Mil Pedaços de Vidro

19 Capítulo 19 - Estopim


Notas iniciais
Olá meus xuxus lindos, sei que estou sumida, entretanto vocês sabem que eu demoro, mas sempre volto. Então, olha euzinha aqui de novo para postar mais um capítulo fresquinho pra vocês

— Nós dois somos péssimos pais, mas estamos tendo melhorar – Maria avisou abraçando a cintura de seu marido.

— Será que um dia vamos fazer algo direito? – ele indagou a apertando em seus braços.

— Não sei, mas não podemos parar de tentar.

— Nunca vamos parar de tentar – Howard afirmou beijando o topo da cabeça da esposa.

Eles permaneceram em silêncio, abraçados enquanto se auto avaliavam e questionavam sobre o que poderiam mudar. Os dois estavam perdidos, queriam fazer o que era certo para o bem estar do filho, ao mesmo tempo em que temiam o que suas ações poderiam causar ao frágil estado emocional do filho.

— Onde você estava? – a senhora Stark sussurrou de olhos fechados, assim quebrando o silêncio reflexivo que tinha se instalado entre eles.

— Estava resolvendo umas pendência – Howard falou de maneira vaga, Maria franziu o cenho e se afastou um pouco para poder encarar o marido.

– O que você quis dizer com isso? – ela questionou.

— Não precisa se preocupar, minha querida, está tudo bem – o patriarca Stark pediu acariciando o rosto da esposa, depois sorriu apaziguador.

— Eu tenho que me preocupar, você e o Tony são tudo para mim – ela avisou escondendo o rosto no peitoral do marido.

As horas se passaram e para infelicidade de Tony, os seus amigos tiveram que ir embora. Durante o tempo que esteve na companhia deles, ele conseguiu não pensar nas fotos vazadas e em todas as maldades de Jackson; mas quando se viu sozinho no silêncio do seu quarto, as memórias voltaram à superfície, foi tão rápido e intenso, que ele não conseguiu contê-las. Seus olhos arderam e sua garganta fechou ao ponto de quase sufocar.

O jovem queria gritar até não ter mais voz, ele queria se livrar de toda aquela dor que sugava todos os sentimentos bons que existiam em sua alma. Ele podia sentir a tempestade iminente se formando lá no fundo e ia ser ruim. Seus olhos arderam e sua visão embaçou, Tony ergueu as mãos trêmulas até a boca, na tentativa vã de impedir que o choro rompesse sua frágil resistência, mas seu esforço se mostrou inútil e lágrimas grossas escaparam de suas orbes castanhos e correram por suas bochechas amorenadas, como um rio caudaloso durante uma tempestade. Sua mente agora estava totalmente preenchida por suas memórias tristes, parecia que a dor iria explodir seu peito, de tão intensa que era.

Tudo o que ele conseguia pensar era no que Jackson fez por pura e simples obsessão, mas que o mesmo intitulava como amor. Seu corpo começou a tremer gentilmente, enquanto os soluços soltavam-se de seu peito. Ele se odiava por ser tão fraco a ponto de chorar como um bebê, mas não havia jeito para isso.

Os patriarcas Stark entraram no quarto e se surpreenderam ao encontrar o filho ofegante entre lágrimas, com o rosto contorcido de dor, afinal, há poucos minutos ele estava sorrindo e falando animadamente com os amigos. Maria praticamente correu até o filho e o abraçou, no primeiro momento Tony tentou empurrar a mãe. Ele não queria ninguém o tocando, pois se sentia sujo e não queria contaminá-la, mas logo desistiu de afastá-la, pois não tinha mais forças para lutar e deixou ser envolvido pelos braços carinhosos de sua progenitora.

Tony chorou por cerca de quinze minutos, um pranto sofrido, quase em desespero, cheio de dores e súplicas silenciosas. Quando finalmente conseguiu controlar as lágrimas, sentia-se cansado até parecia que tinha corrido uma maratona. Seu corpo doía, sua cabeça latejava, os seus olhos se encontravam inchados, ardiam e estavam vermelhos. Seu pai lhe ofereceu um copo com água gelada, que foi aceito sem hesitação, afinal, o jovem Stark sentia sua garganta seca e dolorida. As mãos do jovem tremiam e foi preciso a ajuda de Maria para que conseguisse beber com segurança.

— O que foi que houve meu amor? Antes de seus amigos saírem, você estava tão bem – a senhora Stark indagou gentilmente, tentando disfarçar o quanto estava preocupada com o estado do filho. A dor de Tony era como um objeto tangível que ele podia estender a mão e tocar.

— Eu não consigo esquecer o que aconteceu e ser uma pessoa normal – o jovem Stark falou puxando os cabelos com as duas mãos, claramente em agonia. Ele odiava essas crises que vinha do nada. Odiava não ter controle sobre seu emocional. Odiava lembrar. Odiava a si mesmo, por ser tão patético.

— Meu filho, você é normal – Maria afirmou segurando as mãos do filho, para ele não se machucar. A dor de Tony preenchia todo o quarto. Ela engoliu o nó que se formou em sua garganta. – Tirando esse seu cérebro brilhante, que tem ideias incríveis e sabe como ninguém, fazer maluquices para me deixar de cabelos brancos, você é um jovem como qualquer outro. Meu querido, você tem amigos, família, joga conversa fora, brinca, sorri e chora – a senhora Stark tocou no rosto do filho com ternura e ergueu seu queixo para fazer com que ele a olhasse nos olhos. – Essa dor vai diminuir Tony.

— Sua mãe está certa, Anthony, essa dor vai diminuir e nós vamos estar aqui com você, para te ajudar no que for preciso – Howard acrescentou sentindo um turbilhão de emoções insalubres e um gosto amargo na boca, depois bagunçou os cabelos do filho.

Os olhos castanhos do jovem Stark se encheram de lágrimas, ele abraçou Maria sentindo-se exausto de tudo e voltou a chorar. Somente nos braços confortáveis da mãe, que Tony conseguia acreditar que tudo iria ficar bem.

[...]

Em seu pequeno apartamento, a quilômetros do hospital, Bucky se arrumava para ir trabalhar, tinha trocado seu turno para poder visitar Tony com o restante de seu grupo de amigos. Ele não gostava de trabalhar de noite, mas a ansiedade estava fazendo seu estômago revirar, precisava ver seu amigo com seus próprios olhos.

Para a sua infelicidade, o metrô se encontrava lotado, pois era o horário que a maioria das pessoas estavam voltando para suas casas em vez de sair para trabalhar. Esse era um dos motivos que Bucky tinha para odiar o turno da noite. Para piorar o seu humor, Steve aproveitou que o pai viajou para jantar na companhia da mãe, por isso chegaria atrasado, o que significa mais trabalho – ao menos até o instante que o Rogers resolvesse dar as caras na cafeteria.

Quando chegou ao seu destino, um dos bairros chiques de New York, Bucky teve que caminhar mais dez minutos até a cafeteria, assim que chegou ele foi direto para o pequeno vestiário nos fundos, se trocou rapidamente e voltou para o salão para começar o atendimento aos clientes, já que o lugar estava lotado. Era início da semana e quase final do mês, normalmente não haveria tantas pessoas, mas ele não estava reclamando; a movimentação era muito boa para o bolso, pois isso significava mais gorjetas.

Barnes já estava imaginando levar Natasha para um encontro bem romântico, com o dinheiro extra que iria ganhar com tanta gente consumindo, afinal, a sua ruiva marrenta merecia todos os mimos do mundo, principalmente agora que os momentos a sós estavam ficando raros. Por mais que amasse Steve como um irmão, depois que ele mudou para seu apartamento, ficou muito difícil namorar. Nunca pensou que seu melhor amigo se tornaria um empata foda.

Bucky estava andando de um lado para o outro atendendo os fregueses, sempre com um sorriso simpático nos lábios apesar da correria. Por mais que no final do turno estivesse morto em pé, ele não negaria que gostava quando a casa estava cheia e a agitação naquele momento era muito bem vinda, assim não teria tempo para pensar no que aconteceu com Tony ou se preocupar com o próximo passo de Jackson. Ao menos era esse o plano de Barnes, mas ele se mostrou falho quando se virou para atender um cliente que o chamou.

O jovem não conseguia acreditar no que seus olhos estavam vendo, mas não tinha como estar enganado. Os olhos verdes ferinos e maliciosos, o queixo quadrado, a mandíbula marcada, os cabelos loiro mel bem cortados e alinhados, sem sombra de dúvidas era Theodore Jackson em carne, osso e cinismo. Bucky caminhou bufando como um touro raivoso, até a mesa onde o abusador de Tony estava sentado com um sorriso presunçoso no rosto. A raiva pura e primitiva corria por suas veias, queimando como ácido.

— O que você está fazendo aqui? – Bucky indagou com os dentes cerrados e apertando a bandeja em suas mãos para não socá-lo na frente dos outros clientes.

— Eu sempre soube que inteligência não era o seu forte, Barnes! O que alguém vem fazer em uma cafeteria? Comprar carne? – as palavras debochadas de Jackson fizeram o nível de raiva aumentar.

— Fala logo o que quer, Jackson, porque eu não estou humor para brincadeiras – a única coisa que impedia Bucky de socar o rapaz sentado à mesa na sua frente, era a vontade de manter o seu emprego.

— O que eu quero é o Tony, mas acho que ele você não pode me dá – Jackson falou provocativo. Ele estava se deliciando com a raiva brilhando nos olhos verdes da pessoa que lhe tirou o que era seu.

— Você não vai chegar perto dele – Bucky falou quase gritando depois de bater na mesa com toda a sua força. Há muito tempo desejava socar Theodore e controlar seu temperamento estava ficando cada vez mais difícil, principalmente agora que o nome de Tony entrou na conversa.

— Calma Barnes, que estresse – Jackson pediu sorrindo com as mãos levantadas como sinal de rendição e tentando parecer inocente. – Você está chamando a atenção de todos – acrescentou debochado.

— Fica longe do Tony – Bucky rosnou sem se importar com os olhos curiosos dos outros clientes. A ideia de Theodore machucar o seu amigo estava o tirando do sério.

— Ou o que? Fala sério amigão, o Tony é meu e ninguém vai impedir que eu o tenha. Além do mais, você não conseguiu salvar os seus pais, por que acha que vai salvar o Tony? – o veneno pingava nas palavras de Jackson.

A fúria brilhou perigosamente nos olhos claros de Bucky, mas prometeu a si mesmo que não cederia às provocações de Theodore. Em vez disso respirou fundo e saiu do salão antes que voasse no pescoço do abusador de seu amigo. Ele entrou na cozinha bufando de raiva, assustando seus colegas de trabalho, pois nunca o viram com a mandíbula cerrada e os olhos faiscando de ódio.

Bucky saiu pela porta dos fundos que dava para um beco pouco iluminado. Ele estava transtornado ao ponto de não se incomodar com o frio de congelar o osso do lado de fora. Perdido em sua raiva, Bucky começou a andar de um lado para o outro, enquanto passava as mãos nos cabelos, se sentindo como um animal enjaulado.

Sem Steve ou Natasha por perto para fazê-lo sentir que não estava se despedaçando, Bucky passou a socar a lixeira para extravasar tudo o que estava preso dentro de seu peito, enquanto sua mente era bombardeada de lembranças da morte de seus pais.

A estrada escura. Chuva. Lama. Deslizamento. Aço retorcido. Sangue. Impotência. Solidão.

Um grito cheio de dor e raiva escapou de sua garganta, fazendo-a arder. Tudo o que ele queria era esquecer os olhos sem vida de seus pais, o zumbido no ouvido, o cheiro ferroso e o vermelho do sangue. Apagar tudo o que passou depois daquela noite fatídica, mas as lembranças vinham como uma onda devastadora e ainda havia Tony...

Seu pobre amigo estava deitado na cama de um hospital devido à obsessão Jackson.

Ele não merecia passar por isso!

Tony era um merda às vezes, irritantemente teimoso, cheio de comentários pontudos, constantemente sarcástico, um pouco arrogante e um tanto esnobe; mas também era uma das pessoas mais compassivas e bondosas que Bucky já conheceu. O herdeiro Stark possuía um coração gentil, perdoador e cheio de generosidade; ele era extremamente leal aos seus amigos e sempre estava disposto a ajudar; por isso que não era justo ele estar passando por tanto sofrimento.

Tudo era tão insuportavelmente cruel!

Bucky apertou as bordas da boca da lixeira e encostou a testa nos dorsos de suas mãos, sem se importar com o mau cheiro. Ele podia sentir as lágrimas atrás de seus olhos, sua cabeça latejava com a pressão da necessidade de chorar, seguindo o ritmo da dor aguda em seu coração que arranhava as paredes de seu peito, implorando e gritando para ser liberada.

Ali, naquele beco escuro em uma noite fria de inverno, Bucky lutou bravamente contra o desejo de se enrolar e se render. Ele continuaria lutando como sempre fez, se levantaria dos destroços e continuaria de pé, mas não essa noite. Então ele chorou por seus pais, por Tony e por si. Por todas essas lembranças rasgavam seu peito de dentro para fora e destruía sua sanidade.

O que Barnes não sabia era que Jackson foi à cafeteria acompanhado de quatro caras, que possuíam caráteres questionáveis, e tinham um único objetivo. Ele também não sabia que o objetivo do abusador de Tony, era irritá-lo ao ponto de fazê-lo sair. Se Bucky soubesse desse detalhe não teria sido encurralado no beco escuro, pelos acompanhantes mal intencionados de Jackson.

Mas havia uma coisa que Barnes sabia que os desconhecidos escolheram um péssimo dia para mexer com ele, sem ninguém para segurá-lo quando seus pensamentos estavam muito nublados com raiva, aquela briga seria uma carnificina. Foi com esse pensamento que Bucky recebeu o primeiro soco e tudo ficou vermelho.

Notas finais
E ai meus lindos, o que acharam no capitulo? Deixem seus comentários para sua autora querida