Milonga
1 Vamos falar de solidão
Notas iniciais
Mas diz por que chegou a hora
Agora que eu venci meu medo
Te peguei pelos dedos
Pra dançar enquanto o sol demora
Kirishima estava com o olhar focado no mesmo ponto do tapete de sua sala há uns bons dez minutos, mas sua mente não estava ali. Estava perdido em pensamentos e lembranças de um passado nem tão distante, onde ele havia atingido o máximo de felicidade que ele achava ser possível na vida, onde ele se sentia voando no céu estrelado… e de repente caiu. Sem paraquedas, sem saber voar, sem saber o que fazer pra amenizar a sua queda. Apenas caiu.
Há duas semana atrás, estava distribuindo sorrisos por aí, comemorando o primeiro aniversário de namoro com Uraraka e se sentindo a pessoa mais sortuda da face da Terra. Namorar com a controladora da gravidade era como estar em constante êxtase, sempre de bem com a vida. Ele sentia que sempre havia algo novo a descobrir sobre ela e vice-versa, apesar de se conhecerem há anos.
Os dias passavam mais rápido do que ele gostaria, quando estava com ela, fosse ficando na casa de um dos dois fazendo nada, fosse pra conseguirem marcar uma viagem juntos, ou fosse para apenas almoçarem juntos após uma patrulha matutina… Dizem que o tempo voa quando a gente se diverte, e ele não poderia concordar mais. Os últimos dois anos haviam passado numa velocidade muito superior ao que ele gostaria. Na verdade, talvez ele gostaria que tivesse criado coragem mais cedo para ir se declarar para Uraraka, ao invés de enrolar o terceiro ano inteiro.
Bem, na verdade mesmo, se pudesse desejar alguma coisa, seria que ainda estivessem juntos. Queria ainda poder sentir seu cheiro, ouvir sua risada escandalosa e jantarem juntos. Queria ainda poder falar as coisas românticas que ela gostava, morder o pescoço dela de brincadeira e acabar com tudo no quarto — ou ali na sala mesmo, ou no banheiro, ou até na mesa da cozinha. Queria ainda poder ouví-la o chamando manhosa, acordar com ela em seus braços e dizer que a amava todos os dias antes de ir para a agência e antes de dormir, sem falta. Daria tudo para poder estar com ela ali, apoiada em seu peito, enquanto assistiam algum programa bobo e conversavam sobre tudo que pudessem imaginar.
Mas a gente sem sempre tem tudo o que quer.
Eu não quero lembrar que eu vou acordar
Sabendo que meus olhos não vão te encontrar
Eu não quero lembrar que tudo acabou pra mim
As lembranças boas logo eram preenchidas pelas novas lembranças ruins, das duas últimas semanas. A proposta que Ochako recebeu em outra agência, em outro país, na semana da comemoração de aniversário deles. O quanto eles conversaram e, pela primeira vez em anos que se conhecem, brigaram. O quanto ele sabia que estava sendo egoísta em dizer que ela não podia ir e o deixar, mas não conseguia evitar. E em como ela apenas murmurou um pedido de desculpas e disse que era a oportunidade da vida dela.
Ele sabia que era. Se fosse o contrário, ela provavelmente o incentivaria muito a aceitar a proposta, mesmo que significasse o fim do relacionamento deles. Mas nem assim ele conseguia deixar de chorar ao pensar nisso.
E, por isso, lá estava Eijirou sozinho em sua casa, em uma folga que a agência o obrigou a tirar, pois estava distraído ultimamente e isso comprometia o seu trabalho. Tinha sorte de FatGum ser um chefe deveras compreensivo com essas questões e lhe dar o espaço e tempo necessários para sua recuperação. "Mente sã, corpo são", é o que ele tinha dito. Era obrigado a concordar, pois sabia que os piores dias era quando tinha que passar perto de onde ela morava para ir para alguma situação de emergência, não conseguindo evitar ficar parado um bom tempo em frente ao prédio dela, pensando se as coisas ainda eram as mesmas ou se uma nova pessoa já havia ocupado o espaço.
A folga foi o jeito que conseguiram achar para tentar amenizar a situação, porém ninguém pensou em como ele se sentia pior em casa. Cada canto daquele lugar tinha uma lembrança dela, e ele às vezes jurava que conseguia sentir seu cheiro também, se fechasse bem os olhos. Seu coração doía a cada batida e o silêncio era ensurdecedor, fazendo com que sua mente viajasse para o momento específico em que ela saiu da casa dele. Os dois choravam, os dois estavam quebrados, os dois tinham carreiras e uma vida toda pela frente, que ele esperava que fossem passar juntos… Mas apenas ela havia recebido a chance de sua vida, a que mudaria tudo e a colocaria no Top 10 em um piscar de olhos.
E, para ele, havia restado apenas ficar por ali, ao menos por enquanto. O que lhe consolava era que poderia vê-la pela televisão de vez em quando, mas nem sabia se gostaria disso — ao menos não por enquanto.
Quem sabe ela voltava um dia? Ela ainda o amaria? Ele estaria a esperando? Seu coração dizia fortemente que sim, que nunca encontraria alguém como Uraraka Ochako e que nunca esqueceria do seu primeiro amor. Ele nem sabia se isso era bom ou ruim, só esperava que acontecesse o que todos diziam: o tempo curar tudo.
Eijirou não sabia há quanto tempo estava ali, mas a luz da sala diminuía conforme o sol se punha. A contragosto e com um esforço maior do que imaginava, se obrigou a engolir qualquer coisa que encontrou na geladeira e depois se jogou na cama de seu quarto, nem tão aconchegante quanto era antes.
E relembrando tudo de novo, caiu num sono profundo, sonhando com o dia que Ochako e ele pudessem se reencontrar.
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