Notas iniciais
Escrita escutando:

https://www.youtube.com/watch?v=1Jc44jjFesQ

Nada como um baile de formatura ao final dos piores anos escolares de minha vida. Desde quando entramos no Ensino Médio, as coisas só foram de mal a pior para mim. Conseguimos fazer a proeza de entrar num colégio onde há zero fãs de RPG e tudo o que eu gosto e cem por cento de gente idiota que só liga para a aparência.

É claro que foi só eu que fiquei excluído. Não, por favor, não pense que Mabel me "abandonou" ou coisa parecida, fui eu quem a afastei. Ela percebeu logo de inicio que eu fui isolado por praticamente todo mundo e ela me assegurou de que ia ficar ao meu lado o tempo todo.

Mas eu vi que ela havia feito amigos e que eles não gostavam de mim. Eu nunca privaria minha irmã de ter amigos ou ser... Bem... Ser ela. Extrovertida, carinhosa e perfeita. Posso ter exagerado na descrição? Não, eu não exagerei.

Para mim ela era realmente perfeita. Olhos, cabelo, boca. Talvez perfeita até demais. Eu nunca fui muito do introvertido, mas não encontrar ninguém com os mesmo gostos não ajuda muito.

Mabel tentou no começo me enturmar, mas não deu certo. Eu era estranho demais para aquela turma e a verdade é que apenas as férias em Gravity Falls me faziam feliz. Chegamos a um ponto onde não havia mais nada a ser desvendado, mas nada naquela cidade me entediava e também eu amava ver o quanto Mabel ficava animada ali. Bom... Faz dois anos que não vamos para lá e tudo por causa do trabalho dos nossos pais. Ainda falamos com todos lá, mas trocar mensagens não se compara a sensação de estar cara a cara com eles.

Enfim, era esta noite o baile e durante estes três anos muita coisa mudou. Deve ser por isso também que eu amava tanto Gravity Falls, lá tudo era igual. Eu podia falar com Mabel a qualquer momento... E nós dois ainda dormíamos naquele sótão.

Na casa de nossos pais, cada um tinha seu quarto. Mabel precisava de um quarto só para ela (e as amigas). Acho que isso foi o melhor também já que dormir tão próximo dela não estava me fazendo lá muito bem.

Serei completamente honesto agora. Pode me chamar de doente ou o que quer que seja, eu não ligo mais, já me torturei demais para ligar para o que outras pessoas pensem. Eu admiro Mabel, o jeito com o qual lida com as pessoas, como sempre está feliz e tenta deixar todo mundo bem e até mesmo quando chega ao irritante ponto em que eu tenho que implorar para que ela pare de falar.

A verdade é que é mentira. Eu não quero que ela pare de falar, eu não quero que ela pare de me colocar acima de seus amigos e eu não quero que ela pare de pensar em mim. A verdade é que eu sou egoísta e eu a quero só para mim.

Não só como a irmã gentil e atenciosa que sempre foi.

Por isso digo que foi o melhor separarmos os quartos. Eu estava ficando louco dormindo com ela logo ao meu lado e continuar me punindo por ter pensamentos tão... “Imundos” sobre ela. Não faz ideia do quanto tenho que me controlar quando falo com ela para que nada de estranho saia da minha boca, até por que agora ela tem um namorado.

Um provável namorado. É um idiota que jogar basquete na escola e praticamente fede a clichê, mas Mabel ficou completamente louca quando ele perguntou se queria ser seu par e pesa no meu coração dizer isso, mas eu tenho certeza de que ela ficou chateada quando me falou isso e eu não fiquei nada feliz.

Não posso explicar o que me deu quando ela me contou toda feliz que o garoto mais popular da escola queria sair com ela. Minha mãe ficou muito feliz por ela e meu pai começou a bancar o pai durão dizendo que ela tinha horário para chegar, mas tudo o que eu fiz foi levantar-me da mesa e sair pela porta da frente de chinelo e bermuda totalmente ignorando os chamados dela.

É claro que eu não tinha um par para o baile e acho que Mabel achou que fosse por isso que eu fiquei... Como foi que ela disse mesmo? Ah, que eu fiquei “chateado”. Eu não estava chateado, eu estava puto da vida com aquilo e não tinha nada ver com o fato dela ter um par e eu não. Longe disso... Muito longe disso. Eu estava – e ainda estou — nervoso por que ela está indo com um cara qualquer.

Com um cara que não sou eu.

O que estou fazendo agora? Estou sentado em meu quarto, de frente ao computador lamentando a minha falta de coragem de dizer como realmente me sinto e o fato de que eu nunca poderia ficar junto dela. Por que, sem mentiras aqui, todos sabemos que pessoas como eu são aberrações? Quem pode gostar da própria irmã romanticamente?

“Dipper?” Escutei a porta abrindo, mas não desviei os olhos do computador. Era a voz doce e receosa dela me chamando e eu estava morrendo de medo de olhar em sua direção. “Dipper? Você pode olhar para cá?”

Sem poder ignorá-la, eu virei meu rosto para a porta e as palavras não apenas faltaram como ficaram penduradas na minha língua. Seu cabelo que raramente estava preso, agora tinha metade em um coque alto e presilhas prata brilhantes e o resto caindo em cascata até pouco antes da sua cintura. Os olhos castanhos estavam delineados de preto e a boca vermelha em um leve sorriso para mim foi o que eu encontrei. Eu havia me recusado a ajudá-la na escolha do vestido e percebi que ela se virou muito bem sozinha.

Nunca se contentou com uma única cor no seu dia-a-dia, mas agora seu longo vestido tomara que caia era azul turquesa e tinha um véu com mais brilhos na parte da saia e não era exatamente rodado... Era bem simples até e isso foi o que a deixou mais linda. “Dipper...?” seu chamado me tirou do meu transe e sentindo minhas bochechas esquentarem, eu desviei o olhar. “Então? O que achou?”

“Não sou eu que tenho que gostar.” Quando eu percebi a frase que era para ter saído rude e insensível, escapou num tom engasgado e baixo. “Quero dizer, apenas vá logo.”

“Sabe... Você pode vir com a gente!”

Ela estava tentando me animar, mas nada naquele momento no mundo inteiro poderia me deixar feliz. Olhei novamente para Mabel e sua sobrancelhas bem feitas estavam levemente franzidas provavelmente com medo da minha reação ao seu pedido. “Eu já disse que não.”

“Por favor, Dipper! Eu não posso ir ao meu baile de formatura sem o meu irmão!” Sua voz era um misto de emoções e eu queria muito poder dizer que não era culpa dela e sim minha. “Tenho certeza de que Brian não ligará se...”

“Por que você não me deixa em paz de uma vez?!” O nome dele sendo mencionado me tirou do sério. “Vá logo para cima desse cara e me deixe em paz!” Eu me arrependi das palavras assim que terminei de falá-las. Mabel deixou seus ombros caírem e eu me senti sendo estilhaçado por dentro. Eu estava estragando a noite dela. “Eu não me sinto bem, Mabel. Aproveite sua noite sozinha com ele, você vai ser provavelmente a rainha do baile.”

Ela assentiu e um carro buzinou lá fora. Seu olhar foi em direção à janela e respirou fundo quando andou até ela. Acompanhei seus movimentos com o olhar até seu aceno para a pessoa lá fora. Aquilo era sinceramente demais, eu não aguentava ver aquilo.

“Não me espere acordado irmãozinho.” Isso era provavelmente o que eu ia fazer.

“Apenas tome cuidado.” Ela franziu a testa e sorriu enquanto colocava a mão no meu ombro e afastando meu cabelo com uma mão, depositou um beijo na minha marca de nascença. “Pode deixar, irmão.”

A palavra ‘irmão’ me fazia ficar enjoado. Essa malditinha apenas servia para lembrar o quanto eu estava errado em sentir tudo o que eu sinto. Com o estomago revirado eu a observei sair do meu quarto e quando chegou à porta de entrada a vi sair com o idiota que – com um carro alugado, claro – deu um beijo na bochecha dela. Só o pensamento de onde a boca dele ia passar durante as próximas horas me arrepiava.

Não seja idiota, Dipper. Mabel nunca o deixaria... Esse é problema. Tudo o que ela fez esta semana foi falar de quanto ele era lindo e demais, eu não podia confiar que ele não faria nada, por que ela o deixaria fazer se pedisse.

Atormentado por pensamentos assim, eu ignorei o chamado de meus pais para ir jantar e tranquei a porta do meu quarto. Passei três horas seguidas falando com um estrategista do meu grupo de RPG até que eu percebi que já estava quase na hora de Mabel chegar. Não seja estúpido¸ pensei, ela não vai seguir as regras do pai sendo que deve estar se divertindo com aquele imbecil. Mais uma hora se passou e deu meia noite e nenhuma notícia dela. Falei para ele que era melhor conversarmos sobre as estratégias para derrotar o grupo de um amigo dele depois.

Para falar a verdade, a preocupação me consumia.

Peguei meu celular e nada de mensagens dela, nenhuma mesmo. Respirei fundo e lembrei que ela não tinha obrigação nenhuma de ficar mandando notícias sobre o que estava fazendo ali. Por Deus, nós já temos dezessete anos! Eu tenho que parar de ser tão paranoico...

Então meu celular toca e eu vejo o nome dela. Não deve ser nada demais, talvez ela tenha ficado bêbada – não seria a primeira vez – e estivesse me ligando. Com meus dedos tremendo eu apertei para atender e meu coração pareceu parar ao escutar a voz chorosa dela.

“Dipper?” Dava claramente para ver que ela estava chorando. “Você... Você pode vir me buscar?”

Eu não precisei de muito mais para colocar meu casaco e sair correndo para a escola, tentei acalmá-la no telefone. Sua voz estava desesperada e estava dando eco. Eu literalmente corri o caminho inteiro e cheguei à escola em um tempo recorde. Disse-me que estava no banheiro feminino e quando irrompi pelas portas do ginásio não dei a mínima para todos que estavam ali.

Dirigi-me diretamente para o banheiro das meninas e um bando de garotas começou a gritar, mas eu não estava preocupado com isso.

“Mabel?!” Gritei quando passei pela porta logo sendo recebido pelo cheiro de cândida e duas garotas completamente bêbadas se pegando na parede ao lado das cabines. A chamei de novo e arfando eu a vi sair lentamente da última cabine.

Ela estava completamente acaba. Seu vestido manchado de rosa na saia, seu coque desfeito e presilhas caindo junto com o delineador todo borrado. Deu pequeno soluços enquanto andava em minha direção e assim que me alcançou seus braços enlaçaram minha cintura e minha mão pressionou sua cabeça levemente contra meu ombro. “Ei, calma...” Eu sussurrei e as garotas nem perceberam que eu estava li. “Meu Deus, Mabel. O que aconteceu?”

Minha pergunta desencadeou mais e mais lágrimas. “Mabel, me diz que não foi àquele idiota.” Ela apenas sacudiu a cabeça e eu respirei fundo sentindo a raiva crescer dentro de mim. “Isso é um não para ‘ele não fez isso’ ou um não para ‘eu não quero que você arrebente com ele’.”

Ela se separou de mim e com os olhos arregalados praticamente implorou, “Dipper... Por favor...”

“Estou falando sério, Mabel. Ou você me diz agora que não foi ele que fez isso contigo ou eu vou atrás dele neste exato instante.”

Eu conseguia mentir para ela, mas ela não. Soluçou forte e tentou desesperadamente secar o rosto com as costas da mão, mas tudo o que estava fazendo era borrar ainda mais o delineador. “É isso, eu vou dar um fim nesse idiota.”

“Dipper, não!” Ela segurou meu pulso antes que eu pudesse sair do banheiro. “Por favor!”

“Por favor?! Olha o seu estado! Eu nunca te vi chorar tanto na minha vida e está mais do que óbvio que aquele cara tentou algo com você e você veio para cá!” Ela arregalou os olhos e eu passei minha mão nos meus olhos. “Eu te conheço muito bem, Mabel.”

Ela não soltou meu pulso entretanto e ainda chorando ela continuou a insistir. “Não faça isso Dipper, por favor...” Não aguentando mais eu forcei meu braço para fora no toque dela e dei minhas costas. “Por que está fazendo isso?!”

“Por que...?” Eu repeti baixo não acreditando no que eu estava ouvindo. “Quer realmente saber por que, Mabel?! É por que eu te amo caralho! Eu já aguentei merda demais ao te ver ficar com esse cara agora me de o direito de acabar com ele!”

Nós ficamos nos encarando por um tempo e os beijos contínuos das duas que nem ao menos notaram a gritaria eram o único som ali. Mabel sabia que o que eu tinha dito significava outra coisa, dava para ver pelo o olhar dela que ela tinha entendido tudo. “Dipper...”

Sai do banheiro e olhei em busca do babaca do Brian e logo o vi bem no meio daquela pista de dança idiota com outra garota. Com nojo e os vendo quase se devorar eu andei em sua direção e assim que o alcancei, Mabel gritou meu nome, mas já era tarde demais.

O virei em minha direção e desferi um soco com todas as minhas forças. Sou magro e alto, foi surpresa para todo mundo quando eu o joguei no chão com um único golpe. Minha adrenalina estava explodindo e tudo o que eu queria era abrir o nariz daquele idiota, mas mãos quentes e úmidas seguraram meu braço antes que eu o socasse de novo.

Virei-me bruscamente para ver quem era e vi o rosto de Mabel completamente vermelho derramando lágrimas copiosamente. Ela balançou a cabeça negativamente, “Dipper... Não vale a pena.” Eu respirei fundo e como um botão sendo apertado, sua voz me fez minha visão clarear e minha cabeça assentir.

“Vamos para casa.” Eu falei o largando ali no chão, mas eu não podia sair antes de falar mais alguma coisa. “Você tem sorte deste ser seu último ano, babaca. Ninguém mexe com a minha irmã e fica por isso mesmo.”

Não me importante com os olhares sobre mim, eu passei um braço sobre os ombros de Mabel e a puxando para mais perto nós saímos dali. Andamos até em casa daquele jeito, acredite você ou não, e quando chegamos nossos pais nem saíram de seus quartos.

A levei para o meu que tinha um banheiro e disse que pegaria algo para ela vestir no quarto dela. “Não me deixa sozinha”, sua voz era baixa e já havia parado de chorar. “Eu só vou ao seu quarto...” balançou sua cabeça negativamente e eu suspirei. “Ok, vou pegar uma camiseta minha, então.”

Ela assentiu e foi tomar banho. Controlando todos os meus instintos, eu peguei a camiseta e a deixei na maçaneta da porta tentando não imaginar coisas não apropriadas ao momento.

Não demorou em que ela saísse vestida com uma camiseta minha – que batia na metade de suas cochas -, e seu cabelo molhado. Ela se sentou em minha cama e eu na cadeira de frente ao computador. Alguns minutos de silêncio se seguiram até que ela soltasse uma risada sem graça.

“Esta definitivamente não foi a minha noite.”

“O que aconteceu?”

Ela suspirou e encarando as próprias mãos começou a me contar que tudo estava bem no começo. Eles conversaram com muita gente, dançaram uma músicas e quanto mais perto chegava da hora da premiação, mais inquieto ele estava ficando. “Eu achei que era só ansiedade até que ele me chamou para ir numa das salas do ginásio. Eu perguntei por que já que não tinha ninguém lá e ele começou a ficar mais e mais estranho...” Suspirou e com a toalha ficou secando a ponta dos cabelos enquanto falava. Suas mãos tremiam. “Ele me arrastou até lá e eu comecei a ficar apavorada. Nisso, a bebida dele caiu no meu vestido e ele começou a me xingar... Ele tentou me beijar e quando eu o rejeitei me chamou de inútil e... Bem. Eu corri para o banheiro e liguei para a única pessoa que eu poderia.”

Seus olhos se levantaram para encontrar os meus e os manteve ali por alguns segundos até suspirar pesadamente. “Eu deveria ter te escutado.”

Eu definitivamente queria dizer um ‘eu te avisei’, mas ela estava muito mal para aquilo. Levantei da cadeira e parei de frente a ela. “Você só estava sendo você, Mabel. Esperando o melhor das pessoas.”

Ela assentiu levemente e eu senti que ela ia voltar a chorar. Sentei-me ao seu lado e seu rosto encontrou a curva do meu pescoço. Sua respiração era quente e todos os membros do meu corpo gritavam perigo. Eu a afastei e vendo seu olhar confuso eu balancei a cabeça negativamente e uma única lágrima caiu de seus olhos.

“Desculpa, Mabel...” Eu comecei a dizer, mas minha voz quebrou. Não dava para admitir aquilo em voz alta. Não dava para explicar aquilo para ela. “Eu acho melhor você voltar para o seu quarto.”

“Dipper...”

“Por favor, Mabel.”

“Não.” Eu a olhei e ela estava com um olhar completamente diferente. Ainda tinha lágrimas neles e os traços das anteriores em suas bochechas, mas ela não parecia que ia a lugar nenhum. “Eu cansei de ver você assim. Chega.”

“Mas... Mabel. Você já entendeu...”

“Sim, eu entendi. Eu entendi que você é a única pessoa que liga para mim. A única pessoa que poderia sair de casa correndo no meio da noite para me salvar. Nem meus pais estavam nos esperando! Eu demorei pra caramba e eles nem sequer se preocuparam em me ligar!” Sua voz ao mesmo tempo em que demonstrava abalo, tinha um quê de determinação. “Eu entendi que nada nesse mundo pode se comparar a você.”

A sua última frase me desestabilizou por completo. Eu não estava ouvindo aquilo de verdade, estava?

“Desculpe, Dipper. Desculpe por levar tanto tempo para notar isso.”

Sua mão pousou em meu joelho e suas costas se inclinaram para frente em minha direção e quando eu vi, lentamente, meu corpo estava fazendo o mesmo. Até que finalmente, primeiro a ponta de nossos narizes, nossos lábios se encontraram.

Calmo, leve e um pouco salgado pelas lágrimas dela. Minha mão na sua nuca, aprofundo o beijo abrindo passagem com minha língua, sua boca colada a minha e sua língua seguindo os movimentos da minha.

Tudo o que eu sempre sonhei.

“Eu te amo, Dipper. Do mesmo jeito que você me ama.”

A vida que eu sempre sonhei.

Notas finais
É a segunda que eu escrevo e não sei se pararei tão cedo, me sinto tão bem escrevendo histórias desses dois :)

Se gostaram gente, deixem comentários. Podem deixar sugestões também! Se quiserem de outro casal (não me importo com sexo) podem dizer e vejo se consigo escrever :D
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!