Mil Tsurus
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Eu revisei, mas confesso que estava tão imerso na história que acho que não fiz um bom trabalho. Se encontrarem alguma coisa errada, por favor deem um toque.
Muito tempo depois eu me perguntei como cheguei em casa naquela noite. Como eu podia estar inteiro depois de tudo? Eu sabia que elas não gostavam de mim e que a “prima” do Aoi ainda estava interessada nele, pelos olhares e a não disfarçada hostilidade contra mim. Não disfarçada quando ele estava longe, porque quando ele estava perto, ela agia como um poço de bondade e compreensão.
Mas eu nunca podia imaginar, nem nos meus piores pesadelos... não sei de quem posso sentir mais raiva, dele por contar sobre meu passado ou dela por se aproveitar disso.
Eu achei que podia confiar nele, nos sentimentos dele... achei que ele era o homem da minha vida e acabei me esquecendo do básico.
Sentado no escuro, eu podia sentir cada pedacinho do meu coração se soltando e caindo. Nem estava ligando para a dor no meu rosto por causa da bofetada que levei do meu pai, isso foi comum na infância e não me surpreendi nenhum pouco.
Eles nunca gostaram de mim. Meus pais e minhas irmãs me detestavam e eu não fazia idéia do por que. Sempre tentei ser o melhor para agradá-los, mas por mais que eu fizesse, não era nada para eles.
Não, isso não é verdade. Era alguma coisa, sim. Insuficiente. Sempre.
Sempre ouvi da minha mãe que eu não tinha que ter nascido, que eu fui um erro grotesco da natureza e quando minha homossexualidade ficou clara, a coisa piorou.
O quão pior?
Fui expulso de casa aos quinze, então na escala, quanto isso dá?
Foi então que descobri, pelo menos em parte, porque minhas irmãs e minha mãe me detestavam. Fala sério, um bishounen em toda a extensão da palavra?
Eu devo ter sido muito idiota mesmo porque só na rua, entendi os olhares que os namorados das minhas irmãs me lançavam. E entendi porque meu pai estava tão decepcionado comigo.
Isso me leva ao motivo da humilhação hoje, no dia do meu aniversário, na festa que meu namorado fez para mim. Ainda vejo a hora do brinde em que ela se ergueu e disse que queria dizer algumas palavras.
Algumas palavras... Eu não acredito que ele pode fazer isso comigo!
Ela disse tudo, que agora eu estava bem porque Aoi me tirou da rua. Ela contou para todo mundo que eu fui garoto de programa, mas que agora, o primo estava indo à falência por me ajudar a pagar o aluguel e a faculdade. Nessa hora ela riu e disse que o amor é cego e inconseqüente, mas que alguém tem que pagar a conta.
Ela citou todas as dívidas que eu tenho com meus amigos e falou do meu fracasso em ser fotógrafo. Ela disse que apesar de eu ser mal acostumado e viver de dinheiro “emprestado”, tinha fé em mim e eu ia acabar conseguindo ser alguém um dia. Só esperava que isso acontecesse antes de levar o Aoi para o buraco ou para a prisão.
Ela disse tudo, na frente dos meus amigos, de pessoas conhecidas e na frente dos meus pais, que Aoi convidou como uma surpresa para mim.
Ninguém a fez parar... ninguém disse nada a meu favor e quando meu pai me esbofeteou na frente de todo mundo e Aoi chegou perto de mim, eu achei que ia ter alguma ajuda, mas não, ele se limitou a pedir que eu fosse embora.
Eu me lembro de dizer a ele que era a minha festa de aniversário, mas ele rebateu dizendo que o dinheiro para pagar tudo era dele, então...
Então eu saí... e vim para casa...
Esperei um telefonema preocupado de algum amigo, ou dele pedindo desculpas, mas nada. Meu telefone ficou em silêncio.
***
Eu não estava preparado para descobrir que a história correu a faculdade como um rastilho de pólvora. Quase todos os alunos me encararam quando cheguei, mas não foi pior que depois. Brincadeiras maliciosas e insinuações... Um monte de caras me perguntou quanto eu cobro, rindo debochados...
Naquela semana eu sabia que Aoi não iria às aulas, mas fiquei um pouco magoado quando Ruki e Reita me evitaram.
Um pouco não, muito magoado.
Muito mesmo.
No fim da semana, alguns caras tomaram coragem e me arrastaram para o banheiro. Eu até tentei me defender e resistir, mas não consegui com pelo menos cinco em cima de mim. Depois foi pior porque quando denunciei, eles se defenderam dizendo que eu sou um garoto de programa e me ofereci, provocando tanto que eles perderam a cabeça. Homens que nunca vi apareceram para contar que estiveram comigo dentro da faculdade, e que isso nunca me deteve. Que era normal eu fazer programas lá.
Eles disseram que eu quis e nem os machucados provaram o contrário.
Fui expulso da universidade, mesmo provando que os que testemunharam contra mim eram amigos dos acusados e além disso, a polícia disse que eu não tinha provas de que não quis estar lá com eles.
Eu odeio gente rica.
Quando ouvi da minha senhoria que teria que me mudar por que lá era um lugar de gente respeitável, me deu vontade de gritar e brigar na hora, mas depois pensei melhor. Eu não ia conseguir pagar esse lugar sozinho e pelo jeito, depois de quinze dias de silêncio da parte de Aoi, eu sabia que tinha sido abandonado.
Não que eu fosse pedir ajuda. Eu nunca mais faria isso sabendo que eles me deram dinheiro para depois ficar reclamando para outras pessoas. Eles realmente me deram, me deram mesmo e pelo menos na hora que aconteceu, ninguém disse que eu tinha que devolver. Kai, Reita e Ruki disseram que tudo bem.
Que éramos amigos e amigos se ajudavam...
Não entendi porque contaram a ela sobre isso, porque reclamaram que eu não paguei e disseram que eu queria viver do dinheiro deles quando sabiam o quanto eu ralo para conseguir comer!
E Aoi... foi por insistência dele que vim morar aqui e retirei o pedido de bolsa de estudos. Eu achei que ele realmente me ajudava por me amar e...
Bem, apesar de prometer nunca contar a ninguém que eu fiz programas para sobreviver no passado, ele contou a ela. Eu confiei nele porque o amo, e ele contou a ela meu maior segredo e além disso, ainda reclamou do dinheiro que me dá.
Dinheiro que eu nunca pedi e só aceitei por insistência dele.
E burrice minha. Eu devia saber.
Devia saber também que se minha senhoria soube sobre o que eu fazia antes, outros podiam saber também. Fui demitido no fim do mês, depois de ter que trabalhar escondido no depósito por quase uma semana. Não recebi nenhuma explicação, nem nada...
Nem precisava, depois de tudo.
***
Entrei no meu quartinho tarde da noite e senti dor ao sentar, mas não ia reclamar nem chorar. Lágrimas nunca resolveram nada e dão dor de cabeça, além de deixar a cara inchada.
Abri a bolsa e contei o dinheiro que consegui. Uma semana nas ruas e podia pagar pelo menos um pouco das contas. Deitei sobre o futon no chão e encarei o lugar. Um quarto sem banheiro ou cozinha, minhas roupas (o que sobrou delas) em ganchos na parede e dois pares de tênis. Isso era tudo a que se reduziu meus pertences depois de ter me mudar. Eu não tinha grana, isso era um fato e não deu para remediar.
Tive que vir para cá e então, vendi todos os meus móveis, tudo o que consegui comprar com tanto sacrifício e minhas câmeras fotográficas. Vendi tudo porque não tinha como pagar outro lugar e comer ao mesmo tempo.
Deixei os pensamentos no fundo de algum lugar, acostumado ao cansaço e a dor.
Adormeci.
No outro dia, vesti roupas normais e fui ao banco. Fiz depósitos separados em dinheiro, e depois fui a uma lan house. Escaneei os recibos e enviei a Aoi com um texto simples e desapaixonado.
Não era hora para sentimentalismos.
“Shiroyama-san, bom dia!
De acordo com o relatório de sua prima, fiz os depósitos em anexo para quitação da dívida que tenho com o senhor. Depositei metade do valor e espero quitar o resto em pouco tempo. Aviso também que fiz os depósitos para Suzuki Akira, Matsumoto Takanori e Yutaka Uke, conforme recibos separados. Como não tenho os dados bancários deles, depositei em sua conta e peço o favor de repassar o dinheiro a eles.
Para que não haja mais mal entendidos sobre dinheiro, vou encaminhar essa mensagem aos outros, para controle de vocês e meu. Desculpe se pensei que era ajuda desinteressada e me perdoe especialmente por não ter percebido o desconforto de vocês com a situação. Não posso deixar de pensar que tudo poderia ser evitado se eu tivesse sido avisado, afinal, nunca me destaquei por ser um bom leitor de mentes.
Obrigado pela ajuda.
Takashima Kouyou.”
Anexei os recibos e enviei a mensagem, com cópia para os outros. Eu ainda hesitei e quase apaguei a alfinetada, mas qual é! Eu sangro se me cortarem...
Eu estava quitando com os três, mas ainda devia a Aoi. Ahn! Ele ia ter que esperar um pouco!
Minha grana não estava dando para tudo e eu não podia simplesmente trabalhar em qualquer lugar. As ruas são perigosas para garotos de programa e eu ainda não tinha feito amigos para me darem suporte.
Além dos outros garotos que podiam te matar pelo ponto, ainda existia a máfia, que podia te sequestrar e aí, já era. Você podia ser vendido como escravo, ser colocado para trabalhar num bordel até morrer doente ou assassinado ou então, servir de brinquedo até que se cansassem e metessem uma bala na sua cabeça. Isso se escapasse dos traficantes de órgãos que ficavam vigiando as pessoas que parecessem não importar a ninguém.
Vida fácil? Para quem?!?!?
Levei quase três meses para pagar tudo o que devia o meu ex e ainda assim, só porque passei fome e todo o tipo de privação. Eu tomava banho em um posto antes do trabalho e aproveitava os programas para me limpar, comia uma vez por dia e dormia no chão frio, já que eu só tinha um futon. Dormir é um eufemismo, porque aproveitava o dia para fazer pequenos bicos, para ajudar no orçamento e deixava minha mochila com documentos, roupas para trocar e o dinheiro que consegui escondida numa calha de uma loja de sorvetes. Andar na rua com seus pertences é loucura, ainda mais quando o cliente pode ser um assaltante em potencial. Não dava também para deixar no quarto onde dormia. No segundo dia, fui roubado e fiquei surpreso e indignado quando levaram minhas melhores roupas.
Eu estava esgotado, física e mentalmente, e acho que até sentimentalmente, mas eu que não ia meter a mão em cumbuca e abrir a caixa de Pandora! Não mesmo! Eu não podia me dar ao luxo de sofrer ainda mais!
Mas eu devia saber também que pela lei de Murphy, tudo o que tem probabilidade de dar errado, com certeza vai dar. E acho que essa lei se apaixonou por mim. Sério!
Naquela noite, eu soube que teria que ser mais forte do que qualquer outra vez que precisei ter sido na vida. Eu sabia que devia ter tido mais cuidado, sabia que devia ter percebido a movimentação, mas eu estava tão cansado e com tanta fome, que simplesmente não consegui deixar o botão do perigo ligado.
No fim, eu estava onde menos desejava e o abuso que sofri dos caras na faculdade pareceram brincadeira de criança. Naquele lugar, a palavra limite não existe. Éramos mantidos nus, usando coleiras com longas correntes e os pulsos sempre presos em algemas ou correias. Éramos caçados em labirintos, torturados, espancados e eu tive sorte quando não fui marcado. Foi horrível ver o garoto se retorcer e gritar até desmaiar, quando escreveram “slave” em suas costas com ferro em brasa. As letras eram enormes e cobriram quase toda a pele dele, das costas ao peito e eu não saberia dizer o que era pior: os gritos, o cheiro de carne queimada ou as risadas francamente divertidas.
Uma vez um masoquista apareceu por lá, mas não foi apreciado. Os clientes gostavam da reação de dor e medo que provocavam, e gostavam ainda mais se resistíssemos. Na verdade, nosso “dono” gritava e exigia que déssemos trabalho aos clientes, para aumentar o prazer deles e o lucro da casa.
– Você gosta! Eu sei que gosta! – um dos homens vivia me dizendo, divertido – Vai se apaixonar por mim e ser meu brinquedo para sempre! Você vai implorar para ser fodido por mim!
Ele e os outros riam, mas eu nunca dizia nada. Não podíamos falar nenhuma palavra, só gemer, de dor ou prazer e sinceramente acho que nenhum de nós alguma vez gemeu de prazer, mas o ponto não é esse. O ponto é que eu duvidava que pudesse algum dia aceitar aquela situação. Não era normal ser forçado a fazer sexo de todo o tipo, por longas horas, com vários homens juntos ou separados. Não era normal dizer que aqueles instrumentos usados eram para aumentar o prazer quando sabia que provocavam mais dor do que qualquer outra coisa.
Isso não era normal! Sentir prazer com a dor do outro não pode ser normal!
Não no meu mundo.
A síndrome de Estocolmo é uma exceção, e não regra geral. Eu sei que acontece sem a vítima perceber, mas eu não sou tão frágil assim! Eu posso não ter nenhuma força física e estar preso aqui, forçado e humilhado... mas eu ainda sei quem sou, sei que não estou aqui porque quero e sei que quando fazem algo de bom por mim, vou ter que pagar depois. E vai ser caro.
Nenhuma explicação ou ato apaga o fato de que fui arrastado para cá, espancado, humilhado e abusado até desejar a morte. E eu a quis, a chamei em silêncio muitas vezes.
Tantas que perdi a conta.
Foi nesse momento que pensei que se não tivesse nascido como era o desejo da minha mãe, nada disso estaria acontecendo, mas mesmo assim, eu nunca conseguia ver algo de bom ou simpatizar com alguém lá dentro. Para mim, todos pareciam monstros.
***
Dois de nós morreram anteontem. Foram torturados sexualmente até não agüentarem e depois, deixaram os corpos aqui com a gente até ontem à tarde. Eles estavam nus e cortados, e soubemos que emascularam um deles para ver se podiam ser usados como mulheres, sem cirurgia. Na área genital desse, ainda estavam introduzidos dois vibradores enormes quando foram deixados para que víssemos.
Eu já disse que odeio gente rica? Que desprezo esses animais que se vestem com terno e gravata e usam jóias e carrões?
Porque eu sei que quando eles vêem a esse lugar, deixam cair a máscara e se transformam naquilo que realmente são. Animais.
Eu não sei quanto tempo faz que estou aqui. Sei que é um prédio, porque subimos e descemos escadas, mas sei também que não deve ser muito alto. Só tem um lance de escadas. Tem quartos, onde dormimos. Não tem janelas nem portas, assim como nos banheiros. Privacidade, para qualquer coisa, não existe aqui. Não temos roupas quentes e na maioria das vezes, ficamos nus e descalços.
Quando tiram a coleira e as correias dos pulsos, dá para ver a pele marcada e sentir ardendo.
Eu sinto dor todo o dia, todas as horas do dia. Meu corpo já está cheio de marcas e algumas, eu sei que nunca vão desaparecer, mas não posso reclamar. O garoto que foi marcado sofreu por dias antes da pele dele se soltar, como em um porco assado. A ferida ficou enorme, na carne viva e depois de algum tempo, se encheu de pus e ele agonizou. Por causa do cheiro, foi levado daqui e não soubemos mais dele.
Não é preciso adivinhar o que aconteceu depois e porque ele não voltou. Todo mundo sabe.
Eu cheguei a amaldiçoar Aoi por ter deixado tudo aquilo acontecer comigo e me empurrar para as ruas de novo. Xinguei por ter pago a ele e desejei que as piores coisas do mundo acontecessem com ele e com aquela prima horrorosa dele mas depois pensei melhor. Não foi culpa dele.
Foi minha. Eu que achei que pudesse ser um cara normal, ter um apartamento legal, fazer faculdade e ter um namorado que amava e me ajudava em tudo, com o bônus de saber tudo sobre mim e não me julgar.
Esqueci que contos de fada não existem.
Eu devia ter me lembrado que meus próprios pais nunca me aceitaram e minhas irmãs decididamente me odiavam. Devia ter me lembrado que fui posto para fora de casa aos quinze e, uma vez nas ruas fazendo programa, nunca mais dava para ser alguém normal. A não ser se que mude de cidade ou país e corte relações com todo o mundo que já te conheceu.
Eu esqueci das regras básicas de sobrevivência quando me apaixonei por ele. Agora é que entendo quando as pessoas afirmam que amar deixa burro. Contar a ele foi a pior coisa que já fiz na vida.
Não, contar a ele não, mas confiar nele. Isso sim foi burrice. Confiar que ele nunca me julgaria mesmo e que nunca contaria a ninguém. Em última instância, eu dei a ele as armas que ela usaria para me destruir.
E destruir literalmente.
Ainda sinto raiva quando lembro que reclamei com ele das atitudes dela, e ele nunca acreditou em mim. Vivia repetindo que eram amigos e que, apesar de já terem sido namorados, não existia mais nada além do meu ciúme incontrolável.
Fico pensando se ele ainda acha isso...
Na verdade, eu não me lembro bem das coisas boas... só me lembro das últimas semanas... eu me lembro da faculdade... das minhas câmeras... às vezes me pergunto o que aconteceu com minha mochila e minhas coisas que ficaram no quartinho...
Me pergunto se alguém deu falta de mim e estava me procurando... Nessas horas eu chego a sonhar... para então acordar do pior jeito possível.
Por mais que eu sonhe, imagine e deseje, acho que não vai vir ninguém.
Porque meu pessimismo?
Porque eu nunca fui importante o bastante para que se importassem antes. O que teria mudado?
****
Um puxão na coleira me fez franzir a testa de dor, mas eu reprimi o gemido. Não daria a eles mais motivos para me baterem, então fiquei quieto ao lado do sofá, encolhido no chão frio.
A música alta, as risadas, gritos e conversa estavam me deixando desorientado, mas eu sabia que não terminaria logo, então suspirei e rezei para que me deixassem em paz. Estava cansando, sangrando, faminto, com frio e sede... eu só queria me deitar e morrer.
Não sei como a briga começou, já que eu estava do outro lado do salão. De repente, gritos raivosos se ergueram e eu me lembro de me encolher ainda mais. Sempre quando a poeira baixava, descontavam na gente a frustração por não poderem matar uns aos outros.
Só que a briga não parou e logo, tiros foram ouvidos. As garotas gritaram e o resto de nós tentou se proteger, Eu pus meus braços acima da cabeça e puxei as pernas, ouvindo estrondos de coisas caindo e quebrando. A música parou e deu para ouvir os homens xingando e tiros. Muitos tiros.
Eu me encolhi ainda mais quando uma garota caiu perto de mim, sem parte do rosto. Meu estômago embrulhou e eu fechei os olhos com força.
Eu tinha certeza de que íamos todos para o inferno.
Quando os tiros pararam, só me mexi quando vi um clarão pelo vidro da janela. Me ergui e olhei para trás. Um incêndio tinha começado na área do bar e várias pessoas estavam caídas. Algumas ainda se mexendo.
Com o coração aos saltos, tentei correr para perto de um dos garotos ferido, mas fui seguro pela coleira, ainda presa. Olhei em volta desesperado e acho que se tivesse pensado por um segundo, não tinha pego a arma. Ele estava numa posição estranha, mas eu não liguei a peguei a arma da mão dele. Segurando a corrente longe de mim, atirei muitas vezes antes de conseguir acertar, mas consegui.
Eu tentei não ficar louco de medo, mas sabia que estava histérico. Correndo para perto dele, pulei alguns homens no chão. Ele estava ferido no pescoço e tentou falar, mas não conseguiu e morreu olhando para mim. Eu achei que estava num terremoto, mas percebi que eram minhas mãos tremendo.
Olhei em volta e algumas garotas estavam chorando, encolhidas. Eu tentei puxa-las, mas elas estavam apavoradas demais e se recusaram a se mexer. Larguei a arma e corri para perto da porta, batendo com os punhos fechados nela. Eu me lembro de gritar, rouco e tão apavorado quanto elas.
O calor das chamas aumentou e quando ouvi tiros, me virei e grudei na porta. Um dos garotos estavam bem, mas estava no meio do salão atirando nas pessoas caídas. Ele matou uma das garotas e depois atirou na cabeça de vários homens no chão. Alguns já estavam mortos, mas duvidei que ele tivesse notado. Olhando para mim, ele apontou a arma para a própria cabeça e sorriu.
– Estamos livres.... – murmurou, rouco.
Então apertou o gatilho.
Eu não sei o que senti, mas foi muito ruim. Fechei os olhos e escorreguei pela porta, sem forças e fiquei ali parado por alguns minutos, ouvindo as chamas. Estava trancado numa sala fechada, cercado de corpos e prestes a ser queimado no incêndio. Quando abri os olhos de novo, vi uma arma perto de mim mas me recusei a pensar. Eu não ia desistir fácil assim.
Me levantei e tentei achar outra saída, mas não tinha. Respirando com dificuldade por causa da fumaça, já não dava para ver direito e o calor estava ficando mais intenso. Um homem gritou atrás de mim, mas eu não me virei.
Encontrei outro garoto, um dos menores, ferido perto da janela. Ele não foi atingido por nenhum tiro, mas estava todo cortado. Olhando em volta por algo que pudesse ajudar, ele me chamou a atenção segurando meu braço com força. Eu não queria ver mais ninguém morrer, mas não pude deixá-lo.
– Meu... nome... é Takashiro Yuuya.... – murmurou, com dificuldade.
Eu tentei sorrir para ele, mas não me lembrei como fazia.
– Sou Takashima Kouyou. – respondi, segurando-o – Por favor, não faz isso comigo...
– Fique vivo... – o sangue começou a escorrer da boca dele, mas os olhos dele estavam aliviados.
– Vou tentar. – eu disse, sentindo a garganta doer.
Ele ergueu a mão com dificuldade e me acariciou no rosto. Eu deixei e segurei a mão dele, tentando impedir que se fosse.
– Viva por mim também...
Eu não chorava com facilidade, e não chorei diante dos abusos, nem quando apanhava. Eu chorei de dor algumas vezes, mas era difícil de acontecer. Quando eu vi o brilho dos olhos dele sumir, eu quis chorar. Quis mesmo simplesmente me jogar no chão e chorar como uma criança.
Mas eu não fiz.
Deixei ele no chão e me ergui, olhando em volta. O fogo estava atrás de mim e a minha pele já estava ardendo e meus olhos, ardendo. Tossi várias vezes e achei que meus pulmões iam explodir, e então eu vi as malas. Puxei duas do sofá quando o fogo ia consumi-las e as joguei com força contra o vidro da janela. A primeira quebrou um pouco e com alívio, vi que não tinha grades de fora, então joguei a outra e sem pensar, corri e pulei.
A dor no meu tornozelo foi dilacerante e eu rolei sobre mim, mordendo o lábio para não gritar de dor. Me arrastei para longe e ergui o corpo, tentando saber onde eu estava. Um rio estava bem de frente para mim e do lado, um carro escuro. Por um momento, eu fiquei paralisado de medo que alguém atirasse em mim, mas a figura no carro não se mexeu.
Tomei coragem e me aproximei, puxando a perna. Apoiei na lateral do carro e olhei para baixo, tentando avaliar se meu tornozelo estava quebrado e só então reparei que ainda estava usando a coleira, as correias nos pulsos e estava nu. Estremecendo com o vento frio, respirei fundo e abri a porta do carro, caindo para trás quando o homem o fez sobre mim.
Por um minuto, achei que ia ser usado de novo e esperei, com medo. Estava ouvindo meu coração bater dentro da minha cabeça e não sabia direito o que pensar. Depois de algum tempo, o peso dele impediu minha respiração e eu o empurrei para o lado.
Sentando-me, eu notei sangue e vi que ele foi baleado na cabeça. Respirei fundo para me acalmar e então outra rajada de vento gelado me fez encolher. Ignorando a situação, eu tirei o sobretudo, os sapatos e o chapéu dele e vesti o melhor que pude. Voltei mancando e peguei as bolsas, colocando uma de cada lado de mim.
Quando eu me afastei alguns passos, o andar de cima explodiu. Mancando, me afastei do lugar e atravessei a ponte, respirando ruidosamente pela boca. Meus pulmões estavam doendo e eu sabia que o resto não estava melhor, mas fechei o sobretudo até em cima e apertei as bolsas, impedindo um pouco do vento.
Amanheci num dos becos do cais, faminto, ferido e desorientado. Eu não sei quanto tempo dormi, mas acho que foi muito. Quando acordei, o sol já estava se pondo.
Fiquei ali, encolhido embaixo do sobretudo, usando as bolsas como uma espécie de barreira contra o frio, apesar de não adiantar muito. Depois de muito tempo simplesmente olhando o céu, eu tentei avaliar minha situação.
Estava nu embaixo do sobretudo, sem dinheiro ou documentos, além de ferido. Eu tinha que reconhecer que não tinha muitas opções e por um segundo, cheguei a lamentar ter tentado viver.
Anoiteceu e eu não me movi, vendo os barcos manobrarem lentamente pelo pedaço do rio que podia ver. Ninguém passou por ali durante o tempo que fiquei acordado, mas não podia garantir. Acho que de tempos em tempos, eu apaguei.
Não sei dizer quantos dias fiquei ali, desorientado e apático. Eu não me lembro de ter sentido fome ou sede, ou dor... eu não sentia nada. Não me lembro de ter pensado em alguma coisa, também. Eu me lembro dos barcos passando lentamente e da água do rio se mexendo. À noite, o reflexo das estrelas deixavam a água estranha, oleosa, mas mesmo assim eu ficava olhando.
Eu também não sei dizer o que me fez lembrar. Eu estava sentado lá, olhando meu tornozelo inchado e pensando que devia estar latejando, mas não conseguia reagir. Eu só me lembro de ouvir a voz dele na minha cabeça. A voz dele e a minha resposta.
– Meu... nome... é Takashiro Yuuya....
– Sou Takashima Kouyou.
Então me lembrei num estalo. A mochila.
A mochila que usava para guardar documentos, roupas e um pouco de dinheiro. Eu respirei fundo e ajeitei o sobretudo, tentando lembrar exatamente onde tinha deixado a mochila.
A primeira coisa que fiz foi esperar anoitecer. Eu sabia que estava sujo, desgrenhado e tinha exata noção que o sobretudo não escondia direito a coleira e as correias nos braços. Me surpreendi que ainda as estivesse usando, para então rir de mim mesmo ao notar que eu não tinha feito nada para me livrar daquilo.
Quando eu já estava no meio do centro da cidade, curvado sob o peso das bolsas, mancando muito e me esgueirando pelos lugares mais escuros, me ocorreu que talvez eu estivesse na cidade errada. O caminho todo pareceu muito diferente e coisas e lugares que antes não existiam, agora estavam lá. Com assombro, descobri que eu estava no dia três de janeiro do ano...
Quatro anos... eu fiquei quatro anos naquele lugar!
Me sentei no canto da rua, longe das luzes, chocado. Eu tinha vinte e dois quando fui levado, então estava com vinte e seis... vinte e seis anos! Eu me abracei apertado, tentando segurar o bolo que subiu do meu estômago. Ainda estava na mesma cidade, só quatro anos mais velho.
Levantei e respirei fundo, arrastando a perna, e andei mais algumas horas, chegando à antiga sorveteria. Eu não sabia o que faria se não existisse mais, então simplesmente dobrei a esquina e não comemorei quando a vi. Contornando a rua, entrei por trás e ergui a cabeça, olhando a calha.
– Parece do mesmo jeito... – ouvi minha voz estranha soar, baixa.
Eu não tinha como me apoiar para subir nas caixas e tirar a mochila. Pensando um pouco, deixei as bolsas no chão e me apoiei nelas para ficar na ponta do pé sadio e tentar puxar. Levou tempo e eu suei bastante, mas consegui.
Quando a vi, tão surrada e velha como sempre, fiquei aliviado. Eu simplesmente juntei tudo e sai dali. Eu não queria ser confundido com um assaltante. Ficar preso? Nunca mais se eu pudesse evitar.
Entrei num parque qualquer e aproveitei as sombras. Usando um pouco da luz do poste, eu pude sorrir pela primeira vez desde o começo de tudo. Meus documentos estavam ali, roupas decentes e limpas e o principal: dinheiro. Eu fiquei um pouco decepcionado com a quantidade, mas estava tudo bem. Não dava para arrumar um lugar permanente, mas dava para sair daquela situação, pelo menos.
Voltei para perto da estrada sentindo o corpo pesar. Eu não podia dizer a última vez que comi ou que bebi água, além disso, meu tornozelo estava doendo muito. Me esgueirei, enjoado e zonzo, repetindo para mim mesmo que estava bem, precisava ser rápido porque o sol já estava nascendo e para não me esquecer de Yuuya. Ele pediu para que eu vivesse por mim e por ele.
Eu não podia desistir.
Acho que a Lei de Murphy enfim se cansou de ferrar com a minha vida. Quando já estava para desistir e simplesmente me deitar e morrer quando vi um posto fechado. Olhando de longe, pareceu que apenas o hotel estava ocupado e eu me aproximei com cuidado por trás. Forçando um pouco a janela, consegui abrir. Deixei as duas bolsas do lado de fora e entrei apenas com a antiga mochila e verifiquei que o lugar realmente estava deserto. Apoiando-me às paredes, consegui encontrar o que eu precisava: um banheiro. O lugar não estava muito sujo, apenas coberto com uma camada fina de poeira, mas eu não me importei. Estive em lugares mais sujos nos últimos dias.
Lentamente, me esforçando para não desmaiar, tirei o sobretudo e com a ajuda da minha lâmina de barbear, cortei a coleira e as correias dos pulsos.
Foi libertador.
Eu estava no limite de qualquer ser humano, humilhado e degradado, mas ainda estava vivo e isso era muito, diante de tudo. Abri o chuveiro e deixei a água escorrer um pouco para tirar a ferrugem e a sujeira do chão e então eu ri baixinho. Eu estava morrendo e ainda parava para pensar nisso. Entrei embaixo da água e não posso descrever a sensação dela correndo pelo meu corpo. Eu fiquei ali um tempo enorme e então, abri a boca e bebi um pouco. A água estava fria, mas deliciosa.
No inferno, não tomávamos banho todos os dias. Às vezes, só nos limpávamos com um pano imundo molhado. Banho mesmo, só quando os homens importantes vinham, então éramos lavados e arrumados como carne na exposição. Depois de usados, surrados e torturados, passávamos dias imundos e sangrando. Onde dormíamos, era tudo muito sujo e tinha um cheiro horrível de sangue, esperma, suor e vômito. Por mais horrível que fosse, eu agradecia que o Japão fosse tão frio. Se estivéssemos em outro lugar, estaríamos em piores condições.
A lembrança, o cansaço, a fome e o limite me fizeram vomitar. Não tinha nada no meu estômago já há não sei quantos dias, e o esforço doeu a barriga e a garganta. A dor de cabeça, antes leve, agora estava latejando, fazendo-me encolher.
Não sabia que podia ser tão forte, mas ignorei tudo e me lavei. Com cuidado para não cair, lavei meu cabelo e limpei a pele com o sabonete, usando o kit que estava na mochila. Fiz a barba com a lâmina que restou e acabei cortando o rosto, mas não me importei.
Era só um corte a mais.
Meu tornozelo estava enorme e arroxeado e tive que me sentar na borda da banheira para lavar os pés. Usando a lâmina, cortei de qualquer jeito as unhas e tirei algumas partes de pele escura e dura. Depois do banho me sequei com a toalha e vesti roupas limpas e decentes. Me senti um pouco mais humano e mais digno, apesar de não saber muito sobre isso, agora. Penteei o cabelo e notei que estava quase no meio das costas, pintado de um tom loiro escuro. Eu respirei fundo e calcei o tênis, mordendo o lábio para não chorar de dor.
A saída do posto fechado foi um pouco tensa por causa da fraqueza extrema que estava sentindo. Eu tinha pouco dinheiro, mas podia comer alguma coisa. Quando entrei no restaurante do hotel e me sentei no canto, longe de qualquer outro, podia ouvir meu coração batendo como louco no peito. A mulher me olhou normalmente e eu pedi o missoshiru e guioza, os pratos mais baratos.
– Para beber? – ela me perguntou, anotando o pedido.
– Só água, por favor – eu respondi, baixo.
Eu estava passando mal com aquele cheiro de comida e temi que o barulho do meu estômago fosse ouvido pelas pessoas. Brinquei com a toalha até que o pedido chegou e eu tive que me controlar para não atacar os pratos como se fosse um animal.
Depois que comi, pedi um obentô simples de frango para levar e comprei mais duas garrafas de água. Na rua, notei um zumbido estranho no ouvido e mais tarde naquela noite, vomitei.
Eu estava tão fraco que mal podia andar, ainda mais com o tornozelo daquele jeito, mas me esforcei. Meu estômago ainda teimava em vomitar tudo o que comia, então passei a comer menos ainda por causa do dinheiro. Não podia me dar ao luxo de comer e vomitar.
A cabeça doía o dia todo, mas eu tentei. Tentei de verdade. Percorri todas as lojas que pude e pedi emprego. Me ofereci até a trabalhar por comida e consegui algumas coisas, mas não eram fixas. Sem lugar para morar, eu passava as noites nas ruas e voltava ao posto para tomar banho. No fim, não consegui nem trabalho por comida e meu tornozelo ficou azul pelo esforço de andar de loja em loja quase o dia todo. Além disso, meu dinheiro acabou e os itens de higiene, também. Minhas roupas já estavam sujas e eu sabia que ia piorar.
Eu não sabia mais o que fazer. Se antes não me davam trabalho por eu não ter referências e onde morar, agora muito menos. Já estava reduzido a um mendigo de novo, imundo e faminto. Comia quando encontrava alguma coisa nas lixeiras dos restaurantes, e algumas vezes os garçons me deixavam comer os restos dos pratos dos clientes, mas não era sempre.
Meu corpo não funcionava direito. Sentia muita sede, mas quase não urinava. Evacuar se tornou um pesadelo doloroso que eu evitava ao máximo. Eu me sentia carne viva por dentro e não duvidava que realmente fosse essa a situação e várias vezes, notei sangue. Depois de um tempo, meu intestino parou de funcionar e eu não me importei muito. Não comia nada e até a água que conseguia engolir, vomitava. Era normal que não tivesse nada por dentro.
Estava sempre trêmulo, com a cabeça doendo e os olhos embaçados. Quase não dormia, assombrado por pesadelos horríveis que sempre me deixavam suado e apavorado. Eu não sabia se eram pesadelos ou lembranças, mas minhas noites eram temidas. Ficava acordado até três dias seguidos e depois desmaiava, exausto e drenado.
– Vou morrer... – murmurei para mim mesmo, olhando o rio – Desculpe, Yuuya...
Algo dentro de mim não deixava que eu desistisse, mas era muito para agüentar. Eu já estava delirando e febril, arrastando a perna já enrigecida que na verdade, nem olhava mais, assustado com a aparência grotesca do tornozelo inchado.
– Eu posso desistir, Yuuya... eu tentei... – murmurei , sem forças – Me deixa ir...
Eu sabia que estava caindo mas não podia ser, eu já estava no chão.
****
Quando abri os olhos, encarei o teto branco com estranheza. Eu não pensei nada, só fiquei olhando. Descendo o olhar, encarei a parede, e depois a outra... depois o teto de novo... Um lençol branco em cima de mim e o final da cama... uma mesinha...
– Que bom que acordou!
Eu olhei para o outro lado e vi uma enfermeira. Na boa? Não sabia que do outro lado tinha enfermeira... mas eu não disse nada. Não estava com vontade.
Ela mexeu em alguma coisa que eu não me esforcei para saber o que era e voltei o olhar para o teto branco. As coisas ainda estavam um pouco embaçadas, mas tudo bem.
– Takashima-san... está me ouvindo?
Senti um cutucão no braço e olhei para ela de novo. Porque as pessoas não podiam simplesmente me deixar em paz? Eu não queria falar, não queria ver... só queria ficar quieto e com um pouco de sorte, morrer.
A enfermeira me olhou estranho e saiu quase correndo. Encarei a porta e estranhei o pedaço de vidro no meio dela. Dava para ver um corredor com uma faixa de pintura verde... esquisito...
Do meu lado, um aparelho engraçado com um monte de números e traços, um suporte segurando bolsinhas de coisas estranhas...
“Deve ser sangue” pensei, olhando a coisa pendurada e então, uma coisa transparente pingando.
Eu contei vinte pingos antes de um homem entrar.
Observei a criatura puxar uma cadeira e se sentar a meu lado e sério... que cara esquisito! Branco como um fantasma, com aquele cabelão preto... as sobrancelhas dele pareciam taturanas ou algo parecido, espetadas...
Eu já vi coisas estranhas nas ruas, mas aquilo... primeiro lugar em coisas estranhas com formato de gente.
Acho que estou ficando louco.
– Você deve estar confuso...
A voz dele parecia com ele, esquisita e um pouco esganiçada. Um pouco não, muito e se ele resolvesse gritar eu estava perdido!
– Encontramos você na área de um posto abandonado. Na verdade, estávamos de olho em você desde que conseguiu fugir da Casa Amarela na noite do tiroteio. Devo dizer que os relatórios que recebemos sobre sua saúde estavam incompletos – ele fez uma careta e abanou a mão – Felizmente pudemos chegar a tempo.
Eu continuei sem dizer nada e acho que me especializei em fazer cara de paisagem, porque ele procurou algum tipo de reação no meu rosto. Pelo olhar irritado dele, não encontrou.
– Devo informar que seu tornozelo foi drenado e uma pequena cirurgia já foi feita. O osso não chegou a quebrar, mas trincou irreversivelmente e foi preciso colocar uma placa de titânio. O estreitamento do esôfago e a infecção intestinal já foram controlados – a boca dele se abriu num esgar estranho – Vai ficar feliz em saber que não contraiu nenhuma doença venérea.
Diante do meu silêncio, ele respirou fundo. Apesar de agradecido por ter sido encontrado e cuidado, eu não era idiota. Aquilo teria algum tipo de preço.
– Quando me disseram que você é a mais perigosa das vítimas, eu duvidei. Normalmente, quando tiramos alguém de lugares como aquele, as pessoas tendem a se mostrar ansiosas e agradecidas. – ele me olhou rapidamente e então, para as próprias mãos – Eu volto depois quando estiver com mais vontade de conversar.
O homem saiu do quarto e eu o acompanhei, tentando entender. Eu sabia que ele não tinha me tirado de lugar nenhum e que, apesar de estar me observando, me deixou chegar à beira da morte para oferecer algum tipo de ajuda. Isso não era um bom presságio, principalmente depois dele dizer que as pessoas se mostravam ansiosas e agradecidas. Por “agradecida”, eu podia definir que faria qualquer coisa que ele pedisse, já que me salvou.
Mas... será que me salvou mesmo ou estou mais ferrado do que antes?
Eu estava cansado então, adormeci. Fiquei assim por vários dias... dormindo e acordando aleatoriamente e por vezes, eu achei que tivesse visto o homem estranho me observando por trás do vidro da porta. Depois de um tempo, eles tiraram aquelas coisas de mim e eu pude tomar banho direito e andar um pouco pelo corredor.
Meu cabelo, já abaixo da linha da cintura, estava me incomodando e quando pedi para cortar, a enfermeira arregalou os olhos, espantada.
– Mas Sahato-san não permite! – ela quase gritou, olhando-me – Por favor, não peça isso a nenhuma de nós! Não podemos desobedecer!
Quando fiquei sozinho no quarto, encarei a bota que estava no meu pé.
“Então é assim... estou de novo preso como um bicho... mantido como um objeto...” eu respirei fundo e olhei pela porta “Eu não pedi para ser salvo, então não devo nada.”
Eu estava irritado. Na boa, já tinha desistido e aceitado a morte com serenidade. Não pedi por nada daquilo e ali, eu não tinha muita escolha. Não costumava reagir ou reclamar. Na verdade, eu dizia poucas palavras, mas isso não interessava. Eu não estava a fim de ser um brinquedo de novo.
Quando passei por uma sala que pareceu um centro cirúrgico, olhei interessado e vi alguns rapazes, mas ninguém sendo operado. A enfermeira que parecia minha sombra estava a alguns metros de mim. Perfeito.
Empurrei a porta de uma vez e entrei, sem dar tempo aos jovens para reagir e sorri.
– Olá, rapazes! – eu cumprimentei, pegando um bisturi – Preciso disso emprestado.
Sem esperar pela resposta, cortei meu cabelo ao mesmo tempo de ouvi-la gritar atrás de mim, desesperada. Eu nem olhei. Cortei, ou melhor, repiquei meu cabelo na altura do ombro, como sempre tinha usado. Agora estava inteiramente preto, mas eu não sabia se gostava ou não.
– Sahato-san... – ela gaguejou, olhando para mim com olhos arregalados.
Eu não disse nada e apenas sorri, saindo da sala. Na confusão, ninguém notou que levei o bisturi.
Quando ele entrou como um furacão, eu já estava esperando. Eu não queria matar ninguém, mas não ia deixar o cara mandar no meu corpo como se fosse dono. Nunca mais.
Eu preferia morrer.
Eu enterrei o bisturi nele o mais fundo que consegui e encarei seus olhos arregalados. Uma mulher começou a gritar em algum lugar, mas eu o mantive quieto.
– Você não me tirou de lá, não me ajudou quando eu estava nas ruas e esperou até que eu estivesse à beira da morte... eu não te devo nada... – eu vi medo no olhar dele, mas não o larguei – Não devia ter achado que podia porque você não pode...
O soltei e ele caiu, segurando as tripas. O sangue escorreu e ele estrebuchou, mas eu não liguei. Sério, eu não estava me importando. Olhei para a lâmina suja de sangue e por um segundo...
– Não pense nisso, Uruha.
Ergui a cabeça e encarei o homem parado perto de mim. Estranho também, com uma máscara cirúrgica e um chapéu. Quase não dava para ver o rosto dele.
– Parece o Reita... – murmurei, olhando-o.
– Amigo seu? – ele perguntou de volta.
– Não mais. – eu rebati.
Ele estendeu a mão e eu ergui uma sobrancelha. Um casal chegou e ambos olharam para o homem no chão, sendo atendido. Eu não vi quando a enfermeira entrou.
– Ele reagiu?!?! – a risada dela soou, divertida – Até que enfim!
O sorriso dela morreu assim que me olhou. De um jeito meio estranho, trocou olhares com o rapaz que chegou com ela e se afastou, ficando perto da porta. O homem de chapéu se aproximou de mim.
– Me dê isso, Uruha e nos dê a chance de explicar... – pediu, calmo.
Eu olhei para eles e então percebi que não queria explicações nem nada. Eu queria ser deixado em paz.
– Não devíamos ter deixado que Sahato lidasse com ele... – o mais jovem murmurou, sem tirar os olhos de mim.
– Reconheço que errei, mas agora...
O mais alto de chapéu se aproximou e quando ia pegar o bisturi, não foi tão rápido quanto eu. Simplesmente dei um passo para trás e enterrei o bisturi na minha garganta. Ainda pude ver o olhar assustado dele em cima de mim, antes de apagar.
***
Eu acordei com o teto branco em cima da minha cabeça de novo. Por momentos, eu não entendi o que estava acontecendo, para então me lembrar de tudo. Queria gritar de frustração e raiva, mas não ia.
Vai ser fracassado assim no inferno... nem morrer?
A consciência oscilou de novo por dias, mas mesmo depois que melhorei, não me deixaram sair. As enfermeiras me encaravam de um jeito estranho e não falavam comigo. Meu pescoço estava imobilizado e tive que tomar água pela sonda. Uma coisa parecida com vitamina era a comida, especial para idiotas como eu, que também tomava (ou comia) através da sonda. Soube por alto que cortei uma veia jugular e que “ele” tinha me salvado usando os dedos. Eu não entendi bem, mas não podia perguntar. Durante a noite, sozinho, tentava falar. No começo foram só gemidos, mas eu não desanimei. Tentava palavras simples e depois cantava só o som.
Quando eu ouvi minha voz de novo, soube que estava diferente. Um pouco mais profunda e rouca, estranha. Não sabia o que uma coisa tinha a ver com outra, mas também não perguntei. O médico entrava, examinava e saía em silêncio. As enfermeiras faziam o mesmo e nem o rubor já costumeiro quando vinham me limpar, aconteceu.
Não consegui nem me alegrar quando pude tomar um suco de canudinho e aquele colete do pescoço foi retirado. Eu ainda não podia com sólidos, mas foi um avanço.
Eu estava sendo bem tratado, mas não como uma pessoa e sim como um pedaço de carne. No começo me irritei, mas depois, respirei fundo e me desliguei. Eu ainda estava irritado, confuso e perdido.
Depois de alguns dias, o homem de chapéu voltou de novo e quando ele entrou, trancou a porta. Eu notei isso, mas não fiz ou falei nada. Ele tirou o chapéu e me deu vontade de rir. O cabelo dele era curto e espetado para todos os lados. Quando ele tirou a máscara, perdi a vontade. O rosto dele parecia um monte de pedaços costurados juntos, como Frankenstein.
– Sou Rindaman. – ele começou, me encarando com os olhos escuros – E você me fez perder pelo menos um ano de vida. Sabia que tive vinte e sete segundos para te salvar?
Eu não disse nada e ele respirou fundo. O homem estava bem mais irritado do que eu, então achei melhor ficar quieto. Morrer por mim mesmo era até agradável ao pensamento, mas não esmagado por aquelas mãos enormes.
– Notamos você quando estava na faculdade e namorava aquele moreno. Depois do seu aniversário, te perdemos de vista, até que um contato de encontrou na Casa Amarela. Já estávamos com um plano pronto quando fomos surpreendidos com a notícia do tiroteio. Perdemos tempo tentando identificar todos os corpos que foram encontrados e depois que não te achamos, Sahato foi designado para te encontrar e trazer para nós. Ele te encontrou, mas achou melhor que fracassasse inteiramente primeiro, para que não tivesse escolha quando viesse. Eu não sabia o que estava passando, mas acho que ele foi punido a contento.
O olhar dele se estreitou e então, passou a mão pelo cabelo.
– Só para deixar registrado, ele não morreu.
– O que você quer de mim? – perguntei, encarando-o.
Ele me devolveu o olhar, inclinando levemente a cabeça e eu notei que ele não pareceu surpreso por eu poder falar. Deviam estar me observando à noite também.
– Você tem algo muito valioso, Uruha. Sua mente. E é isso o que eu quero.
Eu pude sentir minha sobrancelha se erguendo e ele riu de lado, sem desviar os olhos de mim.
– Você tem o que chamamos de memória absoluta. É capaz de guardar tudo o que vê e ouve. – ele apoiou os antebraços nas coxas e se inclinou para frente – Isso é raro e repito, valioso.
– Pegou o cara errado. – eu rebati, pensando nas inúmeras coisas que esqueci ao longo do tempo.
– Mesmo? Nosso banco de dados deve estar errado, então... Acho que era o quarto doze que tínhamos que procurar e não...
– Quartos de dez a vinte eram das meninas, não dos meninos – eu respondi e então, arregalei levemente os olhos.
Eram informações da casa dos estudantes da faculdade. Informações de mais de seis anos atrás. Ele se endireitou e cruzou os braços, balançando o chapéu.
– Esse detalhe é o que te separa dos outros dezessete casos no mundo. Você não se lembra aleatoriamente de tudo, apenas do que quer lembrar. É como um computador com várias pastas. Quando você quer a informação, simplesmente clica e ela se abre. – eu o olhei e ele encolheu os ombros – Pessoas com memória absoluta aleatória são quase loucas, porque não conseguem se esquecer de nada e então, as informações se misturam e desestabilizam o cérebro. Isso requer cuidados e medicamentos para manter tudo sob controle. – o olhar dele pareceu me atravessar – Você tem memória absoluta seletiva, isso quer dizer que você sabe, mas cataloga tudo e arquiva, sem misturar.
Olhando a pessoa estranha à minha frente, me lembrei sem dificuldade das notas altas na escola e depois, na faculdade. Foi fácil me lembrar de nomes e datas, e um pouco espantado, me lembrei de detalhes, como a estampa tribal da primeira faixa amarelo claro de Reita. O padrão era cônico.
– Viu como para você é simples?
Ele perguntou divertido, me fazendo piscar e focar nele de novo. Ok, eu era um crânio em alguma coisa, mas...
– Ainda não respondeu minha pergunta. – cobrei, sentindo a garganta arder.
Ignorando o homem, cruzei as pernas sobre a cama e peguei o copo com água, segurando-o com as duas mãos. O curativo no meu pescoço ainda doía um pouco.
– Eu lidero uma equipe de mercenários e com toda a tecnologia de hoje, preciso de alguém confiável para trabalhos de infiltração e varredura. Alguém que possa se lembrar de mapas, rotas e informações. – ele hesitou claramente e eu o olhei por cima da borda do copo – Não vou esconder que sua aparência também conta muito. Você está mais bonito agora do que quando tinha vinte e dois.
Eu devo ter fulminado o homem com o olhar que lancei, porque ele se remexeu todo, inquieto.
– Devo admitir que seu passado.... – ele pareceu tentar escolher a palavra menos ofensiva e eu quase o mandei para aquele lugar, mas fiquei quieto – Conturbado – se livrou por pouco – também foi levado em consideração. Apesar de tudo o que passou, não perdeu a cabeça nem ficou desorientado e isso é um ponto a seu favor, porque te dá condições de enfrentar qualquer tipo de situação.
Eu coloquei o copo sobre o criado e segurei a bota, brincando com o velcro sem olhar.
– O que acontece se eu me recusar? – perguntei, olhando-o nos olhos.
Por um momento, algo atravessou o rosto desfigurado dele, mas foi tão rápido que duvidei ter visto.
– Nada. Caso você não aceite, não vai acontecer nenhum tipo de punição. Assim que seu tratamento terminar, será levado de volta e deixado onde estava.
Não me surpreendi pela resposta, mas antes que pudesse dizer alguma coisa, ele ergueu a mão.
– Nós te devolveremos seus documentos e te entregaremos um valor para que possa se manter até encontrar trabalho. De certa forma, te devemos isso pelo atraso do socorro. – ele respondeu, olhando meu tornozelo.
Ele se ergueu e eu fiquei observando ele colocar o chapéu de volta. Antes de colocar a máscara, me encarou e eu me senti estranho sendo alvo daquele olhar. O cara parecia querer atravessar minha alma.
– Vou ser sincero. Não quero te perder de vista e te encontrar de novo em uma situação parecida. Eu... – ele hesitou e eu pensei que não fazia muito isso — posso te ensinar a se defender e não quero sexo ou escravidão como pagamento. Se achar que deve, pode trabalhar para mim na loja de café. Nos fundos da loja tem um pequeno prédio de apartamentos, pode ficar com um deles e pagar o aluguel.
Rindaman recolocou a máscara e ajeitou o chapéu. Quando abriu a porta para ir embora, não resisti.
– Me mantendo por perto? – perguntei, segurando o pé sadio – Acha que posso mudar de idéia?
Ele se virou apenas um pouco e me olhou com sobriedade. Ele não estava sendo falso ou manipulador.
– Eu realmente me preocupo, Uruha. Você é bonito demais para seu próprio bem e agora ainda mais, com esse ar melancólico e perdido. Não te salvei para te perder de novo, mas se quiser ir para longe, eu não vou impedir.
O homem saiu sem esperar resposta, mas foi bom, porque eu não tinha nenhuma.
Os dias ficaram melhores e eu pude sair e andar de novo pelo corredor. Os enfermeiros da outra vez sempre arregalavam os olhos quando me viam. Quando tiraram a bota e as ataduras, eu esperava ver um tornozelo todo deformado, mas graças aos céus, ficou apenas uma cicatriz. Grande, na verdade, mas podia ser pior. Ainda estava meio roxo, mas o médico disse que voltaria à cor normal da pele.
Fiz fisioterapia para conseguir move-lo de novo e andava descalço apenas para sentir o frio nos pés. É claro que o doutor brigou comigo porque eu tive uma pneumonia, mas eu não resisti. Era bom!
Ganhei roupas, que soube depois que vieram de Rindaman, O casal de antes voltou e eu finalmente soube seus nomes: Gin e Téa. Ele era mestiço e ela, americana. Depois de alguns minutos de conversa, pude sair para fora do prédio com eles e passear um pouco. Soube então que estava em Fukuoka, na ilha Kyushu. Meu espanto deve ter ficado claro porque eles riram baixinho.
– Rindaman achou mesmo que você não sabia. Sahato devia ter te dito um monte de coisas, mas acabou sendo muito burro. – o rapaz explicou, encolhendo os ombros.
Eu não disse nada e me afastei um pouco, olhando as árvores. Devia ser um hospital, mas não tinha quase ninguém ali além de nós e de alguns enfermeiros, que também não eram muitos. O vento bagunçou meu cabelo, jogando-o no meu rosto, mas eu não me importei. Era bom sentir o vento na pele.
Eu respirei fundo e brinquei com algumas folhas mais baixas, sorrindo ao toque. Eu não tive muitos motivos para sorrir nos últimos anos, e por um momento, eu não soube como fazer. Arranquei uma folha e a virei na minha mão, sentindo a textura. Eu fui abandonado mais vezes do que podia contar, fui garoto de programa e depois, não terminei a faculdade, fui seqüestrado e mantido em cárcere e prostituição... quase morri e mesmo agora, ainda me sentia fraco e vulnerável.
Não conhecia minha atual aparência, já que não me olhava no espelho há um bom tempo. Não tinha mais pais, familiares ou amigos, lugar para ficar, roupas ou qualquer outra coisa que pudesse dizer que era minha, a não ser eu mesmo.
– Yuuya... – o nome saiu dos meus lábios sem que eu sequer pensasse, mas foi bom lembrar.
Eu devia viver porque disse a ele que faria. Mesmo que não houvesse qualquer outro motivo, esse era bom o bastante para mim.
****
Ao todo, fiquei quatro meses no hospital e quando saí, Rindaman realmente não mentiu. Apesar de eu não aceitar fazer parte da equipe dele, fez tudo o que disse que ia fazer. A loja era pequena e simpática, e vendia café dos mais variados tipos e jeitos. O prédio atrás era simples e os apartamentos, pequenos e confortáveis, com banheiro. Deviam ter pelo menos dez apartamentos, em dois andares. Eu fiquei com o apartamento nº 2 do primeiro andar.
– Você também mora aqui? – eu perguntei, depois de algum tempo.
– Sim, no segundo andar, última porta. – ele respondeu, sério.
Rindaman abriu a porta e me deixou entrar primeiro. O lugar já estava mobiliado e eu arregalei os olhos.
– Não se preocupe, todos eles são mobiliados. Tem multa se estragar alguma coisa. – ele explicou antes que eu pudesse protestar.
Uma cama confortável, armário-estante, mesinha. Na parede da janela, uma pia minúscula na bancada de pedra. Uma porta do outro lado indicava o banheiro.
– É lindo! – eu disse, colocando a mochila sobre a cama.
Ele se recostou à parede da porta e cruzou os braços, me olhando.
– Espero que se sinta seguro aqui.
Quando ele falou, eu o encarei, surpreso. Me dava uma sensação ruim que ele pudesse adivinhar meus pensamentos e eu não pudesse me defender disso. Eu coloquei uma mecha de cabelo atrás da orelha, constrangido.
– Vou me esforçar. Podemos combinar agora?
Tá, eu fugi do assunto. Me processem.
– O aluguel é 150.000, água e luz inclusos. Seu salário é 500.000 para atender as mesas e ajudar na cozinha, além da limpeza. – ele me olhou e eu sabia que estava sorrindo por baixo da máscara – Você me deve 100.000 das roupas e das botas.
– Mas eu não ia pagar seus ensinamentos com trabalho? Porque vai me pagar? – eu perguntei, confuso.
– Porque todo mundo que trabalha deve receber. Quanto ao pagamento pelo meu serviço, você pode limpar e cozinhar para mim. Sabe cozinhar, não é?
– Disse que não envolvia escravidão... – eu alfinetei, cruzando os braços.
– Não será escravidão. Eu quase não paro aqui. – ele rebateu, sem me levar a sério.
– Uau! – eu disse, sentando-me – E o hospital?
– Uruha, eu disse sobre um valor que seria entregue a você caso recusasse totalmente contato conosco, não é? – eu assenti e ele continuou – Vou considerar como o pagamento do hospital.
– Vocês nunca me deveram nada, Rindaman. Se tivessem me procurado antes, daria no mesmo. – eu argumentei, sério – Não entendo porque dizem que me devem.
Ele respirou fundo e notei seus ombros tensos. A desconfiança começou a tomar forma na minha cabeça e eu me ergui.
– Rindaman...
– Um de nós te entregou para eles, Uruha. – a resposta veio baixa e seca e eu me encolhi.
Ele saiu sem que eu tivesse a chance de perguntar mais alguma coisa. Sozinho, respirei fundo e suprimi toda espécie de pensamento. Ajeitei minhas roupas novas e os medicamentos que ainda precisava tomar.
Alguém bateu na porta e eu senti o coração na garganta, mas abri. Um homem grande estava parado, com um sorriso enorme.
– Eu sou Tachibana, Uruha. Isso é seu. – eu olhei e ele estava segurando um pequeno fogão elétrico de duas bocas.
– Mas eu não... – comecei, para ser interrompido.
– E como espera cozinhar para o Rindaman? – ele me perguntou, abaixado enquanto instalava o equipamento.
Eu tive que rolar os olhos e ele riu, divertido. – Ele te mostrou a lavanderia?
– Não. – respondi, encostado à parede – Você também mora aqui?
O homem se levantou e eu fiquei um pouco amedrontado. Era enorme para cima e para os lados.
– Sou seu vizinho de porta e seu professor de taekwondo. – respondeu, com um sorriso. Então ele ficou sério e me olhou de cima até embaixo, avaliativo – Ele tem razão, você é bonito demais para andar por aí sem defesa. Se precisar de alguma coisa, grita.
Sem esperar que eu respondesse, ele saiu e eu ainda fiquei encarando a porta aberta.
Rindaman trouxe algumas compras, que ele mesmo guardou no pequeno armário embaixo da pia. De um lado era uma estante e de outro, uma minúscula geladeira. Eu fiquei surpreso com a engenhosidade da coisa e acabei tirando ele de lá, para poder mexer. Sentado no chão, tirei tudo o que ele colocou apenas para guardar de novo.
– O recibo está dentro da sacola. – ele avisou e eu puxei um pacote, procurando o pequeno papel – Amanhã cedo Kyoko te ensinará o serviço do café e à tarde, temos treinamento. Vou ficar com karatê, kung fu e defesa pessoal. Tachibana já te encontrou, não é? Ele vai te ensinar taekwondo.
Eu me virei para ele, surpreso, mas ele simplesmente se sentou na minha cama e continuou, me encarando.
– Gin vai te ensinar muai thay e Téa, capoeira. – arregalei os olhos, espantado, mas ele ainda não tinha terminado – Você sabe dirigir?
Balancei a cabeça, negando e ele suspirou.
– Vou te ensinar a dirigir e também te dar algumas outras aulas básicas. – finalmente ele se levantou e eu encontrei voz.
– E quando pensa em me dar tempo para lavar e cozinhar para você? – perguntei, ainda no chão.
– Quando for fazer para você, é só fazer para mim também.
Sério, ele tinha um grande problema em considerar tudo muito simples. Olhando-o sair, eu não consegui entender como as coisas chegaram até ali.
****
O serviço no café nem era tão complicado e na verdade, Kyoko era muito engraçada. Só nós dois trabalhávamos lá e de vez em quando, Téa e Gin vinham ajudar, mas só para passarem o tempo. Ainda bem que o café era preparado na máquina, senão estávamos fritos. Capuccino, latte e todas as outras variações, se tivéssemos que fazer...
O problema é que no meu tempo livre, preparei alguns bolos para acompanhar o café e então... mais trabalho para nós dois. Kyoko quase me bateu, mas reconheceu que o atendimento ficou mais completo. Rindaman apenas me encarou e perguntou como eu esperava fazer tudo ao mesmo tempo. Eu encolhi os ombros, resignado.
Ele trouxe mais duas pessoas para ajudar na cozinha e fiquei imaginando se estiveram em encrencas como eu, mas não tinha intimidade suficiente para perguntar. O movimento aumentou e com isso, Téa e Gin foram obrigados a ficar para ajudar. Téa no atendimento do balcão e Gin no caixa. Eu e Kyoko continuamos com os clientes.
Eu mencionei que a gorjeta era incrível?
Só tive problemas com alguns solitários que se insinuaram, mas Tachibana se materializou atrás de mim e colocou o cliente para fora. Da outra vez, fui seguido até a entrada do prédio, mas Rindaman pareceu estar esperando por aquilo. Passei a não estranhar nunca estar realmente sozinho.
À tarde, cheguei a querer me chutar. Eles não pegaram leve comigo e sempre terminava o treino com algum roxo. Eu não tinha notado, mas tinha uma área grande em cima do prédio, como se fosse um andar sem nada. Lá tinha equipamento como se fosse uma academia e um koto para treinamento. Não sei se aquilo já estava lá ou se colocaram por minha causa, mas de qualquer forma, eu chamei de Gruta dos Horrores. Eles reclamaram, mas pôxa, era meu suor e sangue, ali!
Na outra semana, Rindaman me comunicou que passariam a fazer entregas e que eu as faria de bicicleta, para complementar o treinamento. Eu tentei argumentar que não sabia andar de bicicleta, mas não adiantou. Tive que aprender em tempo recorde e a conviver com tombos dolorosos.
O apartamento dele era totalmente fora do comum. Despreocupado, me mostrou uma parede falsa que revelava uma coleção de armas, facas e espadas. Apesar do medo que senti, fiquei curioso e sempre pegava uma espada ou outra, quando ele não estava. Limpar o lugar era simples, o homem era espartano de tudo. A roupa dele também não foi difícil de lavar, eu juntava tudo (as dele e as minhas) e usava a máquina que ficava nos fundos. Enquanto a máquina lavava, eu me sentava no chão e lia algum livro que peguei da biblioteca dele, depois era só trocar para a máquina de secar, pegar tudo, passar e guardar. Pode parecer muita coisa, mas nem eu nem ele tínhamos muita roupa.
Para facilitar, passei a levar nosso almoço para a Gruta e separei uma mesa perto da janela, deixando aquele cantinho mais livre de toda a tranqueira do lugar. No fim, todos acabaram almoçando ali, mas eu me senti estranho. Eu apreciava o que estavam fazendo, mas não conseguia achar confortável toda essa proximidade. Na verdade, meu problema era confiança. Não conseguia confiar que não ia acontecer nada ou se acontecesse, não seria tão trágico.
Eles me convidavam para beber ou sair, mas eu recusava. No começo, insistiam muito e eu me sentia mal por dizer não, mas com o tempo, eles foram aceitando minhas reservas. Como Rindaman dividia a despesa com comida, depois que paguei a ele tudo o que devia, consegui abrir uma conta no banco e juntar dinheiro. Eu não comprava nada que não estivesse realmente precisando e ainda assim, depois de pensar muito e bater perna atrás de promoções. Eu economizava em tudo e não gastava nem minha gorjeta, que também ia para o depósito. Às vezes, até queria um par novo de botas ou ir ao cinema... tomar uma cerveja... mas sempre me lembrava do quanto a fome dói e desistia.
Aprendi a dirigir carros em dois meses, com aulas todos as noites. Caminhonetes e caminhões vieram depois. Levei três meses para aprender a dirigir moto, apesar de já saber andar de bicicleta. Eu achei muito complicado controlar uma moto na velocidade e acabei caindo e quebrando o braço, mas acabei conseguindo. Gin me obrigou a aprender a andar de skate e Rindaman me ensinou a nadar, inclusive em profundidade. Téa me explicou tudo sobre tanques e respiradores e Tachibana me ensinou a dirigir lancha. Jong me ensinou escalada e rapel. E não era só descer ou subir pela corda, mas toda a logística da coisa: nome de peças, itens de segurança e tudo. Kim me levou para voar e me deu um curso grátis de paraquedismo.
Eu não tinha mais nem um segundo livre do dia ou da noite e dormia uma média de apenas três horas. Estava exausto.
A única coisa que fazia quanto tinha alguns minutos livres era um tsuru, que uma senhora cliente pacientemente me ensinou a fazer. Um pássaro que representava a felicidade e esperança. Ela me contou a história dos mil tsurus e eu comecei a juntar os que conseguia fazer.
****
Olhando o mar abaixo de mim, pude sentir uma vontade louca de rir. Pelo jeito, eu nunca ia parar de ser tão previsível, tão carente e tão crédulo. Um idiota que fazia qualquer coisa por um pouco de atenção. Alguém que foi tão abandonado por todas as pessoas possíveis que faria qualquer coisa... aceitaria qualquer coisa para não se sentir tão sozinho.
Toda aquela atenção e cuidado... o apartamento, o emprego... aulas...
Eu já ouvi meu coração se despedaçar antes e me surpreendi por ouvir de novo. Não sabia que ele ainda existia. Respirei fundo e sorri para o homem a meu lado.
Eu tinha trabalho a fazer.
As regras das ruas, ou dos ambientes de luxo, são como andar de bicicleta, nunca se esquece. O homem me levou pelos corredores, tocando-me em todas as ocasiões. Eu tremi por dentro de nojo e medo, mas era o preço cobrado por tudo o que ganhei. Inclusive essa viagem maravilhosa de barco que “ganhei” de presente de aniversário. Quando embarquei, empolgado, eu era o cara mais feliz e sortudo do mundo. Eu cheguei a sorrir de felicidade.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!Eu achei que tinha deixado o pesadelo para trás e que estava seguro.
Estava enganado.
Tudo o que ganhei foi apenas para que eu não percebesse... foram uma cortina de fumaça. Rindaman e os outros não fizeram por mim, porque gostavam de mim ou porque se preocupavam comigo... mas eu não os culpo. Eu quis ser enganado e achar que tudo o que eles estavam fazendo era realmente por preocupação comigo, com o que podia acontecer comigo. Eu quis ganhar cada segundo de atenção, quis pensar que estava finalmente entre amigos... Deliberadamente, eu esqueci do objetivo dele, do porque fui selecionado ainda na faculdade e salvo da morte. Sem esquecer que, segundo o próprio Rindaman, alguém da equipe dele me entregou para os mafiosos. Cego com toda a atenção e me sentindo a última coca cola do mundo, caí como um pato na armadilha. Me prendi moralmente a eles e por isso, estou aqui agora.
Me sentindo um objeto sem valor que existe apenas para ser usado.
Aquela dualidade já era minha velha conhecida. Foi assim que sobrevivi a meus pais, que consegui fazer os programas antes e que consegui sobreviver ao inferno. Eu me dividia... uma parte de mim ficava pairando, em algum lugar, olhando para mim mesmo tendo que fazer aquelas coisas, mas não sendo atingido por elas. Parte de mim não sofria, não sentia dor ou nojo, não tinha fome, sede ou qualquer tipo de emoção. A outra parte, a que se feria, gritava e chorava em silêncio e era consolada.
Eu costumava repetir a ela que um dia, eu encontraria.
O homem me levou para a cabine dele e eu prestei atenção a tudo, fingindo interesse. Não apareceu ninguém para me ajudar a fugir então, tive que deixar ele me tocar. As ordens foram claras: eu tinha que fazer qualquer coisa para conseguir um mapa do lugar.
Quando ele dormiu, eu me levantei e me limpei um pouco, sentindo-me amortecido e sujo. Sem olhar para o homem esparramado na cama, percorri o lugar e olhei para tudo e em todo o lugar. Para não despertar suspeitas, ainda de acordo com as ordens, eu o deixei acordar e me encontrar. Eu ganhei um beijo que embrulhou meu estômago e três mil dólares pela noite maravilhosa.
Eu já estava vestido então sorri e deixei a cabine.
No convés, passei por Kim e Jong, que me olharam de um jeito estranho. Assim que entrei na minha cabine, Tachibana entrou atrás e me encarou. Eu o olhei, cansado e então tirei a camisa. Pude ver o olhar dele se estreitar diante das marcas de mordidas e roxos espalhados pelo meu peito e pescoço.
– Uruha...
A voz dele saiu num murmúrio, mas eu não liguei. Eu não era nada ou ninguém para que se importassem se era abusado de novo ou não. Eles me deram a viagem sabendo o que eu teria que fazer. Da outra vez alguém da equipe me entregou para a máfia e agora, o próprio Rindaman exigiu isso como pagamento pelo que me deu.
– Vou fazer o mapa e te entrego no almoço. – a minha voz saiu rouca.
Ele abriu a boca para dizer alguma coisa, mas o camareiro apareceu e ele teve que sair. Eu pedi uma refeição leve, segurando a camisa na frente do corpo. Sabia que não estava tampando nada, mas sabia também que ele não diria nada. Tomei um longo banho, tentando tirar aquela imundície de cima de mim, mas sabia que não conseguiria.
O piche suja.
Já limpo por fora, eu me sentei e franzi a testa, respirando fundo. Pensei que nunca mais sentiria aquela dor de novo. Eu pensei que...
O camareiro voltou e eu comi em silêncio, sem vontade nenhuma. Pedi a ele algumas frutas e mais água, e enquanto eu tomava o café, ele trouxe. Quando ele saiu definitivamente, fechei a porta da cabine e abri a pequena janela quase ao lado da porta. Sentei e desenhei tudo o que vi, com todos os detalhes. No meio do desenho, não agüentei.
As lágrimas vieram sem controle e eu chorei muito, por tudo... eu chorei por um tempo enorme, soluçando e tentando parar, sem conseguir. No fim, eu só gemia, desesperado.
Entrei no salão para o almoço e logo identifiquei o grupo. Tachibana estava ao lado de Jong. Kim sentado à mesa sozinho e Gin e Téa juntos. Passei entre as mesas deles e deixei o caderno ao lado de Tachibana, que se ergueu e me segurou pelo braço. Eu olhei da mão dele para o rosto, sem entender. Ele parecia... chocado...
– Sente-se conosco, Uruha. – ele me ordenou, baixo.
– Já te dei o que queria. – eu respondi, soltando o braço – Ou tenho que transar com mais alguém?
Eu perguntei e olhei dele para Jong, que desviou os olhos. Tachibana se deixou cair pesadamente na cadeira e quando vi que ninguém ia dizer nada, me virei e saí, mas na porta, fui alcançado por Gin, segurando um celular.
– Ele quer falar com você. – me estendeu o aparelho e eu peguei mecanicamente.
Antes que ele pudesse falar, eu me antecipei.
– Obrigado pelo maravilhoso presente de aniversário. – a minha voz saiu tremida, mas era assim mesmo – Não posso dizer que gostei, mas me ajudou a lembrar quem eu sou.
Eu desliguei e devolvi o celular para Gin, que não me olhou. Voltei para a minha cabine e passei o trinco reforçado. Não queria visitas, mas não precisava me incomodar. Nenhum deles se aproximou de mim depois que eu fiz o que eles queriam.
Terminei a viagem sem sair da cabine, olhando o mar pela janelinha. Não vi nenhum deles no desembarque, mas havia um táxi me esperando. Quando desci, vi as luzes do café acesas, mas passei direto. Dentro do meu quarto, me senti um pouco mais seguro, mas sabia que as coisas iam mudar dali em diante. Juntei os documentos com o dinheiro que o homem me deu e coloquei tudo na bolsa, conferindo a carteira do banco. Tentei imaginar quanto tempo daria para viver até que arrumasse outro emprego e outra casa.
Tomei um banho e comi alguma coisa, deitando na cama e puxando o edredon até o pescoço. Demorei a dormir, imaginando mil formas de conseguir.
“Yuuya, viver é mais difícil do que morrer...”
****
Apesar de quase não ter dormido, acordei cedo e me arrumei para o trabalho. Depois de considerar as opções, eu não estava muito certo de poder simplesmente largar tudo, como eu queria. Eu precisava do emprego e era um bom lugar para trabalhar, falando a verdade. Além disso, eu não encontraria outro apartamento tão bom como esse pelo preço que estava pagando.
Eu não queria ficar, mas acima de tudo, não queria voltar para as ruas.
Entrei na loja e Kyoko me encarou, apreensiva. Eu sorri de leve e comecei meu trabalho, ignorando quando Gin e Téia entraram. Os dois ficaram me olhando e eu quase gritei com eles, mas não fiz. O movimento distraiu minha atenção e só no fim da manhã, tive que enfrentar o problema.
Eu não tinha visto quando Rindaman, Tachibana e os outros entraram e se sentaram à mesa do fundo. Não tinha porque ter visto, já que lá era a área de atendimento da Kyoko.
– Podemos conversar? – ele perguntou, literalmente barrando minha passagem e indicando uma cadeira perto deles.
Eu me sentei, sem vontade nenhuma de ouvir explicações ou outra coisa. Se eu pudesse definir o que estava sentindo em uma palavra, usaria vácuo. É, um vácuo... um limbo estranho mas pacífico. Finalmente eu me convenci que sempre vou ser encarado como um vadio sem alma e que a única pessoa que se importa com o que sinto e quero sou eu mesmo.
– Eu sabia que tinha uma chance de você ter que... – ele começou e parou quando eu o encarei – Mas achei que era uma chance pequena, então... – Rindaman encolheu os ombros – Desculpe por te fazer isso. Pode não acreditar, mas eu não tive outra escolha... por meses tentamos invadir o sistema de segurança dele e não conseguimos. Era a única possibilidade de nos aproximarmos.
Eu não estava ouvindo, apesar de sentado de frente a ele. Queria sair logo e arrumar outro lugar para viver. Queria outro emprego e tentar mais uma vez, não ficar ouvindo justificativas, mas não podia fazer isso. Não agora.
– O dinheiro do trabalho foi dividido entre nós. Eu depositei sua parte na sua conta. – ele explicou e ficou me olhando.
Os rapazes me encararam, mas eu não disse nada. Eu não tinha nada para dizer.
– Uruha, me desculpe por favor... – Tachibana pediu, sem jeito – Vi que ele te machucou e não pude fazer nada ou iria comprometer a missão, mas acredite, não era para ter acontecido assim.
De novo me olharam e eu percebi que queriam ouvir alguma coisa de mim, mas na boa? Eu não podia dar nada. Os dois trocaram um olhar e Tachibana respirou fundo e olhou para fora.
Kim respirou fundo e passou a mão pelo cabelo.
– Não somos os caras maus, Uruha. Foi uma... fatalidade que tivesse que transar com ele. Achamos realmente que não seria necessário, mas como Rindaman disse, não tínhamos escolha.
– Depois do que fizeram no barco, pelo menos para mim, vocês não tem diferença nenhuma. Talvez não me batam pessoalmente nem me torturem, mas deixaram aquele homem fazer e em troca, conseguiram o que queriam e eu só fui um objeto útil. – eu respondi, olhando para ele.
– Mas que droga, Uruha! – Jong explodiu e se levantou – Não é como se você fosse uma florzinha inocente porque se fosse, não teríamos te colocado no barco. Não foi novidade nenhuma para você e depois de tudo o que gastamos...
Parou, fulminado pelo olhar de Rindaman. Tachibana e Kim se remexeram, inquietos. Depois de um breve silêncio, eu sabia que não podia mais.
– Ainda te devo alguma coisa? – perguntei, me levantando e olhando o homem de chapéu.
– Uruha...
– Devo? – insisti, usando contra ele suas próprias palavras — Você me disse que alguém da sua equipe me entregou para aqueles mafiosos e por isso, me devia o dinheiro que usou para pagar o hospital. Eu devolvi tudo o que me emprestou, tirando esse dinheiro, mas se tiver que devolver, é melhor me dizer agora.
Sem que eu pudesse evitar, me lembrei do motivo da humilhação, anos antes. Aoi e os outros também me deram e depois, reclamaram e cobraram... De novo dinheiro... de novo eu devia para pessoas que não hesitariam em me fazer pagar até o último centavo do pior jeito.
Pelo canto do olho, notei a surpresa nos olhos dos outros homens e Rindaman se levantou, me encarando.
– É verdade. Tori entregou você para a máfia da prostituição porque ficou com ciúme. Ela não queria ceder o lugar, mesmo não tendo metade do seu talento. – a voz dele saiu dura, mas eu simplesmente o olhei de volta – Não te forcei a ajudar como pagamento por qualquer coisa, Uruha. Eu esperava realmente que não acontecesse e lamento que não foi assim. Você não nos deve nada.
Me virei para sair e dei a volta no balcão, para terminar o serviço na cozinha. Não me surpreendi por ver que ele entrou atrás de mim e no salão, pude ouvir vozes alteradas.
– Sei que não tenho mais o direito, mas peço que fique aqui. O emprego é bom e os clientes gostam de você. – ele hesitou diante do meu silêncio – Não precisa mais trabalhar para mim, mas queria terminar seu treinamento.
Eu não respondi e ignorando a presença dele, ajudei Otori a lavar a louça e Miyako nos encarou, parada perto da porta. Não vi quando ele saiu e depois que fechamos o café, voltei para casa, almocei e lavei minha roupa. Considerei ao pé da letra que podia parar de trabalhar para ele e fui procurar o que fazer. Eu não queria mais aquele treinamento para me transformar em um mercenário disfarçado de defesa pessoal e diversão radical. Arrumei um emprego de entregador para o período da tarde e à noite, encontrei um curso de desenho avançado.
Eu até queria voltar para a escola, mas ainda não podia pagar e depois de tanto tempo, só uma instituição particular me aceitaria.
Fiz o curso de desenho, depois fotografia, corte e costura, culinária, bombeiro, eletricista. Eu topava qualquer coisa para não ficar em casa à noite. Ainda economizava a maior parte do meu salário e o saldo da minha conta já estava considerável, com o depósito dos três mil que o homem me deu no navio e dos trinta milhões que Rindaman depositou. Pensei em recusar esse dinheiro, mas depois pensei melhor. Não tinha porque eu fazer isso, se acabei participando da missão mesmo forçado.
Eu mereci o dinheiro.
Todos eles insistiram para que eu continuasse com os treinos e acabei cedendo. Eu realmente gostei de lutar. Me deu segurança, me deixou mais forte e mais rápido, mas embora eu tenha feito isso, não consegui voltar a encará-los do mesmo jeito. Jong até tentou se desculpar, mas eu não aceitei. Ele não devia se desculpar por dizer o que todo mundo pensou.
Numa noite, Rindaman simplesmente me arrastou para a gruta e me fez sentar diante de um sistema de computação. Dali em diante ele, Kim e Jong me ensinaram tudo sobre ser um hacker. Aprendi a violar sistemas e criar vermes e vírus. Aprendi a criar identidades falsas e roubar dados de qualquer tipo de sistema, em qualquer linguagem e interferir em transmissão de dados.
No começo, eu não entendi bem porque aceitei largar meu emprego à tarde e aprender aquilo mas depois, eu parei de tentar entender e simplesmente aprendi. Usei minha habilidade nessa época mais do que acreditei ter feito a vida toda e graças a ela, pude aprender em tempo recorde todos os truques dos três. No fim, eu já estava trabalhando com eles em infiltração e mapeamento, além de localização e informações. Foi surreal estar na gruta uma noite, usando fone de ouvido e instruindo-os a quilômetros de distância. Eles invadiram uma instalação militar na Tailândia e eu estava no apoio da missão. Em Fukuoka, na ilha Kyushu, no Japão.
O sistema invadido à minha frente pelo computador, traduzido e totalmente acessível me encheu de adrenalina e quando terminou, eu não consegui dormir.
Em apenas seis horas de trabalho, eu ganhei cento e vinte milhões.
O meu relacionamento com eles mudou depois da viagem e eu não fiz nada para evitar isso. Construí muros altos e não dei mais margem para que se aproximassem de mim. Passei a não fazer mais as refeições na gruta e evitava conversar nos primeiros meses. Eles não me recriminaram quando arrumei um emprego à tarde nem quando comecei com os cursos, um atrás do outro. Quando voltamos a treinar juntos, eu me mantive afastado e apenas conversávamos o básico sobre os treinos, mas eu era educado. Nunca me recusei a responder quando falavam comigo.
O gelo começou a derreter quando eles me ensinaram sobre os computadores. Jong se esforçou para que eu me sentisse melhor e eu não dificultei as coisas, mas nunca seria como antes. Eu não confiava mais neles e deixei isso claro. Quando eu comecei nas missões, me senti mal por que dava para ouvir os tiros que eles davam ou quando entravam em luta corporal com alguém, e eu sabia que eles não lutavam para perder. Me senti mal por saber que tinha gente morrendo do outro lado da linha, mas engoli o sentimento e fiz meu trabalho. Eu nunca tive sentimentos de vingança contra ninguém porque para começo de conversa, eu era responsável pelo meu próprio destino. Algumas coisas não foram minha culpa, mas outras sim e no final da conta, eu não era inocente. Idéias como deixá-los na mão ou fazê-los passar por situações desnecessárias sequer passaram pela minha cabeça e quando voltaram são e salvos, eu fiquei mesmo aliviado.
Me mudei porque eu sempre quis ter um lugar para mim e aquele apartamento era muito bom, mas alugado. Eu economizei o que pude das missões e do meu salário, e vendi meus desenhos e fotos quando sempre que dava. Kim conhecia uma moça de uma agência de publicidade que gostou do meu trabalho.
O tempo passou rápido e quando fiz trinta e dois, podia comemorar. Faixa preta em kung ku, karatê e no treinamento de Grão Mestre de muai thay. É claro que contabilizava os dois braços quebrados, uma perna e o ombro deslocado, além de vários hematomas e luxações. Mas foi divertido!
Aprendi também a tocar guitarra e violão, e dançar. Meu currículo estava enorme e eu me sentia satisfeito e realizado diante dos diplomas guardados cuidadosamente nas pastas com folhas plásticas. Sem falar nas missões que me traziam grana sem ter que matar ninguém. As missões fora do Japão era as mais rentáveis, porque na conversão, o valor em yen subia bastante, mas também eram legais por eu poder visitar outros países e ver coisas bonitas e diferentes. O país que mais me espantou foi a Tailândia. Bonito e estranho ao mesmo tempo... eu gostei da Coréia do Sul... nossa! Tem cada gato na Coréia... a China é legal e a Austrália... Amei a Austrália.
O melhor mesmo foi quando enfrentei quatro plays que tentaram se divertir às minhas custas, em uma das poucas vezes que saí para dançar e beber. Eu não estava sozinho, mas não pensei nisso quando bati neles. Eu bati e bati muito... e gargalhei histericamente depois que sai da delegacia.
Eu não era mais uma vítima. Não era mais vulnerável nem indefeso.
Eu podia dizer que em seis anos depois de sair do inferno não tive um dia livre para mim mesmo, que eu pudesse ficar a toa sem fazer nada. Eu trabalhei muito, estudei muito e fiz muita coisa que eu nunca pensei que pudesse fazer. Gin sempre me dizia para pegar leve e tirar férias, mas eu não queria. Queria fazer outro curso, aprender alguma coisa nova ou qualquer outra coisa que me fizesse crescer como pessoa.
***
Comprei um apartamento pequeno perto do café. Quando peguei a escritura, quase chorei e pela primeira vez em muito tempo, eu sorri. Fiquei olhando o documento por um longo tempo e eu pude ouvir todas as vezes que me disseram que eu nunca seria capaz de nada, que não sabia fazer nada e que nunca teria nada. Apesar de não precisar provar mais nada para ninguém, o documento em minhas mãos era testemunha do quanto eu ralei para conseguir o que queria. E eu consegui.
Penerei os móveis em lojas populares e decorei com meus desenhos e origamis. Eu mesmo fiz as capas para o sofá e personalizei as cortinas e os edredons e cuidei de cada detalhe. Eu lavei o chão, pintei as paredes, instalei as luzes e a cozinha... coloquei os móveis e decorei....
Quando finalmente me mudei, fechei tudo e andei descalço pelo chão de madeira, sentindo cada parede, cada peça de móvel e cada detalhe.
Sentei no chão e observei a parede cheia de diplomas e fotos de viagem... na outra que pintei de vermelho, coloquei minha coleção de leques. Deitei no chão e encarei no teto, o lustre que eu mesmo fiz com origamis de papel vegetal e no canto da parede descendo para o chão, a cascata de mil tsurus que fiz desde que fui resgatado. Eu não tinha feito para pedir alguma coisa, eu fiz porque me dava um objetivo, um alvo a alcançar... estavam tortos e alguns amassados, de cores diferentes, alguns até dobrados em jornal... mas estavam lá, minhas testemunhas que eu não desisti.
Me levantei e olhei a cozinha, compacta e eficiente dois degraus abaixo da sala. No pequeno vão, a porta de entrada. Virei e entrei no minúsculo corredor, abrindo a porta do banheiro. Eu amava portas. Elas deixam a gente mais seguro onde quer que estejam, apesar de se tornarem um obstáculo intransponível às vezes.
Deixei-a aberta e abri a porta do meu quarto. Diferente das outras, era de correr, feita em bambu. No estilo mais tradicional do mundo, minha cama era o futon um degrau acima do chão. Na borda da cama, um pesado tapete que eu mesmo fiz, como os edredons e as cortinas. No canto, um armário embutido para as roupas e outros objetos.
Eu ri, divertido. Quando se entrava no quarto, as únicas coisas que estavam lá eram a cama e um pequeno criado com abajur de origami. Na verdade, eu tinha poucos móveis, mas eu nunca precisei de muita coisa.
No fim do corredor, meu estúdio. Um capricho repentino que quase não aconteceu.
De um lado, meu equipamento de informática e do outro, o material de desenho. Na parede, uma longa estante para organizar os suprimentos como papéis, tinta e pincéis, além de cabos e fios. Os outros me ajudaram a construir uma janela enorme, a partir da metade da parede e instalar uma cortina retrátil, para os dias de mais sol. A partir do estúdio, uma pequena porta levava ao corredor de fora, onde coloquei a lavanderia.
Ok! Eu sei que faço parte de uma minoria bem irrisória que não usa as lavanderias comunitárias, mas me acostumei a cuidar das minhas próprias coisas, separado do resto do mundo. Uma lavadora e uma secadora, presentes de Gin e Téa para a casa nova.
Kim me deu o equipamento de informática e Jong, o de pintura. Tachibana me deu o conjunto de sofás baixos. Kyoko, Otori e Miyako me deram os utensílios de cozinha e o fogão. Rindaman me deu um documento me isentando do aluguel do terreno por dez anos e da taxa de condomínio pelo mesmo prazo. Eu não sei como ele conseguiu essas coisas, mas não reclamei.
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