Mil e Dois Dias em Cilindra
2 Capítulo 2 - Cavando a Própria Cova
Notas iniciais
Ufa! Finalmente cheguei em casa! Estou tão cansado que eu apenas me jogo na cama ( ok, tirei as botas ) e sinto todos os músculos relaxando e dizendo \"Ufa! Chegamos na cama. Agora não me encha o saco até amanhã, sacou?\". Normalmente, eu não estaria tão cansado, afinal, quão difícil pode ser voltar à própria casa? Deixe-me contar então...
Toda essa zona começou imediatamente após o término do último capítulo, logo que eu acabei aquela maldita prova.
- Ok! Acabei! Tá aqui. — eu passo o papel para o tal de Wilson com um baita sorriso na cara. Nada como uma missão bem-cumprida!
- Como assim, acabou? Que merda é essa?! — ele grita, antes de esmurrar a coitada da mesa. Ei! Ela deve ter sentimentos também! E isso pareceu invocar um grande sentimento de dor! — Você não respondeu nem metade das perguntas! Em que tipo de sala você espera entrar com uma prova dessas?! — nossa, cadê o cara legal que veio me ajudar há poucos instantes? Eu até vejo uma aura enegrecida do mal!
- Erm... É que eu nunca estudei a vida inteira sabe... — eu digo a verdade, acuado pelo homem com certeza 5 vezes maior do que eu. ( ok, com certeza menos do que 5 vezes, mas aquela aura é assustadora! )
- Isso não é bom. Desse jeito você nunca vai entrar em nenhuma sala além da sala C. — C? Não parece tão ruim assim... — C de CASOS PERDIDOS!!!! — ele grita, esmurrando a mesa mais uma vez e provavelmente arrancando dela o último ponto de vida, porque ela quebra e atinge os nossos pés ( é, eu e ele ). ARGH!!! Isso doeu! Mas ele não parece nem incomodado...
- Não dá pra eu, sei lá, fazer aulas extras ou algo assim? — acabo falando por reflexo, ignorando até mesmo a dor que continua gritando dos meus pobres pés. Eu já entendi a mensagem de dor pessoal! Tá bom já!
- Aulas extras? — ele diz, com um ar bem estranho... Não gostei disso, meu instinto me diz que eu falei algo que com certeza absoluta eu vou me arrepender. — Na verdade — ele continua — nós temos uma coisa bem parecida com a sua sugestão...
Não gostei disso. Parecido não parece uma coisa legal. Meu instinto grita para eu fazer alguma coisa, mas ao mesmo tempo grita para não desafiar o cara. Decida-se! Instinto trouxa...
- Você fez tudo que podia da prova? — eu confirmo que sim. É verdade. Eu passei tanto tempo viajando por aí e conhecendo vários lugares e coisas que meu pai escolhia de forma aleatória ( até onde eu sei ) que nunca tive tempo de aprender coisas como Biologia, Física e Matemática... Apenas alguns rudimentos ( de Matemática, basicamente ). Mas eu gosto de Geografia. E História também. Principalmente a mais recente. É só guerra veio!
- Bom, como é tão pouca coisa, eu vou corrigir agora mesmo.
O professor senta numa mesa de estudantes, sem se importar com os escombros a que ele reduziu a mesa maior, e começa a fuçar minha prova. Como ele não parece resistir, eu paro do lado para ver como estou indo. Excetuando, é claro, os enormes pedaços em que eu não fiz porcaria nenhuma, até que não está tão mal!
Depois de ver tudo e dar uma conferida para saber se não esqueceu nada, ele marca a nota. 33. De 100.
- Hm. — ele \"diz\". Será que foi um \"Hm\" bom ou ruim? — Incrivelmente, sua nota não é a pior de todas. — isso é bom não é? — E você tem grandes conhecimentos de Geografia e História, bem além do esperado para a sua idade. — isso é bom, não é? Ele sorri — Talvez você realmente possa fazer isto... — isso é bom, não é? Então, por quê eu não consigo parar de sentir como se algo terrível estivesse para acontecer?!
- Sr. Sindarin. Seja bem-vindo à Academia de Aventureiros. Você será da Classe \"U\".
- \"U\" de Único?
- Hehe. Exatamente. — AW Man! Isso NÃO pode ser bom! — Você será parte de várias das classes, de forma a melhor usar suas habilidades. Mas não se preocupe com os detalhes disso agora, vá lá no pátio! Ainda devem ter muitas pessoas na Cerimônia de Abertura.
Normalmente eu teria corrido de felicidade nessa chance. Dadas as circunstâncias, eu corri BEM rápido! ( Vai que ele resolve dizer que eu vou ter que, sei lá, mediar disputas entre alunos? ) Quero aproveitar alguma coisa e mais tarde eu penso em como ter uma vida estudantil normal.
É claro que as coisas não foram tão simples assim. Talvez porque eu estava correndo muito rápido. Talvez eu tenha muito azar. Talvez Cilindra não goste de mim. Mas eu dei com tudo num cara quando virei num corredor. Um cara bem mal-encarado. E os dois amigos ainda mais mal-encarados-que-o-anterior. Oh boy, what joy!
Para piorar a situação, eles estão aparentemente importunando uma doce, meiga e adorável menina loira. Ela é mais baixa do que eu ( YES! Finalmente alguém menor do que eu! Tava ficando preocupado já! ), tem cabelo curto e olhos de uma cor rosa. Bem diferentes. Ela usa uma blusa de gola alta que cobre um pouco o seu queixo, dando a ela uma cara de menina tímida realmente adorável. Já comentei que ela é adorável?
- Ei maninho! O que você acha que está fazendo, correndo por aí e trombando nas pessoas?! — o cara mal-encarado ameaça, também tentando se fazer parecer maior. Nem esquenta cara, não quero problemas. — E ainda interrompeu a nossa \"conversa\" com a menina aqui! — ih merda. Não posso fugir e de preferência não posso me humilhar demais, ia destruir a minha imagem...
- Ah, perdão. Não foi minha intenção. — tento ser diplomático.
- Sem problemas, é só dar o fora e esquecer o que viu. — some a cara de choro e \"me salve\" da menina e você talvez entenda o que vou fazer agora.
- Por favor solte a menina. — eu peço, de joelhos no chão. Eles devem estar com expressões bem estranhas agora, mas não estou olhando. Continuo ajoelhado. — Duvido que ela tenha feito algo de errado e quero ajudar, mas também não quero entrar numa briga com vocês.
- Ha! Hahaha! EHAUAEUAEHAEUHEAUHAEHAHAUEHAUEHA!!!!!!! — os três começam a rir loucamente e eu me contenho apertando as mãos. Não os culpo, deve ser uma cena inesperada e 100% humilhante. Desgraça. Mas não posso simplesmente arriscar uma briga agora! E se ela se machucasse? E se EU me machucasse?
- Você é engraçado, maninho! Ehauaehuaaehuah!!! O quê faz você achar que nós temos motivos para obedecer um verme como você?! — ele vai me chutar. Com certeza, eu posso sentir. Na verdade, é como se eu pudesse ver! Me preparo para desviar do golpe chegando, já sentindo o vento se aproximando. E então para. Qualquer perigo que eu estivesse correndo de repente sumiu. WTF?! Caiu algo quente na minha cabeça! Esse cheiro...
Levanto os olhos para ver o que aconteceu. O mal-encarado está suspenso no ar, como se uma mão invisível o segurasse. Uma das pernas dele está virada em direções ... diversas.
Os ainda-mais-mal-encarados estão segurando as gargantas como se estivessem sendo asfixiados. Logo eles caem no chão. O outro ainda suspenso no ar está com um semblante desesperado. O meu deve estar bem surpreso. Ainda mais agora, vendo a adorável menina...
Aqueles olhos de cachorrinho abandonado de tom rosa agora estão cheios de uma violência tangível. O lábio habilmente escondido junto do queixo agora retorcido num sorriso cruel e sádico. E eu acho que consigo ouvir uma risada de vilã do mal bem baixinha...
Ela move um dedo e a outra perna do coitado se torce e quebra, cada parte dela tentando ir em uma direção diferente das demais. Sangue voa. Eu acho que estou ficando enjoado...
Mais um movimento e o cara vai com tudo ao chão, se espatifando todo. Ih merda. Agora ela olha para mim com esse adorável sadismo. E — O QUÊ DIABOS?!
A menina loira me abraça e começa a chorar, caindo de joelhos no chão enquanto quase leva as minhas calças junto! Eu estou tão confuso, nem consigo pensar direito... Um grupo de pessoas aparece, conversando sobre algo que deve ser engraçado e vêem a cena.
- Ei, vocês estão bem?! O que aconteceu aqui? — um menino aparentemente perfeitamente normal se adianta e vem ver se os três caídos estão bem.
- Eles... Eles me atacaram! *chuif!* M-Me atacaram e *chuif* e esse jovem aqui me salvou! — O QUÊ DIABOS?! Eu não fiz nada!
- Esses... Esses três são alguns dos alunos mais problemáticos da AVE! — o npc de pouca importância afirma, com surpresa na face — Há tantos rumores sobre a crueldade deles que todos se afastam no corredor quando eles passam! Dizem que eles esfaquearam e quase mataram um cara só por espirrar perto deles! Que incrível!
Hã... Incrível? Problemáticos?
- Você deve ser um cara muito foda pra derrotar os três de uma vez! Como você conseguiu? — uma das meninas do grupo pergunta, animada.
- Ele usou uma magia suuuuuuuper legal! — a loira diz, antes que eu reaja. Percebo o que está acontecendo aqui. A menina loira por algum motivo não quer ser tomada como responsável pelo que aconteceu aqui, provavelmente porque não quer sofrer retaliações dos delinquentes, então eu acho que vou ter que fazer um sacrifício... ( e, claramente, a chance de fama e glória e o incrível medo de irritar a menina não tiveram nenhuma influência na minha decisão)
- Sim, isso mesmo! — eu falo tentando parecer heroico — Eu vi uns caras importunando uma adorável e indefesa menina e vim ajudar. Houve resistência e acabou nisso que acabou!
Vários elogios e similiares ( coisas como: \"Nossa! Que incrível!\" ) começam a vir em minha direção, mas a única coisa que eu ouço é um pequeno sussurro:
- Eu espero que você mantenha o que REALMENTE aconteceu aqui um segredo, sr. Herói. Pelo seu próprio bem...
Após este rápido acontecimento, eu continuo o plano original de me divertir. Ou tento. A maioria das pessoas não estava sabendo dessa história toda, mas alguém que viu deve ser um baita fofoqueiro porque em pouco tempo todo mundo só parece falar disso. Até um professor vem falar comigo, me dizer que não haverá nenhuma punição para mim e me dar um tapinha no ombro. Infelizmente, aquela menina loira está sempre por perto, bem no canto da minha visão periférica! ( Como ela faz isso? Deve ser difícil! )
Não consigo relaxar em momento algum e eu tenho quase certeza que a maldita está fazendo isso de propósito! Inferno...
Também não consegui achar a Karin pra tentar agradecê-la e aproveitar para falar o meu nome...
Com o término da festa, eu finalmente relaxo e começo a voltar para casa. Teria sido bem mais fácil se houvesse algum tipo de bebida alcoólica, mas aparentemente pega mal dar bebida para menores fora dos bares... ( Sim, em Cilindra a maioria dos bares não liga para isso e não há leis que impeçam menores de beber. É até cortesia colocar uma cereja na bebida deles. ) Talvez eles não tenham cerejas... Faz sentido...
- Espere covarde! — um grito me tira do devaneio sobre bebida.
- Woah! — um cara passa correndo do meu lado e eu desvio no último segundo, quase caindo em cima de um barril daqueles que coletam água da chuva. Ele parecia estar REALMENTE assustado, quase chorando. Tinha alguma coisa entre os braços, meio... peluda?
- Você não vai escapar! — em seguida vem uma ... quem usaria roupas dessas? Uma pistoleira ( a única descrição que eu daria para uma pessoa com chapéu de cowboy, um monte de roupas de couro e uma daquelas pistolas de 6 tiros na mão ). Ela para ao meu lado e faz mira no cara que está correndo. Ei! Ela está mirando para matar!
*BANG!*
O barulho do tiro ecoa, mas este vai inofensivamente para bem alto. Ufa! Deu tempo!
- O quê você pensa que está fazendo?! — ela grita indignada, soltando os braços que eu empurrei para o alto e me encarando com ódio nos olhos. Por quê eu só encontro mulheres problemáticas? É alguma sina de personagem principal?
- Ei, eu só impedi você de matar aquele cara! É uma ação digna de elogios, até onde eu saiba!
- Elogio?! Aquele cara me roubou!
- Ah. — que coisa — Mas isso ainda não é motivo pra abrir um rombo na nuca dele! Eu vi que você tava mirando lá!
Ela fica quieta um pouco. — Você... viu? Interessante. Bom, não era nada muito importante, então eu vou deixar essa passar. — Ah, que bom. Ela parece uma pessoa mais razoável. — Isso, é claro, se você me compensar pelo que eu perdi.
- Ahn, eu não tenho muito dinheiro... Aquilo era importante ou valioso? — por favor não seja por favor não seja por favor não seja por favor não seja
- Não muito, mas eu gastei um bom tempo tentando conseguí-lo... — que tipo de coisa será essa? Demorada de conseguir mas sem muito valor... — ... então, que tal assim: você me acompanha até eu conseguir outro?
- Ah, eu realmente devia voltar pra casa e você mesma disse que demorou um bom tempo... — ei! Quando você chegou tão perto de mim?!
- Sua mãe nunca ensinou-lhe que é falta de cavalheirismo recusar o convite de uma mulher sem um bom motivo? — ela fala, bem encostada. Consigo até sentir um cheiro bom de... perfume? E... pólvora? Droga, não se distraia agora cara!
- Bem... acho que eu posso gastar algum tempo... — não é como se fosse ter alguém em casa agora... Minha mãe é famosa por trabalhar excessivamente e por amar o próprio trabalho mesmo... E eu tenho certeza absoluta que ela nem deve estar sabendo que eu viria hoje, se não, ela teria aparecido no portão para me receber. Ela sempre faz isso.
- Ótimo! — ela fala, se afastando — Por aqui! Ah! Meu nome é Marina, mas pode me chamar de Mari. E você? — ela já começa a andar e eu preciso me apressar para acompanhá-la. Logo ela começa a correr um pouco.
- Yoseph — dessa vez eu respondo rápido ao invés de começar a viajar. Não quero correr o risco de acontecer igual foi com a Karin. Era esse o nome dela, né?
- Yoseph, é? Um nome interessante... Achei que um elfo teria um nome mais... élfico.
- Bem, eu mesmo não conheci muitos elfos, só meus pais, mas sei que nem todos seguem o padrão élfico. Principalmente os que não ficam lá na floresta. — eu repito as palavras que foram ditas a mim, embora de certa forma meu nome seja \"élfico\". O verdadeiro, pelo menos.
- Mmm... — ela para de repente. Que bom, eu estava começando a cansar. — Chegamos! É aqui.
\"Campo de Tiro ao Alvo do Tio Sam\" é o que diz a placa maior. A menor diz: \"Série de desafio de hoje: Acerte os animais!!!\"
Um campo de tiro ao alvo? É, algo que eu esperaria de uma pessoa vestida de pistoleira...
- Hoje eu consegui ganhar um dos prêmios da série de desafio, depois de umas quinze tentativas. Mas aquele ladrão levou ele. — nossa, me senti mal agora. Quinze deve ter sido tenso. — Não se preocupe! Eu fiz mais pela diversão de atirar sabe. Aqui. — ela me passa um dos rifles de brinquedo enquanto já pega outro. Puxa, são bem realistas esses aqui... Aliás, são MUITO realistas! Tem até trava de segurança!
Enquanto eu fico analisando o rifle, ela já se prepara para atirar, apoiando seu rifle num tronco que fica mais ou menos na altura do nosso peito. Esse tronco aqui é o lugar de onde nós atiramos, né? Aparentemente, os alvos são vários animais de pelúcia alinhados lááááá longe. Caramba, esses rifles atiram tão longe assim? Eles são de brinquedo, não são?
- Não se preocupe, jovem. — um homem sai do nada para falar e eu dou um pulo de susto, além de soltar um gritinho que com certeza eu não queria ter soltado... Felizmente a tal de Mari parece muito concentrada em mirar para ter visto isso... — Esses rifles parecem reais e com certeza atiram como os reais, mas são perfeitamente seguros. Não tenha medo.
Olhando agora, o cara tem um daqueles colantes com o nome escrito. Lê \"Tio Sam\". Esse Sam é um cara já velho, com uma barba mal-feita e um pouco grisalha, assim como o cabelo bagunçado e comprido. Ele tem um daqueles sobretudos de personagem de filme de ação. O chapéu vermelho, branco e azul que ele usa com certeza não bate com o resto das roupas...
Bom, vamos testar essa coisa então. Eu apoio o rifle no tronco para firmá-lo. Hm... qual animal vamos tentar acertar? Acho que vou pegar aquele tigre vesgo! *Bang!* WOW! Que susto! Eu estava tão concentrado que esqueci da Mari aqui do lado!
O tiro dela voa rumo aos bichos e... pera, já acertou um! Infelizmente, o animal apenas cambaleia um pouco e não é derrubado.
- Tch! — ela reclama e já recarrega seu rifle.
- Você ainda não está levando o vento em consideração o bastante, jovem.
- Não enche o saco! — ela dispara mais uma vez, obtendo resultados parecidos com os de antes.
- Bom, deixa eu tentar uma vez! — isso parece divertido! Não sei por quê, mas meu pai sempre foi contra a idéia de manusear armas-de-fogo. É a primeira vez que vou usar uma.
- Cuidado com o recuo, não fique tenso nem relaxado demais. Lembre-se de apertar o gatilho e não puxar. Respire e alinhe o alvo com a mira. Sinta o vento. — o Tio Sam guia. As instruções parecem naturais para mim. Então vamos ver, seu tigre! Seus dias de aterrorizar o estande dos animais estão para acabar, o xerife Yoseph está na cidade!
Eu aperto o gatilho ( NÃO puxo ). *BANGDOOM!!!* Ué, não era só Bang? ARGH!!!!!!! Minha mão! E minha perna! DOR!!! WTF acabou de acontecer?!
- Yoseph?! — eu ouço a Mari gritando e logo que perco a força nas pernas, o Tio Sam me segura.
- Calma jovem. Sua arma explodiu nas suas mãos. Não se preocupe, não há ferimentos graves e sua visão vai voltar logo. — EU TÔ CEGO?!?!! AI! Eeee eu desmaio...
- Você precisava fazer isso, Tio Sam?
- É melhor. Assim ele não precisa sentir toda a dor enquanto nós tiramos os estilhaços dele... Agora me ajude aqui, sim?
Aaaaauuu... Minha cabeça lateja um pouco. Hm. Um teto não familiar. E um apoio não familiar também. E uma janela... Você deve ter entendido até agora. Onde eu estou?
- Acordou dorminhoco? — Mari? — Ei, você deve estar bem! Até lembrou do meu nome! — Onde é isso? — Aqui? É um templo. Eu não lembro bem o nome do deus, mas tanto faz. Nós trouxemos você aqui para receber um tratamento médico melhor. — Nós?
Eu vejo o Tio Sam sentado numa cadeira um pouco afastada. Será que ele gosta de ficar meio escondido por acaso? Toda vez que eu olho ele parece estar num lugar cercado de sombras...
- Bem, já está escuro e ficando tarde. Você está bom para levantar? — na verdade, eu nem sinto tanta dor mais. Como se tivessem me curado com mágica ou algo assim.
- Eu tô legal, já vou levantar e ops! — nossa, quase perdi o equilíbrio. Melhor ir devagar.
- Haha! Cuidado aí, não vá se machucar de novo. Vamos nessa, Tio? — ele levanta rapidamente em resposta.
- Eu preciso voltar e fechar a minha loja. Não precisam vir comigo. — ele olha para mim — Seja cavalheiro jovem e acompanhe a dama para a casa dela, sim? — sem deixar tempo ou espaço para protestos, ele se vai.
- Você não precisa me acompanhar, Yoseph. Eu sei me virar bem sozinha.
E agora? Opção A: Ok, vejo você por aí. Ou opção B: Imagina, um homem não poderia deixar uma dama sozinha por ai! É Sinda... Você é um idiota mesmo.
- Imagina, eu vou com você, dá nada. Além disso, eu sinto como se EU ficasse mais seguro com você por perto! — ela sorri bastante e nós saímos, agradecendo os pobres coitado.. er, os gentis e bondosos padres.
No caminho nós vamos jogando conversa fiada fora, falando de coisas úteis como o tempo, as últimas armas saindo no mercado e sobre como magia de cura é incrivelmente conveniente para a vida das pessoas...
- Oh man. — eu deixo escapar.
- O quê foi? — ela nota a minha preocupação e aparentemente tem o instinto de levar a mão à arma nessas ocasiões.
- Alguma coisa ruim vai acontecer. Por aqui. — eu levo ela para um beco um pouco discreto ( sem idéias sacanas! ). Deve ser a qualquer momento agora...
- Ei, Yoseph, você não está pensando em alguma coisa sacana, né? Me empurrando para um beco, assim do nada... Não podia esperar mais? — ela fala, num tom de brincadeira.
- É lógico que — *DOOOM!!!* Uma explosão bem perto daqui faz com que nós dois voemos de cara ( eu ) ou costas ( ela ) ao chão. Quem esperava uma cena clichê de animes de romance se ferrou, porque eu cai só no chão mesmo. Pera, acho que EU me ferrei... Não teria sido ruim!
Um prédio próximo, aparentemente alguma loja de artigos de luxo está em chamas e uns três homens com máscaras de ski saem de dentro dele, carregando sacos pretos cheios e atirando por aí para assustar as pessoas.
Ao contrário do que normalmente se esperaria, as pessoas reagem como se estivessem acostumadas a situações como essa e rapidamente pegam cobertura. É, ainda é a Cidade Livre que eu conheço...
- Yoyo, fique por aqui, eu vou lidar com esses caras. — Mari diz, determinação na face e pistola na mão. Ei! Você não está pensando em lidar sozinha com isso né? — Que escolha eu tenho? Não tem mais ninguém aqui que possa fazer isso! Não é como se você estivesse armado, por exemplo!
- Tá maluca?! São três contra uma! E todos armados, você estaria pedindo para morrer! Aqui não é alguma história de herói! Se você partir pra cima gritando coisas ridículas você vai é morrer bem rápido!
Nesse mesmo instante: um homem aparece na cena.
Ele é Joseph Kindler. Um verdadeiro homem. Um verdadeiro guerreiro, brandindo a sua alabarda sagrada! Tirando a parte em que ele ainda é um moleque de 16 anos.
- Ei! Ei! Ei! Vocês aí, seus assaltantes de meia-tigela! — Kindler grita, apontando para eles com a ponta de sua arma de haste. — Se vocês querem atrapalhar a vida das pessoas pacíficas e trabalhadoras da Cidade Livre, vão ter que se ver comigo! — e agora ele aponta com o dedão para si mesmo, fazendo uma pose heroica.
- Um idiota entrou em cena... — eu e Mari falamos ao mesmo tempo. Os assaltantes parecem concordar, olhando um para a cara do outro enquanto seguram risos.
- Se vocês não se renderem eu terei que YIP! — ele engole as palavras e dá um salto para trás quando quase leva um tiro. Idiota! O que você pensa que está fazendo?! E Mari, o que VOCÊ tá fazendo?! Não corra pra cima deles! Droga, tarde demais!
Enquanto os assaltantes milagrosamente continuam errando o idiota, Mari chega perto de um e dispara na perna dele, acertando-o no joelho. O homem cai no chão, gritando de forma desonrosa. Os outros percebem a maluca e divergem sua mira para ela. Droga, droga, droga, droga! Não dá pra ficar parado numa situação dessas!
Ela pula para o lado quando os tiros começam a voar e o idiota aproveita.
- Ahá! Agora vocês estão indefesos perante a minha ofensiva, vilões! Háháhá! — burro! Não grite assim para avisar eles! Os dois se viram para o idiota...
- Chance! — Mari grita também, rolando para o lado e atirando em mais um deles, dessa vez acertando um ombro. O homem não cai, mas derruba a arma no chão.
- Pivetes malditos! — o que sobrou grita e aponta sua arma a Mari. Ela não vai conseguir escapar a tempo, ainda nem se levantou direito. — Eu não vou errar dessa distância!
- Ei, trouxa. — eu falo. Isso mesmo anta, olhe para mim. Olhe para mim e venha! Quando o assaltante se vira na minha direção, eu soco ele na cara e quando ele cai no chão, chuto ele! Velha tática ninja: bata neles e quando eles cairem, chute!
Não acredito que acabamos de fazer uma coisa dessas... Ainda bem que eles não pareciam muito experientes...
Eu esperava algum comentário, ou até mesmo aplausos, mas as pessoas em volta não fazem nada de diferente, apenas continuam com suas vidas. Realmente, a Cidade Livre que eu conheço... Acho que se hipopótamos voassem todos os dias na nossa frente, ver um hipopótamo voador não seria uma coisa tão bizarra assim...
- Hei! — Joseph Kindler aparece, novamente tentando fazer uma pose heroica — Vocês dois foram de grande ajuda, posso saber o nome de heróis tão honrados? — heróis honrados? Onde?
- Ah, palhaç Er, ... moço. Meu nome é Marina. E esse é o Yoseph. Não ligue para nós, já estamos de saída. — ela parece um pouco agitada, querendo ir embora rápido daqui...
- É um prazer conhecê-los. Eu, Joseph Kindler, nunca esquecerei da sua ajuda e... Por quê todo mundo vai embora antes que eu acabe? Sacanagem...
- Qual é a pressa, Mari? — eu pergunto enquanto ela resolve começar a correr. — Não fizemos nada de errado e nem causamos danos colaterais ou algo assim.
- Eu não gosto da guarda. Na verdade, a guarda não gosta de ninguém da minha família.
- Qual é o problema da guarda com a sua família?
- O problema — ela diz, olhando-me com os olhos castanhos e jogando o cabelo também castanho preso numa trança para trás, hesitando um pouco — é que a minha família são os Dempsei.
Dempsei? Onde eu já ouvi esse nome? Era alguma coisa que meu pai me falou...
*Momento Flashback*
- Meu filho — Sindarin diz sentado numa pedra com o pôr-do-sol a suas costas — eu sei que você ainda é novo, mas existem algumas coisas que devem ser ensinadas o quanto antes. Pelo seu próprio bem.
Sindarin Jr., com seus grandes 9 meses de idade, apenas tentava apanhar uma borboleta que continuava a evitá-lo como se dissesse \"Você precisaria de 100 anos de treino para me pegar, elfo inútil!\"
- Existem três coisas no mundo que você deve evitar a todo custo se dá valor a sua vida.
Número 1: Pular ou cair de lugares altos. Não importa quem você é, vai machucar.
Número 2: Se separar dos seus amigos numa masmorra. Isso é pedir para os monstros eliminarem vocês um por vez.
Número 3: Os Dempsei. Evite-os. Todos estão armados e você VAI levar tiro. PRINCIPALMENTE a Alice. Ela é PERIGOSA. Legal, mas PERIGOSA.
Entendeu tudo isso filho?
- Gu gu dá dá.
- Vou tomar isso como um sim.
*Fim do Momento Flashback*
Oh! — Dempsei. — DANGER! DANGER! DANGER! — Dempsei... — DANGER! DANG- PARA COM ISSO! Desgraça.
- Ah... — parece que ela percebeu o meu medo desgraçado. Ela parece triste. — Costuma ser assim... Bom, eu vou para casa. Já está perto... Foi bom conhecer você, Yose-
- Ei! Quem disse que eu ia fugir? — droga Sinda! Por quê você é tão fraco quando tem mulheres no meio? Aposto que ela nem ia chorar, aquilo ali deve ser só poeira mesmo. (Não, sério, tá uma bosta o ar aqui... A explosão, sabe) — Eu não falei que acompanharia você até que eu compensasse o que aconteceu? Não fique achando que eu ia abandoná-la só porque você é uma Dempsei! Quem liga pra isso? (Além do meu instinto de auto-preservação, é claro)
Ela sorri amplamente. — Então, se você não liga... — agora ela hesita um pouco de novo — Que tal se você jantasse na minha casa hoje? — AW MAN! Bom trabalho Sinda! Você tá mandando bem hoje, não? Vai, recusa aí agora! Anta!
- P... Por que não? — devo ter cavado a própria cova, me jogado nela e me enterrado...
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