Milonga

1 O Diamante Bruto


Essa é a história de como a escolha de uma pessoa, pode mudar o destinos de muitas outras. Minha mãe costumava dizer, que temos sempre que pensar no próximo mas eu, por outro lado, lhes digo sempre que puder, escolha a si mesmo. O rapaz que vou lhes apresentar agora, pode até ser o protagonista deste primeiro ato, mas não é o protagonista da história, mas foi ele quem fez a escolha que mudou tudo.

Pobre Bento, se beleza se colocasse a mesa, seus belos olhos azuis e sua barba para fazer o tornariam quase tão rico quanto o pai da mulher que ele acreditava amar – isto mesmo, anote esta informação meu caro, que ele “acreditava” -- conheceu Bibiana quando ainda eram crianças e tomavam banho no rio escondido de seus pais. Bento era filho de um pescador e Bibiana filha de arrozeiro, um homem poderoso e arrogante.

“Adiantaria em algo eu lhe dizer não Bibiana?” perguntou Helio a filha, que o encarava com os olhos escuros e enraivecidos e os punhos cerrados.

“Tu que sabes meu pai, te digo apenas que meu coração tem dono e não terei amor a outro se não a ele” ela bateu o pé.

“Pois bem guri, venha até aqui” fez sinal como quem chama para que Bento se sentasse a mesa. “Sustentei minha guria desde de seu nascimento e até hoje...”

“Pai não comece com isto de novo...” interrompeu Bibiana.

“Bibiana respeita teu pai...” Bento a encarou.

“Como estava dizendo, dei a ela do bom e do melhor, vai ser estudada, ter uma profissão... não importa a mim de quem tu é filho ou onde tu vive, mas me importa com quem minha filha vai casar e onde ela vai viver. Por isso te digo tua sina, te dou a mão de minha caçula Bibiana em casamento se fores capaz de levantar uma quantia que corresponde ao valor de dez porcento de tudo que tenho e então, só então, confio a ti o tesouro que é minha guria.” Concluiu Hélio.

...

“Tu não vais Bento!” Bibiana bateu o pé “meu pai estaloquiando se acha que vou concordar com isto!”

“Mas por favor Bibiana! Não tens que concordar, arrecem ouviu teu pai dizer tudo que disse e outra esta é a oportunidade de nossa vida. Não tiro Hélio para louco, esta mais que certo!” ele colocou o chapéu na cabeça.

“Tu não vais!” os olhos castanhos de Bibiana encheram-se de lagrimas.

“Diz pra mim, prenda minha, o que te incomoda?” ele colocou o rosto de sua amada em suas mãos “É pouco tempo, é um garimpo recém descoberto e tem muito ouro, logo estou de volta e vamos fazer vários guris para perturbarem teu pai”.

“Uma vez li sobre um homem de sobrenome Garibaldi, ele tinha em suas mãos a alma e o coração da sobrinha de Bento Gonçalves e ela o amou com tudo que tinha, mas quando ele foi a guerra não retornou para ela. Ele nunca voltou.” ela olhou fundo nos olhos de Bento “Tenho medo que não retornes para mim Bento, medo de amares outra ou de teres outras. Chinas ou que for. Tenho medo de perder-te.”

“Acontece minha guria, que tu se chamaBibiana e eu Bento. Eu te amei toda minha juventude, o que neste mundo inteiro faria que não te visse como a pedra mais rara que já encontrei?” Bento secou as lagrimas de Bibiana. “Um ano passa rápido e mais que isso, vou escrever te todo o tempo e não haverão chinas, pois a corpo nenhum além do teu esta meu desejo. Amo te Bibiana e ainda volto para ti.”

Sobe a vigia de um dos homens de Hélio, Bento deu um beijo delicado e disfarçado na testa de Bibiana, subiu no cavalo tomou o caminho do Rio Uruguai para despedir-se dos pais. Olhou para trás uma ultima vez e então seguiu seu caminho com a bela imagem de sua noiva, com o cabelo na altura dos ombros, olhos castanhos escuros e carregados pelas olheiras e inchaços provindos de suas noites de despedidas.

“Bibiana, entre...”chamou Hélio.

“Ele me disse que sou a pedra mais rara que já encontrou” ela segurou a mão do pai como quem busca um apoio, ou mesmo, folego para voltar a vida.

“Então não te preocupes guria, ele volta e então dou tua mão a ele e todo o resto” Hélio tentou arrancar um sorriso de sua filha.

Primeira Carta de Bento para Bibiana

Minha guria a cada dia que trabalho é um dia a menos que conto para estar em teus braços. A lembrança de teu perfume, da delicadeza de suas mãos e da pureza em seus olhos aquece meu coração.

Volto a afirmar-te que não há mulher neste mundo que seja rara como tu e estes dois meses seriam um verdadeiro terror se eu não lembrasse que é para ti que vou retornar.

Fica com Deus e cuida-te! Te amo!

“Bibiana precisa se acalmar, logo logo Bento volta” Cecilia, sua irmã mais velha, apertou suas mãos enquanto se sentava na cama junto a Bibiana.

“Não tenho mais tempo Cecilia, não tenho mais! Se Bento não volta logo, capaz de não me encontrar com vida quando retornar.”

“Não diga bobagens Bibiana” advertiu a irmã.

“Você não entende, preciso que ele volte ou vou eu mesma até ele.” então tudo pareceu muito claro a Cecilia e ela soube o que deveria fazer.

Primeira carta de Bibiana para Bento

Amado de meu coração, tenho uma noticia para ti, amanhã estou de mudança para cidade de Santa Maria. Volto a estudar e espero que voltes a tempo de minha formatura, tens pouco mais de dois anos. Mas se puderes voltar antes, amanhã se puderes, quero-te de volta.

O inverno chegou e o frio me aperta o peito, pois não te tenho comigo para aconchegar-me e me esquentar. Mas me sinto completa, mesmo a distancia, sabendo que teu coração é meu.

Que o Senhor te guie e que retornes meu amor, te amo!

...

Mas Bento, Hélio, Cecilia ou qualquer outra pessoa, que tivesse dito a Bibiana que o tempo passava rápido e que logo ela estaria novamente com seu amado, estava enganado. Ela estava certa. Bento demorou para Norte e os anos passaram, as cartas nunca diminuíram, mas a esperança de Bibiana Minguava a cada dia.

Dizem que as mulheres sabem quando são amadas, quando são traídas, quando são engadas ou quando alguém as deixa de amar, não sei todas, mas Bibiana sentiu quando leu aquela carta. Sentiu no peito, um aperto, um sufoco e ficou como um grito contido naquela noite de inverno próxima ao terceiro ano desde a partida de Bento que ela o tinha perdido.

Minha querida Bibiana, sei que prometi retornar para ti em menos de um ano, mas confesso que ambiciei muito mais que 10% de teu pai. Por isso passei os últimos quase três anos trabalhando a cada minuto e pensando em ti a cada segundo.

Estou retornando para você, para termos nossa vida e para ver correr por ai nossos meninos. Retorno como muito mais que o que teu pai impôs e com tanta saudade tua que contarei as horas para te ter em meus braços.

Te amo!

Não havia nem mesmo uma só pessoa que Bibiana tivesse questionado, que não tinha dito a ela que a carta deixava bem claro que ele ainda a amava, mas ela viu e foi nos pequenos “você, meninos e querida” que ela enxergou que o sentimento de Bento poderia até não ser diferentes, mas ele havia mudado.

...

Na noite que chegara ao Rio Grande do Sul nas mãos da jovem Bibiana a última carta de Bento, lá no Norte do país, o rapaz que agora não se parecia nem um pouco com o jovem que havia chegado três anos antes aceitou, em uma rara ocasião, ir a casa de uma família que havia chegado recentemente ao garimpo e comemorava o aniversário de dois anos da neta do chefe da casa.

Percebeu logo que chegou ao quintal, que apesar de muito simples, a casa era muito bem organizada e zelada, tinha uma bela horta no quintal e a cera vermelha usada no chão parecia reluzir a luz da única lâmpada que estava posicionada na sala sem móveis. Do lado de fora, no quintal, havia uma mesa feita com restos de madeira e um belo fogão a lenha. Na mesa foram colocados alguns doces e um bolo com uma vela branca comum no meio, não se parecia nenhum pouco com as festas que ele havia frequentado na casa de sua noiva.

Tudo era tão simples, mas parecia que todo amor do mundo se encontrava ali. Principalmente quando ele bateu os olhos naquela meninha vestida com um vestido vermelho que lhe parecia comprido demais, mas que ela parecia estar encantada, não devia ter mais que dois anos e andava segurando a barra para que não ficasse suja de terra. Passou cumprimentando um a um os convidados e até os intrusos que ali estavam até chegar em Bento.

“Olá mocinha, estou vendo que é teu aniversário, qual o teu nome?” ele perguntou a ela.

“Lalane” ela respondeu e caiu na risada.

“Leilane moço, e é o aniversario dela sim!” respondeu uma mulher ao lado, mas Bento estava ocupado demais prestando atenção na menininha que girava e girava o vestido dando risada para ele.

Naquele momento Bento percebeu que sentia por aquela criança o que nunca antes sentira por ninguém, não se tratava de amor físico — nãonão longe disso, Bento nunca olharia dessa forma para uma criança -- mas se tratava de proteção, era como se ela fosse uma luz em meio aos três anos de escuridão, um pingo de inocência em meio a um lugar cheio de ladrões e gente do pior caráter. Havia presenciado todo tipo de maldade nos últimos três anos e passara a duvidar que o homem fosse capaz de coisas boas ou que ele veria outra vez coisas boas nos homens, mas olhando para aquela criança lembrou-se de sua infância, que mesmo cheia de privações havia sido memorável, e lembrou-se dos filhos que gostaria de ter. Queria que aquela menina fosse sua filha, que ele pudesse lhe dar muitos vestidos vermelhos que lhe servissem de verdade e que ela tivesse uma grande festa como as que tinha visto na casa de Bibiana, que ela pudesse rodopiar e correr em sua direção chamando “Papai papai!” e dar risadas e mais risadas. Bento nunca esqueceu aquele momento, o momento em que se tornou pai.

E quando menos esperava sentiu um toque nos ombros, há muito sentia um toque daquele ou talvez nunca tivesse sentido. Sabia que era uma mão feminina, mas podia sentir a textura dos calos de quem muito já tinha trabalhado, virou-se num susto e deparou-se com o inimaginável. A moça a sua frente tinha belos olhos pretos como a fruta que a pouco tinha conhecido como jabuticaba, um pele negra que reluzia e cachos lhe cobriam as costas até a altura da cintura. Ficou assustado que tamanha beleza pudesse ser encontrada ali, não uma joia rara, um verdadeiro diamante bruto.

“Boa noite moço, a menina ta incomodando ta? Eu sou a mãe dela, Josieli.” Ela estendeu a mão.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.