Millennium Odyssey: Gagaku das Pétalas Douradas
3 Ninho de ratos
O trio está reunido em um quarto velho, iluminado pelo sol.
Momotarō solta um longo bocejo e se espreguiça. "Hah… Cacete, cara... Não dava pra ser mais tarde ?"
"Aconteceu alguma coisa, Haruto ?" — Claude pergunta.
"Hora de começarmos a atacar." — Haruto diz.
A kunoichi fica extremamente animada com essa notícia. "Isso ! Finalmente ! Sangue ! Carnificina ! Uhuuu !"
"Não exatamente." — Haruto diz.
"Qual é ! Cê não pode só mandar uma dessas assim, do nada !" — Momotarō diz, brava.
"Eu concordo com aquilo que a gente tava conversando sobre, carinha. E consegui uma oportunidade." — Haruto diz.
"Tão conversando escondido de mim ?! Cês são uns amigos, hein !" — Momotarō diz.
"Talvez desse pra conversarmos juntos, se você não decidisse fazer o que quiser, quando quiser !" — Haruto reclama.
"Eu sou dona do meu próprio nariz, moro ?!" — Momotarō diz.
Claude solta um suspiro. "Parem de brigar, por favor."
"Enfim. Pra quem NÃO TAVA AQUI, nós estávamos conversando sobre destruir o imperador aos poucos, em vez de simplesmente chegar em Onigashima e destruir o palácio inteiro." — Haruto diz.
"Ideia ruim. Muito pouco sangue e bateção de cabeça." — Momotarō diz.
"Que informação você conseguiu ?" — Claude pergunta, ignorando sua amiga.
"Descobri uma prisão/centro de fabricação de armas aqui em Muramori." — Haruto diz.
"Um centro de fabricação de armas..." — Claude diz.
"Se chama Nezuminosu. Fabricam espadas, escudos, lanças, machados, arcos, armaduras, e por aí vai." — Haruto diz. "Aparentemente, de todos os lugares que fazem isso, eles são um dos mais produtivos. Sequestram ferreiros e obrigam eles a fazerem armas e ensinarem os escravos a fazerem também."
"Isso é terrível." — Claude diz.
"Isso é ótimo !" — Momotarō diz. "Lá tem gente com sede de sangue e vingança. Não tem aliado melhor."
"Na verdade, isso é um bom ponto. Se conseguirmos parar a produção de armas e libertarmos os escravos, o exército sofrerá uma boa perda de recursos, e teremos mais aliados." — Claude diz.
"Como é que cê descobre umas coisas dessas ?" — Momotarō pergunta.
"Sequestraram o marido da Saeko, enquanto eu estava em Onigashima." — Haruto diz.
"Saeko é aquela esquisita que vende flor, né ?" — Momotarō pergunta, incerta.
Claude concorda. "Senhorita Saeko vende flores por onde passa. São cheirosas e agradáveis. Comprei algumas de presente para Rosaria e mamãe. Gostaria de algumas, Momo ?"
"Nah. Odeio flor. Me dá carne, e a gente tá quite." — Momotarō diz.
"Alguém te contou como podemos chegar lá ?" — Claude pergunta.
"Não. Ninguém faz a mínima ideia de onde fica isso." — Haruto diz.
"Tá de brincadeira ! É tu quer chegar lá como, idiota ?!" — Momotarō pergunta.
Haruto pega uma concha espiral verde de seu bolso. "Com isso aqui~"
"Perdão, mas não sei como uma concha nos ajudaria." — Claude diz.
"É a concha dum Mamushi. Dá pra falar por essas coisas." — Momotarō diz.
Claude se impressiona. "S-Sério !?"
"Quanto maior, mais longe vai, e vice e versa." — Haruto diz.
"O problema é que qualquer concha que tiver perto consegue ouvir." — Momotarō diz.
"Eu vou assumir que o inimigo possui uma dessas." — Claude diz.
"Todos os soldados têm uma concha Mamushi com eles. É por isso que são extremamente proibidas. Dá pra escutar as conversas deles." — Haruto diz. "Se te pegam com uma dessas, é morte na hora."
"Quanto mais coisas ouço sobre esse imperador, menos penso que existe algum tipo de salvação para ele." — Claude diz.
"Nem esquenta essa cachola. Não tem nenhuma." — Momotarō diz.
"Meu plano é o seguinte: vamos usar essa concha para achar Nezuminosu, eu vou entrar escondido, descobrir como o lugar funciona por dentro, ganhar a confiança de todo mundo e assegurar uma rota de fuga." — Haruto diz. "Depois disso, começou uma rebelião e é aí que vocês entram e ajudam a salvar o pessoal."
Momotarō levanta uma sobrancelha. "Cê não pensou direito nisso, né ?"
"Claro que pensei ! Passei a noite inteira acordado pensando nisso !" — Haruto reclama.
"E cê acha que eles não conhecem tua cara ?" — Momotarō pergunta.
"Eu me disfarço." — Haruto diz.
"E vai disfarçar esse troço grudado em você como ? Acha mesmo que ninguém vai te revistar ?" — Momotarō pergunta.
"Isso é verdade…" — Haruto diz. "Mas eu sou o único que sabe como forjar armas aqui."
"Hmm… Talvez eu possa entrar." — Claude diz.
"Tira teu cavalinho da chuva ! Não vou deixar eles encostarem em você, pivete !" — Momotarō diz.
"Agradeço a preocupação, mas consigo cuidar de mim mesmo em uma luta." — Claude diz. "Pode não parecer, mas eu dominei quatorze estilos de combate diferentes, incluindo corpo a corpo, à média e longa distância, e também sou capaz de usar diversos estilos de armas."
"Eu não duvido nem um pouquinho disso, carinha. Mas é muito perigoso. Você ainda é só uma criança, e se aqueles caras descobrirem, vão acabar te matando. E a gente não vai estar perto pra te proteger." — Haruto diz.
"Com todo respeito, eu não me importo com a opinião de vocês." — Claude diz. "Sei que só querem meu bem, e sei muito bem das consequências dos meus atos. Mas isso não é desculpa para simplesmente ignorar o sofrimento de um povo batalhador e inocente. Todas as opções são válidas, quando se trata de garantir a segurança daqueles que não podem se proteger. Sou apenas um estrangeiro em um país completamente desconhecido, e nada disso tem haver comigo, fora daqui, e sei que ainda não conquistei sua confiança, mas eu imploro…" — O príncipe pega a mão de seus dois amigos e olha profundamente nos olhos deles com seriedade e determinação. "…apenas dessa vez, confiem em mim."
A kunoichi cruza seus braços. "Tch. Tanto faz."
"Aw~ Ela tá preocupada com amiguinho dela~" — Haruto diz, zombando de sua amiga.
"É claro que eu tô, seu cuzão de merda !" — Momotarō diz, brava. Ela solta um suspiro, se acalmando. "Cê promete que vai ficar legal, né ?"
O jovem príncipe sorri. "Muito obrigado pela confiança. E eu jamais quebraria uma promessa."
"Conta aí, qual seu plano ?" — Haruto pergunta.
"Na verdade, é bem simples…" — Claude diz.
Algum tempo depois. Os três estão escondidos em uma moita. Claude está vestindo roupas velhas e sujas.
"Duvido que isso vá funcionar." — Haruto diz.
"Tem de funcionar." — Claude diz.
Dois guardas passam por um caminho de terra.
"Diazinho chato." — O primeiro guarda diz.
"Melhor do que ficar naquele lugarzinho de merda." — O segundo guarda diz. "Odeio ouvir aqueles bostas reclamando e todo aquele barulho de ferro batendo."
"Eu também, cara." — O primeiro guarda diz.
"Chegou minha hora." — Claude diz. "Vocês lembram de suas partes ?"
Haruto e Momotarō confirmam com um jóinha.
O príncipe respira fundo, se concentra e pula da moita, correndo na direção dos guardas. "Não ! Não ! Não !"
"Volta aqui, pivete !" — Momotarō diz.
"A gente vai pegar você !" — Haruto diz.
Claude se joga nos guardas.
"Ugh ! Que merda é essa, desgraçado ?!" — O primeiro guarda pergunta, bravo.
"E-Eu não vou deixar aquelas pessoas do mal me pegarem ! Estão tentando me sequestrar para me levarem para um lugar assustador, só porque eu queria melhorar minhas técnicas de ferraria !" — Claude diz, desesperando.
Os guardas se olham.
"Ah, é ? Não se preocupa. A gente te leva pra um lugar seguro." — O segundo guarda diz.
"M-Muito obrigado, senhores guardas !" — Claude diz.
Os dois começam a levar Claude embora.
"E não é que deu certo." — Haruto diz.
"Vamo ver por quanto tempo, né." — Momotarō diz.
Claude acorda no chão de uma cela de pedra com barras e uma porta de ferro o prendendo. Seus braços e pernas estão acorrentados. Ele se levanta e põe a mão em sua cabeça. "Ugh… Onde estou... ?"
"T… Tudo bem com você... ?" — ??? pergunta.
O príncipe se vira. No canto de sua cela, está uma garota com cabelos negros como a noite amarrados em maria-chiquinha, olhos vermelhos penetrantes, como rubis, algumas escamas também negras espalhadas por seus braços, pernas e rosto, dois longos bigodes também negros em seu rosto e uma longa cauda de peixe com, novamente, escamas negras, vestindo apenas um vestido feito de trapos e também acorrentada.
"N-Não se preocupe ! Eu sou inofensiva !" — A garota diz, um pouco desesperada.
"Uh… Tudo bem." — Claude diz, estranhando a garota. "Meu nome é Claude Esdeath. Qual o seu ?"
"Mao Kurokawa." — A garota diz. "Dá pra ver que você me acha esquisita. Mas eu prometo que sou bem legal."
O príncipe começa a disfarçar. "N-Não ! Eu só, uh… É, confesso que é a primeira vez que vejo alguém desta maneira."
"Bom, não existem Korgens marinhos, então fica meio óbvio que sou metade Wrath." — Mao diz. "S-Se tiver algum problema com isso, eu posso virar para a parede."
"N-Não precisa disso ! N-Na verdade, acho você fofinha…" — Claude diz, um pouco envergonhado.
Mao também se envergonha. "Oh… Essa é, uh, a primeira vez que alguém me diz isso…"
Os dois ficam em um silêncio constrangedor, disfarçando seus olhares.
O príncipe limpa sua garganta. "Então… você sabe onde estamos ?"
"Infelizmente, você é mais uma vítima do Nezuminosu. Sinto muito ter de dizer isso." — Mao diz, triste.
Claude solta um suspiro, aliviado. "Que bom que deu certo..."
Mao estranha a tranquilidade de seu companheiro de cela. "Ninguém ficaria feliz de estar aqui."
"Digamos que eu tenha certos motivos." — Claude diz. Ele olha para os lados e tenta se aproximar de Mao, mas acaba tropeçando por causa das corrente. "Ugh ! Oh… Estou acorrentado."
"Com o tempo, você acostuma." — Mao diz.
O príncipe se levanta novamente, caminha para perto de sua colega e sussurra. "Você sabe se estamos sendo vigiados ?"
"N-Não estamos. E, p-por favor, não se aproxime assim." — Mao diz, envergonhada.
Claude se afasta um pouco da garota. "Perdão. Eu precisava apenas garantir nossa privacidade. Tem mesmo certeza de que estamos à sós ?"
A jovem concorda. "As paredes são grossas demais, ninguém consegue ouvir uma conversa por elas. Além disso, os guardas passam por cada cela de uma em uma hora. Passaram aqui há sete minutos, vinte e dois segundos, trinta e sete milésimos, e contando. Essa é a cela quarenta e nove. Nesse exato momento, ele tá passando pela cela cinquenta e três desse círculo."
O príncipe inclina sua cabeça, confuso.
"A-Ah ! Desculpa ! É que eu tô tão acostumada a não ter gente comigo, que esqueci que as pessoas não entendem minha maluquice." — Mao diz.
"Isso não foi maluquice ! Isso foi incrível !" — Claude diz, impressionado.
"V-Você achou ? Todos os meus outros colegas de cela me disseram que eu era maluca, esquisita e me mandavam calar a boca." — Mao diz.
"Como consegue fazer essas coisas ?" — Claude pergunta.
"Bom, eu tô aqui há dois anos e alguns meses. Você também aprende a contar o tempo, quando não tem nada melhor pra fazer." — Mao diz.
O príncipe se espanta. "Dois anos !?"
"Pois é. Já fazem dois anos que eu vim parar aqui…" — Mao diz, triste. "Já tive vários colegas nessa cela, mas eles acabaram morrendo por algum acidente, por ficarem cansados demais ou se mataram. Depois de um tempo, nada te surpreende..."
"Sinto muito que tenha passado por isso." — Claude diz, triste. "Se me permite perguntar, como acabou sendo pega ?"
"…Eu prefiro não responder essa pergunta." — Mao diz.
"Tudo bem. Respeito suas escolhas." — Claude diz.
"É uma coisa que só eu consigo fazer, na verdade." — Mao diz. Ela aponta para seus longos bigodes. "Meus bigodes são sensíveis. Quando encosto eles no chão, consigo sentir os movimentos das coisas. Quanto mais perto, mais forte."
"Você tem várias surpresas incríveis." — Claude diz.
"Obrigada..." — Mao diz. "Mas não é só isso. Graças a eles, eu descobri o segredo de Nezuminosu."
"Segredo de Nezuminosu ?" — Claude pergunta.
A garota concorda. "Todos sabem que esse lugar tem nove círculos, mas ninguém sabe a verdade sobre ele, o motivo de não conseguirem escapar ou o por que de você ser desmaiado, antes de vir pra cá."
"Eu preciso muito saber disso." — Claude diz.
"Nezuminosu é uma torre. Mas ela não é impossível de escapar porque tem diversos guardas por todos os lados, ou porque é gigante. Nezuminosu é impossível de se escapar porque…" — Mao diz, dando uma pausa dramática.
"Porque… ?" — Claude diz.
"Porque estamos DENTRO do oceano." — Mao diz.
"E-Eh !? Dentro do oceano !?" — Claude pergunta, surpreso.
Mao concorda. "Com os meus bigodes, às vezes, eu sinto os peixes baterem no lado de fora das paredes. É bem leve, mas dá pra sentir."
"Debaixo do oceano…" — Claude murmura para si.
"Eu também fiquei assim, quando descobri." — Mao diz.
"Mao… Só para que eu realmente tenha garantia, você tem a total certeza de que ninguém está nos ouvindo ?" — Claude pergunta, sério.
"Completa. Com toda certeza. Mais do que eu sempre tive." — Mao diz.
"Posso confiar em você ?" — Claude pergunta.
"B-Bom, nós acabamos de nos conhecer. Mas eu não te odeio. Então somos amigos." — Mao diz. "I-Isso é, só se você quiser !"
O príncipe sorri. "Você é uma garota maravilhosa. É claro que eu gostaria de ser seu amigo. Seria uma honra."
Mao se anima e um sorriso inocente de felicidade toma seu rosto. "Eba ! Finalmente achei um companheiro de cela que não me odeia ou me acha nojenta ! Eu vou adorar conversar com você sobre as coisas fora daqui na minha época e como ela estão agora. Nós vamos poder contar segredos um para o outro. Brincar. E várias outras coisas que companheiros de cela."
"Eu vou adorar fazer essas coisas com você. Mas em outra hora." — Claude diz.
"Não se preocupa. Temos algumas horas, antes de abrirem as celas." — Mao diz.
"Não foi isso que eu quis dizer." — Claude diz. Ele olha profundamente nos olhos de sua colega e sorri. "Nós vamos poder fazer tudo isso quando sairmos daqui."
O sorriso no rosto da garota vai lentamente desaparecendo, se tornando uma expressão de tristeza. "Desculpa, mas eu não vou sair daqui, por enquanto."
"Por que não ? Tenho certeza que gostaria de voltar para a superfície." — Claude diz, confuso.
"Eu… Sinto muito, Claude. Sinto muito mesmo. Mas não posso…" — Mao diz.
"Haruto tinha razão. Ele me disse que talvez as pessoas teriam medo de sair daqui." — Claude pensa. "Hmm… Agora seria uma boa hora para mencionar aquele nome." — Ele segura a mão de Mao e olha nos olhos dela. "Os Bainhas Carmesim estão voltando."
Mao puxa sua mão e se espanta.
"Então é realmente um nome conhecido…" — Claude pensa.
"I-Isso é impossível !" — Mao diz, assustada.
"Se me explicar o que é isso, eu te explico como sei disso." — Claude diz.
"Você mencionou um nome que nem sabe o que significa ?" — Mao pergunta.
"Como eu disse, se me explicar o que é, digo como sei disso." — Claude diz.
Mao pondera, por alguns segundos. Ela chega à uma conclusão. "Certo. Mas você promete que vai me contar, né ?"
"Eu jamais quebraria uma promessa." — Claude diz. "Além disso, somos amigos."
"Os Bainhas Carmesim foram um grupo de samurais e ferreiros que se juntaram para destronar Shuten-Dōji. Eles foram liderados por um dos melhores ferreiros de toda Bastion Spei: Musubi Hoshikawa." — Mao diz. "Infelizmente, um traidor contou tudo para o imperador, e, um por um, os membros foram caçados e mortos, incluindo Musubi e toda a família dele, e o traidor foi jogado aqui dentro. Bom, Haruto, o filho dele, conseguiu sobreviver. Eu estava lá, quando começaram a tortura. Era só uma criancinha. O problema é que ninguém nunca mais viu Haruto. Então, todo mundo perdeu as esperanças…"
"Eu não fazia ideia do quão importante esse nome era..." — Claude diz.
"Agora é sua vez. Você prometeu que ia me dizer." — Mao diz.
"Não é uma mentira. Os Bainhas Carmesim estão realmente voltando. Eu sou um amigo do Haruto, e vim aqui para libertar todo mundo." — Claude diz. "Nós queremos salvar e juntar o máximo de pessoas que conseguirmos para terminar de uma vez com o reinado daquele tirano."
"Eu… não acredito em você." — Mao diz. "Haruto desapareceu há cinco anos atrás. E nunca mais foi visto. Não tem como ele simplesmente aparecer assim, do nada, e começar uma revolução."
"Não estou mentindo." — Claude diz. Ele começa a mexer em seu cabelo e tira uma das escamas douradas de Haruto. "Neste exato momento, ele está usando isso para me procurar. Assim que descobrir a localização de Nezuminosu, vai começar a mandar um código secreto pelas conchas de Mamushi. Eu tenho três dias para responder. Caso não faça, vão invadir aqui e matar todos."
"…Eu… Eu não acredito nisso…" — Mao diz, em choque.
"Juro que estou falando a verdade. Eu te prometi." — Claude diz.
"Não, eu acredito em você. É só que…" — Mao diz, se interrompendo. Ela começa a respirar fundo, para segurar suas lágrimas. "Tudo bem… Eu consigo me segurar… Hah… Tô legal…"
"Tem mesmo certeza ?" — Claude pergunta.
"Total. É só que, depois de tantos anos, ouvir uma notícia dessas…" — Mao diz.
"Eu preciso da sua ajuda, Mao. Preciso saber todas as informações que você tem sobre esse lugar. Tudo mesmo." — Claude diz. "Sei que estou exigindo demais, mas realmente preciso da sua ajuda."
"Certo. Eu vou te ajudar com qualquer coisa que precisar." — Mao diz. "Ainda temos alguns minutos até o guarda passar por aqui."
"Como é a estrutura do local ?" — Claude pergunta.
"Como eu já disse, é uma torre. Mas não exatamente." — Mao diz. "Na verdade, são nove círculos, um em cima do outro, formando meio que uma espiral crescente de baixo para cima."
"Uma espiral ? Isso é uma surpresa." — Claude diz.
"Pois é. Só um maluco ia pensar em fazer isso." — Mao diz. "Enfim, os nove círculos têm até nome. De baixo pra cima, são: Limbo, Luxúria, Gula, Ganância, Ira, Heresia, Violência, Fraude, e, por último mas não menos importante, Traição. Nós dois estamos em Limbo, o círculo mais baixo."
"Deve existir alguma maneira de subir, não ?" — Claude diz, pensativo.
"Cada círculo tem duas escadarias que estão cheias de guardas protegendo elas." — Mao diz.
"Ótimo. Assim, posso garantir uma rota de fuga para os prisioneiros." — Claude diz.
"Existe um jeito melhor." — Mao diz. "Na verdade, eu sou de Luxúria, não Limbo. Lá, ouvi um boato de que existem rotas de fuga secretas para os guardas escaparem, que levam direto à superfície. Meus bigodes descobriram que isso é verdade. E aqui também tem uma. É seguro assumir que todos os círculos têm uma dessas. Só que elas são muuuito bem guardadas. Tipo, muuuito bem guardadas mesmo. Tem centenas de guardas lá."
"Hmm… Vamos precisar passar por esses guardas para sabermos como é o terreno." — Claude diz, pensativo. "Não nos parecemos com adultos, então disfarces não dariam certo. Talvez eu possa conseguir uma armadura dos guardas e convencer um aliado a reconhecer o terreno por nós."
"Você é bem inteligente." — Mao diz.
"O-Obrigado..." — Claude diz, envergonhado. "Agora, eu preciso saber como funciona essa prisão."
"Tipo… ?" — Mao pergunta.
"Como os guardas operam... As regras do local... Onde me alimento… Coisas de prisão." — Claude diz.
"Bom, os guardas estão por todos os lados, observando tudo a todo momento. Menos quando eles trocam de turno. Nessa hora, você tem uma chance de cinco minutos. Foi assim que consegui descer pra cá." — Mao diz. "Agora, as regras são bem simples. Você tem uma meta diária. Assim que termina essa meta, tem a opção de continuar trabalhando ou parar. Ninguém para."
"Por que não parariam ?" — Claude pergunta.
"À cada duas horas de trabalho extra, você ganha uma moeda de ouro. Aqui dentro, essas moedas valem mais que a sua vida." — Mao diz. "Você só pode comer uma vez por dia. E a refeição é um pedaço de pão mofado com água suja. Mas, com as moedas, pode comprar outra refeição, e muito melhor. Não só isso, como também da pra tirar um dia de folga, ou até deixar sua cela um pouco mais confortável, se tiver muitas moedas. Por causa disso, vários prisioneiros trabalham até não aguentarem mais e acabam morrendo."
O príncipe fecha seu punho. "Um sistema nojento de falsa esperança. Shuten-Dōji é um desgosto."
"Falsa esperança foi a única coisa que sobrou pro povo daqui…" — Mao diz, triste.
"Só até eu e meus amigos conseguirmos libertar todos." — Claude diz, confiante.
"Olha… Eu sei que isso é meio do nada, mas… você acha que… Bom… Você acha que eu poderia fazer parte desse grupo de revolução ?" — Mao pergunta, receosa.
O príncipe dá de ombros. "Eu não vejo nenhum problema. Vim aqui para resgatar pessoas e fazer aliados. Mas isso é uma missão perigosa."
"Eu sei. Mas faço qualquer coisa pra subir até Traição." — Mao diz.
"O que há em Traição ?" — Claude pergunta.
"Quem manda em tudo isso aqui." — Mao diz. "Ninguém sabe quem é o chefe de Nezuminosu, mas sabemos que ele fica no último círculo."
"Já sei onde devemos concentrar nossa força." — Claude diz. "Muito obrigado pelas informações concebidas. Você foi de grande ajuda."
"Eu que agradeço, por trazer esperança de novo pra mim." — Mao diz, sorrindo.
O príncipe pensa em algo. "Ah ! Poderia me mostrar uma das moedas de ouro ?"
A garota se lembra de uma coisa. "Quase que eu esqueci ! Desculpa mesmo !" — Ela vai até um canto e pega um pedaço de madeira com uma gororoba nele. "Eu gastei todas as minhas moedas pra comprar comida pra você. Pensei que ia precisar, quando acordasse. Não tem uma cara muito boa, mas, depois de um tempo, você acostuma."
"Não precisava gastar suas moedas com isso." — Claude diz. Seu estômago ronca.
Mao levanta uma sobrancelha.
O príncipe desiste da resistência. "Muito obrigado por pensar em mim."
A garota põe o pedaço de madeira na frente dele e se senta.
Claude começa a comer. "O gosto é horrível, mas se é o que preciso fazer para sobreviver, que seja."
O estômago de Mao também ronca. Ela tenta desesperadamente disfarçar.
O príncipe para de comer. "…Sinto muito, mas minha fome passou."
"N-Não precisa se preocupar com isso ! Foi só um barulho de, uh, d-dor de barriga !" — Mao diz, forçando um sorriso.
"Eu jamais deixaria um de meus súditos passar fome. Você não é exceção." — Claude diz.
Mao fica desapontada. "Súdito... ?"
"Sou o príncipe de Ignis. Um reino que fica em Uniloth." — Claude diz.
"Oh…" — Mao diz, ainda desapontada. Ela pega um pouco da gororoba e também come.
"Você parece desapontada com algo." — Claude diz.
"Não é nada..." — Mao diz. Ela começa a brincar com seus cabelos, tentando não olhar para o príncipe. "Que legal que você é um príncipe, e tudo mais. Deve morar em um castelo bem grande, ser rico e… ter uma esposa."
"Na verdade, nosso castelo não é tão grande e não temos tanto dinheiro assim, porque pai e mãe sempre doam uma grande quantia aos necessitados." — Claude diz. "E não tenho nenhum interesse amoroso, no momento. Não que eu não goste de nenhuma garota- Na verdade, isso significa que eu não gosto de nenhuma garota. Mas não significa que eu NÃO POSSA ACABAR gostando de uma garota. Acredito que o amor pode aparecer em qualquer lugar, a qualquer momento. Só ainda não aconteceu comigo."
Os olhos de Mao ganham um brilho esperançoso e ela tenta esconder um sorriso. "Mudando de pato pra ganso, você gosta de peixe ?"
"Um bom prato com peixes-" — Claude diz, sendo interrompido.
"Você gostaria de uma garota que sabe nadar muuuito bem ?" — Mao pergunta.
"Uh… Isso não faz diferença-" — Claude diz, novamente sendo interrompido.
"Digamos que você comece a namorar com uma garota que, DE VEZ EM QUANDO, secreta um pouco de muco escorregadio-- QUE NÃO FEDE, E É TOALMENTE LIMPO. --quando ela fica feliz demais. Isso seria um MEGA, HIPER, SUPER problema ou não ?" — Mao pergunta.
O príncipe nota uma substância viscosa onde Mao está sentada. "Mao, isso é-"
"SUOR !" — Mao diz, rapidamente e desesperadamente interrompendo seu amigo. "Isso é, uh, suor ! Trabalhei demais, e tô muito suada !"
"Tudo bem com você ?" — Claude pergunta, preocupado.
"C-Claro que sim ! Perfeitamente bem ! Nunca estive melhor !" — Mao diz, desesperada.
"…Certo…" — Claude diz.
Os dois ficam em um silêncio constrangedor.
"Então-" — Claude diz, sendo, mais uma vez, interrompido.
"BOA NOITE !" — Mao diz, rapidamente se deitando e começando a roncar.
"Garota, uh… peculiar…" — Claude pensa. Ele também se deita. "Quando acordar, começarei a colocar a primeira parte do plano em ação. Precisarei achar alguém que possua uma concha Mamushi e avisar meus amigos que estou bem. Espero que nada de ruim tenha acontecido com eles… Melhor não pensar muito nisso, por enquanto." — O jovem príncipe solta um bocejo. "Acabei de acordar, mas estou cansado. Minha melhor opção é descansar" — Ele se vira e fecha seus olhos.
Uma silhueta misteriosa observa os dois jovens dormindo, pelo canto da cela. A silhueta desaparece nas sombras, de uma maneira macabra.
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