualmente rápida ao mesmo tempo que era delicada e aparentemente inofensiva.

-Sempre achei que você tinha puxado um pouco da velocidade do Tecc — Thugles comentou quando ela fez uma pausa.

Havia sido naquela semana que os dois generais haviam aceitado a garota, depois que ela deu uma boa demonstração de seu poder de combate, principalmente ao lado do primo. Quando entravam em uma luta, um protegia o outro, reduzindo os inimigos a poeira em poucos segundos. Tecc atacava, cortava e mutilava com a Pinaka, e Walita ficava atrás protegendo-o de qualquer ataque pelas costas ou flancos. — isso dispensava a necessidade de um par de escudeiros para protegê-lo e, com isso, eles poderiam usar esses escudeiros em outro ponto da formação.

-Mas você pretende lutar contra os Black Wings? — Davien perguntou, preocupado.

-Claro que sim! — a garota tornou como quem diz uma coisa óbvia, embora parecesse muito ofendida — Não vem me dizer que só porque eu sou menina e... ah, vá se ferrar — ela deu um tapa no guerreiro, ao perceber que ele estava brincando.

-Então você vai mesmo ficar por aqui — Thugles comentou, feliz — Ah cara, que saudade de ter a gente reunido assim de novo. Mas e o resto do pessoal do clã?

-Ah, eu estou pensando em chamar todo mundo pra cá. Esse fórum é mesmo muito legal... E seria muito bom ter a equipe toda junta de novo. Já falei com o Noland, e ele pareceu bem interessado na seção Thief. Quanto aos outros...

Ela estreitou os olhos e olhou por cima do ombro de Davien.

-Acho que é pra você — disse, analisando o homem que vinha. Davien virou para trás e viu Nuck acenando com gesto de urgência.

-Ele gosta de fazer isso — ele disse com um profundo suspiro — Esperem aí, eu já volto.

Nuck, porém, parecia ter outros planos para o guerreiro. Depois de uma demorada conversa visimelmente não muito agradável, ele pareceu relaxar e deixou Nuck segurá-lo, depois ambos sumiram no ar.

-WOW, eu ainda me impressiono com ele fazendo isso — Walita exclamou, animada. Thugles sorriu.

-Você ia se impressionar é com a tontura. Ei, já que o Davien saiu, lembra daquele navio na garrafa que eu tava fazendo? Eu terminei ele lá na seção Pirate. O Hafel não gosta muito de lá, então...

-Que navio? Aquela garrafa de vinho que você tentava encher de pauzinhos? — a garota disse, surpresa. Thugles balançou a cabeça.

-Nah, esqueci que era aquele. Aquele eu terminei faz um tempão, mas fiz outro num galão de vidro gigante. Vamos lá, eu aproveito pra te mostrar umas músicas novas que aprendi.

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No fórum, Vampiritico trabalhava em suas armas, Kleber treinava a seção Thief e duh continuava fazendo o que fez quase a história toda: nada. Além dele, todos os outros trabalhavam e se esforçavam, e àquela hora da tarde eles já estavam ficando cansados.

Donnie também estava trabalhando. Estava fechado na seção Fanfic, lendo livros, virando páginas, testando feitiços. Às vezes algum dos outros invejava o garoto, cujo trabalho era apenas ler e escrever sem se esforçar muito.

Entretanto, isso não era nem de longe o que acontecia na realidade. Donnie estava sozinho na seção Fanfic, por isso ninguém podia ter certeza do quanto ele estava trabalhando. Apesar de andar menos de cinquenta metros por hora e não fazer praticamente nenhum esforço físico, suas olheiras e a expressão torta eram sinais claros de sua dedicação. Ele estava sentado numa cadeira lendo um livro bastante antigo, procurando ansiosamente alguma maneira de complementar seu feitiço.

Ele colocou a cabeça entre as mãos, cansado. Não importava o que fizesse, não conseguia completar! Havia tido aquela idéia havia dias, e aquela magia poderia ajudar bastante as defesas do fórum. O garoto até tinha algumas idéias de como usá-la, mas agora que havia começado a tentar, percebeu que estava acima de sua capacidade. Ficava horas trabalhando e se esforçando, e dormia menos de quatro horas por dia.

Mesmo assim, ele insistia em continuar. Não iria desistir antes de conseguir, e não iria abandonar várias horas de trabalho por nada.

Mas ele estava cansado. Sua mente ansiava por descanso, seu corpo se recusava a mandar forças a seus membros numa tentativa de obrigar o insistente tutor a dormir. Havia momentos em que ele lia uma página inteira e depois ficava se perguntando o que é que havia acabado de ler. Mas ele estava tão perto, havia tropeçado em uma nova idéia, e aquela magia poderia dar certo...

-Donnie.

O rapaz olhou na direção da voz, repentinamente. Havia se assustado — não esperava que ninguém fosse entrar ali, a não ser Nuck. Mas aquela voz grave e tranquila era bastante diferente da do líder. Instantaneamente, a mão direita do garoto recuou para trás com um brilho dourado pronto para atacar — mas ele a abaixou e relaxou ao perceber quem era.

-Gui — ele disse com a voz cansada, porém firme — Posso ajudar em alguma coisa?

Então ele balançou a cabeça, pasmo. "Que merda foi essa que eu falei?" Mas Gui nem sorriu.

-Você poderia ajudar a você mesmo, primeiro — ele disse. Donnie sacudiu a cabeça.

-Já estou me ajudando. Se eu conseguir fazer isso, vou ajudar a todos os membros do fórum. Pode fazer a diferença quando os Black Wings chegarem, e...

-Donnie — Gui ergueu a mão, e o rapaz imediatamente se calou — Você não está em condições de fazer nada. Já se olhou em um espelho? Você mal está se aguentando em pé.

-Mas eu preciso ficar aqui, até conseguir! — disparou, ríspido. Mas Gui estava certo. O rapaz estava com os olhos semicerrados e cercados por olheiras. A boca estava escancarada e ele respirava profundamente, e a coluna estava torta como se tivesse resolvido dormir mesmo que Donnie não quisesse.

-Você não precisa. Sabe que pode dormir e continuar a tentar amanhã. Não adianta ler e esperar alguma coisa se você estiver cansado. Você, como tutor Fanfic, deveria saber disso mais do que qualquer um aqui.

-Ah, não venha me dizer o que fazer com minha seção, tá? Eu sei exatamente o que fazer, sei lidar muito bem com minha seção, você...

Sua voz foi ficando gradativamente mais baixa enquanto ele percebia que algo estava muito errado. De repente, ele se deu conta de com quem estava falando. Com os olhos arregalados, ele olhou para o homem à sua frente.

-Desculpe, Gui — ele disse com um profundo suspiro, a voz recuperando um traço do tom tranquilo de sempre — Eu... estou muito cansado, é só isso. Estou trabalhando aqui faz dias e não consigo nada, mas não vou conseguir descansar até completar. Se eu conseguir, talvez isso faça diferença pro fórum!

Gui assentiu, enquando Donnie pensava vagamente que já havia dito aquilo antes. "Estou mesmo precisando dormir", pensou.

O homem deu de ombros e sentou-se numa cadeira ao lado do rapaz.

-Bem, de qualquer maneira, você vai precisar parar por um tempo. Tenho uma nova missão pra você, e preciso que esteja bem disposto para isso, portanto, é melhor você ir dormir.

Mas Donnie já balançava a cabeça.

-É mais uma missão sobre meu passado? — perguntou, começando ficar irritado novamente — Você sabe o quanto eu quero descobrir, mas não tenho tempo pra isso no momento! Eu posso até dormir um pouco, mas não posso viajar e perder dias de trabalho pensando em mim!

-É muito bondoso de sua parte — o homem concordou, uma nesga de um sorriso na voz — Você se preocupa mais com o fórum do que com você mesmo. Mas me diga, como você sabe que é uma missão sobre seu passado?

-Ué, sempre... — ele se calou a perceber que Gui não havia dito nada sobre a natureza da missão. Geralmente, o objetivo delas era um lugar onde Donnie poderia ter alguns "insights" rápidos sobre seu passado, fragmentos que ele não conseguia associar com lembranças sólidas. Mas às vezes eram apenas viagens para lugares onde ele poderia escrever histórias para adicionar à seção Fanfic. E além disso... Se Gui sabia mais sobre o passado de Donnie do que dizia, obviamente saberia que ele estava trabalhando em algo importante, e não iria perturbá-lo se a missão não fosse igualmente importante.

Sentindo-se envergonhado, ele fez um gesto de desculpas e pediu para que Gui continuasse. O homem sorriu.

-Eu não disse que era sobre seu passado... mas é exatamente isso — ele acrescentou, sorrindo — Você vai viajar, não é muito longe daqui, mas dessa vez você não vai se decepcionar. Pressinto mais do que simples lembranças vagas, dessa vez.

-Você meio que sempre diz isso — Donnie retrucou, desapontado — Mas não posso, Gui, já disse. Meu passado pode esperar — meu dever agora é com o fórum. E além disso... Por que você acha que dessa vez vai ser diferente?

Gui demorou para responder. Ele receava ter que dizer isso a ele, mas não tinha escolha. Mesmo assim, aquele dia havia sido de longe o mais perto que ele chegara de uma discussão com Minerva, sobre deixar Donnie visitar aquele lugar.

"Chegou a hora de ele saber um pouco mais", a deusa havia dito com simplicidade.

Ele não concordava nem um pouco. Temia o que poderia acontecer com o rapaz quando descobrisse, ou o quanto exatamente iria descobrir. Mas, era a palavra de Minerva contra a dele — e o homem não iria comparar as idéias da deusa com as dele.

-Porque, desta vez, estou te mandando para Ariant — o homem disse finalmente, já sem o sorriso no rosto.

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O sol já estava alto no céu, lançando seus brilhos tranquilos sobre o fórum. Não estava muito quente, e era quase possível olhar para o sol sem machucar os olhos. O céu era de um azul profundo e sem nuvens, de forma que a tarde seria muito agradável se Nuck não tivesse chamado Nick, Thugles, Sheddeer e Arroiz para uma das pracinhas para falar sobre assuntos desagradáveis.

-Bem, acho que vocês merecem mesmo saber mais sobre o Duh — ele disse, por fim. Todos os outros estavam quietos, prestando total atenção às palavras do administrador.

-O Duh... ele chegou aqui pedindo ajuda, porque estava muito fraco — ele continuou, erguendo a mão para interromper o "Mas você já disse isso!" que sabia que viria — E isso é porque ele não ganhou seus poderes por puro treinamento.

Os outros o observaram, confusos. Exceto Sheddeer, que continuava atento e impassível como sempre.

-Ele treinou bastante, é verdade — Nuck apressou-se a esclarecer. Não queria manchar a imagem de Duh fazendo parecer que ele havia simplesmente "ganho as habilidades de presente" — O que aconteceu, é que ele conviveu com dragões desde pequeno. Aprendeu com eles, viveu com eles... afeiçoando-se a um ponto de quase se transformar um deles.

O efeito da reunião teria sido bem melhor se estivessem na ala hospitalar onde Duh estava, mas não seria sensato. Devido à falta de sangue, Duh havia piorado muito — Nuck tinha essa habilidade de saber quando doentes estavam melhorando, e esse não era o caso do guerreiro — e precisou de uma injeção de sangue urgente. Felizmente, Kleber havia trazido mais uma amostra de sangue de Leviathan bem a tempo, mas devido à situação, ele precisaria injetá-lo diretamente na veia. E injetar sangue de dragão em alguém não é um processo rápido. Por isso, eles estavam em um lugar aleatório do fórum, mais precisamente perto da seção Fanart — sob a desculpa de que Duh estava passando por um processo doido de cura e que não seria bom se entrassem.

Antes, ele receava mandar seus tutores para a floresta. Agora, ele estava ansioso para que fossem. Se não conseguissem mais sangue a tempo, Duh morreria.

-Ninguém sabe como, mas eles confiavam tanto nele, que transmitiram a ele parte de sua magia — continuou — De alguma forma, o espírito do Duh foi se transformando cada vez mais no de um dragão, até que ele passou a ter o sangue tão forte quando o deles, e bem... é aí que entra a parte complicada. Para sobreviver, ele precisava agir e caçar como um dragão, e não mais como um humano.

-Bem, isso não parece ser problema, visto a quantidade de coisas que ele fez por aí, matando monstros e tudo — comentou Nick. Mas Nuck não havia terminado.

-O problema é que ele ficou doente. Uma gripe mal curada, coisa boba, que piorou e deixou ele de cama por vários dias. E quando ele melhorou... já era tarde demais.

Nuck olhou para os tutores com o canto dos olhos. Como sabia que ia acontecer, eles estavam com as testas franzidas, como se não pudessem acreditar no que estavam ouvindo.

-Então... — Arroiz começou, um tanto envergonhado com o que iria sugerir — Você está dizendo que o Duh ficou fraco desse jeito porque, quando estava gripado, não pôde caçar e lutar pra "alimentar a alma"?

-Exatamente.

-Quer dizer que ele tem um gauge de Dragon Soul enfiado naquele lugar e, se não caçar o suficiente, ele zera e o Duh fica fraco?

-Não, Thugles. Mas o efeito é exatamente esse. Mas não pensem mal do Duh ou coisa parecida — continuou ele, infeliz — É preciso ser muito, mas muito forte pra conter o poder draconiano que ele tem. Não contei a vocês, porque poderia... bem...

Ele ergueu as mãos em um gesto de impotência, sem saber como dizer que não queria prejudicar a imagem do poderoso lanceiro. Mas Thugles continuou por ele.

-Nah, que isso — o pirata negou com veemência — Ninguém poderia imaginar que o poderoso Duh, salvador da pátria, defensor de la Floresta tivesse esse problema. Mas, se ele sobreviveu por tanto tempo assim... É como você disse, ele é muito forte.

-Além de que eu vi ele em ação contra uma tropa de milhares de monstros Black Wings — Nick lembrou — Nem o Nuck estava conseguindo, mas ele foi lá e matou eles em cinco minutos, mesmo sabendo que seria arriscado. E ajudá-lo é o mínimo que podemos fazer por ele.

Os outros assentiram, concordando. Nuck quase suspirou aliviado. Tinha medo de que considerassem Duh fraco, ou que achassem que ele só era forte por causa do poder dos dragões — mas logo de deu conta de que era besteira. Os dragões só tinham dado parte de seu poder ao guerreiro por ele já ser extremamente forte e capaz muito antes de conseguí-lo. E depois que Nick mencionou o fato de ter sido ele quem salvara o MinarForest mesmo estando fraco como estava, não havia dúvidas de que seu coração era tão grande quanto seu poder.

Mesmo assim... Aquela não era toda a verdade. Nuck não gostava de mentir. Só o fazia quando era realmente necessário, e nesses poucos casos, conseguia — não que ele se sentisse orgulhoso com isso — enganar a todos. Mas sempre havia aquele a quem simplesmente não se pode enganar.

E no MinarForest, esse alguém era Sheddeer.

Embora tivesse tido o cuidado de não olhar para o arqueiro, Nuck não pôde deixar de sentir o olhar do rapaz sobre ele. E mesmo os demais pareciam saber vagamente que alguma coisa naquela história não se encaixava — não poderia ser tão simples, eles pensavam. Duh precisava matar para não enfraquecer? Como é que tirar a vida de um monstro pode fortalecer alguém dessa maneira? Dragões precisam caçar, mas se não o fizerem, não enfraquecem assim. Então por que isso acontecia com o guerreiro?

Essas eram as perguntas que estavam na cabeça de Sheddeer naquele momento. Perguntas que, o arqueiro tinha certeza, Nuck sabia a resposta. E o mago não resistiu e encarou seu tutor Archer. Não precisava disso, mas o fato de não ter sido enganado parecia claramente estampado nos olhos profundos do arqueiro.

"Cedo ou tarde vou ter que contar a verdade a eles", Nuck suspirou, infeliz. Guardar um segredo de seus tutores daquela maneira — principalmente quando os estava mandando para um lugar extremanente perigoso justamente em função desse segredo — o angustiava profundamente.

-Então, o que podemos fazer para ajudá-lo? — Sheddeer perguntou sem tirar os olhos de Nuck, e o mago ficou um pouco mais aliviado com a deixa.

-Bom... como ele não pode caçar, nós precisamos caçar pra ele — Nuck explicou — Sangue de dragão é a única coisa que o está mantendo vivo ultimamente, e não estou tendo problema em mandar gente de algumas seções para caçar dragões. Mas... — ele fez uma pausa — Isso funcionou apenas por um tempo. O corpo dele foi precisando de sangue cada vez mais forte, até que, finalmente, só consegui pensar em uma alternativa.

-Sangue de Leviathan? — Thugles perguntou, sabendo que aquela não era a resposta. Ele sabia, assim como todos os outros, quem eram os dragões mais fortes da floresta.

-É o que estou usando nele agora — Nuck afirmou, sério — Mas mesmo ele já não está adiantando. Leviathan é muito forte, mas não chega nem a um décimo do poder de Manon e Griffey.

-Manon e Griffey — Thugles assentiu, os olhos fixos no chão — Se meu pai soubesse que estou indo pra lá, fugiria da prisão só pra me bater com aquele dinossauro verde de borracha.

Estranhamente, foi Sheddeer quem pareceu mais inquieto. Nuck abriu a boca para responder, mas logo percebeu a mensagem oculta nas palavras do rapaz. Ele podia não gostar muito, mas estava deixando claro que iria para a floresta. E logo em seguida ele percebeu a determinação nos olhares dos demais tutores. Ele estava pedindo que fossem para o lugar mais temido da floresta atualmente, mas mesmo assim, eles não recusariam.

-Bem, sendo assim, não há tempo a perder — disse Arroiz, ansioso para partir — Cada minuto aqui são gotas de sangue a menos que o Duh poderia estar recebendo nesse momento. Vocês estão comigo, pessoal?

Foi uma frase típica de filmes de ação, mas Arroiz não conseguiu resistir. E não conseguiu deixar de sorrir quando os outros responderam com um entusiástico "Estamos, capitão!". A dificuldade inicial que ele achou que teria de se enturmar com os tutores agora era o menor dos problemas.

Mas se ele estava feliz, Nuck estava radiante. Sentindo um imenso arroubo de afeição por eles naquele momento, ele encarou cada um dos olhares alegres e determinados. Eles não estavam indo até lá pro glória pessoal ou heroísmo. Ele pensou que eles talvez hesitassem ou relutassem em ir, mas todos eles estavam dispostos a se arriscar a enfrentar um monstro extremamente perigoso pelo bem do fórum, ou melhor, de uma pessoa. Empertigando-se, Nuck prometeu a si mesmo que nunca mais hesitaria daquela maneira antes de enviá-los a alguma outra missão — poderia confiar inteiramente neles.

-Muito bem, então eu posso mandá-los até o lar do Griffey — Nuck disse sem perder tempo — Sheddeer vai saber guiá-los até lá, e também de volta ao fórum quando acabarem.

-Sabemos disso. Foi a seção dele que desenhou os mapas da floresta, não foi? — Thugles devolveu com um sorriso.

-Mas espera — Arroiz franziu a testa, enquanto Nuck abraçava-os para lançar sua magia de teletransporte — Só o sangue do Griffey é suficiente? Quer dizer... quem vai cuidar do Manon?

Nuck estava bem de frente para o guerreiro e,mesmo com toda a preocupação e urgência da situação, abriu o sorriso mais largo e malicioso que dera naquele dia.

-E por que você acha que o Davien não está indo com vocês? — ele disse simplesmente, os olhos brilhando com intensidade — Presentium Allegratium!

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-GGGGGUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUU!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Manon guinchou de dor e bufou pelo nariz, desafiador. Davien se ergueu com um rosnado. Não estava ferido — sua armadura de gelo cuidava disso. E esse mesmo gelo, na lâmina da polearm, era o que causava a desconfortável sensação de dormência na barriga do animal.

Não era muito difícil perceber por que Manon não gostava nada de gelo. Sendo uma criatura que cuspia fogo, parecia óbvio, mas era a verdade. Também era esse o motivo pelo qual ele preferia ficar perto dos Kentauros(criaturas que pareciam centauros, mas ao invés de um tronco humano, pareciam-se com um elfo acoplado a um cavalo) vermelhos.

Entretanto, não havia nenhum deles por perto. Apesar de serem extremamente territoriais e não gostarem nada de invasores, os Kentauros não ousavam enfrentar Manon. Além disso, eles pareciam ter feito uma espécie de acordo não-pronunciado com o dragão. Ele mantinha a área quente como ele gostava, e os Kentauros guardavam-na de intrusos(Não que o dragão precisasse de guarda-costas...). O esquema havia funcionado durante muito tempo, até Nuck precisar do sangue do dragão. Dezenas de Kentauros vermelhos jaziam mortos no chão na entrada da clareira onde Manon vivia. Ali, seria uma luta de um contra um.

Os dois pararam por um tempo, para uma recuperação rápida, e Davien deu uma boa olhada no monstro. Era imenso, pra começar. Quase duas vezes maior do que a polearm do guerreiro, com um corpo de lagarto laranja com a barriga branca. Placas grossas e pontudas do tamanho de pratos de bateria saíam de suas costas, indo na nuca até a metade da cauda(musculosa e duas vezes mais grossa que uma perna humana). As pernas curtas saíam da lateral do corpo, e eram rígidas e terminavam em pés com três dedos, cada um com uma afiada garra marrom. Sua força obviamente não estava nos braços: eram duas patas musculosas que, apesar de serem um pouco maiores que um braço humano, eram minúsculas se comparadas com o resto do corpo.

Ele poderia ser confundido com um simples lagarto grande demais, se não fosse pela maneira como ele se movia e pela cabeça. E acima das costas, logo onde terminava o pescoço, havia um par de asas de morcego apenas um pouco maiores que os braços, ou seja, pequenas demais para sustentar um corpo tão pesado — e ao contrário das asas dos Balrogs, pareciam pequenas demais até para serem capazes de servir para dar impulso — o que Davien constatou ser mentira logo no primeiro ataque.

Ele havia chegado até ali pela magia de Nuck e encontrado os Kentauros. Inteligentes e determinados, eles tentaram impedí-lo, mas cometeram o erro de atacá-lo quando ele insistiu em passar. Todos eles jaziam mortos no chão, antes mesmo que tivessem tempo de chamar por reforços. Não muito tempo depois, Davien o encontrou.

Ele estava deitado numa clareira imensa(que logo serviria de campo de batalha) enrodilhado em algo grande. De imediato, Davien percebeu que era um ovo: branco, liso e com manchas marrons e alaranjadas. Assim que o viu, o dragão nem hesitou: ergueu-se rapidamente e cravou os olhos no guerreiro de modo que as narinas, apontadas para o chão, exalassem fogo em um gesto claro de aviso. Que não intimidou o guerreiro nem um pouco.

Em resposta, ele batera o cabo da polearm no chão segurando-a com as duas mãos, e colocara o rosto sobre elas como se estivesse rezando. A temperatura ao redor dele pareceu cair abaixo de zero quando o úmido ar da floresta pareceu envolvê-lo, criando uma camada de gelo que, apesar de fina, era muito mais resistente do que algumas armaduras, tanto em Davien quanto na lâmina da polearm. Rugindo, ele ergueu a arma como se não pesasse mais que um pedaço de lenha e investiu contra a criatura, em um ataque que ele pensou que rasgaria o ventre do dragão em segundos. Ele sabia que Manon era muito forte, mas também sabia que o dragão esperaria que fugisse, e não que atacasse. Um ataque surpresa poderia resolver tudo rapidamente antes que o dragão se desse conta do que estava acontecendo.

Entretanto, o rápido abate não aconteceu. Rápido como uma cobra, Manon torceu o corpo para um lado, fazendo Davien errar o golpe por muito longe.

Rapidamente, o guerreiro se virou para ele, erguendo a gelada polearm à sua frente.O jato de fogo atingiu a lâmina em cheio, e Manon assim o manteve por alguns segundos. Quando parou, porém, tanto a lâmina quanto o guerreiro estavam perfeitamente intactos.

Assim que o bafo de fogo terminou, Davien virou a arma para a direita para pegar impulso e então girou-a por trás, a lâmina descrevendo um arco por cima da cabeça.

Surpreso, o dragão quase não conseguiu recuar. Ele esperava ver uma massa confusa e derretida quando acabasse o sopro, e não um guerreiro gelado partindo para outro ataque. Manon só teve tempo de dar uma guinada assustada para trás antes de sentir a lâmina congelada arranhando sua pele dura.

O segundo ataque de Davien veio em um salto, e dessa vez, a lâmina iria se cravar diretamente em seu pescoço. Mas dessa vez, ele torceu o corpo novamente e Davien passou direto por ele. Estavam de costas um para o outro, Davien já pensando no próximo ataque — quando sentiu a cauda de Manon atingí-lo violentamente nas costas, derrubando-o de barriga no chão.

Ele se ergueu rapidamente, já pronto para lutar. Alguns metros à frente, Manon estava em pé, os bracinhos balançando em uma tentativa de tocar o doloroso ferimento. Não era profundo, mas ao redor dele, o gelo que ficou parecia penetrar com força na carne, machucando-o ainda mais. Mesmo assim, aquilo não seria mais do que um mero desconforto.

-Vamos fazer do meu jeito então — o guerreiro disse, sorrindo levemente de satisfação. Ele não gostava de "ataques rápidos surpresa", e sim de participar do combate. Ele só havia tentado aquilo porque Nuck lhe dissera várias vezes que a situação de Duh era urgente e que, o quanto antes terminasse, melhor. Mas ele não estava reclamando do fato de Manon ter revidado. Nunca havia enfrentado um dragão como aquele, e não queria desperdiçar a oportunidade.

Correndo de encontro ao adversário e com a polearm atrás do corpo, ele partiu para mais um ataque — que falhou. Antes que ele chegasse a uma distância próxima o bastante para atacar, Manon o fez.

Contorcendo os músculos das pernas, ele meio que se sentou no chão, e virou o pescoço para longe e para trás. O guerreiro nem percebeu quando o dragão usou o próprio pescoço como taco até a imensa cabeça acertá-lo em cheio, jogando-o na floresta.

Num minuto, ele estava correndo em direção ao dragão — no outro, estava com as costas firmemente encostadas no tronco de uma árvore a consideráveis metros de onde deveria estar. Deu tempo de Davien se erguer, porque Manon não o atacou. Dragões não eram exatamente assassinos, e embora pudessem ser capazes de matar alguém que estivesse simplesmente passando perto deles se estivessem muito irritados, eles normalmente não o faziam. Aquele animal estava apenas protegendo seu território, e não gostava de cadáveres apodrecendo por lá.

Era mais provável que o mais assassino dos dois fosse o homem coberto de gelo.

Davien atacou mirando a garganta do dragão novamente. Manon se esquivou, mas o guerreiro não seria tão óbvio assim. No último instante, ele girou a lâmina para baixo, acompanhando o movimento de esquiva. O golpe atingiu a barriga do dragão de cima pra baixo, arrancando um grande(embora pequeno em comparação com o tamanho do corpo) de pele e carne.

Manon gritou, recuando vários metros. Dali, Davien não pôde deixar de pensar em como ele se parecia com uma enorme e grossa serpente que andava sob dois pés.

Ele ergueu sua polearm à frente bem a tempo: o próximo sopro de fogo veio, ainda mais forte do que antes. O guerreiro quase teve vontade de sorrir diante daquilo — por que o dragão continuava com isso, se sabia que fogo não adiantaria contra a imensa polearm congelada? — quando a imensa criatura surgiu acima dele.

Sabendo que Davien não conseguiria enxergar, Manon cuspira fogo e dera um salto para atacá-lo por cima. A reação surpresa do guerreiro foi rápida: girou a polearm para cima para se proteger, mas não seria o bastante. O dragão estava em pé, seu imenso tamanho permitindo que ficasse com a cabeça vários metros acima do rapaz, abrindo a boca para disparar um jato de fogo que acertaria o guerreiro em cheio — e àquela distância, nenhuma camada de gelo poderia defendê-lo.

Mas ele poderia atacar. Largando a polearm, ele pôs as duas mãos do ventre do dragão, exatamente no lugar onde o corte longo e profundo sangrava, passando para ele a mesma cobertura paralisante de gelo que passara para Arroiz semanas atrás.

Ele nunca conseguiria cobrir o corpo todo, mas só aquele pedaço era o suficiente. O sopro de fogo iminente que acabaria com tudo jamais saiu — em vez disso, ele recuou surpreso e dolorido, o corte agora latejando dez vezes mais. Sem hesitar, Davien pegou a polearm no chão sem nem olhar para ela, ergueu-se e atacou.

Contudo, a rapidez de Manon não tinha sido afetada — e nem sua capacidade de tentar manobras inesperadas. No momento em que Davien saltou, o dragão abaixou o pescoço violentamente como um gato pronto para dar o bote e jogou-se para a frente, ficando embaixo do guerreiro. Usando toda a força do pescoço, das costas e dos pés musculosos, ele ergueu-se com violência, seu pescoço agindo como uma catapulta com força suficiente para jogá-lo centenas de metros no ar.

Com a manobra, Manon jogou a cabeça para trás com toda a força, e Davien cairia a centenas de metros dali. Enquanto o olhava para o céu, porém, o dragão sentiu o chão tremer, se desequilibrou e caiu no chão. Levantando-se, ele olhou surpreso para o guerreiro.

Supostamente, Davien estaria em Mu Lung agora — ou talvez o golpe tivesse feito ele dar uma volta ao redor do mundo e cair novamente ali. Seja como for, o dragão não esperava ver o guerreiro novamente, quanto mais à frente dele, erguendo-se com esforço e preparando-se para levantar a polearm.

Quanto Manon deu aquele ataque, Davien teria sido lançado para longe e quebrado todos os ossos do corpo. Mas foi aí que sua polearm pareceu pesar cem vezes mais até mesmo para o próprio dono. Agindo por vontade própria, ela funcionou como uma âncora que fez a queda durar menos que dez metros.

Davien precisou se segurar com força no cabo da polearm para não ser jogado longe. Mesmo assim, a parada brusca da polearm fez seus braços estalarem, e quando a arma tocou o chão, ele sentiu uma dor intensa na boca — a ponta do chocando-se contra seu rosto por azar, fazendo-o soltar a arma e cair no chão. Mas mesmo assim, ele tinha sido quem sofrera o menor dano. A impacto da polearm fez o solo todo tremer, desequilibrando e derrubando Manon, fazendo-se ouvir um estranho som de algo se partindo e espalhando líquido pelo chão.

-Nunca mais faça isso de novo — Davien disse para a polearm, esfregando o rosto machucado. Ele a pegou novamente, e dessa vez ela estava inocentemente levantável novamente — Certo, você...

Ele parou ao perceber que o dragão não estava olhando para ele. Já estava de pé novamente, olhando algum ponto à esquerda do rapaz com os olhos amarelos, que agora estavam muito escuros. Havia algo estranho naquele olhar, era como se fosse...

Devagar, Davien se virou para ver o que ele olhava, e logo descobriu as duas coisas que haviam se quebrado com o impacto da polearm.

Antes grande como uma rocha, o ovo de Manon agora era nada mais do que um amontoado de pedaços grossos e resistentes de cascas quebradas, no meio de uma poça amarela. Havia uma pequena região de líquido vermelho circundando alguma coisa mole do tamanho de um gato adulto — o bebê dragão que havia nascido meses, talvez anos antes de estar prontamente desenvolvido.

Ouviu-se um leve e baixo rosnado e Davien, pela primeira vez, encarou o rosto de seu adversário com clareza.

A cabeça de Manon era grande, com três chifres brancos e pontudos logo acima dos olhos(que, por pouco, não atingiram Davien quando o dragão colocou o pescoço debaixo dele). Seu focinho era longo e lembrava o de um jacaré, com os dentes brancos finos, afiados e muito bem polidos. Mas naquele momento, a boca estava fechada. As narinas aumentavam e diminuíam conforme ele respirava fundo e seus olhos, dourados e dilatados, encaravam o guerreiro com um ódio que parecia crescer a cada segundo. Davien não percebeu, mas havia algo mais misturado a toda aquela raiva, e não era nenhum brilho de vingança, culpa ou rancor. Era tristeza, profunda e inconcebível.

A segunda coisa que havia se partido tinha sido o coração do dragão.

Repentinamente, Manon investiu, duas vezes mais forte e, dessa vez, determinado a matar o rapaz que destruíra o ovo, ou melhor, matara seu filho que ele cuidava com tanto carinho havia tanto tempo. Ainda com os olhos fixos no guerreiro, ele se abaixou e mirou a pesada cabeça diretamente contra ele e, usando as pernas e as asas, deu o impulso mais acelerado que já dera na vida.

O choque da cabeça dura de Manon, somado a toda a sua fúria, teria jogado o guerreiro longe e o matado antes mesmo que suas costas se chocassem contra alguma coisa a dois quilômetros dali. Mas tudo o que o rapaz fez foi desviar para o lado, mantendo a lâmina ao lado do corpo como se fosse um pano de toureiro. Calculando o momento certo, ele virou a lâmina de modo que o gume ficasse virado diretamente para a cabeça do animal. Manon cabeceou em cheio contra a arma e, por causa da imensa força da investida do dragão, arrancou-lhe um dos chifres.

Ele obviamente sentira uma dor muito grande, mas ignorara. Virou-se rápido como um raio, mas Davien o golpeou na boca. Girando o corpo, o guerreiro desferiu um golpe ao mesmo tempo em que o dragão preparava para investir novamente, atingindo a lateral do pescoço.

Manon se contorceu e conseguiu dar um golpe de cauda em Davien, que novamente usou a polearm como âncora para evitar ser jogado longe. O dragão tentou dar uma mordida, mas o adversário recuou para um lado e o golpeou bem acima dos olhos.

Teoricamente, o golpe deveria ter rachado a cabeça do dragão, mas Davien já havia descoberto que o crânio era a parte mais dura daquele tipo de animal. Tudo o que ele sentiu foi uma tonteira repentina, que impediu que ele se desviasse do próximo ataque: um golpe por cima da cabeça mirando bem na barriga.

Pela primeira vez, Manon usou seus braços, e foi para parar a lâmina bem a tempo. Cada braço segurava um lado da lâmina, e o dragão ignorava a dormência que o gelo lhe causava, empurrando-a para longe do corpo com determinação. Davien se surpreendeu com a força — os braços eram pequenos, mas lutavam firmemente contra uma lâmina cinco vezes maior do que eles.

Davien pensou em puxar a polearm repentinamente para trás e atacar novamente, mas o dragão foi mais rápido. Inesperadamente, ele torceu os braços, virando a lâmina para a esquerda, o que girou Davien também. E então, rangendo os dentes, Manon girou a polearm com toda a força para o lado oposto e Davien, sem conseguir se segurar, foi jogado para longe pela milésima vez.

O guerreiro bateu contra uma árvore e ficou lá por alguns segundos recuperando-se de uma leve concussão. Ele levou um tempo até se levantar, e se perguntou por que o dragão não o havia atacado. Sem conseguir enxergar direito, ele correu aleatoriamente para tentar se desviar de qualquer ataque que viesse — mas não aconteceu nada.

Quando conseguiu recuperar o foco, descobriu o motivo. Manon estava deitado de barriga no chão, ainda segurando a polearm e tentando empurrá-la penosamente. Davien sorriu ao ver a cena. Sua polearm só ficava leve para seu dono, e agora, o dragão estava experimentando a poderosa força que ela tinha sozinha. Ele sabia que ela ficaria mais pesada a cada momento, e Manon terminaria esmagado.

Foi um erro crasso cometido pelo dragão. Como todos os outros parentes de sua espécie, ele era muito inteligente e sabia bem como enfrentar humanos. Mas ele estava cego de fúria pelo que acontecera com o ovo. Cuidara de seu filho com tanto carinho, protegera-o por tanto tempo, e agora tudo aquilo havia sido destruído. Por alguém que ele jamais havia visto na vida. Ele não conseguia pensar com clareza, com a frieza necessária para se vencer um combate como aquele. Na verdade... Manon estava agindo exatamente como Davien agia um tempo atrás: cego de raiva, decidido a impor sua força acima das capacidades do adversário. Infelizmente para ele, Davien já tinha aprendido a lição há muito tempo.

O guerreiro poderia ter simplesmente esperado enquanto a polearm esmagava seu adversário, mas ele não gostava de ver pessoas sofrendo assim — ei, não proteste, Nuck da MinarFic também não é muito parecido com o Nuck real, não é mesmo? — e aquilo também valia para animais. Além disso, o dragão merecia uma luta justa. Mesmo assim, ele não pareceu ter muita pressa ao se mover vagarosamente e erguer a polearm, aliviando o dragão.

Assim que sentiu o peso deixando seu corpo, ele se contorceu para um lado e se jogou contra Davien, empurrando-o novamente. Recebeu um golpe na lateral do corpo como resposta, mas depois preparou outro jato de fogo.

Em circunstâncias normais, Manon teria recuado um pouco para se recuperar, meio que agradecendo pela "ajuda", dando um tempo para o adversário se situar. Mas ele não estava em seu estado normal. Invadir seu território era uma coisa, mas quebrar o ovo de um dragão era algo totalmente diferente. Dragões eram muito apegados a seus filhos, e não punham ovos com frequência. Ele estava lívido de fúria e pensando apenas em punir e matar aquele homem que havia ousado fazer isso com ele.

Mas era justamente essa fúria que estava levando o dragão à destruição. A raiva o impedia de pensar e planejar os ataques com clareza. Ele estava agindo como uma besta irracional, usando sua força e seu fogo para tentar vencer aquela luta — e Davien, totalmente indiferente à quebra do ovo, aproveitava-se do fato.

Rapidamente, Davien ergueu a polearm e deu um golpe por cima como se fosse um martelo, mas o dragão recuou para trás, fazendo a polearm bater no chão poucos metros à frente dele. Com a lâmina no chão e Manon logo à sua frente, Davien levantou a arma levemente e deu uma estocada para a frente.

Não era uma parte cortante, mas a força empurrou o dragão alguns metros para trás. Davien rapidamente girou a polearm para a esquerda como se estivesse remando, levando-a para cima em direção a um golpe certeiro que acertou no centro do peito do dragão.

Manon rugiu de dor e fúria, deitado com a imensa lâmina cravada no peito, enquanto o gelo se espalhava rapidamente pelo seu corpo, cobrindo-o como se fosse uma carapaça. Mas ele não iria desistir tão facilmente. Ele ergueu os pés e jogou a parte de baixo do corpo como se estivesse rolando para trás, o que ergueu Davien no chão. Embora o movimento tivesse feito a lâmina enterrar-se ainda mais profundamente em sua carne, ele conseguiu o que queria: Davien estava a alguns metros no ar acima dele, suspenso no ar pelo cabo da polearm que não soltara. Antes que o guerreiro se desse conta do que ele estava fazendo, foi atingido pela baforada de calor.

Sem poder usar a polearm para se defender, ele contou apenas com o gelo que o "imunizaria" por apenas alguns poucos segundos, antes de ter o bom senso de largar o cabo, caindo em cima da barriga do dragão, o jato de fogo vários metros acima dele. Ele estava para colocar as mãos em algum outro ferimento próximo para atacar com gelo quando Manon, pela segunda vez, usou os braços.

Eles eram curtos e aparentemente inúteis, mas eram também extremamente musculosos e alcançavam o peito. Ele colocou uma das mãos em cada lado da lâmina novamente, e a puxou para fora do próprio corpo. Depois, jogou-a para um lado e torceu o corpo para o outro de forma que Davien, sem conseguir se segurar na pele lisa e escorregadia por causa do sangue, foi jogado novamente por alguns metros.

Ambos ficaram de pé quase ao mesmo tempo, o dragão encontrando-se entre a polearm e Davien. O animal estava ainda mais furioso do que antes, mas agora, estava em um estado deplorável. O chifre acima do olho direito não havia sido quebrado, mas arrancado junto com um pedaço da carne. Sangue escorria de ferimentos no pescoço e na barriga, que só não haviam sido fatais por conta da sua rapidez e porque a pele era dura como aço.

Mas o ferimento no peito havia recebido todo o impacto que a polearm poderia oferecer. O corte era imenso, mas também, aquela era uma área protegida. As costelas grossas e duras do dragão haviam feito muito bem seu trabalho, embora algumas delas estivessem trincadas e a dor fosse imensa.

Ele certamente sentiu dor quando encheu os pulmões de ar, apertando ainda mais as costelas machucadas. Mas seria apenas um sacrifício temporário. Sem a polearm para se defender, o rapaz que viera para causar tão mal finalmente queimaria e pagaria o preço.

E os pensamentos do próprio Davien não eram muitos diferentes dos do dragão.

O sopro de fogo veio novamente, saindo da boca do dragão e ocupando uma área quase do tamanho do animal. Sem opções, Davien só pôde rolar para o lado numa tentativa improvisada de escapar. A boca do dragão também se moveu, acompanhando os movimentos do guerreiro, que foi imediatamente para o lado oposto.

Mas ele não era tão rápido quanto Arroiz, e também estava um pouco gasto depois de tantos golpes. Por isso, é claro que o fogo o atingiu, mas foi apenas por uma fração de segundo — algo que sua cobertura de gelo não teria muito trabalho para conter. Além disso, com o peito machucado daquela maneira, Manon não conseguira soprar com força total. O calor ainda era suficiente para derreter todo o seu set daédrico de Skyrim — mas não a armadura de gelo de dois milímetros de espessura do ex-tutor.

Entretanto, ele não poderia ficar exposto ao fogo por tempo demais, e Manon sabia disso. Ainda continuava parado no mesmo lugar, apenas direcionando seus jatos de fogo, esperando que um deles o atingisse por tempo suficiente. Ou até que ficasse cansado demais de se esquivar e e ele finalmente caísse ao chão. Se isso acontecesse, Manon cessaria o calor e o esmagaria com o próprio pé.

"Taquepariu", pensou, levantando-se rapidamente de um rolamento mal-sucedido e entrando novamente em contato com as chamas. Ele preferia que Manon chegasse perto dele para que pudesse tentar alguma coisa, mas o animal não era nada bobo. Iria apenas continuar disparando as chamas até que o rapaz não conseguisse se desviar.

"Minerva, me ajude" — rezou, em silêncio. Então teve uma idéia. Ele sabia que sua polearm podia agir sozinha, como acontecera minutos antes — mas isso? Era uma idéia inesperada, na verdade, ele nem sabia se ela tinha aquela capacidade. Mas não custaria tentar.

Ele continuou rodeando o dragão, que continuava ficando de frente para Davien — que parou. Agora, sua polearm estava no chão bem atrás do dragão — que estava bem na frente dele com a boca aberta e preparando outro sopro. Sem se mover e arriscando tudo naquela investida, ele ergueu os braços à frente do corpo.

Ele não diria isso a ninguém, e apenas ele mesmo iria saber o que sentiu. Mas, naquele momento, ele estava quase tremendo de medo. Tinha os olhos fechados e os dentes à mostra, o corpo rígido esperando o sopro de fogo que o mataria. Porque, dessa vez, ele não tentaria desviar. Concentraria todas as suas forças na sua arma, sua fiel companheira — e em uma oração silenciosa a Minerva.

Dez segundos se passaram. Vinte. Um minuto...

O coração martelando no peito, Davien abriu os olhos.

O dragão ainda tinha a boca aberta, e ainda olhava para ele. Mas ele estava deitado de barriga no chão, a cauda balançando violentamente. Ele guinchava e grunhia de dor, o pescoço virando para trás à medida que seu corpo afundava, esmagado contra o chão.

Com o medo que estava, Davien nem ouviu quando a polearm pulou e se cravou nas costas de Manon.

Agradecendo silenciosamente à deusa, ele correu para o dragão e tirou a arma de lá. Olhou para ela. Havia saltado do chão e atacado sozinha, mas não parecia nada diferente do que costumava ser, com a lâmina de dois gumes detalhada e brilhante como sempre, apesar de toda suja de sangue. Afastando-se alguns metros, ele olhou para o dragão.

Manon começou a se levantar, vacilante — apenas para receber uma enxurrada de golpes. Ele ainda conseguia se esquivar, mas apenas para evitar ser atingido fatalmente, não estava nem perto da rapidez que havia demonstrado nos minutos anteriores. Davien recuava, atacava, cortava, estocava. Ele não desistiria — infelizmente para Manon, a Collab só seria criada dali a dois meses.

Finalmente, ele recuou, cansado. Ele estava em boa forma, apesar de estar com alguns músculos doloridos depois de tantas quedas e golpes. Erguendo a polearm, ele olhou bem para seu adversário, esperando que reagisse. Mas ele não o fez.

Manon estava caído ao chão, respirando rápida e profundamente pelo nariz. Seu corpo estava coberto de sangue, que começava a formar uma poça ao redor de onde ele estava. Tinha cortes por todo o corpo, sem falar no imenso talho nas costas e do chifre faltando. Sem aguentar mais, ele desabou no chão.

O dragão grunhia e se lamentava. Havia lutado até onde podia, mas estava tão cheio de ferimentos que não aguentava mais. E então, do chão, ele olhou para Davien.

O guerreiro se surpreendeu um pouco com aquilo. Não havia raiva, nem qualquer sinal da fúria incontrolável que ele tinha momentos atrás. Pela primeira vez, Davien viu a dor e a tristeza naqueles olhos. Havia perdido seu filho, e agora, estava surrado e sem conseguir mais resistir à dor que o enlouquecia. Estava acabado. Davien levou mais alguns momentos para entender a súplica, e finalmente, entendeu claramente o que o dragão lhe pedia.

Sem dizer palavra, ele se aproximou, erguendo a polearm acima da cabeça. Ele viu o dragão dar uma última olhada para o ovo quebrado e, então, olhar para ele. Iria morrer encarando aquele que o derrotara com uma última faísca de determinação.

Fez-se um som cortante e metálico quando ele desceu a lâmina da polearm, partindo o pescoço do dragão em dois, logo atrás da nuca. Finalmente, seu sofrimento havia terminado.

Ele teria se esquecido, se não tivesse visto o sangue escorrer vigorosamente pelo pescoço. Ele levou apenas alguns minutos para correr de volta à floresta e pegar os recipientes que havia levado para coletar o sangue. "Tem muito aí", ele pensou. "Se isso não reavivar o Duh, nada mais vai".