Mil Pedaços de Vidro
21 Capítulo 21 - Estilhaço
Notas iniciais
— Nós saberemos a verdade na averiguação – o oficial avisou.
— Posso ajudar você com isso – uma voz estranha soou divertida. Os três olharam para trás e depararam um homem magro, alto com olhos azuis gélidos, penetrantes e ameaçadores. Ele segurava uma máquina fotográfica, estava vestido com um casaco vermelho surrado e uma calça jeans com rasgos nos joelhos. — Wade Wilson a sua disposição – ele acrescentou estendendo um cartão cor de rosa com um desenho da Hello Kitty. — Detetive particular.
— O que o senhor está fazendo aqui? Por favor, para trás, os civis não podem ultrapassar o perímetro de isolamento – Patrick informou com a mão direita erguida, na tentativa de impedir que o estranho se aproximasse, afinal, ele poderia ser um perigoso.
— Calmo ai amigão, eu sou um dos mocinhos... Na verdade, eu não sou tão mocinho assim, sabe? Já fiz muita coisa doida em lugares ainda mais doidos, como Afeganistão, Paquistão, Irã, Síria, lugares bem de boa para se curtir umas férias... Só que não! Lógico, né? Quem quer tirar férias nesses lugares? Eles estão em guerra. Apenas gente doida vai para esses lugares, elas podem ser mortas – Wade divagou deixando os garotos e o guarda mais confusos e abismados, depois respirou fundo para se focar. — Eu sei de uma coisa que pode ajudar a esclarecer o que aconteceu naquele beco sujo e fedorento – avisou com um sorriso cheio de malícia e divertimento.
— Interferir em uma investigação policial é crime, senhor, então aconselho que saia de perto – o policial falou ficando mais irritado com a interferência.
— Acredite em mim quando eu digo que você não vai querer se meter com meu amiguinho aqui – Wilson avisou enquanto se colocava ao lado de Barnes, que o encarava com o cenho franzido. Steve continuava ao seu lado e não era diferente do amigo.
— Isso quem decide sou eu! Se interferir, eu o prendo por obstrução da justiça e desacato – Patrick avisou irritado, já que a situação poderia ter sido resolvida se Wade não tivesse aparecido. O comportamento do oficial da lei estava dando a impressão aos demais, de que ele queria fazer de Bucky o único responsável pelo o que aconteceu.
— Como quiser, mas quando você tiver todo o departamento jurídico de Howard Stark querendo a sua cabeça empanada em uma bandeja de prata, não diga que eu não avisei – Wade falou de maneira descontraída, fazendo o queixo de Bucky cair e um brilho de entendimento surgir em seus olhos. Rogers continuou confuso, mas pela reação do amigo, ele supôs que era uma coisa boa.
O policial arregalou os olhos levemente ao ouvir o nome de um dos maiores empresários do país. Era possível ver as engrenagens de seu cérebro funcionando enquanto tentava ligar o rapaz que ele considerava um marginal, ao grande e poderoso Howard Stark.
— Do que você está falando? – o oficial Wells questionou depois de engolir a seco.
— Que bom que me perguntou – a diversão na voz do Wilson não condizia com situação, ou com o que ele iria relatar. — O nosso amiguinho aqui, além de ser amigo do Stark Jr, o salvou de um estuprador – a informação deixou Patrick visivelmente surpreso. — E o agressor do Stark Jr, entrou no café acompanhado com os quatro caras que se envolveram na briga com esse jovenzinho aqui. Minutos depois os cinco saíram, conversaram um pouco e quatro caras que apanharam entraram no beco, enquanto o moleque estuprador ficou paradinho observando tudo o que acontecia, ou o que dava para ver naquele breu que é o beco.
— Você tem provas disso? – depois da indagação feita pelo oficial, Wade praticamente saltitou enquanto caminhava até ele, em seguida mostrou uma sequência de fotos que provavam que suas palavras eram verdadeiras. — Bom, apesar disto, ele ainda precisa ir à delegacia para depor.
— E ele vai, mas não hoje. Já está muito tarde e o garoto precisa de um médico, ou ele não pode ter isso? – o detetive questionou com a cabeça tomada para o lado.
— Claro que ele pode – a afirmação veio rápida.
— Ah bom! Eu já estava pensando que o senhor oficial da lei tinha alguma coisa contra o meu amigo Barnes – as palavras soaram ácidas e acusatórias.
— Não tenho nada contra ele, apenas estou fazendo o meu trabalho – Wells mentiu rebatendo a acusação. Assim que viu Bucky, o julgou como culpado antes de averiguar os fatos.
— Que bom! Vamos garotos – Wade chamou já caminhando para seu carro. Ele parou ao notar que não estava sendo seguido, depois olhou por cima do ombro e notou que os dois jovens junto como oficial, o encaravam confusos. — Ei garotos, vamos indo! Eu não vou rapta-los para vender seus órgãos, apenas vou dar uma carona para vocês. O Stark sênior quer vê-los, então vou levá-los até ele!
Os dois amigos se encararam por um instante, em uma conversa muda e mesmo desconfiados, eles começaram a seguir o Wilson que caminhava relaxadamente, era quase como se estivesse dançando uma música que apenas seus ouvidos eram capazes de escutar. O trajeto até o carro de Wade não durou um minuto inteiro. Os queixos dos jovens caíram quando viram o estado do automóvel do outro, pois o mesmo parecia que iria desmontar a qualquer momento de tão velho e sucateado que estava.
Wilson entrou no carro pela janela e fez um sinal com a cabeça, indicando que Steve e Bucky deveriam fazer o mesmo, contudo no banco de trás. Eles fizeram o que foi pedido, mas com medo de pegar tétano devido à quantidade de ferrugem que havia no carro. O trajeto até o hospital foi feito sobre a verborragia desenfreada do detetive particular, os dois amigos apenas trocavam olhares assustados pela maneira como o mais velho dirigia e confusos porque parecia não perceber o quanto estava assustando eles. Apesar de tudo, ambos achavam Wade uma figura um tanto quanto peculiar.
Ao chegarem ao seu destino, os jovens saíram praticamente correndo e um tanto aliviados por chegarem inteiros, já que o detetive particular não respeitou nenhuma das sinalizações de trânsito, além de ter dirigido muito acima do permitido, os dois não duvidavam que ele tinha conseguido muitas multas.
Como estacionaram nos fundos do hospital, eles entraram sem serem perturbados pelos repórteres, que cercavam a entrada principal como abutres. Depois de alguns minutos caminhando pelos corredores brancos, os três chegaram à emergência, onde Bucky acabou sendo internado depois de desmaiar por exaustão e perda de sangue devido a um pequeno corte em sua barriga, além disso, ele também teve alguns ossos quebrados nas mãos.
[...]
O dia estava clareando quando Steve se jogou em uma cadeira, ao lado da cama onde seu melhor amigo estava deitado inconsciente. Sua cabeça estava latejando, seu corpo estava cobrando o preço do estresse das últimas horas. Rogers perguntou ao universo o que mais faltava acontecer naquela semana. Um ataque alienígena?
Ele pegou o celular para ver as horas, mas, além disso, ele também encontrou várias ligações perdidas e mensagens de texto irritadas de Natasha. Steve suspirou audivelmente sabendo que teria que enfrentar a ruiva ranzinza. Mesmo estando cedo e correndo o risco de não ser atendido, o loiro resolveu ligar para ela e tranquilizá-la.
— “Que inferno Rogers, por que você e o idiota do Barnes não atendem a merda do celular?” – a Romanoff praticamente gritou ao atender depois do segundo toque.
— Me desculpe Nat, mas aconteceu muita coisa essa noite. Esqueci o meu celular em casa e o do Bucky estava programado para apenas vibrar, por isso não notei que tinha alguém me ligando – ele respondeu imaginando que ela também não deveria ter dormido um segundo.
— “O que aconteceu? O Bucky está bem? É o Jackson? Ele apareceu? Aconteceu alguma coisa com o Tony? Desembucha criatura”— a agonia era notável na voz de Natasha.
— Sim, o Jackson apareceu na cafeteria para atrás do Bucky...
— “Mas o que?” – o grito dela gritou fazendo com que Steve afastasse o celular do ouvido. — “Como aquele idiota arrogante teve a coragem de ir atrás do MEU Bucky? Ah, mas eu vou acabar com aquele mauricinho dos infernos e vou fazer isso muito lentamente, vou fazer aquele imbecil se arrepender de ter nascido. Ele provocou o Bucky, não foi? Como ele reagiu a isso? Fala logo idiota, não me deixa nessa tensão”— ela falou em frenesi.
Rogers conseguia imaginá-la em seu quarto andando de uma lado para o outro, como uma leoa pronta para atacar o primeiro que for estupido o suficiente para cruzar com o seu caminho.
— Eu não estava na hora, cheguei muito depois, mas... – ele mordeu o lábio inferior, pois não sabia como contar a sua amiga, que o seu namorado se envolveu em uma briga e neste momento se encontrava dopado na cama de um hospital.
— “Fala logo idiota, para com esse suspense”— Natasha falou usando o tom de ordem. Ela soou muito parecida com os instrutores do colégio militar que frequentou, isso o fez estremecer visivelmente.
— O Jackson não foi sozinho para a cafeteria, houve uma briga e o Bucky está no hospital – o silêncio que se instaurou do outro lado da linha foi perturbador, Steve estava começando a ficar preocupado e se questionando se fez a coisa certa contado o que aconteceu. – Natasha?
— “Como ele está?” – ela indagou depois de suspirar audivelmente. Sua voz soou estranha aos ouvidos de Rogers, até parecia que ela tinha se forçado a falar.
— Na medida do possível, está tudo bem. Ele levou alguns pontos e teve alguns ossos quebrados nas mãos, só que poderia ser pior. Jackson, como o covarde que é, não estava sozinho. Mas eles não imaginavam que Bucky fosse um bom lutador e surrou aqueles que se atreveram a encará-lo no mano a mano. Agora ele está dormindo.
— “O senhor Stark já sabe o que aconteceu? Vocês já procuraram a polícia? Aquele animal precisa ser preso”— Natasha indagou com raiva.
— Eu acho que sim! Tinha um detetive particular na hora da briga, ele fotografou tudo o que aconteceu e nos ajudou com a polícia. Eu não entendi direito, mas parece que ele foi mandado pelo senhor Stark, só que não tenho certeza. O cara é meio maluco, então não sei se confio em tudo o que ele falou. Mas o importante é que ele estava atrás da gente, por mais assustador que isso seja, e nos ajudou quando precisamos – ele comentou ouvindo uma movimentação estranha do outro lado da linha.
— “Ok! Daqui a pouco eu estou ai, tchau”— a Romanoff avisou e desligou.
Steve ficou olhando para o seu celular com perplexidade, mas isso era de se esperar de Natasha e seu temperamento tempestuoso. Outro suspiro escapuliu de seus lábios enquanto guardava o celular no bolso, depois ele apoiou a cabeça no encosto da cadeira, suas pálpebras começaram a pesar como uma tonelada, o cansaço e o estresse das últimas horas o fizeram dormir sem perceber.
[...]
Longe do hospital, Natasha andava de um lado para o outro dentro do seu closet, enquanto se vestia para ir ao hospital visitar Bucky e saber se ele estava bem. A ansiedade estava deixando seu estômago embrulhado, e suas mãos suadas e trêmulas, o que transformava a tarefa de se vestir uma ação mais difícil do que seria ser. A Romanoff sentia seus olhos arderem, estava com vontade de chorar de raiva por sua impotência diante de todo mal que foi causado a seus amigos e namorado, mas Natasha segurava as lágrimas bravamente. Eles precisavam que ela fosse forte, então ela seria forte por eles.
Eles já tinham passado por tantas coisas e não mereciam mais traumas.
Antes de sair de casa, Natasha deixou um recado colado na geladeira, onde pedia para a governanta informar a seus pais que ela precisou sair mais cedo, pois seu namorado estava internado. Pegou seu carro na garagem e dirigiu o mais rápido possível, a Romanoff não duvidava que tivesse conseguido algumas multas e perdido alguns pontos na carteira, mas não conseguia ligar para isso, seus pensamentos estavam em Bucky.
A ruiva estacionou bem distante da entrada do hospital, depois colocou o capuz na cabeça para esconder seus cabelos que sempre chamam muita atenção e consequentemente ocultar o seu rosto. Ela entrou se esgueirando pelas paredes tentando não ser vista. Natasha sentia-se uma criminosa por ter que fazer tal coisa, mas queria evitar a imprensa lhe parando e enchendo de perguntas que não podia e não queria responder.
Parando na recepção por um momento para mandar uma mensagem para Steve, questionando sobre o andar e o número do quarto onde Buck estava, a Romanoff notou que suas mãos tremiam e seu peito doía de tão forte que seu coração batia. Respirou fundo por alguns instantes, tentando se acalmar e seguiu pelos corredores brancos do hospital, a ansiedade estava fazendo seu estômago revirar. Ela sentiu seus olhos arderem quando parou na porta do quarto de seu namorado e o viu inconsciente. O seu rosto estava virado para a porta, isso permitiu que Natasha tivesse uma visão clara do olho esquerdo inchado de uma maneira que a fazia duvidar que ele se conseguisse abrir, o direito se encontrava roxo e com um pequeno corte na sobrancelha; o lábio inferior cortado; e havia um curativo na sua bochecha esquerda.
A Romanoff entrou no quarto silenciosamente, já que Steve dormia todo torto em uma cadeira que parecia nada confortável, ao lado da cama de Bucky. Ela acariciou levemente os cabelos do namorado notando que sua mão direita estava engessada e a mão esquerda enfaixada, depois beijou sua testa e um pequeno sorriso se formou nos lábios dele. Isso a fez sorri achando o seu idiota muito fofo.
— Eu te amo, seu maricas e é para sempre – ela declarou sussurrando com os olhos brilhantes devido às lágrimas.
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