Mil Pedaços de Vidro
8 Capítulo 08 - Apropinquar
Notas iniciais
O resto da semana foi estranha na concepção de Tony. Primeiro, Steve todos os dias o incentivava a almoçar; eles também trocavam algumas palavras durante as aulas, e quando elas encerravam.
As ações de Steve deixavam o jovem Stark feliz, pois, o mesmo imaginou que seria desprezado; porém, ao mesmo tempo, assustado com a esperança que estava renascendo com essa proximidade. Tony sabia que era uma vítima, no entanto, não conseguia aceitar essa alcunha e enxergar-se assim. Afinal, Jackson causou todo aquele caos com a gravação, as drogas no armário e tudo mais, por ser obcecado por ele. Desejava contar-lhe a verdade e suportar as consequências, mas não estava pronto para falar; relembrar era doloroso.
Conversar com o Strange estava ajudando mais do que imaginou. As palavras ainda travavam na garganta, porém estava conseguindo externalizar como Theodore Jackson o fez se sentir humilhado, indefeso, uma peça quebrada e sem valor, e como isso quase o matou.
A segunda coisa, que tornava tudo mais estranho para o jovem Stark, era que agora seu pai estava mais presente. Ele fazia todas as refeições em casa, além de tentar engatar uma conversa ao invés de ficar no silêncio sepulcral ou entretido com algum documento da empresa, mas claramente era ignorado pelo mais novo.
Tony não tinha a menor vontade de falar com os progenitores, a mágoa em seu coração era tão grande que se pudesse nunca mais os veria. Ainda os amava com todo o coração, isso não podia negar para ninguém, mas estava com tanta raiva que só queria gritar para pararem. Eles não escutaram seu pedido de socorro. Na verdade, Howard e Maria Stark não quiseram ouvir seus apelos, agora não havia mais nada para ser falado.
O comportamento dos pais e Steve eram os assuntos debatidos na consulta de Tony com o doutor Strange. O jovem sentia seu coração bater desesperado enquanto falava, o pânico começava a tomar conta de sua mente.
— Anthony, respire devagar, concentre-se na sua respiração, sinta o ar entrando e saindo de seus pulmões bem lentamente – Stephen pediu notando que o garoto sentado em seu sofá estava começando a hiperventilar. – Se sente melhor?
— Sim – o mais jovem avisou forçando a voz a sair. Tony ainda sentia o coração pulsar descompensado, havia um bolo na sua garganta e seu corpo se encontrava trêmulo.
— Eu sei que está com raiva de seus pais por não te ouvirem, é normal se sentir assim, e ninguém tem o direito de te julgar por isso – o psiquiatra informou.
— Então, por que me sinto tão mal com isso? – Tony questionou com lágrimas nos olhos, sua voz soou embargada e dolorida.
— Porque são seus pais, você os ama e não queria ter essa raiva dentro de seu peito – Strange explicou.
— Eu não aguento mais isso, me diz o que faço para parar? – indagou em tom de súplica com lágrimas grossas rolando pelo seu rosto. – Me ajuda, por favor.
— Fale com eles, diga o que sente – o mais velho aconselhou.
— Não, eles não vão me escutar! Se não for algo que queiram ouvir, não me darão atenção – Tony afirmou quase em desespero. A conversa com o terapeuta despertou nele uma vontade que nem sabia que ainda tinha. Queria ser ouvido! O mais jovem dos Stark precisava colocar para fora todas as palavras que estavam presas em sua garganta.
— Tente, Anthony, ao menos tente – Stephen pediu esperando que os senhores Stark, ao menos dessa vez, dessem ouvido ao filho. O garoto se sentia sozinho no meio de toda essa confusão, o apoio dos amigos não era suficiente, ele precisava do amor de pai e mãe para conseguir suportar a tormenta que estava enfrentando.
— E quanto ao Steve? – Tony indagou com os ombros caídos, claramente cansado dessa situação.
— Você está preparado para falar com ele, e contar tudo o que aconteceu? – o mais velho questionou, Tony pensou por uns instantes e balançou a cabeça negando. Ele não se sente à vontade para falar disso nem com os próprios pais, imagina com o Steve! Além do mais, sentia muita vergonha do que havia acontecido, e achava-se culpado por não ter sido forte o bastante para se defender. – Então, espere mais um pouco, não tenha pressa quanto a isso. Uma coisa de cada vez, lembra?
A sessão terapêutica acabou mais rápido do que Tony gostaria. Ele não queria ir para casa, só pensava em se esconder numa caverna escura e fingir que nada tinha acontecido. Howard esperava do lado de fora do consultório, e ficou chocado de como seu filho parecia mais abatido.
O caminho até a mansão Stark foi silencioso como sempre, porém, dessa vez, os olhos de Tony brilhavam devido às lágrimas contidas, tão diferente de antes, e isso era doloroso para o patriarca. Tudo o que queria era abraçar o filho e dizer que estava tudo bem, entretanto, não sabia como fazer isso – além do fato de ter medo de ser rejeitado ou causar algum tipo de crise no mais novo.
Ao entrar em casa, o jovem Stark encontrou a mãe o esperando no pé da escada com um pequeno sorriso nos lábios, seus olhos cheios de carinho desencadearam uma avalanche de emoções em Tony, que não conseguiu mais lutar contra o choro que prendia desde que saiu do consultório. Ele soltou a mochila no chão, e abraçou a cintura de Maria, murmurando a palavra “mãe” de uma maneira tão sofrida que foi impossível para ela não se entregar às lágrimas.
Tony chorava alto, quase em desespero, agarrado a matriarca como se fosse uma espécie de bote salva-vidas – e talvez fosse mesmo. Ele andava se afogando em si mesmo, e no mar de dor onde fora jogado. O senhor e a senhora Stark não sabiam o motivo de seu pranto, mas não ousaram perguntar. Howard estava ao lado dos dois, também chorava, e desejava abraçar o filho assim como a esposa estava fazendo; contudo, o olhar que Maria lançou quando deu indício que faria isso, lhe mostrou que não era a hora.
Demorou cerca de vinte minutos para Tony se acalmar o suficiente para ser guiado até o sofá da sala, um copo de água com açúcar foi solicitado a uma das secretárias do lar, Maria agradeceu a agilidade de sua funcionária ao atender o pedido. Seu estômago se contorceu quando notou as mãos trêmulas de seu menino ao ingerir o líquido adocicado.
— Sente-se melhor, bambino (bebê)? – a senhora Stark indagou recebendo das mãos do filho o copo. Ela estava sentada na mesa de centro na frente de Tony, Howard estava ao seu lado.
— Um pouco – murmurou baixo.
— O que aconteceu, mio bambino? – Maria perguntou gentilmente, encarando apreensiva os olhos vermelhos e inchados do filho. Estava extremamente preocupada.
— O que aconteceu é que estou com raiva de vocês – Tony respondeu aflito, logo em seguida, embrenhou os dedos nos próprios fios castanhos. – Vocês não me ouviram, não me ajudaram. Vocês são meus pais, inferno! – exclamou indignado. – É a obrigação de vocês me proteger, eu sou o filho dos dois, e mesmo se tivesse feito àquelas coisas, não deveriam ter me abandonado. Vocês são meus pais! Vocês são meus pais – murmurou sofrido, voltando a chorar. – Céus! Vocês ao menos se importam comigo? Por que me deixaram sozinho? Ele me ameaçou, me espancou e estuprou por meses! Eu pedi tanto... Por que não me ajudaram? Vocês me odeiam, por isso o deixaram fazer aquilo comigo? O que fiz de errado? Me digam, por favor! Não sou o suficiente para me amarem? Eu preciso saber, por favor... Eu não quero mais me sentir assim, é ruim... Dói... E eu não aguento mais! Estou sufocando – o mais jovem na sala questionou desesperado.
Howard e Maria também choravam, mas discretamente. A dor e o desamparo nas palavras do filho eram como agulhas quentes sendo enfiadas em seus corações. A culpa pelo o que aconteceu os corroía, e os faziam questionar como puderam acreditar que seu doce menino pudesse ter feito àquelas coisas. Tony era teimoso; às vezes, um tanto arrogante e fazia besteira como todo adolescente. Aprontou poucas e boas na escola, como explodir uma bomba fedida na aula de ciências por ter tirado um A-, mas não era mau caráter e jamais seria capaz de fazer mal a alguém de propósito.
— Il mio piccolo bambino, perdoniamo (Meu pequeno bebê, nos perdoe)? – a senhora Stark suplicou chorosa em sua língua materna. Ela sempre cedia as origens italianas quando nervosa. – Sappiamo di aver fatto errori con te, mio caro, ma ci dispiace e vogliamo correggere i nostri difetti. Per favore, mio caro, perdoniamo (Nós sabemos que erramos com você, meu querido, mas estamos arrependidos e queremos consertar as nossas falhas. Por favor, meu querido, nos perdoe) – Maria acrescentou depois que tirou as mãos do filho dos fios castanhos, fazendo-o encará-los.
— Vocês me odeiam? Sou muito ruim, não é? Eu posso tentar mudar, ou vocês não me querem mais como filho? – mesmo com as palavras da mãe, o mais novo temia a resposta dos pais, ainda mais porque não sabia se conseguiria mudar. Porém, tinha toda convicção que seria capaz de dar um fim a própria vida se a resposta para suas indagações for um “sim”.
— Meu Deus, claro que não te odiamos! Nós te amamos, Tony, você é o que temos de mais valioso. Não te achamos um filho ruim, muito menos queremos que deixe de ser nosso filho – Maria falou exasperada com a indagação.
— Mas vocês disseram que preferiam que eu tivesse morrido com meus primos. Eu sei... Eu ouvi. Me desculpa por não ter ido, se soubesse o que iria acontecer, juro que iria com eles. Eu seria um bom filho em vez de um fardo. Me desculpa, por favor – as palavras embargadas pelo choro, cheias de tristeza, desespero e dor do filho, trouxe uma luz de entendimento para o casal.
Os dois recordaram do dia seguinte ao enterro dos adolescentes, onde conversaram e Howard comentou que preferia ter um filho morto a ter um filho drogado. A lembrança foi como um soco na cara dos dois, Maria começou a chorar compulsivamente sendo aparada pelo marido. Ela estava se achando a pior mãe do mundo, e pedia desculpas em italiano.
— Você tem todo o direito de estar com raiva, Tony – o patriarca Stark começou a falar sentando-se ao lado do filho, segurando sua mão. Ele sentia o peito sendo rasgado de dentro para fora devido a confissão do jovem, os soluços da esposa aumentavam a dor que sentia. – Nós comentemos um erro terrível, e é totalmente compreensível que não consiga nos perdoar agora, talvez nunca consiga. Nós sabemos que merecemos todo o seu desprezo e raiva. Não tivemos fé em você, e na criação que te demos. Deveríamos saber que não seria capaz de fazer àquelas coisas, mas, por favor, ao menos nos deixe te ajudar a passar por isso. Por favor – Howard pediu. Agora, conseguia enxergar com mais clareza como o filho estava perdido em meio a todo aquele redemoinho de sentimentos, e dúvidas.
Tony não sabia o que falar, nunca tinha visto o pai chorar antes, muito menos pedir algo; sempre mandava, e quem era esperto obedecia. O jovem Stark queria aceitar a ajuda, até porque ele sabia que precisava ser ajudado, pois não estava conseguindo lidar sozinho com toda a dor que sentia e aquele não era o momento para ter orgulho, tentaria deixar as mágoas de lado e aceitar a mão estendida. Por isso, se ajoelhou na frente da mãe, o que fez com que ela se controlasse, deitando em seu colo. Lágrimas silenciosas rolavam pelo rosto amorenado.
Os mais velhos também choravam a dor do filho, seus corações estavam partidos, sabiam que ele estava sofrendo e quebrado, mas não imaginavam que fosse tanto. Mais uma vez erraram ao não dar o devido valor ao sofrimento de Tony, esqueceram que ele era praticamente uma criança, e o deixaram sozinho no escuro.
Fale com o autor