Milagre da Páscoa
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Nem lembra mais quando foi a primeira vez que comentou com a mãe e as primas que as coisas não iam bem. Lembra do conselho da prima Anko sobre mandar o acordo pro inferno e chutar Kakashi da vida dela. Impossível esquecer-se daquilo. Até porque o conselho dela se mantinha até hoje, mesmo que Rin apenas suspirasse cansada quando lhe perguntavam como iam as coisas.
Se sentia uma folha solta que ia para onde os ventos do casamento soprassem. E já não sopravam ultimamente. Ela estava parada. Talvez estivessem cansados de brigar, mas também não se importavam o bastante para fazer as pazes e ter uma boa convivência. No lugar disso, cada um vivia a sua individualidade sob o mesmo teto. Então isso era o “cair na rotina” que tanto ouviu falar? No caso deles, cair na rotina podia nem ser tão ruim. A união deles era um acordo entre as famílias. Quanto menos brigas, melhor.
Teoricamente, era assim que um acordo funcionava. Na prática, Rin já não achava conforto enquanto se arrastavam para o quinto ano daquilo. Até ali, tinha esperado a tão falada cura promovida pelo tempo, uma promessa de sua mãe quando disse a ela que as coisas não iam bem. Mas isso foi há mais de dois anos, quando Kakashi e ela jogavam um ao outro na fogueira por uma coisa ou outra. Aquilo não podia ser normal, embora a mãe jurasse que todos os casamentos passavam por algo parecido no começo. O outro extremo era a prima que levava tudo à ferro e fogo. Rin queria poder ser assim, talvez fosse mais fácil até para superar o resquício do sentimento que já nutriu por Kakashi. Seria aquilo a verdadeira pedra em seu caminho?
Pelo menos o acordo seguia tão intacto quanto os lucros e a honra da família. Entre as vantagens daquela união, não estava a felicidade de Rin. De fato, a parceria era lucrativa, porém lenta. Mais um motivo para Rin se questionar o que devia fazer sobre aquilo. Em vez de lamentar, sorria dolorosamente em sinal de que confiava no tempo.
A chegada da Páscoa talvez significasse uma mudança. Passariam todos juntos daquela vez, a família dela e a de Kakashi como uma só. Uma novidade, sem dúvidas. E não parava por aí: o jovem casal seriam os anfitriões. Entenderam bem aquele recado;queriam conferir se as crianças estavam fazendo o dever de casa corretamente. Então, não pareciam tão estáveis quanto a inércia falsamente prometia.
— Você devia ter recusado — reapareceu o velho costume de Kakashi de lhe culpar deliberadamente. Parece que ele esquecia que eram marionetes no controle dos pais.
— Não foi um pedido. Foi uma ordem.
Aí estava o resultado de sucessivas desfeitas onde Rin aparecia sozinha nos encontros de família. Ele não estava nem aí em escancarar a displicência matrimonial. Ele não estava nem aí para nada, só emburrado por terem lhe encurralado.
Em outra época, Rin teria tentado melhorar o humor dele dizendo algo gentil ou até gestando uma mentira só para tentar liberá-lo da obrigação. Felizmente, os quase cinco anos de casamento tinham feito mais do que minguar boa parte de seus sonhos e da pessoa doce que ela costumava ser. Talvez ainda gostasse de Kakashi, mas não o bastante para enrolar-se em mentiras em nome dele só para não ficar tão feio. Ela seria anfitriã naquela Páscoa com ou sem Kakashi do lado, e ele que se entendesse com a família dele caso escolhesse o caminho mais difícil por puro capricho.
Contrariado, ele fez o dever de casa e nem arrumou briga. Na verdade, não brigavam há um bom tempo, pois não havia um assunto comum entre eles para começar uma conversa. As brigas já tinham esgotado o repertório que nem era tão vasto assim. Kakashi sempre discordava dela, muitas vezes apenas para dar a última palavra e começar uma discussão onde ela acabava parecendo a surtada da história. Aos poucos, Rin passou a escolher o silêncio. Não o punitivo que Kakashi costumava usar depois de inflamar a esposa, mas o tipo que preservava Rin de um desgaste maior. Kakashi só queria exercer poder e ter o que contar aos amigos sobre o inferno que era o casamento quando qualquer coisa virava motivo de briga. Também já considerava alívio quando ele a deixava sozinha, mesmo quando estava em dias mais sensíveis — fosse o mal-estar pela TPM ou doença. Ela conseguia cuidar de si mesma, também dele quando precisava. Apesar de tudo, Rin não negava, nem jogava nada na cara dele. Seu comportamento era sempre pacífico, no final. Deixava sua mãe orgulhosa por estar sabendo lidar com os obstáculos da vida à dois, e também deixava suas primas e amigas próximas entre irritadas e preocupadas com tamanha passividade.
— Já tentaram terapia de casal? — Kurenai uma vez sugeriu depois de ouvir que ainda atravessavam dias difíceis. — Todo casal tem problemas. Mas, na persistência deles talvez seja preciso uma intervenção profissional.
— Kakashi não iria.
— Igualzinho ao meu segundo marido. — Anko lembrou-se do falecido, cuja única coisa boa que fez foi uma filha que era o tesouro dela. — Imagina pagar alguém para dizer o óbvio, que ele é o problema?! Bem fiz eu de pedir o divórcio. O safado me deu trabalho até nisso. Desceu nas cordas e me deixou com a fama de viúva negra. Não deixe Kakashi fazer isso com você.
Kurenai ralhou pela falta de tato de Anko que parecia não ter vergonha alguma em admitir que seu único pesar em ter ficado viúva pela segunda vez foi a má fama. Aquilo trazia intermináveis cochichos maldosos e afastava pretendentes. Uma desgraça para alguém como ela que ainda era jovem e desejava mais um casamento, o que não significava que hesitaria num divórcio se o sonho virasse pesadelo. Anko levava as coisas à ferro e fogo, ao contrário de Kurenai que apenas voltou a sugerir que Rin não descartasse a terapia. O olhar compadecido lhe dizia, porém, que devia saber seus limites. Rin saberia reconhecê-los? Seu casamento soava como um eterno “aguente mais um pouco”. Sua suposta resiliência parecia bastar para os pais dela e também para os dele.
Chegou o dia, o casal os recebeu calorosamente e as coisas pareceram bem até notarem o fatídico detalhe: Rin e Kakashi ainda não deram sinais de filhos. Não é porque aquilo era um acordo que não deviam consolidá-lo com herdeiros. Se bem que isso não consertava as coisas, mas pelo menos pareceria que estavam se esforçando.
— É cedo. — Kakashi deu a clássica resposta. — E Rin pensa em uma pós-graduação. Acho importante que ela retome a carreira acadêmica.
Fingir que apoia os projetos da esposa foi uma jogada de mestre. Impressionou todo mundo e encerrou o assunto. Agora ele era o marido perfeito diante dos pais e dos sogros. E Rin, a esposa ingrata que reclamava de frivolidades e adiava a vinda da prole.
— Fingido. — Anko sussurrou com as primas. Kurenai achava o mesmo, mas não considerava de bom tom dizer em voz alta. — Se eu fosse você, faria uma pós-graduação só de sacanagem.
— Eu penso no caso. Só nunca falei para ele.
Aquele homem era ardiloso. E ela, burra de achar que no fundo, no fundo, a relação deles podia virar algo realmente bom ou pelo menos decente. O máximo que poderia ter era aquela coisa inerte. Tinha certeza que não queria os embates de antes e precisava aceitar que nunca teria mais do que aquelas opções.
Ainda no personagem de bom marido, Kakashi evitou deixá-la sozinha nos dias que se seguiram. Quando não estava com o pai ou com o sogro, estava por perto ou sempre aonde seus olhos conseguissem vê-la. Tão atencioso! E era somente para exibir uma afeição que não possuía. Os mais velhos não eram tão bobos para caírem por completo naquela farsa, mas Kakashi era vaidoso o suficiente para continuar se fazendo notar pela atuação.
A filha de Anko já corria entre os adultos e gastava bastante energia brincando com a mãe e a tia Rin. Quis até aprender a fazer ovos de chocolate caseiro, mesmo sendo pequena demais para por a mão na massa. Ela insistiu e Rin ficava triste de negar. Não daria conta de ficar de olho nela e de fazer os ovos, já que Anko estava ocupada e Kurenai já começava a sentir os incômodos da gravidez avançada. De repente, Kakashi interveio a favor da criança e prometeu segurá-la para que visse o processo.
— Vamos ver a tia Rin fazendo ovos de chocolate? — perguntou animadamente, erguendo a criança do chão. A menina concordou, batendo palminhas.
O gesto pegou Rin de surpresa e a colocou em dúvida por um segundo. Kakashi não era um ordinário o tempo todo ou só estava sendo legal com uma criança porque não ganharia nada arruinando o dia daquele serzinho que o chamava docemente de “tio Kakashi”? Sentiu-se boba ao lembrar que o marido não estaria sendo ele mesmo enquanto houvesse mais gente na casa. E também, a menina só queria ver como se faziam ovos de chocolate.
A versão altruísta do marido, embora questionável, deixou Rin perigosamente pensativa. Não era nenhum milagre de Páscoa. E já descartava que o fingimento fosse necessário com a criança. Ele só estava querendo ser legal com a coisinha fofa. Milagre mesmo foi ele não se opor a dormir na mesma cama que Rin. Dificilmente dividiam a cama, e ainda mais raramente tinham contato carnal. Isso deixou de incomodar Rin há tempos, e agora ela não entendia por quê ele não estava improvisando uma cama e sim deitando ao lado dela. Ele nem estava tão cansado assim para não dispensar um colchão. Segurar a pequena sobrinha postiça por longos minutos não era nada para um crossfiteiro como ele.
— Legal os ovos de chocolate. — Kakashi disse de repente. — Nunca tinha visto como se fazia.
— Eu fazia na casa dos meus pais.
Não sabia o que ele queria com a súbita interação, mas não o pouparia de lembrar-se que poderia ter tido a experiência antes se não a evitasse o tempo todo.
Felizmente, ganhou um “boa noite”, a deixa para dormir. Outro milagre. Kakashi tinha parado de lhe desejar boa noite antes de completar um ano de casados. Para quem ele estava fingindo se estavam a sós?
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A costumeira sede pegou Rin no meio da noite. Levantou com cuidado para não acordar o marido enroscado nos lençóis. Estranhava a presença dele na cama, no quarto. Ele parecia tão à vontade como se nunca tivesse passado uma noite longe dali.
Já na cozinha, ela matava a sede, mas a curiosidade sobre o lado dócil do marido estava bem viva. Foi significativo comentar sobre os chocolates e não dormir virado de costas para ela. Ou ele queria dizer alguma coisa ou ela era doida o suficiente para imaginar demais sobre o desinteresse dele ter diminuído.
Entre um devaneio e outro, Kakashi apareceu lá. Só faltava ele ter aquele mesmo hábito de Rin.
— Água?
Ele aceitou, mas não bebeu.
— Aconteceu alguma coisa? — ela finalmente perguntou. Se receberia uma resposta franca, já escapava de seu alcance. Mas ninguém podia dizer que ela não estava tentando dialogar.
Kakashi riu olhando para ela, mas não estava zombando. Também não parecia que iria soltar alguma coisa venenosa para que Rin revidasse e parecesse descontrolada por razão nenhuma. Passava serenidade deixando o copo de lado e cruzando os braços enquanto respirava fundo, como quando a pessoa se dá conta de que foi injusta.
— Acho que desperdicei um tempo valioso guerreando contra você quando eu podia apenas tornar as coisas menos piores para nós dois. — respondeu surpreendentemente.
O par esverdeado tentava detectar algum truque naquilo, mas sem sucesso. Precisava desconfiar. Tinha desposado um homem astucioso, característica não muito agradável quando usada contra ela mesma.
— Aceitamos brincar desse misto de casinha e banco imobiliário por causa dos nossos pais. Nenhum de nós tinha muita opção. Mesmo assim... Eu queria que fosse diferente, com menos infelicidade.
— E foi só o que tivemos.
— Até agora. — se apressou a completar. — Me vi obrigado a esbanjar gentileza esses dias só para me exibir, para que vissem que o acordo não corria risco de ser desfeito. Uma hora eu percebi que estive ressentido por muito tempo porque as coisas não saíram como eu queria. Afundar em amargura não vai mudar nada, apenas me rouba as coisas legais que eu quero viver. E também, você não tem culpa, mas acabou sendo alvo do ressentido aqui. — apontou para si, meio sem jeito.
Aquilo era muito mais do que Rin esperava. Tomara que tenha sido de coração. Ela não o conhecia o suficiente para saber se era o Kakashi de verdade, nunca conseguiu se aproximar tanto dele. Podia estar tendo a chance agora.
— Se está me pedindo desculpas, tudo bem. — preferiu ser direta. Já tinha ficado em silêncio por tempo demais.
Kakashi concordou e logo voltou por onde tinha vindo, fugindo do silêncio incômodo. Rin o acompanharia segundos depois, mesmo sem saber exatamente o que aquilo significava. O início de um romance, de uma amizade ou de algo que ainda não tinha nome? Só sabia que eles não se machucariam mais de propósito.
Naquela Páscoa, Kakashi ganhou um ovo de chocolate caseiro com seu recheio favorito.
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